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Experiência contra juventude
Por José Nilton Dalcim
1 de junho de 2022 às 21:01

Quem diria que, aos 33 anos, o croata Marin Cilic iria se tornar a grande surpresa da chave masculina de Roland Garros. Não que lhe falte histórico para isso. Ele foi campeão juvenil em Paris e fez quartas em 2017 e 2018, porém chegou ao torneio com pouca rodagem no saibro europeu e numa temporada sem brilho.

Casper Ruud, dez anos mais jovem, será seu adversário de sexta-feira, um jogador que vem batalhando para deixar de ser apenas um saibrista, mas que talvez por isso tenha patinado em quase toda a fase europeia da terra batida e só parece ter se reencontrado em Roma, onde também fez semi.

Enquanto Cilic iguala o Big 4 entre os tenistas em atividade e agora tem presença em semi de todos os Grand Slam, um feito notável para quem depende tanto do saque, Ruud faz sua maior campanha nesse nível e tem mostrado dificuldade em administrar os nervos, seja contra o veterano Jo-Wilfried Tsonga ou o iniciante Holger Rune.

A atuação do croata em cima de Andrey Rublev, a quem também havia vencido no Australian Open, teve números espetaculares: 88 winners e 71 erros, o que retrata com perfeição o que foi sua opção tática. Forçou o tempo inteiro e abusou do primeiro saque, com 33 aces num percentual de acerto de 66%. Não beirou a perfeição nos golpes de base, como havia feito com Daniil Medvedev, mas note-se a consistência do backhand, outrora um golpe inseguro.

Ruud por sua vez começou muito bem e depois foi envolvido por uma mudança tática esperta do garoto dinamarquês, mais decidido a ir à rede e evitar tantas trocas de bola. O jogo ficou então equilibrado até que Rune mostrou sua inexperiência no tiebreak do terceiro set, sempre reclamando e gesticulando em excesso. Ruud como sempre dependeu demais do forehand, mas teve pernas suficientes para cobrir esse lado muito bem.

Este será o terceiro confronto entre eles. Se de um lado Ruud leva vantagem de ter vencido ambos, um deles no saibro de Roma há dois anos, de outro Cilic tem a larga vivência de quem já ganhou o US Open e decidiu Wimbledon e Austrália. Na minha avaliação, essa experiência tão especial vai pesar muito na sexta-feira.

Faltam dois para Swiatek
Jessica Pegula não jogou mal se considerando o piso de saibro, mas era mesmo muito difícil barrar a embaladíssima Iga Swiatek em condições normais. A polonesa cedeu apenas cinco games, marcou a 33ª vitória e a sexta semifinal consecutivas desde fevereiro, das quais chegou em todos os cinco títulos.

A próxima a tentar a façanha de impedir o bicampeonato da polonesa em Roland Garros é Daria Kasatkina, que venceu o duelo russo de dois sets apertados diante de Veronika Kudermetova. Ela ainda não perdeu set no torneio, mas vai precisar tomar mais a iniciativa se quiser disputar sua primeira final de Slam.

Curiosamente, este será o quarto confronto entre elas somente nesta temporada. Kasatkina ganhou na grama de Eastbourne no ano passado, mas agora perdeu seguidamente em Melbourne, Dubai e Doha por 2 a 0. Swiatek não quer surpresas. Disse ter percebido mudanças na forma com que Kasatkina está jogando em Paris e promete estudar o caminho ideal.

A rodada desta quinta-feira não terá jogos masculinos. Acontece a outra semi feminina, o imperdível duelo de gerações entre Coco Gauff e Martina Trevisan que colocará novo nome em uma final de Slam. A canhota italiana venceu Gauff no único jogo entre elas, lá mesmo em Paris, em 2020.

Dói ou não dói?
Novak Djokovic reconheceu a superioridade de Rafael Nadal, admitiu que o espanhol foi mentalmente mais forte nos pontos importantes, mas não evitou um tom misterioso quando questionado sobre a lesão de Rafa. “Não estou nada surpreso. Não é a primeira vez que ele é capaz de, alguns dias depois de se machucar e mal conseguir andar em quadra, aparecer 100% apto fisicamente. Vocês sabem, ele fez isso muitas vezes em sua carreira, então não estou surpreso”.

Do seu lado, Nadal reforça a ideia de que está sempre sob o risco de ser impedido de jogar. “Não sei o que pode acontecer. Estou neste torneio porque me preparei para jogar aqui, mas não sei o que vai acontecer depois. Sobre o meu pé, estou com meu médico aqui em Paris. Se a gente não conseguir encontrar uma melhora ou uma pequena solução, ficará super difícil pra mim”.

Bagunçou geral
Por José Nilton Dalcim
30 de maio de 2022 às 18:56

Atuações espetaculares do veterano Marin Cilic e do estreante Holger Rune deixaram um clima de completa imprevisibilidade na parte inferior da chave masculina de Roland Garros. O atual vice Stefanos Tsitsipas e o cabeça 2 Daniil Medvedev saíram de cena e abriram espaço também para a força de Andrey Rublev e o tênis todo certinho de Casper Ruud. Um deles decidirá o título no domingo.

Rune, de 19 anos e adversário de Carlos Alcaraz desde os tempos de juvenil, já vinha mostrando grande qualidade, com um jogo de base muito firme e agressivo, mas também com saque apurado e toques geniais, um arsenal que lembra mesmo a sensação espanhola. Seu apuro tático contra Tsitsipas foi notável, forçando backhand e tomando iniciativa, bem como a cabeça fria nos pontos importantes.

Se mantiver tal padrão, tem chances reais contra Ruud, que começou muito mal a fase do saibro mas que vem crescendo desde Roma. Hoje foi muito oportuno diante de Hubert Hurkacz, que não se mexe tão bem no saibro, mas o norueguês depende muito do forehand.

O velho Cilic, por sua vez, deu aula em Medvedev. Desde o começo, entrou decidido a comandar os pontos e a aproveitar o recuo excessivo do cabeça 2. Sua bola andou muito o tempo inteiro, ainda mais diante dos golpes muito curtas do russo nos dois primeiros sets. A distância no placar lhe deu confiança e foi um rolo compressor. Muito bom vê-lo com tamanha desenvoltura outra vez e ainda mais no saibro lento.

Rublev teve alguma sorte. Jogou um péssimo primeiro set vendo um Jannik Sinner muito competente em tudo, mas o italiano foi perdendo mobilidade e acabou por desistir nos primeiros games do terceiro set com dor no joelho. Rublev venceu quatro dos seis duelos contra Cilic, mas acabou de perder na terceira rodada no Australian Open onde o croata também jogou em alto padrão. Como são dois jogadores que optam pelo risco, vai ser uma questão de quem segura melhor a cabeça.

E vai ser à noite
A polêmica foi rapidamente resolvida pela organização e, por questões mercadológicas um tanto óbvias, Novak Djokovic e Rafael Nadal irão mesmo jogar na rodada noturna. Nenhum dos dois gosta de condições lentas, porém neste caso específico o canhoto espanhol sai perdendo mais, já que a umidade e o frio tiram não apenas a velocidade de seu poderoso topspin como ainda faz a bola quicar mais baixo do que aconteceria de dia.

Depois de 59 duelos, 27 deles sobre o saibro, a maioria de enorme importância na carreira de ambos, é difícil imaginar que haverá surpresas táticas. Djokovic saca melhor, tem devolução agressiva e o backhand não sente tanto o spin. Irá causar algumas surpresas com o voleio e as curtinhas, aproveitando a posição mais recuada do adversário.

Nadal sabe tirar a bola da altura da cintura do sérvio, varia muito bem com slice na paralela e possui um forehand que consegue empurrar o adversário para trás. Alternativa interessante a explorar seriam as bolas mais centralizadas, tirando ângulos e o peso, algo que desagrada o sérvio.

A questão passa por fim pelo lado físico e neste momento Nole parece mais inteiro. Isso influencia na parte mental, já que qualquer limitação traz perigosas dúvidas. Ao mesmo tempo, Rafa deve ter maioria absoluta da torcida, o que tende a aumentar conforme o placar. Tem tudo para ser o jogo do ano.

Pequeno susto para Iga
Será que o favoritismo começou a pesar para Iga Swiatek? Pela segunda rodada seguida, a polonesa teve altos e baixos e precisou reunir sua grande força mental para não deixar a adversária animada.

Vencia a jovem chinesa Qinwen Zheng, de 19 anos, com tranquilidade até que começou a errar e acabou perdendo seu segundo set desde fevereiro. Depois, fez valer sua qualidade técnica superior e confirmou vaga pela terceira vez seguida em Paris.

Buscará a segunda semi da temporada contra Jessica Pegula, que está surpreendendo sobre a terra batida desde Madri, e pode atingir a 33ª vitória seguida, que se tornará a terceira maior série deste século.

A outra vaga na semi será russa. Daria Kasatkina continua em grande momento e está atropelando todo mundo. Perdeu apenas 14 games em quatro jogos. Cruzará com Veronika Kudermetova, que anotou grande virada em cima de Madison Keys.

O adeus brasileiro
Faltou muito pouco para Bia Haddad e Bruno Soares estarem na semi de duplas mistas. Concordo com o mineiro, que avaliou terem jogado melhor do que os adversários, Nicole Melichar e Kevin Krawietz. Os dois prometem repetir o dueto em Wimbledon.

Rafael Matos e o parceiro espanhol David Vega chegaram a ter set-point na primeira série antes de cair para Marcelo Arevalo e Jean Rojer. Depois, tiveram pouca sorte nos break-points. De qualquer forma, Matos será muito provavelmente 42º do mundo na próxima lista e manterá a dupla para a fase de grama.

Para que serve o talento
Por José Nilton Dalcim
30 de março de 2022 às 20:47

Carlos Alcaraz e Nick Kyrgios são dois tenistas de excepcional talento, disso ninguém provavelmente duvida. O resultado final de cada um na primeira parte das quartas de final do Masters 1000 de Miami, no entanto, evidencia a gigantesca diferença.

Enquanto um não soube administrar frustrações, perdeu-se em comportamento inadequado e saiu derrotado da quadra, o outro virou uma partida em que estava por baixo, empenhou-se ferozmente atrás de bolas impossíveis e achou soluções. O eliminado tem 26 anos e 10 temporadas de estrada, o vencedor é um adolescente de 18 anos que disputa apenas seu 21º torneio de primeiro nível. Não por acaso, Kyrgios luta para voltar ao top 100 e Alcaraz já pode comemorar o 15º posto do ranking.

Pena que Nick ainda tenha recebido apoio ruidoso da torcida e olhos tapados da ATP, porque esse é exatamente o caminho que o leva a nunca se corrigir. Claro que ele é uma atração, eu próprio tento ver todos seus jogos. Possui tênis vistoso e criativo, que sai do lugar comum do circuito, e a descontração tem um lado muito positivo desde que não caia para o abuso, algo que Gael Monfils e Alexander Bublik, por exemplo, o fazem muito bem.

Kyrgios não tem essa capacidade emocional. Cai rapidamente na vulgaridade dos atos descontrolados e se torna piegas na busca de piedade, como se fosse sempre a vítima de tudo e de todos. Já que andou dando conselhos à amiga Naomi Osaka, poderia muito bem acompanhá-la nas sessões de psicanálise. O tênis agradeceria.

O quadro fica ainda mais triste quando comparado a Alcaraz. O antagonismo de comportamento e desempenho são chocantes. O espanhol deu um show de maturidade, determinação e acima de tudo de competência técnica e tática. Não jogava mal, mas estava sendo pressionado por um Stefano Tsitsipas muito firme e agressivo.

Deu é verdade um tanto de sorte, ao acertar lobs milimétricos em situações de grande aperto, porém lá na frente essa correria defensiva desenfreada rendeu. O grego, me parece, passou a mirar cada vez mais a linha já incomodado com a necessidade de bater sempre uma bola a mais para vencer os pontos. Ao mesmo tempo, perdeu confiança e alguns milésimos de segundo de preparação no backhand, que ficou inseguro e impreciso. Diferente do US Open de meses atrás, quando ganhou no quinto set, desta vez Alcaraz foi claramente superior em todos os campos, incluindo o físico e acima de tudo o emocional. Monstro.

Não posso esperar outra coisa do que vê-lo na semifinal diante de Daniil Medvedev. Se o russo passar pelo atual campeão Hubert Hurkacz, o que não é pouca coisa, será de novo número 1 e imagino o gosto especial que isso vai gerar para o espanhol. No entanto, o próprio Alcaraz precisa conter a euforia porque enfrentará nesta quinta-feira um compacto Miomir Kecmanovic, outro que não se entrega em quadra e possui diferentes recursos.

No tênis, jogar como favorito sempre se torna um pouco mais difícil e será uma interessante oportunidade para avaliarmos a reação do espanhol em diferente tipo de pressão.

Iga confirma, masculino com semi inesperada
A quarta-feira começou estranha e um tanto desestimulante, com abandonos logo no quinto tanto tanto de Jannik Sinner como de Paula Badosa. O italiano, que vinha de notável exibição diante de Kyrgios, onde mostrou aquela frieza e eficiência que o havia feito salvar oito match-points nas rodadas anteriores, não superou uma bolha no pé e deu vaga na semi para o argentino Francisco Cerundolo. Ele deu sorte, é fato, mas vinha de duas atuações memoráveis diante de Gael Monfils e Frances Tiafoe.

O atual 103º baseia seu jogo na regularidade e assim fará uma semi inesperada porém curiosa diante do norueguês Casper Ruud, outro tenista sem golpes espetaculares mas muito sólido. Foi assim que ele tirou o futuro número 3 Alexander Zverev. O alemão jogou abaixo do seu potencial quase o tempo todo, mas não é realmente surpreendente que sinta dificuldade no piso noturno tão lento de Miami.

Badosa por sua vez voltou a se sentir mal, como havia acontecido na véspera, e não ficou muito em quadra diante de Jessica Pegula. A dura missão da norte-americana agora é segurar a embaladíssima Iga Swiatek, que voltou a ter atuação segura tanto no saque como na base e não deu chance à canhota Petra Kvitova. A polonesa tenta assim a quarta final seguida em nível 1000, justificando plenamente sua ascensão ao número 1.