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Bruno dá volta por cima, Osaka e Vika decidem
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2020 às 09:53

Três anos depois, o tênis profissional brasileiro voltou a erguer um troféu de Grand Slam. Em sua quinta final no US Open, Bruno Soares ganhou pela segunda vez a dupla masculina e agora é dono de seis triunfos desse quilate, que se juntam a duas mistas em Flushing Meadows e ao grande feito do Australian Open, em que venceu duplas e mistas na mesma edição.

É uma volta por cima, e das grandes, e das merecidas. Bruno foi abandonado pelo parceiro Jamie Murray na metade do calendário de 2019 e achou outro canhoto para tentar recompor um dueto de qualidade. Ao contrário do que havia acontecido com Murray, a simbiose foi muito mais lenta. Houve resultados bem negativos, como a segunda rodada de Wimbledon e do US Open. Por fim veio o título salvador de Xangai, depois o vice em Estocolmo, mas ainda assim não passaram das oitavas no Australian Open de janeiro.

Por essas ironias do destino, Bruno revelou ter contraído o coronavírus pouco antes de embarcar para os torneios combinados de Flushing Meadows. Jogou Cincinnati sem treinar e um tanto enfraquecido. Não conseguiram entrar de cabeça de chave no US Open, estiveram um set e uma quebra atrás na estreia, viram os adversários sacar para o jogo na rodada seguinte. Viradas que geraram confiança. Não perderam mais sets, mesmo diante de adversários bem estabelecidos, um deles o próprio Murray. Sabor de vingança?

Depois de cinco temporada seguidas ganhando títulos de Grand Slam em variadas categorias, o tênis brasileiro viveu um curto jejum em 2019. Nesse período, os duplistas mineiros tiveram papel fundamental. Bruno ganhou mistas no US Open de 2014, Marcelo Melo faturou Roland Garros em 2015, Soares foi campeão da Austrália e do US Open em 2016, Melo fez campanha histórica em Wimbledon de 2017. Houve sucesso também da garotada em 2014 (Luz/Zormann em Wimbledon), 2016 (Meligeni nos EUA) e 2018 (Wild no US Open).

Apesar de tanto sucesso, ainda não se dá tanto valor às duplas por aqui. Provavelmente o motivo é não termos uma parceria efetivamente nacional e assim estamos sempre dividindo conquistas com os estrangeiros. O que obviamente não diminui o mérito. Vale lembrar que Melo foi número 1 do mundo e Soares chegou ao 2 numa modalidade extremamente competitiva.

Vika faz virada espetacular, Osaka confirma
Enfim, Victoria Azarenka conseguiu ganhar de Serena Williams num Grand Slam. Dominada amplamente no primeiro set, Victoria Azarenka dava a impressão que perderia pela 11ª vez de uma agressiva Serena Williams, mas a bielorrussa mudou a postura já na abertura do segundo set, arriscou a devolução, entrou mais em quadra e derrubou pouco a pouco a confiança da hexacampeã.

Mesmo com tamanha agressividade, desferindo incríveis paralelas que deixaram várias vezes Serena plantada, cometeu apenas um erro ao longo de um acirrado segundo set e seis no decisivo, quando obteve uma quebra precoce e sustentou a vantagem com garra e cabeça fria. Uma reação de gala.

Isso coloca Vika em sua primeira final de Slam desde o vice do US Open de 2013. Foi aliás em janeiro desse mesmo ano em que conquistou o bi no Australian Open, seus únicos troféus desse quilate. Uma retomada notável para quem ganhou apenas três jogos de Slam em 2019. Às 17 horas de sábado, tentará se tornar a quarta mãe a vencer um Slam na Era Profissional.

Sua adversária é tão ou mais perigosa do que Serena, já que Naomi Osaka concorre ao segundo troféu em Nova York em três temporadas e igualmente ao terceiro de Slam. Tem a vantagem óbvia de ser nove anos mais jovem e tal qual Azarenka é uma jogadora que ataca o tempo inteiro e com margem mínima de erros.

O duelo desta noite contra Jennifer Brady foi intenso. A norte-americana só se rendeu no tiebreak do primeiro set, obteve uma quebra para esticar a decisão ao terceiro e obrigou Osaka a jogar um tênis de primeiríssima qualidade para enfim dominar as ações de um duelo rico em saques forçados, winners e correria.

Azarenka e Osaka farão a final que não aconteceu em Cincinnati duas semanas atrás, porque a japonesa se contundiu e nem entrou em quadra. Nos jogos válidos, Osaka ganhou duas no saibro (Roma-18 e Roland Garros-19) e perdeu uma no sintético (Austrália-16), mas isso bem antes de dar o grande salto na carreira.

A hora chegou, Zverev
Por José Nilton Dalcim
9 de setembro de 2020 às 02:07

Pelo segundo Grand Slam consecutivo, Alexander Zverev está entre os quatro melhores. Seria já um tremendo resultado para qualquer jogador de 23 anos, mas sempre se cobrou mais do alemão. Afinal, ele coleciona títulos importantes e vitórias de peso desde 2017. Como esquecer uma campanha vitoriosa em que superou sucessivamente Roger Federer e Novak Djokovic em plena quadra dura?

Sascha sempre foi um tenista de saque poderoso e jogo ofensivo, teve excepcionais treinadores, mas nunca evoluiu como se esperava nos seus principais defeitos: o jogo de rede, a movimentação para a frente, a cabeça instável. Tirou um grande peso das costas ao fazer semi no Australian Open depois de uma campanha medíocre na ATP Cup, mas não pôde embalar pela paralisação da temporada.

O US Open portanto pode ser o marco definitivo. Muito mais do que a parte técnica em si – e ele mostrou mais confiança nos voleios e andou chegando em curtinhas sem esforço -, Zverev parece estar sofrendo menos em quadra. Ainda dá seus showzinhos, chora para a juíza de cadeira, gesticula para seu box em desespero. No entanto é fácil perceber que há maior serenidade nas suas feições. A expressão de desespero quase desapareceu. E isso talvez explique o sucesso.

Quando Borna Coric abriu 6/1 e 4/2, o velho Sascha teria provavelmente se perdido, atormentado pelas memórias ruins de três derrotas para o croata, o mesmo que o venceu numa semi juvenil desse US Open antes de ser campeão e o tirou na segunda rodada de 2017. Mas o Zverev de hoje não se rendeu. Procurou alternativas, foi mais consistentes em dois tiebreaks claramente nervosos e concretizou a virada. Sorriu ao sentar no banco.

Chegou a hora. Terá dois dias para achar o melhor caminho para barrar o jogo sólido de base do espanhol Pablo Carreño, a quem derrotou no único duelo, em Miami-2018. Ao menos, David Ferrer, seu auxiliar técnico de luxo, conhece muito bem o adversário. Ao contrário da maioria de seus compatriotas, Carreño tem historicamente melhor rendimento no sintético do que no saibro e mostrou como pode ser competitivo diante de grandes sacadores na maratona de quatro horas desta noite sobre Denis Shapovalov.

Não foi fácil. O espanhol viu um Shapovalov mais paciente na construção dos pontos e muito feliz nos voleios no set inicial, mas conseguiu equilibrar e ganhou dois tiebreaks onde foi bem superior. Mesmo vindo de jogos muito longos, Denis lutou bravamente, jamais deixou de forçar e levou para o quinto set. A determinação ofensiva foi quase sempre do inquieto canadense, que liderou nos winners (76 a 33) e nos erros (76 a 42). É fundamental observar que Carreño ganhou 10 dos 12 sets contra Shapovalov em quatro jogos na quadra dura, um deles nas oitavas do US Open de 2017, campanha que levaria Pablo à então única semi de Slam e ao top 10.

Osaka brilha, Brady sonha
O aproveitamento de primeiro saque foi o único senão na atuação soberba de Naomi Osaka, que a recoloca na semifinal do US Open. A campeã de 2018 ainda assim fez sete aces e colocou a bola para andar com assustadora precisão. Cometeu apenas oito erros, mesmo abusando da profundidade dos golpes. A adversária Shelby Rogers participou ativamente do divertido jogo, forçou o tempo todo e mostrou grande controle no forehand ofensivo, batido sempre na subida.

Na semi de quinta-feira, Osaka terá pela frente outra norte-americana de ranking mediano, mas Jennifer Brady, atual 41ª, já mostrou qualidades para merecer muitos cuidados. Não perdeu sets, cedeu apenas 24 dos 84 games que disputou. E essa trajetória inclui adversárias de diferentes idades e currículos, como Ceci Bellis, Caroline Garcia, Angelique Kerber e Yulia Putintseva.

É outro jogo com promessa de ser bem agradável, com as duas jogadoras buscando os pontos. Brady força da base e é firme na devolução, mas obviamente pode pesar o fato de disputar sua primeira semi desse quilate e ainda mais contra Osaka.

Soares vai em busca do sexto Slam
A quadra dura e especialmente o US Open combinam mesmo com Bruno Soares, O mineiro de 38 anos atinge sua quinta final em Flushing Meadows e a oitava num Grand Slam depois de outra grande partida ao lado do canhoto croata Mate Pavic.

Novamente, o ponto alto da dupla foram as devoluções, que permitiram duas quebras seguidas na reta final da partida diante dos experientes e super entrosados Julian Roger e Horia Tecau. Campeões também de Xangai no ano passado, eles serão favoritos diante da primeira aventura de sucesso do dueto formado por Nikola Mektic, outro croata, e o holandês Wesley Koolhof, jogo marcado para as 16h de quinta-feira.

Foi no US Open de quatro anos atrás onde Bruno ganhou seu último Slam, então ao lado de Jamie Murray, com quem também havia vencido o Australian Open daquela temporada. Ele ainda tem dois troféus de duplas mistas em Nova York e outro em Melbourne. A outra final em Nova York veio em 2013, ao lado de Alexander Peya. Ele tem ainda um vice de mistas em Wimbledon.

Não menos importante, o eventual título colocará Soares e Pavic como segundos colocados no ranking de parcerias de 2020, que vale vaga no Finals de Londres.

E mais
– Del Potro foi o último tenista com menos de 23 anos a vencer um Slam (tinha 20 no US Open-2009).
– Nenhum ‘trintão’ chegou nas quartas de um Slam pela primeira vez desde o AusOpen de 2015 e desde o US Open de 2010.
– Esta é apenas a segunda vez na Era Aberta em que não há um campeão de Slam nas quartas de um torneio, repetindo Wimbledon-2003.
– O campeão de domingo será o primeiro nascido na década de 1990. Isso depois de 63 troféus seguidos de oriundos da década de 1980.

Chocante e indiscutível
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2020 às 18:18

Atualizado com a rodada às 01h23

Um dia, iria acontecer. Quem acompanha a longa carreira de Novak Djokovic já cansou de ver seus destemperos, muitas vezes injustificados, descontando raiva na bola e na raquete. Passou bem perto de ser desclassificado em plena final de um Grand Slam, mas deu sorte porque a raquete passou por centímetros.

Neste domingo, no entanto, os centímetros não estiveram a seu favor. Após perder o terceiro set-point com uma deixadinha ousada do adversário, a frustração o levou a dar uma bolada violenta na placa de publicidade. Desconcentrado, permitiu minutos depois 0-30 e aí tropeçou e caiu sobre o ombro. Medicado, voltou e perdeu o saque. Levou a virada para 6/5 e então jogou a bola para trás, atingindo direto o pescoço de uma juíza de linha.

A imagem não deixa mínima margem de dúvida. O árbitro geral até contemporizou demais antes de cumprir a regra e desclassificar o número 1 do mundo de um torneio em que ele estava jogando um tênis magnífico, era o favorito absoluto, a passos largos para o 18º troféu de Grand Slam.

Antes que alguém pergunte, frise-se: não importa a intenção do tenista – muito raramente ele vai tentar atingir alguém de propósito – e o regulamento é extremamente claro sobre isso. Se o jogador usar qualquer meio de extravasar emoções e através disso atingir qualquer pessoa, dentro ou fora da quadra, a punição é imediata. Há inúmeros casos de desclassificação não intencional. Fernando Meligeni e Teliana Pereira já viveram isso.

O que mais choca nesta situação tão inusitada e amarga é que Djokovic começou a perder o controle emocional no 5/5 do primeiro set. Cedo demais para um jogador tão competente como ele, com histórico espetacular de viradas e recuperações. E não foi a primeira deste US Open. Contra Kyle Edmund, já mostrava irritação exagerada para a ocasião, com urros e reclamações. Pagou um preço alto demais. De quebra, ficará sem pontos, sem o prêmio de US$ 250 mil e sem a invencibilidade, que para nos 26 jogos.

O sérvio não quis falar com a imprensa – o que pode aumentar sua multa -, foi visto no aeroporto já no fim da tarde e soltou um comunicado no Instagram em que reconheceu a falha, pediu desculpas a todos e garantiu que levará isso como lição para o restante da carreira e da vida. Tomara.

A consequência imediata é que veremos um novo campeão de Grand Slam daqui uma semana. No lado de cima de chave, os sobreviventes nunca sequer fizeram uma final. Do outro, Dominic Thiem e Daniil Medvedev já foram vices. É um US Open para ficar mesmo na história.

Como fica o masculino
– Este é o primeiro Slam desde Wimbledon-2003 em que as quartas não tem qualquer campeão de Slam. É também o primeiro sem um membro do Big 3 desde Roland Garros-2004. E o primeiro US Open sem um campeão anterior nas quartas desde 1997.
– Carreño, de 29 anos, é o único na parte de cima que já fez semi em Flushing Meadows, há três anos. Antes do incidente fatal com Djokovic, ele vinha fazendo uma bela partida, firme no saque e muito consistente no fundo. Havia evitado os quatro break-points que encarou, cometido apenas seis erros e estava com o saque a favor para fechar a série.
– Seu adversário será o canhoto Denis Shapovalov, 21 anos, em sua primeira quartas desse nível. Virou nesta noite contra David Goffin, um jogo em que o saque o salvou muitas vezes. Seu mérito foi ter batalhado com cabeça fria em dezenas de ralis importantes, além de 33 das 47 idas à rede. Denis aliás também está nas quartas de duplas, com Rohan Bopanna.
– Para Alexander Zverev, só boas notícias. Subiu mais um degrau no US Open e faz quartas pela primeira vez, economizando energia num jogo muito fácil sobre o espanhol Alejandro Fokina. Se for à semi, será a segunda seguida em Slam. O que sempre se esperou dele.
– Agora encara o jogo sólido de base de Borna Coric, que tem se aventurado com sucesso nos voleios. Os dois tem 23 anos. O croata, que vinha da maratona física e emocional da virada contra Stefanos Tsitsipas, passou fácil por Jordan Thompson e deve estar ‘zerado’.
– Carreño ganhou 3 de 4 duelos com Shapovalov, todos na dura e dois no ano passado. O canadense só ganhou no saibro. Coric ganhou apertado de Zverev no US Open de 2017 e tem mais duas vitórias em quatro duelos, incluindo Cincinnati e Halle do ano seguinte. O alemão só levou a melhor em Miami-2018.

Americanas tiram favoritas
– Para comprovar o bom momento neste reinício do circuito, Jennifer Brady e Shelby Rogers são as primeiras tenistas da casa nas quartas de final femininas.
– Campeã em Lexington, Brady se adaptou incrivelmente bem à canhota Angelique Kerber e cedeu apenas cinco games. Grande exibição. Enfrenta agora Yulia Putintseva, que foi mais determinada na reta final do jogo e tirou Petra Martic, a cabeça 8.
– Rogers, 93ª do ranking, nem figura entre as cabeças de chave e foi quem tirou Serena Williams de Lexington. Fez um jogo duríssimo contra Petra Kvitova, evitando quatro match-points, um deles no tiebreak e no saque da tcheca.
– O desafio agora é ainda maior: Naomi Osaka. A campeã de 2018 e ex-número 1 não precisou jogar o máximo para tirar Anett Kontaveit. Fez 21 winners mas também 18 erros. O ponto forte foi o saque, com 84% de pontos vencidos quando colocou o primeiro serviço.