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US Open volta aos grandes dias
Por José Nilton Dalcim
5 de setembro de 2021 às 01:00

Para brindar o retorno da casa cheia aos torneios de Grand Slam, o US Open de 2021 decidiu ser espetacular. Mal terminou a primeira semana com a definição das oitavas de final e já é fácil colocar Flushing Meadows como o melhor e mais eletrizante Grand Slam dos últimos dois anos.

É um jogo melhor do que o outro. A novíssima geração mostra as garras com um tênis de qualidade ímpar e até o combalido tênis masculino norte-americano achou um jeito de brilhar e dar esperança de que o amargo jejum de grandes conquistas possa enfim estar perto do fim.

A rodada noturna tem sido especialmente mágica, e quase sempre na mãos das mulheres. A vitória de Shelby Rogers sobre a líder do ranking Ashleigh Barty pode não ter tido o mais alto nível técnico, principalmente da parte da australiana, porém deu o espetáculo que o público merecia. Rogers radicalizou a tática, mudou o ritmo das trocas de bola e saiu de 2/5 no terceiro set para derrubar a grande favorita ao título num tiebreak não menos emocionante.

Horas antes o estádio Louis Armstrong assistiu a uma batalha enlouquecedora, que fez lembrar os bons tempos da Copa Davis. O acrobático Gael Monfils remontou dois sets praticamente perdidos, levou ao quinto e lutou bravamente por cada ponto até enfim ser superado por Jannik Sinner, agora o mais jovem tenista a disputar oitavas em três Grand Slam desde Novak Djokovic e Andy Murray, em 2007.

O público também teve participação essencial em mais uma surpresa de Jenson Brooksby, 20 anos, que era um mero jogador de challenger até dois meses atrás. Com seu jeito todo peculiar de comemorar pontos, se energizou por cinco sets até bater Aslan Karatsev. Agora, irá enfrentar nada menos que o todo poderoso Djokovic e tudo que se deve esperar é arquibancadas super lotadas na segunda-feira num clima que só mesmo o US Open consegue reproduzir.

O sábado, aliás, teve mais uma estrela a despontar. Emma Raducanu, que já tinha feito oitavas em Wimbledon, juntou-se a Carlos Alcaraz e Leylah Fernandez na turma dos 18 anos que assombra o torneio. Espancando a bola sem dó, a britânica ficou muito perto de aplicar uma ‘bicicleta’ na já experiente Sara Sorribes. Será justamente a adversária de Rogers na segunda-feira.

Djokovic vira e finalmente vibra
O número 1 do mundo começou em ritmo lento o duelo contra o ‘freguês’ Kei Nishikori e esteve longe de seus melhores dias mesmo aplicando a virada, mas fez o bastante para alcançar a 18ª vitória sobre o japonês, que ao menos desta vez não se entregou ao desânimo.

Os pontos fortes de Djokovic foram o uso mais constante das paralelas, a força mental nos pontos importantes e enfim a vibração. Ainda que, ao final da partida, tenha novamente mostrado frieza pouco habitual na comemoração. Ele decidiu mesmo não externar demais.

Se mantiver o amplo favoritismo contra Brooskby, reencontrará Matteo Berrettini. O italiano está jogando para o gasto, mas tem muito mais gabarito do que Oscar Otte.

Sinner fará um duelo imperdível contra Alexander Zverev, a quem já venceu uma vez no saibro de Paris. O campeão olímpico enfrentava seu jogo mais duro desta primeira semana contra Jack Sock, quem diria, e seu forehand monstruoso, até que o ex-top 10 sentiu a coxa e abandonou..

O sonho americano deve seguir principalmente com Reilly Opelka, talvez o super-sacador que mais bem se desloca na base e que joga de fundo. Venceu seus três jogos em sets diretos, com apenas um tiebreak por jogo, e pega agora Lloyd Harris, que venceu sem sustos ao pressionar o backhand de Denis Shapovalov.

Caminho aberto
Sem Barty pela frente, as seis cabeças de chave que estão de pé na chave de cima podem sonhar com a final. Principalmente, Belinda Bencic e Iga Swiatek que se encaram sabendo que a ganhadora terá Raducanu ou Rogers na rodada seguinte. A polonesa passou apertos contra Anett Kontaveit e se tornou a única jogadora da temporada a estar ao menos nas oitavas de todos os Slam.

Depois do sufoco da rodada anterior, Karolina Pliskova disparou 20 aces em dois sets curtos e recuperou fôlego para encarar Anastasia Pavlyuchenkova contra quem tem histórico de 6 a 2. A vencedora terá Bianca Andreescu ou Maria Sakkari nas quartas. A grega foi muito bem contra Petra Kvitova com mais aces (9 a 5) e muito menos erros (16 a 34).

Traiçoeira grama
Por José Nilton Dalcim
28 de junho de 2021 às 18:01

Por mais que um tenista treine, jogar sobre a grama nas primeiras rodadas sempre é um desafio. O piso começa impecável, mas ao mesmo tempo liso, escorregadio, o que exige adaptações constantes. Até mesmo multicampeões como Novak Djokovic e Petra Kvitova demoram para achar o equilíbrio e por vezes isso custa caro.

Os menos rodados sofrem para entender que é preciso fechar ângulos, ficando perto da linha e correndo em diagonal, assim como tentar usar as bolas mais retas e recorrer a bate-prontos. O deslocamento também precisa ser leve e a antecipação é essencial. Na soma de tudo, fica mais fácil entender como Stefanos Tsitsipas não ganhou set de Frances Tiafoe e por que vários nomes fortes sofreram logo de cara.

Djoko iniciou a defesa do título com pequeno susto, mas era evidente que o garoto canhoto Jack Draper não manteria a consistência. O sérvio achou a devolução, explorou o forehand menos eficiente do adversário e acima de tudo passou a sacar com enorme qualidade. Anotou 25 aces, com um game perfeito de 46 segundos, e acertou 78% do primeiro saque (mais de 80% dos dois sets finais e apenas quatro pontos perdidos após o set inicial). Fez aliás voleios muito exigentes após o saque e terminou com 17 pontos em 22 subidas. Reencontrará Kevin Anderson na quarta-feira, um finalista de Wimbledon que merece respeito mas que não está em ritmo, a ponto de suar muito contra o saibrista Marcelo Barríos.

Tsitsipas foi uma tremenda decepção. Jogou de forma incrivelmente passiva, dando espaço para Tiafoe atacar. À medida que ganhou confiança, o norte-americano de golpes pesados passou a fazer devoluções e contragolpes espetaculares e abocanhou com justiça toda a simpatia do público. Ficou a nítida impressão que o grego não fez a transição correta do saibro para a grama, não apenas técnica como também mental. Em seu quarto Wimbledon, o dono de jogo versátil e completo caiu na primeira rodada pela terceira vez.

Stef pode aproveitar o tempo livre e se inspirar em Andy Murray. Mesmo longe de seus melhores dias, o escocês mostrou no retorno à Central como se joga na grama. Com exceção à reta final da partida, funcionou tudo. Saque, slices, curtas, passos curtos, o essencial bate-pronto e a transição à rede. Depois de fazer 5/0 no terceiro set e ficar tão perto da vitória, vieram os nervos e Murray também mostrou o pior dos erros: esperou Nikoloz Basilashvili errar e isso raramente dá certo nesse piso tão traiçoeiro.

A rodada masculina viu também as quedas dos jovens Jannik Sinner e Alejandro Fokina, o que nem é tão inesperado em termos de grama, mas também a derrota do super-sacador Reilly Opelka para aquele Dominik Koepfer que deu sufoco em Roger Federer no saibro de Paris. O norte-americano disparou 19 aces, mas não salvou um único dos três break-points e jamais ameaçou o serviço adversário. A grama por incrível que pareça não é a praia de Opelka, que só ganhou dois jogos na carreira sobre a superfície. Andrey Rublev e Roberto Bautista perderam sets.

O precoce adeus de Kvitova
Não era de se esperar jogo fácil, mas também não era para derrota. O fato é que Petra Kvitova não se achou em quadra e foi dominada por Sloane Stephens, que ganhou seu sétimo jogo no torneio desde que atingiu as quartas em 2013. A tcheca, que perdeu na sexta-feira para Angelique Kerber na grama alemã, cometeu 20 erros não-forçados, um número gigantesco para este tipo de quadra.

Aryna Sabalenka, Sofia Kenin e Iga Swiatek bateram muito na bola e confirmaram ser boas candidatas a ir longe neste Wimbledon. Sabalenka cravou 48 winners em 17 games. Outro destaque foram os 50 minutos que Garbiñe Muguruza gastou para atropelar Fiona Ferro, 51º do mundo. A francesa ganhou apenas 5 pontos no primeiro set.

Frase do dia
“Sejam gentis com a grama”
Da juíza Eva Asderaki

Big 2 ensina a arte da consistência aos garotos
Por José Nilton Dalcim
7 de junho de 2021 às 19:03

Novak Djokovic levou um susto ao perder os dois primeiros sets para um atrevido e aplicado Lorenzo Musetti, Rafael Nadal esteve ameaçado de ceder o primeiro set no torneio desde a final de 2019 para o já top 20 Jannik Sinner, mas os ‘velhinhos’ mostraram que lhes sobram consistência técnica, tática e física e que ainda é preciso fazer muito mais sobre o saibro de Roland Garros para tirá-los da luta pelo título.

Musetti deve ter surpreendido todo mundo. Nem tanto pela reconhecida qualidade de seus golpes, mas pela fidelidade ao plano de jogo e cabeça fria que o levou a ganhar dois tiebreaks do número 1 do mundo, o que não é para qualquer um. Aliás, o garoto nunca perdeu um tiebreak em torneios de primeira linha e ganhou todos os oito que fez nesta temporada, o que reafirma sua capacidade de ser ousado e frio.

Bem orientado, Musetti usou dois recursos que sempre incomodam Djokovic: o slice no backhand e a bola sem peso no centro da quadra. Soube esperar a hora certa de mudar o ritmo e atacar, aplicando-se ao máximo no serviço. O cabeça 1 então cometeu mais erros do que o habitual, porque muitas vezes precisou dar o peso na bola com o forehand acima da cintura, o que nem sempre é tão confortável como parece.

Mas num Slam não basta ser brilhante por dois sets. É preciso dosar o físico para uma eventual batalha e isso talvez tenha sido a experiência que faltou ao italiano. Djoko vendeu muito caro esses dois sets perdidos, fez o adversário se mexer muito, atrás de ângulos e deixadas, e o preço foi pago já no terceiro set.

Enquanto o adversário 15 anos mais jovem desabava, Nole continuou no seu ritmo firme e sufocante, resultando num massacre. Completamente esgotado, com dor lombar e cãibra conforme revelou depois, Musetti nem conseguiu terminar a partida. De qualquer forma, foi o grande nome do dia e provou, logo no seu primeiro Slam, que tem mesmo muita chance de brilhar no circuito.

O entusiasmo de Sinner durou bem menos. Depois de falhar nos dois games iniciais, ganhou consistência e virou o placar anotando quatro seguidos, vantagem que permitiria a ele sacar para o set com 5/4. Não colocou um único primeiro saque na quadra, foi quebrado de zero e aí Nadal se agigantou, ganhando oito games seguidos.

O espanhol no entanto voltou a oscilar, jogou mal em mais dois serviços no segundo set e deu a chance do empate, que Sinner desperdiçou. Seria querer demais que Rafa lhe desse mais alguma cancha. Nadal foi absoluto daí em diante, arrancou para mais uma série de oito games consecutivos e permitiu apenas 10 pontos ao italiano no terceiro set, dos quais apenas dois foram erros não forçados do megacampeão.

Nadal e Djokovic ficam assim a apenas uma vitória do aguardadíssimo reencontro na semifinal de sexta-feira. O espanhol terá antes de aumentar a ‘freguesia’ sobre Diego Schwartzman, que já está em 10 a 1. O argentino fez um péssimo começo contra Jan-Lennard Struff e chegou a estar 5/1, tendo de salvar sete set-points. Achou a forma de segurar o alemão no fundo de quadra e estava pertinho de fechar o terceiro set com rapidez quando outra vez veio a instabilidade e Struff quase empatou no 10º game. Ou seja, o valente Peque não está nem perto do nível que mostrou em Roma do ano passado na sua única vitória sobre Nadal. Está muito mais para o fácil placar da semi de Paris em 2020.

Djokovic por seu lado terá outro italiano pela frente, mas curiosamente só cruzou com Matteo Berrettini uma vez, na fase classificatória do Finals de 2019, quando perdeu meros três games. Se obtiver alto índice de primeiro saque, que permita principalmente disparar seu excelente forehand, Berrettini tem condições de ser competitivo e quem sabe empurrar os sets para tiebreaks. Ainda que seu backhand tenha evoluído a olhos vistos, não me parece ter consistência e muito menos confiança para aguentar a artilharia pesada do número 1 se ficar no fundo de quadra. Vão faltar pernas se fugir o tempo todo para o lado esquerdo, como costuma fazer.

Swiatek amplia favoritismo
Se Iga Swiatek chegou a Paris cheia de moral após seu título em Roma, o andamento da edição 2021, com a sucessão de queda das favoritas em Roland Garros, deixa a polonesa de 19 anos cada vez mais candidata a conquistar o bicampeonato. Curiosamente, ela foi quem teve mais trabalho nesta segunda-feira para avançar às quartas de final, já que ucraniana Marta Kostyuk, um ano mais jovem, mostrou qualidades e resistência. Foi quem mais tirou games de Swiatek até aqui.

Assim como seu ídolo Nadal, a polonesa também está sem perder set desde o início da campanha do ano passado. Sofreu um pouco porque encarou a sempre diferente sessão noturna, que deixa tudo mais lento. Kostyuk foi esperta, abusou das deixadinhas e até quebrou antes. Continuou ameaçando, games longos, mas por fim prevaleceu a consistência de Swiatek. O próximo desafio também é inédito: a divertida Maria Sakkari, que atropelou a finalista de 2020 Sofia Kenin e aumentou a festa grega no saibro parisiense. Nunca o país teve dois nomes nas quartas de um mesmo Slam.

Os outros dois jogos foram logo cedo num piso mais veloz e surpreenderam pela rapidez: Coco Gauff nos seus tenros 17 anos não deu muita chance à tunisiana Ons Jabeur, usando o saibro quase como se fosse um piso duro. E enfrentará agora uma sensação, a tcheca Barbora Krejcikova, outra tenista de jogo solto que só permitiu dois games a Sloane Stephens, vice de 2018. Krejcikova também está viva nas quartas de duplas e caiu nesta segunda nas quartas de mistas, prova de que o físico e a disposição estão em dia.

A rodada de terça
– Medvedev e Tsitsipas tentam a quarta semi de Slam, e até hoje nenhum deles perdeu quando chegou nas quartas. Se o russo tem 5-1 nos duelos e única vitória no saibro, Tsitsipas é o líder de vitórias na temporada (37) e na terra (20).
– Grego só ganhou 1 dos últimos 8 jogos contra adversário top 5 e no saibro soma 2 em 8. Mas tem marca muito superior em jogos de 5 sets na carreira: 5-4 diante de 1-7 do russo.
– Zverev ganhou os cinco sets que jogou em duas partidas diante de Davidovich, mas sempre na quadra dura. Espanhol venceu mais jogos no saibro este ano (14 a 13).
– Zverev ganhou todos seus jogos que foram ao quinto set em Paris (7) e tenta semi no terceiro diferente Slam. Davidovich venceu 9 dos 11 tiebreaks que fez nesta temporada.
– Separadas por 10 posições no ranking (22 a 32) e oito anos na idade, Rybakina e Pavlynchenkova fazem duelo inédito e buscam primeira semi de Slam. As duas jogam lado a lado e estão nas quartas de duplas.
– Também não há histórico entre Badosa (35 do ranking) e Zidansek (85). A Eslovênia nunca havia tido uma jogadora sequer nas oitavas de um Slam.