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Paris, toujours Paris
Por José Nilton Dalcim
4 de novembro de 2020 às 20:07

Rafael Nadal começou nervoso, como não poderia deixar de ser. Seu reencontro com a quadra dura, onde pisou pela última vez em março, ainda era diante de um amigo e parceiro de duplas e treinos, o experiente e talentoso Feliciano López. Perdeu o primeiro set, precisou do tiebreak no segundo e por fim jogou mais solto para atingir mais uma façanha, a 1.000ª vitória.

Nadal entra para o restritíssimo clube que tem Jimmy Connors (1.274), Roger Federer (1.242) e Ivan Lendl (1.068) com quatro dígitos de vitórias. Entre todos, o espanhol é quem possui melhor aproveitamento: 83,2% de sucesso, contra 82,1% do suíço, 81,8% de Connors e 81,5% de Lendl. Isso porque Rafa soma 201 derrotas até agora.

O indiscutível ‘rei do saibro’ tem 91,8% de vitórias na terra (445 vitórias e 40 derrotas), mas em números absolutos ele ganhou mais no piso duro (482). No rol de seus triunfos, destaquem-se os 282 em Grand Slam – apenas 39 derrotas -, os 387 em nível Masters, os 100 em Roland Garros e os 21 em cima de um líder do ranking, recorde que aumentou na recente final contra Novak Djokovic.

A caminhada de Rafa para chegar à milésima vitória começou ainda aos 15 anos, quando derrotou o paraguaio Ramon Delgado, então 81º do mundo, no ATP disputado em Mallorca, uma época em que ainda competia no nível future. Logo depois, abandonou os estudos para se dedicar integralmente ao tênis.

Na temporada seguinte, ganhou seu primeiro challenger, furou o quali e venceu duas rodadas nos Masters de Monte Carlo e de Hamburgo, o que lhe deu ranking para entrar diretamente em Wimbledon e surpreender o super-sacador Mario Ancic logo na estreia. Era sua primeira vitória em Grand Slam, ironicamente sobre a grama.

Em pelo menos nove temporadas de sua carreira, Nadal venceu no mínimo 60 jogos. Seu recorde pessoal veio em 2008, com 82. Não menos incrível é sua marca de 95,2% de sucesso após vencer o primeiro set – ou seja, levou apenas 45 viradas.

Quatro jogadores foram batidos mais de 20 vezes pelo canhoto espanhol: Djokovic (27), David Ferrer (26), Federer (24) e Tomas Berdych (20), mas o maior ‘freguês’ talvez seja Richard Gasquet, que perdeu todas as 16 tentativas.

Em mais um ano em que Paris lhe dá tantos feitos históricos, talvez seja enfim a vez de conquistar o Masters de Bercy. Livre do nervosismo de estreia, é favoritíssimo contra Jordan Thompson, pode reencontrar Pablo Carreño e fazer semi diante da nova geração, seja Alexander Zverev ou Andrey Rublev ou quem sabe apareça Stan Wawrinka.

Do outro lado da chave, Diego Schwartzman encara Alejandro Fokina e pode cravar vaga no Finals se bater depois Daniil Medvedev ou Alex de Minaur. Com a queda de Stefanos Tsitsipas na estreia para Ugo Humbert, qualquer coisa pode acontecer num setor que tem ainda Milos Raonic e Marin Cilic.

Outro dia histórico para Nadal
Por José Nilton Dalcim
18 de outubro de 2020 às 23:21

Oito dias depois da inacreditável 13ª conquista em Roland Garros, que permitiu o empate por 20 nos troféus de Grand Slam, o espanhol Rafael Nadal terá mais um momento histórico a comemorar nesta segunda-feira.

Ele vai igualar uma marca de Jimmy Connors que perdurava por 32 anos e parecia muito difícil de ser alcançada. Ao se manter continuamente no top 10 desde a ascensão em 2005, Rafa totaliza 788 semanas consecutivas nessa faixa tão prestigiada do tênis, o mesmo que o norte-americano atingiu entre 1973 e 1988.

E obviamente Nadal irá  abrir boa margem, já que ocupa o segundo posto no momento com grande vantagem sobre o atual número 11. Enquanto o espanhol soma 9.850 pontos devido ao congelamento dos resultados de 2019, Gael Monfils tem 2.860. Ou seja, somente uma fase muito ruim interromperia a sequência de Rafa, e ainda assim após Wimbledon.

O terceiro colocado nessa lista é Roger Federer, com 734 semanas seguidas no top 10, entre 2002 e 2016. Muito atrás aparecem Ivan Lendl, com suas 619, e Pete Sampras, com 565.

No total de semanas no top 10, Nadal ainda precisará de mais 29 para atingir 817 e alcançar o segundo lugar de Connors. O recorde de Federer ainda é difícil de ser igualado: 917 e contando.

Maior no top 4
E não é só. Nadal igualará nesta segunda-feira outra marca de Connors e atingirá as mesmas 669 semanas no top 4 do ranking. Os dois estarão também atrás das 803 de Federer, que ainda se mantém apesar da longa parada.

No ano passado, o canhoto espanhol assumiu a que era até então a única categoria que liderava entre as grandes façanhas do ranking: ele superou Federer no total de semanas no top 2. Hoje, ele já tem 557 contra 528 do suíço e ainda vê Novak Djokovic bem distante, com 435.

Vale por fim considerar que Rafa mira, e com grande chance, desempatar de Federer em número de temporadas encerradas entre os dois primeiros lugares. Ambos totalizam 11, mas Nadal concorre para permanecer na vice-liderança em 2020. A única ameaça é Dominic Thiem, que aparece 725 pontos atrás.

A briga pelo Finals
Sem o chamado ‘ranking da temporada’, a ATP decidiu que os oito mais bem colocados do ranking tradicional terão direito a competir no Finals de Londres, que prossegue marcado para a segunda quinzena de novembro, na despedida da arena O2.

Como Federer abriu mão da vaga, na verdade a lista se estenderá até o nono colocado. Seis no entanto já estão garantidos: Djokovic, Nadal, Thiem, Stefanos Tsitsipas, Daniil Medvedev e Alexander Zverev, que aliás repetirão a presença de 2019.

Restam portanto dois, e o russo Andrey Rublev deu um importante passo para isso neste domingo, ao faturar seu quarto título da temporada, o segundo de nível 500 em 30 dias. Isso o levou para o oitavo lugar e abriu 354 pontos de vantagem sobre Matteo Berrettini, o 10º do momento. Entre eles, está Diego Schwartzman, apenas 105 à frente do italiano. Portanto, o russo e o argentino podem debutar no Finals e serem as novidades.

Não se pode tirar da briga Gael Monfils, Denis Shapovalov ou Roberto Bautista. E é claro que campanhas espetaculares em Antuérpia, Viena e Paris poderiam ascender David Goffin, Pablo Carreño ou Fabio Fognini.

Aliás, das três finais do fim de semana, duas foram dominadas pelos novatos. O mais velho era justamente Zverev, 23 anos, campeão em Colônia em cima de Felix Aliassime, de 20, que amargou o sexto vice. Rublev fará 23 na terça-feira, mesma idade do finalista Borna Coric. Um bom cenário.

Os 10 jogos inesquecíveis de Wimbledon
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2020 às 17:03

O coronavírus impediu que o mais tradicional e importante torneio de tênis do calendário fosse à quadra. Wimbledon teria começado na segunda-feira a 134ª edição de sua história e a 53ª da Era Profissional.

Como homenagem, listei os 10 jogos inesquecíveis da fase aberta, mas não resisti e inclui mais cinco que tiveram importância inquestionável.

Vamos lá:

1. Rafael Nadal v. Roger Federer, 6/4 6/4 6/7(5) 6/7(8) 9/7 – final de 2008
Cinco vezes campeão e pronto para superar a marca de Bjorn Borg, Federer havia vencido Nadal nas finais dos dois anos anteriores. O duelo foi excepcional em qualidade e drama, com direito a duas paradas por chuva, dois match-points perdidos por Nadal no tiebreak do quarto set e disputado quase sem luz algum no game final, às 21h16 locais, após 4h48 de esforço. Merecidamente, ganhou um livro.

2. Bjorn Borg v. John McEnroe, 1/6 7/5 6/3 6/7(16) 8/6 – final de 1980
Jogo que virou filme, colocou em quadra o contraste de estilo e personalidade. O quarto set protagonizou o tiebreak talvez mais icônico da história, com um 18-16 de 22 minutos. Borg, que já havia perdido dois match-points com saque, teve mais cinco chances ao longo do desempate, evitando seis set-points. Por fim, ergueu o quinto troféu consecutivo e virou lenda.

3. Novak Djokovic v. Roger Federer, 7/6(5) 1/6 7/6(4) 4/6 13/12(3) – final de 2019
Mais longa final do torneio, com 4h57, e primeira a usar o tiebreak no 25º game do set final. Os dois faziam a terceira decisão entre si no Club e Federer teve duas chances de ganhar o nono troféu e o 21º Slam quando sacou com 40-15 no 8/7 do quinto set. Djokovic teve reação espetacular e se tornou o primeiro desde 1948 a ganhar Wimbledon com match-points defendidos.

4. Roger Federer v. Andy Roddick, 5/7 7/6(6) 7/6(5) 3/6 16/14 – final de 2009
Jogo cheio de história, foi então a mais longa final de Slam em games (77) e o mais extenso quinto set em games (30). Durou 4h17 e viu Roddick perdeu um único game de serviço, exatamente o último. Na terceira final entre ambos, Federer chegava ao sexto Wimbledon e batia o recorde com o 15º Slam, sendo assistido na arquibancada por Sampras, Borg e Laver. Roddick teve quatro set-points para abrir 2 sets a 0 e mais tarde desperdiçou 15-40 no 8/8.

5. Andre Agassi v. Goran Ivanisevic, 6/7(8) 6/4 6/4 1/6 6/4 – final de 1992
Inesperadamente, Agassi foi ganhar seu primeiro Slam em Wimbledon, torneio que chegou a evitar por três anos seguidos devido à dificuldade que tinha com o piso. Desta vez, no entanto, chegou à final com vitórias sobre Becker e McEnroe. O canhoto croata também era um estreante em decisões de Slam, tendo vencido Lendl, Edberg e Sampras. Exímio sacador, fez 39 aces na final mas não foi o bastante diante da devolução segura de Agassi.

6. Arthur Ashe v. Jimmy Connors, 6/1 6/1 5/7 6/4 – final de 1975
O clima não era nada amistoso. Duas semanas antes, Connors abrira processo de US$ 5 milhões contra Ashe por críticas a sua ausência na Copa Davis. Rebelde de 22 anos, dez a menos que Ashe, entrou em quadra com o uniforme da Davis como provocação. Era favorito absoluto: atual campeão, não perdeu set até a final e havia vencido Ashe nos três jogos anteriores, todos também finais. Ashe no entanto inovou, abusou de efeitos e curtinhas para se transformar no primeiro homem negro a ganhar Wimbledon.

7. Jimmy Connors v. John McEnroe, 3/6 6/3 6/7(2) 7/6(5) 6/4 – final de 1982
Foi uma edição com muita chuva e acúmulo de jogo nas rodadas decisivas. Connors e McEnroe, que haviam diminuído a rivalidade entre si, eram os dois principais cabeças de chave. Mac era o atual campeão, mas Jimbo vinha do título em Queen’s justamente em cima deles. Em duelo de 4h14, então o mais longo da história do torneio, recuperou o título conquistado oito anos antes e recuperou-se da frustração das derrotas nas finais de 1975, 77 e 78. Fato curioso, cada tenista marcou 173 pontos no jogo.

8. Roger Federer v. Pete Sampras, 7/6(7) 5/7 6/4 6/7(2) 7/5 – oitavas de 2001
Foi o único duelo entre os dois, considerados os maiores campeões sobre a grama da Era Profissional. Suíço tinha então 19 anos e ainda era uma promessa. Enfrentou o dono de sete Wimbledon e 13 Slam, que sonhava com o quinto consecutivo para igualar Borg. A partida foi equilibradíssima do primeiro ao último game, com os dois praticando genuíno saque-voleio, e Federer surpreendeu também pela frieza nos pontos decisivos.

9. Goran Ivanisevic v. Patrick Rafter, 6/3 3/6 6/3 2/6 9/7 – final de 2001
O mau tempo mudou a decisão masculina para a segunda-feira e aí tudo foi diferente em Wimbledon. Cerca de 10 mil ingressos foram vendidos na hora, formando-se filas quilométricas, e o público levou bandeiras à arquibancada. Ivanisevic fazia sua quarta final, mas vinha de sucessão de contusões e queda no ranking. Por isso, precisou de convite para entrar na chave. Na semi, venceu o herói da casa Henman também em cinco sets e não se abalou ao perder três match-points no quinto set.

10. John Isner v. Nicolas Mahut, 6/4 3/6 6/7(7) 7/6(3) 70/68 – 1ª rodada de 2010
Tecnicamente, não empolgou. Porém, os recordes ficarão eternos: 11h05 de duração, 138 games num quinto set de 8 horas, 215 aces e 980 pontos disputados. Apenas três serviços foram quebrados. O jogo levou três dias para se completar, com adiamento de 59/59 no segundo dia.

Menções necessárias:

Pete Sampras v. Patrick Rafter, 6/7(10) 7/6(5) 6/4 6/2, na final de 2000. Mesmo com dor nas costas e tendinite no tornozelo direito, Sampras chegou ao histórico sétimo troféu e ao 13º Slam. Rafter liderou tiebreak do segundo set por 4-1.

Roger Federer v. Marin Cilic, 6/3 6/1 6/4, na final de 2017. Sem perder set, Federer isolou-se de Sampras e Renshaw ao somar o oitavo troféu em Wimbledon e aumentar para 19 os troféus de Slam

Boris Becker v. Kevin Curren, 6/3 6/7(4) 7/6(3) 6/4, final de 1985. Então 20º do mundo, Becker se tornou o mais jovem campeão de Wimbledon aos 17 anos e 227 dias e primeiro não cabeça de chave.

Andy Murray v. Novak Djokovic, 6/4 7/5 6/4, na final de 2013. Derrotado na final anterior, escocês carregava sonho de dar um título masculino em Wimbledon ao tênis britânico depois de 77 anos. Nas quartas, estava dois sets atrás contra Verdasco e virou.

John McEnroe v. Tom Gullikson, 7/6 7/5 6/3, na 1ª rodada de 1981. O eventual campeão disparou contra o juiz a frase mais icônica do tênis, seu famoso “You cannot be serius”. A fúria lhe rendeu multa de 1.500 dólares. Apesar do título de 1981, Big Mac não recebeu o título honorário do Club – que só seria dado em 1982 – porque se recusou a ir ao jantar dos campeões.