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Russo de aço é última barreira para Nadal
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2019 às 01:16

Parecia impossível que Daniil Medvedev conseguisse sobreviver à dureza do US Open vindo de uma série preparatória tão longa na quadra sintética do verão norte-americano, ainda mais ele que jamais havia ido longe nos Grand Slam justamente por sentir dificuldade em ser sólido por tantos sets e dias consecutivos.

Mas ele conseguiu. E com folga. O emergente tenista de 23 anos, que também superou vaias da torcida e cãibras no meio da trajetória, demoliu pouco a pouco a impetuosidade de Grigor Dimitrov, a quem sobra talento mas falta consistência no plano tático. Medvedev atinge assim todas as finais que disputou nas últimas semanas, sendo vice em Washington e Montréal e campeão no Masters de Cincinnati. Acumulou 3.100 pontos até agora e, com justiça, será o quarto do ranking com vaga assegurada no Finals de Londres.

Os dois dias de descanso após a vitória sobre Stan Wawrinka, em que se sentiu frágil no primeiro set, funcionaram. Medvedev parecia totalmente fresco para o duelo de fundo de quadra contra Dimitrov. Mexeu-se muito bem até mesmo contra as bolas baixas de slice sempre chatas para quem mede 1,98m. Jamais se apavorou, mesmo tendo um set-point contra antes do tiebreak ou quando permitiu a reação de Dimitrov na metade do segundo set. Sangue frio foi justamente o que deixou o búlgaro na mão sempre na hora da pressão dos sets iniciais.

Quatro semanas atrás, na decisão de Montréal, Medvedev foi amplamente dominado por Rafael Nadal, um jogo em que o russo só conseguiu fazer mais aces do que o espanhol. Nas trocas mais longas de bola, ficou devendo. Na ocasião, reclamava já do desgaste de duas semanas seguidas de atividade, mas em seguida foi a Cincinnati e levou o título.

A única situação que pode atrapalhar o tetra e o 19º Grand Slam de Rafa pode ser a ansiedade da conquista. Golpe a golpe, ele tem tudo a mais que Medvedev. O russo pode apostar num primeiro saque muito forçado, mas seu jogo de rede é básico e não há muitas variações lá de trás.

Nadal levou um susto nesta sexta-feira e viu Matteo Berrettini lhe presentear com o tiebreak do primeiro set. O italiano, que entrou com uma proposta curiosa de esconder deixadinhas, se segurou até o tiebreak e aí fez 4-0. Perdeu um ponto bobo, deu azar num lob, mas ainda assim chegou a 5-4 com o saque e depois a dois set-points, quando então lhe escapou a coragem de antes e também uma escolha mais adequada de golpes.

Não acredito que Nadal teria corrido risco de derrota mesmo se o italiano tivesse feito sua obrigação de ganhar o primeiro set. Muito aplicado taticamente, Rafa explorou à exaustão o backhand instável de Berrettini, onde ganhou muito pontos sem esforço, e sacou muito bem, a ponto de perder apenas dois lances com o primeiro serviço em cada um dos dois primeiros sets e nenhum no último. No volume, sua vitória era uma barbada.

Para a história
– Medvedev é o terceiro profissional a fazer quatro finais no verão americano, repetindo Ivan Lendl (1982) e Andre Agassi (1995).
– Há 14 anos um russo não chegava a uma final de Slam, quando Marat Safin conquistou o AusOpen de 2005. O mesmo Safin foi o único russo campeão do US Open, em 2000, em cima de Pete Sampras. No feminino, Maria Sharapova (2006) e Svetlana Kuznetsova (2004) venceram.

O tênis se agita em três capítulos
Por José Nilton Dalcim
26 de julho de 2019 às 10:15

Em menos de 24 horas, três notícias sobre as principais estrelas do circuito masculino agitaram a semana que parecia tão morna. Vamos a elas:

Djokovic decide descansar
Os promotores do Masters 1000 do Canadá não devem ter gostado nada da decisão de Novak Djokovic em estender seu descanso pós-Wimbledon e só voltar às quadras para defender seu título em Cincinnati, único preparativo para também tentar reter o troféu do US Open.

O sérvio não deu desculpas e deixou claro que precisa de mais tempo para estar totalmente competitivo. No ano passado, ele saiu da inesperada conquista em Wimbledon para Toronto e nem passou das oitavas. Indisposto a cometer o mesmo engano agora em Montréal, onde o piso é ainda mais lento, ele preferiu atrasar seu retorno ao circuito em uma semana. Para mim, faz todo sentido. Se foi possível ganhar outra vez Wimbledon apenas treinando firme na grama, por que seria diferente no US Open?

Montréal também já havia ficado sem Roger Federer e estava na verdade preocupada com a ausência do atual campeão Rafael Nadal. O espanhol deu a entender que não disputaria os dois Masters antes de Nova York para se precaver do joelho. Mas agora, com o caminho bem mais livre, é possível que opte mesmo por saltar o piso muito mais veloz de Cincinnati, a menos é claro que tenha uma atuação desastrosa no Canadá.

A estranha excursão de Federer
Coisa rara de se ver num final de temporada, Roger Federer já anunciou três jogos de exibição pela América Latina em novembro, percorrendo Chile, Argentina e México, indo muito provavelmente também à Colômbia. Os adversários podem ser Alexander Zverev – que não pretende mesmo jogar a fase final da Copa Davis em Madri – ou Dominic Thiem.

Mas o que causa espanto é que a partida a ser feita em Santiago está marcada para 18 de novembro, imediatamente após a decisão de domingo do ATP Finals de Londres. Como Federer está potencialmente classificado para o torneio que encerra a temporada – soma mais de 5 mil pontos em 2019 -, fica a impressão de que ele não acredita muito em ir longe na arena O2.

A exibição no México, a ser promovida numa arena de touros que pode abrigar até 41 mil pessoas, está marcada para dia 23 de novembro. O agente Tony Godsick afirmou que não apareceram interessados para organizar um jogo no Brasil. O cachê estimado de Federer em cada exibição é de 1 milhão de euros.

Lendl está disponível
Sem papas na língua, Zverev fez absurdas críticas públicas ao então técnico Ivan Lendl assim que pisou em Hamburgo, em resposta ao bombardeio da imprensa local sobre sua má fase tão prolongada. Colocou boa parte da culpa no treinador, a quem acusou de não se focar no trabalho como deveria. Algo aliás bem semelhante ao que fez com o espanhol Juan Carlos Ferrero.

Lendl então se demitiu do cargo, como aliás já deveria ter feito há algum tempo. Zverev é bem conhecido por sua personalidade difícil e também está em atrito grande, e judicial, com o ex-agente, o chileno Patricio Apey. Alguns jornalistas alemães já diziam no começo desta semana que Zverev procurava um novo técnico antes mesmo de rescindir o contrato com Lendl.

Não por acaso, Boris Becker comentou logo depois das declarações infelizes de Zverev que ‘algo havia acontecido’ entre ele e Lendl após o título espetacular no Finals de Londres, sem entrar em detalhes. Becker sempre é cogitado como o homem capaz de colocar o garoto nos trilhos. Mesmo estando em situação financeira complicada, é difícil saber se o tricampeão de Wimbledon se mostrará disposto a carregar o fardo. O pai Zverev dá muito palpite.

P.S.: Bia Haddad também foi submetida a exame antidoping durante sua campanha em Wimbledon. E isso pode ser uma boa ou uma má notícia. Caso nada seja encontrado no exame, ajudará muito na defesa. Se no entanto se repetir o positivo dos testes de Bol, a situação ficaria bem grave. Especialistas que falaram comigo nos últimos dias acham difícil ela escapar da suspensão de dois anos.

Nadal é única ameaça ao nº 1 de Djokovic
Por José Nilton Dalcim
16 de julho de 2019 às 23:34

Com um título, um vice e uma semifinal de Grand Slam na temporada, o espanhol Rafael Nadal é o jogador com condições reais de brigar com o sérvio Novak Djokovic pela ponta do ranking. Ainda que seja possível uma luta direta no US Open, a probabilidade maior é de os dois chegarem próximos ao Finals de Londres e decidirem ali, bem na reta final da temporada, a outra grande honraria do tênis profissional.

Vejamos um ‘passo a passo’ numérico do que pode acontecer nos próximos meses:

1. Canadá e EUA
Embora seja matematicamente possível Nadal superar Djokovic após o US Open, neste momento isso parece bem pouco provável. A temporada que ambos deverão jogar nas quadras duras inclui três torneios; Canadá, Cincinnati e US Open, com total possível de 4.000 pontos.

Para que tenha chance de brigar pelo posto em Nova York, Nadal terá de ganhar os três torneios, o que elevaria seu total em 2.280 pontos e o levaria para 10.225 (defende 1.000 no Canadá e não somaria nada, não jogou Cincy e parou na semi do US Open em 2018).

A Djokovic, no entanto, bastaria ser quartas nos dois Masters e oitavas no US Open para marcar os 900 pontos necessários e repetir os mesmos 10.225. Ele só venceu um jogo no Canadá no ano passado e defende os títulos de Cincy e do US Open.

Mais realista, a melhor situação para Nadal seria ganhar os três torneios em cima de Djokovic – serão cabeças 1 e 2 – e assim ele reduziria a diferença atual em 2.970 pontos e os dois iriam para a fase asiática com vantagem do sérvio de 1.500.

2. Asian Swing
Ainda que consiga essa notável reação, Nadal continuaria com dificuldade de recuperar a liderança nos torneios que ele e Djoko devem jogar na Ásia, mesmo lembrando que a partir do US Open o espanhol não defende mais qualquer ponto no ranking.

A previsão é de Rafa jogar como sempre em Pequim. Djoko já anunciou que irá a Tóquio. O natural é cada um vencer seu ATP 500. Já em Xangai. o sérvio defende os 1.000 pontos e não pode somar. Mesmo um novo título de Nadal sobre Djoko seria insuficiente, porque causaria redução de 1.400 pontos.

3. Piso coberto europeu
Chegaríamos então aos três últimos torneios da temporada. Os dois podem entrar nos 500 de Viena e da Basileia, com chance de somar tudo, mas em Paris o sérvio foi vice e precisará repetir 600 pontos.

Por fim, virá o Finals de Londres, onde Djoko novamente foi vice e defende 1.000 pontos.

4. Corrida simplifica
Como se pode ver, a expectativa por uma briga pelo número 1 só pode ocorrer mesmo lá na reta final do calendário, quem sabe outra vez na arena O2, como aconteceu entre Djokovic e Andy Murray em 2016.

Por isso mesmo, acho que a disputa toda particular entre Djokovic e Nadal pela liderança mereça ser acompanhada não pelo ranking tradicional – onde está bem claro que dificilmente o sérvio perderá o posto antes de novembro -, mas sim pelo ranking da temporada, a tal Corrida para Londres.

Nessa disputa, os números estão bem mais próximos. Djokovic lidera com 6.725, e Nadal está exatamente 500 atrás, com 6.225. Na classificação da temporada, apenas se acrescentam os pontos conquistados e então este será o termômetro mais adequado para saber se o espanhol vai ter ou não a oportunidade de recuperar o topo da lista.

Claro que matematicamente há pelo menos três outros jogadores que podem engordar essa briga: Roger Federer (5.060 pontos em 2019), Dominic Thiem (3.315) e Stefanos Tsitsipas (2.995). Mas qualquer esperança residiria em marcar no mínimo 2.000 a mais que Djokovic e Nadal até o fim do US Open, o que convenhamos é uma tarefa quase hercúlea.

E mais
– Djokovic alcançou a 260ª semana como número 1 e deverá empatar com Jimmy Connors assim que acabar o US Open (268), mirando fatalmente Ivan Lendl (270). Se terminar o ano na ponta, alcançará Sampras (286) na segunda semana de janeiro e aí estará 24 atrás do recordista Federer (310).
– Agora, o Big 3 lidera todas as três primeiras posições dos que ficaram mais tempo no top 2: Federer (528), Nadal (513) e Djokovic (391).
– Faltam 4 semanas para Nadal superar Agassi em semanas no top 10 (747 a 743) e assumir o terceiro posto.

Desafio Wimbledon
Oito internautas apontaram que Djoko venceria Federer na final de Wimbledon por 3 sets a 2, mas quem chegou mais perto do placar foi Bruno Vieira, que cravou 7/5 2/6 5/7 7/6 11/9, em 4h55. Ele poderá escolher entre a biografia de Federer ou de Djokovic, grandes sucessos da Editora Évora.