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Thiem sobe mais um degrau
Por José Nilton Dalcim
28 de abril de 2019 às 22:24

O austríaco Dominic Thiem costuma dizer que sua carreira tem sido construída degrau por degrau. E tem bons exemplos. Precisou esperar cinco temporadas para ganhar o primeiro ATP, em 2015; teve de jogar 41 vezes, incluindo qualis, para enfim faturar o primeiro Masters. Fez duas semifinais em Roland Garros antes do vice do ano passado. E por aí vai.

Barcelona é mais um caso. Finalista dois anos atrás para Rafael Nadal, deu a volta por cima neste ano e chegou a um grande título. Talvez seja nisso em que ele aposte para Madri, dentro de duas semanas, onde foi à final nos dois últimos anos, e provavelmente também no Aberto da França.

Mas ao mesmo tempo é um tremendo exagero colocar Thiem entre os melhores saibristas do tênis profissional. Para entrar nessa lista, falta muita coisa, principalmente consistência e sucesso. Alguns números para explicar isso:

– Em termos de eficiência (percentual de vitórias e derrotas), Thiem é apenas o 16º colocado na Era Aberta, com 74,7% de aproveitamento. Até Jimmy Connors tem índice melhor. Nadal está com 91,7% e Borg chegou a 86,4%.

– Agora com nove troféus no piso, é o 35º mais bem sucedido. Entre os em atividade, está distante de Djokovic (13) e atrás de Robredo (11). O líder disparado é Nadal (57).

– Ao atingir 121 vitórias na terra em nível ATP ou superior, Thiem subiu para 138º na Era Profissional, muito atrás de Guga (179, em 59º). Nem mesmo Nadal, com 421, lidera. Estão a sua frente Vilas (679), Orantes (530) e Muster (426).

Discípulo de Muster
Ainda assim, é preciso colocar o discípulo de Thomas Muster – o maior tenista austríaco, canhoto que também batia backhand de uma mão, abusava da potência dos golpes de base e fez história no saibro – entre aqueles que podem dominar o piso já nesta temporada. E com grande chance de ser soberano nas próximas.

Só para lembrar aos mais novos, Muster ganhou 44 títulos na carreira, apenas quatro deles fora do saibro, uma lista que incluiu oito Masters e um Roland Garros. Liderou o ranking por seis semanas em 1996.

A conquista de Barcelona em cima de Daniil Medvedev não causou surpresa, exceto pelo início tenso e irregular. Assim que calibrou o backhand, atropelou o russo vencendo 12 dos 13 últimos games com um arsenal maravilhoso, que foi desde a força bruta até o toque delicado, um padrão sobre o saibro que Guga resgatou duas décadas atrás.

Madri começa dentro de oito dias e gera enorme expectativa, ainda que seja um torneio atípico devido à altitude e eventual teto coberto. O interessante é que irá colocar em duelo direto os bichos papões Nadal e Djokovic e os ousados Thiem, Medvedev e Fabio Fognini. Sem falar, é claro, de Roger Federer, do imprevisível Kei Nishikori e de alguns ‘Next Gen’ potencialmente perigosos. E é bom sempre tomar cuidado com Stan Wawrinka.

O fim de semana
– O tênis italiano continua em alta no saibro. Matteo Berretini, 23 anos e 1,96m, dono de saque poderoso, se juntou a Fognini e Marco Cecchinato entre os campeões de 2019 ao faturar Budapeste.
– Petra Kvitova estreitou drasticamente sua distância para o tão sonhado número 1. O merecido título em Stuttgart, regado a um Porsche Carrera, a deixa 136 pontos atrás de Naomi Osaka. Mas não vai ser fácil. Enquanto a canhota tcheca defende o título na Caixa Mágica, Osaka ganhou apenas uma rodada entre Madri e Roma do ano passado, e então leva significativa vantagem.
– Thiago Monteiro passou o quali de Munique com duas belas vitórias sobre Albert Ramos e Andrey Rublev e vai jogar o quinto ATP da temporada. Estreia duríssima contra Jan-Lennard Struff, aquele que tirou Goffin e Tsitsipas de Barcelona e endureceu contra Nadal.
– Fognini pode enfim chegar ao top 10 com o título no Estoril, mas precisa que Tsitsipas caia até a semifinal. Isso daria o aguardado posto ao campeão de Monte Carlo por meros 15 pontos.

O saibro pronto para fazer história
Por José Nilton Dalcim
4 de abril de 2019 às 22:12

A temporada masculina sobre o saibro começa oficialmente na próxima segunda-feira, com Houston e Marrakech. Mas todo mundo está de olho mesmo é no que acontecerá a partir do dia 14, quando Monte Carlo já colocará na quadra Rafa Nadal e Novak Djokovic, os dois maiores favoritos a erguer os troféus de peso e a mudar a história. Quase um coadjuvante, Roger Federer só deverá aparecer bem mais tarde em Madri, porém ele também pode anotar façanhas.

Vamos a um resumo do que nos espera no saibro europeu:

Ranking
Não há qualquer chance matemática de Djokovic perder o número 1 até o fim de Wimbledon. Assim, ele somará obrigatoriamente mais 14 semanas como líder e seu total será no mínimo de 259. Estará assim a apenas nove do quarto lugar de Connors (268) e grudará também em Lendl (270).
– Dentro de duas segundas-feiras, Nadal irá comemorar 500 semanas como top 2 do ranking, algo que só Federer obteve (528).
– A menos que encare uma temporada desastrosa no saibro, Nadal deverá ultrapassar Federer na sequência de semanas como top 10 (está com 728 diante de 734 do suíço, mas distante das 788 de Connors).

Grand Slam
Roland Garros será uma chance especial para Rafa e Nole se aproximarem do recorde de Federer. O espanhol é o favorito natural ao 18º troféu, mas poderá ver o sérvio grudar de vez no seu calcançar se ele atingir o 16º.
– Djokovic tentará pela segunda vez o ‘Petit Slam’ (ganhar os quatro na sequência mas em temporadas sucessivas), repetindo 2015-2016
– Nenhum homem jamais fez 12 finais num mesmo Slam (Nadal e Federer têm 11)
– Djoko pode igualar as 25 finais de Nadal (Federer tem 30) e o espanhol busca atingir as 31 semis de Connors (suíço lidera com 43 e Novak soma 34).
– Federer pode ser primeiro na história com 400 jogos feitos em Slam (está com 397)
– Invicto a 21 jogos, sérvio tenta aumentar série para 28 e abrir chance de superar seu próprio recorde de 30
– Na Era Profissional, não houve um tenista que tenha vencido ao menos duas vezes cada Slam. A chance em Paris fica para Djokovic e Federer.

Masters
– Nadal e Djokovic retomam a briga particular pela liderança em troféus de nível Masters. Espanhol tem 33, um a mais.
– Federer foi o primeiro a chegar a 50 finais, mas Nadal (com 49) e Djokovic (com 47) podem repeti-lo.
– Rafa tem grande chance de superar Federer em total de vitórias. Suíço está com 374, oito a mais.
– Espanhol é único a ganhar 10 troféus no saibro (já acumula 24). Djokovic está com oito.

Façanhas
– Nadal irá atrás do 12º título em Monte Carlo, Barcelona e especialmente Roland Garros. Tenta ainda o 9º em Roma. Em toda a Era Profissional, apenas Federer foi outro tenista a ganhar nove vezes um torneio (Halle e Basileia).
– Faltam apenas 2 vitórias para Federer chegar a 1.200 na carreira (Connors totalizou 1.256)
– Djokovic precisa vencer dois top 10 para atingir 200 vitórias na carreira (Federer lidera com 218)
– Embora distante dos recordistas no piso, Djokovic está a 2 triunfos do seu 200º sobre o saibro

Aberta a temporada de caça ao ‘goat’
Por José Nilton Dalcim
29 de janeiro de 2019 às 23:48

Bastaram sete meses de espetacular reação na carreira, período em que ganhou três Grand Slam consecutivos e recuperou a liderança do ranking saindo de trás do top 20, para Novak Djokovic reacender a discussão sobre a chance real de terminar sua carreira como o maior tenista de todos os tempos, distinção que maciça parte do tênis dá hoje ao ainda ativo Roger Federer.

Djoko reescreveu capítulos importantes a partir de 2015, um momento mágico que lhe deu três Slam, seis Masters e o Finals numa só temporada e que, em junho de2016, o transformaria no único tenista a deter todos os troféus de Slam em três pisos distintos. Nole no entanto viveu crise existencial e encarou sério problema no cotovelo, fatores que descontinuaram a grande fase. Pior ainda, viu Federer e Rafael Nadal recuperarem brilho e poder de conquista.

Quando desencantou em Wimbledon do ano passado, Djokovic voltou a fazer história. Cincinnati completou sua incrível quadro de conquistas nos Masters, veio o US Open e faltou muito pouco para igualar Federer em títulos de Finals. Mas o número 1 era seu outra vez. Há dois dias, atingiu outra façanha inédita e, pela terceira vez em oito anos, triunfa em três Slam consecutivos.

Como resultado, encurtou a distância para Federer e Nadal, disparou no ranking, abriu a perspectiva de outra vez dominar os quatro Slam e, se o fizer, alcançar outro feito maiúsculo, já que nenhum profissional até hoje ganhou ao menos dois troféus em cada um dos Slam.

Afinal, qual é a distância que ainda separa Djokovic de Federer e de Nadal na argumentação sobre o tal G.O.A.T. (sigla em inglês para Greatest of All Time)? Resolvi dividir em tópicos, oferecendo números, fatos e perspectivas. E claro, discussões.

1. Grand Slam
Djokovic já superou Nadal em quase todos os principais quesitos dos Grand Slam, mas obviamente a quantidade de títulos é o que ainda mais pesa e favorece o canhoto espanhol. O quadro após o Australian Open mostra:

Títulos – Federer 20, Nadal 17, Djokovic 15
Finais – Federer 30, Nadal 25, Djokovic 24
Semis – Federer 43, Djokovic 34, Connors 31, Nadal 30
Quartas – Federer 53, Djokovic 43, Connors 41, Nadal 37
Jogos – Federer 397, Djokovic 306, Nadal 290
Vitórias – Federer 342, Djokovic 265, Nadal 253
% de Vitórias – Borg 89,8%, Nadal 87,2%, Djokovic 86,6%, Federer 86,1%
% de sucesso em finais (acima de 10): Sampras 77,8% (14-4), Borg 68,8% (11-5), Nadal 68% (17-8), Federer 66,7% (20-10). Djokovic é 7º, com 62,5% (15-9).

Se o sérvio conseguiu a incrível façanha de vencer quatro Slam seguidos entre 2015 e 2016 (dois em cada temporada) e obtém agora sua terceira série de três consecutivos (2011-2012 foi a primeira), Federer disputou todas as quatro finais de 2006 e 2007, vencendo três delas em cada ano, tal qual o sérvio fez em 2015. O suíço ainda ganhou três títulos em 2004 e fez novamente todas as finais com dois vices em 2009. O espanhol por sua vez teve seu maior domínio em 2010, com três conquistas.

2. Ranking
É o segundo dos grandes critérios e ainda vê uma larga vantagem de Federer. Além da sequência provavelmente imbatível nas próximas décadas de 237 semanas como líder, seu total de 310 ainda obriga Djokovic a permanecer mais 74 semanas nessa posição. São quase 18 meses e, mesmo que forem descontinuados, é uma tarefa exigente para quem se aproxima dos 32 anos.

No momento, parece muito difícil que o sérvio perca o posto pelo menos até Wimbledon. Acredito particularmente que ele irá bem mais longe sem ameaças, provavelmente até o US Open. Mas claro que toda campanha ultrapositiva gera defesa muito grande de pontos na temporada seguinte.

Nadal parece completamente fora dessa briga. Somou relevantes 196 semanas como líder, porém está 40 atrás de Djokovic e com pouca  esperança de tentar uma briga direta a médio prazo. Se for muito bem outra vez no saibro europeu, ainda precisará repetir ao menos a semi em Wimbledon e no US Open e também o título do Canadá para então ter um período fértil para acumular pontos. É um desafio e tanto.

Federer está completamente fora da luta pela liderança em 2019? Seu calendário está enxuto, mas ele tem chance de somar muito nos três próximos Slam (fez apenas 540 pontos no ano passado).

Outro quesito valioso quando se pondera sobre ranking são as temporadas encerradas como nº 1. Federer e Djokovic tem 5 e Nadal, 4. Em todos os demais itens sobre quantidade de semanas (top 2, top 3, top 5 ou top 10), suíço lidera com folga sobre os dois.

3. Finals e Masters
Eventos que geralmente são relegados a segundo plano, mas de forma injusta. O Finals é um torneio de qualidade única, já que o campeão terá de vencer quatro ou cinco top 10 numa semana.

Federer também leva vantagem aqui (6 títulos, 10 finais, 57 vitórias e 16 classificações) e Djokovic o persegue (5 títulos, 7 finais, 35 vitórias e 11 participações). Sempre disputado no piso sintético – desde 2009, coberto -, Nadal sempre alegou prejuízo e daí aparece com números mais discretos, com dois vices.

O espanhol no entanto reage nos Masters 1000, que são torneios de nível mais elevado que os próprios Slam, já que reúnem basicamente tops 50. Rei do saibro, Rafa tem 33 títulos e 49 finais, à frente de Djokovic (32 e 47) e de Federer (27 e 48).

Curioso notar que Federer ainda lidera em vitórias (364 contra 362 de Nadal e 332 de Djoko). Nunca existiram Masters sobre grama e o carpete foi abolido em 2000.

4. Olimpíadas
Muitos gostam de colocar os Jogos Olímpicos na balança da discussão, ainda que seja uma competição muito peculiar, principalmente porque o critério de entrada não segue normas tradicionais e por vezes inclui tenistas de qualidade bem duvidosa.

Nadal tem é claro vantagem também neste item, com sua medalha de ouro individual de 2008, algo que Federer só obteve em dupla e Djokovic ficou só no bronze. Daí a boa expectativa para Tóquio.

Desafio do Blog
O internauta WIlson Rocha, que postou seu palpite como José da Silva, ganhou o Desafio do Australian Open de forma notável: acertou o placar de 6/3, 6/2 e 6/3 em cheio e ainda errou a duração do jogo (2h04) por apenas dois minutos. Assim, leva o prêmio oferecido pela Sportsbook: o excelente livro ‘Jogue para Vencer’, versão atualizada do clássico ‘Winning Ugly’ de Brad Gilbert. Parabéns!