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Espanha rouba cena em Indian Wells
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2022 às 00:48

Com três representantes em estágios completamente distintos mas todos jogando um tênis de primeira grandeza, o tênis espanhol é a sensação do momento sobre as quadras duras de Indian Wells. O ainda imbatível Rafael Nadal, a estrela ascendente Carlos Alcaraz numa transição perfeita do saibro e a atual campeã Paula Badosa de olho no número 2 estão batendo muito na bola e usando os mais variados recursos diante das difíceis condições do torneio.

Como se esperava, Rafa sofreu com o saque demolidor de Reilly Opelka, que está longe de ser ridículo da base. Faltou pouco para levar o número 4 ao terceiro set e faltou coragem na hora de obter a segunda quebra. O espanhol foi como sempre muito aplicado na parte tática, determinado a entrar nos pontos de qualquer jeito. Ele achou que fez seu melhor jogo da semana, mas seu segundo set foi bem menos brilhante.

Obviamente, sobrará motivação para o reencontro com Nick Kyrgios, que descansou diante do mal estar que forçou Jannik Sinner a abandonar o torneio. O australiano ganhou 3 dos 8 duelos e é mais perigoso do que Opelka por sua imprevisibilidade. Fato curioso e relevante, Nadal ganhou 8 dos 9 tiebreaks disputados, incluindo todos os 6 mais recentes.

Alcaraz e Gael Monfils só fizeram o esperado duelo de habilidades até o francês perder o saque no 6/5, depois de flertar com break-points em outros dois serviços. O garotão, ao contrário, foi consistente do começo ao fim, fez 18 de seus 22 winners de forehand, ganhou 87% dos pontos em que acertou o primeiro saque e fez deixadinhas desconcertantes e voleios oportunos. De novo, mostra maturidade muito acima de seus 18 anos e segue com um estilo muito agradável de se ver.

O campeão do Rio Open chega às quartas de um Masters 1000 pela primeira vez e é o mais jovem a ir tão longe no torneio desde o fenômeno Michael Chang 33 anos atrás. Com 11 vitórias em 12 jogos na temporada, Alcaraz enfrentará agora o detentor do título, o canhoto Cameron Norrie, a quem venceu com notável facilidade no US Open do ano passado. O britânico fez notáveis lances contra Jenson Brooksby e precisa de mais uma vitória para enfim realizar o sonho do top 10.

Paula Badosa ganhou logo seu segundo torneio do ano, ainda em Sydney, e deu a impressão que manteria o momento confiante de 2021, mas daí em diante não fez grandes exibições. Tinham-se então reservas sobre como iria encarar a pressão de defender o título de Indian Wells – ainda que o troféu tenha acontecido em outubro – e a espanhola de golpes tão pesados e agressivos está muito bem. Foi notável na vitória sobre Leylah Fernandez, principalmente na forma de atacar o serviço, e buscará a semi diante de Veronika Kudermetova.

E mais

  • Dono de dois títulos na quadra dura neste ano, Rublev parece firme na busca do sonhado primeiro Masters, depois de dois vices no ano passado. Sua insistência em jogar duplas enfim rende um jogo de rede menos tímido. Tirou Hurkacz em sets duros e reencontra Dimitrov, semi de 2021 em Indian Wells. Duelo está 2-2.
  • Kecmanovic é um sérvio a se ficar de olho. Orientado por Nalbandian, joga bem em todos os pisos e é muito gelado sob pressão. Ótima vitória sobre Berrettini e encontro agora com Fritz, semi em 2021 e que ganhou no sufoco de De Minaur. O americano venceu os dois jogos anteriores contra Kecmanovic, mas lá em 2019. Vale conferir.
  • As primeiras quartas de final femininas foram decepcionantes porque Halep e Swiatek se mostraram absurdamente superiores a Martic e Keys. Enquanto a romena está muito veloz e solta em quadra, a jovem polonesa vem do título 1000 em Doha tendo como destaque o ataque nas devoluções.
  • Halep tem 2 a 1 no histórico, com única derrota na campanha inesquecível de Iga rumo ao título de Roland Garros em 2020. Swiatek assume provisoriamente o número 2, mas pode ainda ser ultrapassada por Badosa ou Sakkari, que enfrentará Rybakina nesta quinta-feira.
  • Zverev está na semi de duplas ao lado de Golubev e pode pegar Isner/Sock, que já tiraram Pavic/Mektic e Kokkinakis/Kyrgios. Rublev/Karatsev e Tsitsipas/Feliciano jogam quartas.
  • A ITF enfim conseguiu acordo entre os quatro Slam e unificou a regra do tiebreak no 6/6 do quinto set. É o fim definitivo do set longo, que sobrevivia em Roland Garros.
Liderança relativa
Por José Nilton Dalcim
14 de março de 2022 às 21:43

Sustentar o número 1 do mundo tem sido historicamente a tarefa mais difícil do tênis profissional. E fica ainda mais dura e cruel, tanto no plano técnico como no emocional, se o dono do trono não tem a quantidade de recursos necessária para tanto. É exatamente o caso de Daniil Medvedev.

Ninguém pode tirar dele o mérito de ter atingido a ponta da lista, porque afinal das contas ele decidiu dois Grand Slam num curto espaço de quatro meses, num deles dominando por completo Novak Djokovic. No entanto, as limitações do russo são evidentes. Para que renda seu melhor tênis, depende de uma série de combinações favoráveis e não é exatamente isso o que se espera de um autêntico líder.

Além do dueto técnico-tático essencial, pesa muito também a cabeça. Medvedev se portou como um jogador medroso em Acapulco. Nesta segunda-feira em Indian Wells, nem mesmo a vantagem de um set lhe deu soltura e confiança. Apostou nos erros ou nas dores de Gael Monfils e foi engolido nos dois sets seguintes por um adversário infinitamente mais versátil, alegre e criativo. Até tentou um slice ou um voleio no seu desespero, mas mostra sempre enorme insegurança em golpes que fogem do seu restrito padrão.

O estilo pouco ortodoxo de Medvedev não é um mal para o tênis. Me divirto em ver um jogador tão fora do normal obter grandioso sucesso, aquela altura toda sendo aplicada – ou deveria dizer desperdiçada – num jogo defensivo muito distante da linha de base. Mas o Urso se vira bem na quadra sintética mais rápida, move-se com maestria e tem resistência privilegiada. O humor é ácido, desafia vaias e não deixa respostas para depois. Uma figura.

Será rebaixado por meros 55 pontos no próximo ranking, porém dependerá apenas de si para voltar ao número 1, caso atinja as semifinais de Miami, um torneio que não terá Djokovic, nem Nadal porém com condições muito lentas que serão outro grande teste para sua confiança.

Enquanto isso, Nadal continua encontrando respostas diante de momentos de instabilidade. Daniel Evans jogou perto da perfeição até a metade do primeiro set, com esmero nos approaches e voleios, mas jogar no limite tem o óbvio risco. Na primeira brecha que encontrou, o canhoto espanhol elevou o nível. Ainda salvou break-point antes de obter nova quebra e o set. Na outra série, abriu distância e quase permitiu reação. Foi seu último vacilo.

Com a queda de Alexander Zverev, Rafa já está a duas vitórias de recuperar o número 3. Se o fizer, estará cerca de 1.500 pontos atrás dos líderes do ranking e a expectativa é que construa essa arrancada durante o saibro europeu, onde Medvedev nunca assusta e Djokovic terá de correr atrás de um ritmo competitivo. Vai ficar interessante.

E mais

  • Carlos Alcaraz será o adversário de Monfils nas oitavas, promessa de jogo eletrizante. Nunca se cruzaram. O garoto atropelou Bautista, que viveu um dia muito ruim. Tomara que Monfils esteja fisicamente inteiro e mantenha sua tática ofensiva.
  • Tommy Paul e Botic van Zandschulp foram os destaques do masculino. O norte-americano jogou um tênis primoroso no primeiro set e na parte final do terceiro, quando Zverev tinha 4/2 e parecia caminhar para virada. O holandês é um tenista de muitos predicados e sua solidez barrou Felix Aliassiame.
  • A festa americana se ampliou com a grande virada de Jenson Brooksby sobre Stef Tsitsipas. O grandão ainda precisa melhorar muito seu jogo de rede, mas tem golpes de base muito pesados e profundos. O grego ficou um tanto perdido na parte tática no set final.
  • Também inesperada a vitória de Jaume Munar sobre Pablo Carreño depois de salvar match-points. O habilidoso Alexander Bublik acabou com Andy Murray na base das deixadas.
  • Simona Halep e Coco Gauff fizeram uma partida de tirar o fôlego, espancando a bola mesmo com uma ventania tremenda. Já Emma Raducanu viveu incríveis altos e baixos, chegou a sacar para vencer Petra Martic e não segurou a barra.
  • Vika Azarenka teve crise de choro quando já perdia também o segundo set, a juíza Paula Vieira desceu e foi ver o que acontecia e Elena Rybakina indagou se isso não era errado. Tem muita tensão no ar neste Indian Wells.
  • E a briga pelo número 2 do ranking está quente. Iga Swiatek precisa de semi para superar Barbora Krejcikova, Maria Sakkari e Paula Badosa podem chegar lá com a final.

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Nadal faz mágica outra vez
Por José Nilton Dalcim
13 de março de 2022 às 00:13

É bem verdade que foi o pior Rafael Nadal da temporada 2022, mas ganhar sem jogar o melhor tênis é também uma virtude dos campeões e o canhoto espanhol sabe muito do assunto. Na base de garra, com tremendas oscilações principalmente no saque, ele contou com a falta de determinação do garoto Sebastian Korda na hora de concluir o placar e com isso chega à 16ª vitória consecutiva.

A batalha de Indian Wells foi aquele típico jogo de capítulos claramente distintos. Korda entrou apressado e levou um baile, mas depois calibrou a devolução, ousou mais da base e achou um buraco interessante ao fugir para bater o forehand cruzado. Tudo é claro favorecido por um serviço muito instável do número 4 do ranking.

De repente, Korda estava com duas quebras, saque e 5/2 de vantagem. Parecia irreversível. Apenas parecia. O norte-americano sentiu os nervos na primeira chance e viu Rafa aplicar grandes contragolpes na segunda. AInda teve um break-point incrivelmente fácil para ir a 6/5. Conseguiu empurrar para o tiebreak e de novo teve dois saques com 3-2. Faltou a ele o que sobra para Nadal: controle mental. Ainda assim, consciente do dia ruim, o espanhol admitiu que teve sorte e frisou a dificuldade de se controlar a bola no deserto californiano.

Nadal, que antecipadamente já descartou Miami do seu calendário – um dos raros grandes torneios que jamais conquistou, mas uma decisão sábia frente à longa trajetória no saibro europeu -. tentará terceira vitória na quadra dura contra Daniel Evans, que não ganhou set até hoje. Se estiver inteiro na parte física, é de se esperar o espanhol explorar sem descanso o backhand do britânico, que abusa no uso do slice. E todos sabemos que esse golpe não incomoda Rafa.

Bem mais cedo e com muito maior facilidade, Daniil Medvedev deu o primeiro dos três passos que precisa para manter o número 1 do ranking. Até demorou um pouquinho para achar o ritmo de fundo de quadra, mas daí em diante o tcheco Tomas Machac foi presa fácil. Reencontra agora Gael Monfils, contra quem perdeu uma e venceu outra em 2019, e se confirmar terá outro jogo duro diante de um espanhol, Carlos Alcaraz ou Roberto Bautista.

A parte inferior da chave masculina ainda terá a estreia dos favoritos neste domingo e alguns jogos parecem interessantes: Berrettini-Rune, Aliassime-Zandschulp, Carreño-Munar, Nakashima-Tiafoe, Querrey-Isner e Bublik-Murray. Com a desistência de Novak Djokovic, Grigor Dimitrov herdou o lugar do cabeça 2 e sua caminhada, mas o búlgaro não anda confiável e pode então pintar a grande chance de Murray fazer um Masters decente, algo que não acontece desde seu título em Bercy de 2016.

Dez cabeças fora no feminino. E contando.
A chave feminina, mais adiantada, completou todo o quadro da terceira rodada e manteve o padrão atual: festival de surpresas e grandes nomes deixando a briga muito cedo.

O lado superior perdeu Garbiñe Muguruza, Karolina Pliskova, Elina Svitolina, Belinda Bencic, Tamara Zindasek e Alizé Cornet, enquanto o lado inferior já não tem mais Aryna Sabalenka, Ons Jabeur, Jelena Ostapenko e Jessica Pegula. Ouso dizer que somente as quedas de Jabeur e Ostapenko foram menos esperadas.

E não foi só. Simona Halep, Emma Raducanu, Iga Swiatek e Petra Kvitova foram levadas ao terceiro set e a atual campeã Paula Badosa quase se enrolou. Estreia realmente tranquila coube apenas para Anett Kontaveit e Maria Sakkari.

Três destaques, um tanto tristes. Primeiro, a virada inacreditável que Muguruza levou da boa Alison Riske, já que a espanhola fez 6/0 e 3/0 e ganhou depois tão somente mais um game até o fim da partida. Depois, o abandono completamente sem sentido de Amanda Anisimova depois de perder quatro match-points contra a guerreira Leylah Fernandez. E pior de tudo, a ofensa da torcedora que tirou Naomi Osaka de órbita, levou a japonesa às lágrimas e à derrota. Como ela bem lembrou, isso aconteceu com Serena e Venus lá mesmo em Indian Wells, levando a longo boicote das irmãs ao torneio.

A briga por vaga nas oitavas tem como destaque Halep-Gauff, Swiatek-Tauson, Kasatikina-Kerber, Azarenka-Ribakina e Sakkari-Kvitova.

Bia Haddad Maia fez três jogos distintos. Em simples, se aproveitou dos mais de 70 erros de Sofia Kenin nos dois sets disputados, mas diante da jovem Tauson faltou um saque mais contundente. A canhota paulista até aguentou a pancadaria imposta pela dinamarquesa, que faz tudo muito direitinho. Em duplas, Bia e Anna Danilina deixaram escapar cinco match-points diante das campeãs do US Open de 2020.