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Com tênis no sangue, Fritz faz seu pequeno milagre
Por José Nilton Dalcim
21 de março de 2022 às 00:57

Superação é a marca registrada dos grandes campeões e algo que costumeiramente se associa a Rafael Nadal. Mas neste domingo o grande herói em Indian Wells foi o californiano Taylor Fritz. Para realizar o sonho de infância e ganhar o maior torneio disputado no Oeste do país, ele precisou de um pequeno milagre.

Fritz torceu o tornozelo direito no finalzinho da semifinal de sábado contra Andrey Rublev e sentiu o problema se agravar no aquecimento matutino de sua primeira final de nível Masters 1000. Era praticamente impossível ter condições de entrar em quadra. Ficou sob intenso tratamento – ‘nunca senti dor pior antes de uma partida’ – e fez um segundo bate-bola mais tarde, bem próximo à partida, e foi aconselhado por toda sua equipe, incluindo o preparador físico, a não jogar.

Ele no entanto se recusou a aceitar a ideia de ter chegado tão longe para nada e garantiu que podia enfrentar Nadal. Sem mostrar qualquer limitação, mas exibindo uma proteção no local, não apenas fez uma exibição consistente como encerrou a série invicta de 20 jogos do homem que tentava o quarto título numa temporada mágica. Marcou enfim uma vitória sobre o Big 3, depois de oito frustrações, e agora é o 13º do ranking e o norte-americano mais bem colocado.

A vitória verdadeiramente heroica o tornou apenas o terceiro norte-americano a ganhar um Masters desde 2010, o primeiro a erguer o troféu de Indian Wells desde Andre Agassi em 2001 e o mais jovem campeão do torneio após Novak Djokovic em 2011. O mais incrível: esta é somente a segunda conquista de sua carreira em sete finais, quase três anos depois de Eastbourne.

Fritz, que prometeu se esforçar para segurar as lágrimas a cada entrevista que der agora, possui tênis nas veias, filho da ex-top 10 Kathy May e do treinador premiado Guy Fritz. Cresceu em San Diego e virou mais uma promessa americana em 2015, quando ganhou o US Open, foi vice de Roland Garros e liderou o ranking juvenil, época em que vencia Stefanos Tsitsipas, Andrey Rublev e Denis Shapovalov.

Aos 18 anos, pouco depois de se casar e ter o filho Jordan, fez primeira final de ATP e rapidamente virou top 50. O título na grama britânica o levou aos 25 primeiros mas, apesar de boas campanhas, Fritz nunca deu o salto que se esperava. No ano passado, recuperou-se bem de artroscopia no joelho e adicionou Michael Russell e Paul Annacone, ex de Federer, ao trabalho com David Nainkin. O fruto desse triunvirato se viu desde janeiro, quando Fritz já mostrava ter subido degraus.

Chegou à final com duríssimas vitórias nas terceira e quartas rodadas, em que tirou Jaume Munar e Alex de Minaur no tiebreak do terceiro set, e suou mais três parciais em seguida diante de Miomir Kecmanovic. Parecia difícil existir ainda fôlego diante de Rublev, mas enfim deu o passo inédito num Masters. Antes de obter a quebra que eliminaria o russo, pediu atendimento médico para o tornozelo, porém nem precisou.

Nadal também não estava em plenas condições nesta final, e isso ficou claro no começo instável, que permitiu 4/0 a um Fritz muito agressivo, como havia feito com Rublev na véspera. Depois, o jogo normalizou mas o espanhol contou mais tarde que sentia dificuldade para respirar devido a uma dor na altura das costelas. que já havia se manifestado na véspera. Recebeu atendimento ao final do primeiro set e isso pareceu ajudar, já que começou a outra série com quebra. Não segurou, viu Fritz virar para 3/2 e se segurar num apertadíssimo oitavo game.

Como de hábito, o canhoto espanhol lutou muito, fez lances defensivos incríveis, porém preferiu postura bem mais defensiva quase o tempo todo. Salvou match-point de forma notável, depois reagiu de 1-3 para 5-4 e dois saques a favor no tiebreak. O empate parecia inevitável. No entanto, errou um swing-volley muito fácil para seu nível e Fritz agarrou a oportunidade.

Além de deixar escapar o 37º título desse quilate, o que marcaria novo empate com Djokovic, Rafa também perdeu sua primeira final desde o Australian Open de 2019, numa sequência de 11 sucessos na hora de erguer o troféu, o que inclui quatro Slam e três Masters. De volta ao top 3, descansará nas próximas semanas e só voltará a competir em Monte Carlo.

Swiatek confirma grande momento
Dona de um jogo muito eficiente sobre o saibro, a polonesa Iga Swiatek conseguiu de vez o sucesso em alto nível sobre as quadras duras. Neste domingo, ganhou o segundo WTA 1000 consecutivo, repetindo Doha, e com isso assumiu com justiça o segundo lugar do ranking feminino.

Maria Sakkari de novo falhou na parte mental e amargou mais um vice. Até fez um primeiro set equilibrado, em que teve oportunidades, por duas vezes obtendo quebra antes da adversária.

Mas as duas estavam com dificuldade de sacar e agredir com o forte vento e a decisão de Swiatek de colocar mais efeito no saque e diminuir os erros não forçados se mostrou muito adequada. Ao final, a polonesa teve 10 erros contra 21 de Sakkari, que não achou desculpas sequer no clima ruim.

Assim como aconteceu com Fritz, a trajetória de Swiatek em Indian Wells não foi nada fácil. Marcou três viradas seguidas até atingir as quartas e só então pareceu solidificar a confiança, arrasando Madison Keys e dominando a campeã de 2015 Simona Halep.

Nem tempo, nem vento derrubam Nadal
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2022 às 23:40

Não foram os aces, o topspin devastador, a capacidade inesgotável de defesa ou os slices maliciosos. Rafael Nadal continua o rei supremo da temporada graças a uma sequência de voleios precisos, intuitivos, corajosos, verdadeiramente mágicos.

Após 3h12 de uma insana batalha contra a juventude e talento de Carlos Alcaraz, a maior parte do tempo sob condições climáticas incompatíveis com um tênis de alto padrão, Rafa sacramentou sua volta ao top 3 do ranking com a 20ª vitória seguida e pode neste domingo somar seu recorde exclusivo de troféus de Grand Slam com o de títulos de Masters 1000, igualando novamente a luta particular com Novak Djokovic em 37.

A expectativa por um duelo equilibrado e decidido nos detalhes se confirmou, mas o vento prejudicou demais os dois jogadores entre o final do primeiro set e o começo do terceiro, tornando muitas disputas em verdadeiras loterias. Na verdade, é elogiável a qualidade que ambos conseguiram ainda fazer lances, muitos sob pressão, diante do vendaval.

Alcaraz raramente sacou bem e isso pesou muito. Teve 2/0 no começo do jogo antes de perder quatro games seguidos, mas ainda empatou no oitavo game antes de sofrer a quebra fatal, num set em que cometeu 23 erros contra 9. Liderou sempre o segundo set a partir do quinto game, porém não conseguia confirmar as quebras obtidas. Nadal usava o máximo de spin para segurar a bola em quadra e tinha dificuldade evidente quando tentava forçar uma paralela, já que a precisão estava muito comprometida pela ventania.

O game crucial para Alcaraz foi o quinto do terceiro set, quando viu Nadal salvar três break-points com brilhantismo e o primeiro de seus voleios desconcertantes que viriam. O veterano de 35 anos já era um tenista bem mais agressivo com a melhoria do clima mas encontrava resistência ferrenha no jovem adversário, que mais uma vez lembrou o gigantesco poder defensivo do próprio Nadal. Por fim, com devolução seguida de subida à rede ao melhor estilo ‘chip-and-charge’, Rafa foi a 5/3 para liquidar em seguida, sem qualquer susto.

O duelo espanhol teve paridade nos erros (41 a 35 para Alcaraz), porém os winners foram muito favoráveis ao garoto (39 a 20). No total, foram disputados 35 break-points, uma marca expressiva para um jogo masculino de três sets.

Fritz sobe outro grande degrau
Lembro de ter alertado lá em janeiro de que Taylor Fritz vinha jogando o melhor tênis que eu já havia visto e estar enfim numa final de nível 1000 faz com que o garotão de 24 anos e 1.96m atinja um patamar definitivamente elevado na carreira.

Não teve uma atuação perfeita diante de Andrey Rublev neste sábado por conta de natural instabilidade, mas cravou um resultado muito justo depois de uma excepcional atuação nos cinco ou seis primeiros games e por se manter sólido depois que Rublev passou a jogar um tênis digno de seu currículo. O norte-americano tem todos os golpes, embora é claro que o saque faça muita diferença. O backhand seja agressivo, se vira bem na rede e a movimentação é bem satisfatória para seu tamanho.

A oportunidade neste domingo é para lá de especial. Desde que Andy Roddick ganhou Miami em 2010, apenas outros dois compatriotas conseguiram erguer Masters 1000 e de forma inesperada: Jack Sock em Paris de 2017 e John Isner em Miami de 2018. Fritz garante o mais alto ranking da carreira, o 15º, e a condição de norte-americano mais bem classificado. Um eventual título o levará ao 13º.

Ele porém possui alguns fantasmas a espantar. Em seis finais, perdeu todas na quadra dura – a maior delas o 500 de Acapulco em 2020 – e só venceu mesmo na grama de Eastbourne há quase três anos.

Final feminina decide nova número 2
O tênis feminino certamente terá uma vice-líder inédita no ranking e o nome sairá justamente da final de Indian Wells entre Iga Swiatek e Maria Sakkari. As duas já deixaram para trás Barbora Krejicikova e quem vencer terá chance de tirar ainda mais diferença para a ausente Ashleigh Barty ao longo de Miami.

As pretendentes vivem situações bem distintas e por isso o favoritismo natural cai para a polonesa, que vem do título no 1000 de Doha onde justamente ganhou pela primeira vez em quatro tentativas de Sakkari.

A vitória sobre Simona Halep, que mostrou certa limitação por um desconforto na coxa, teve como principal componente trocas longas e muito equilíbrio emocional, como destacou a própria Iga. Na sua avaliação, o crescimento na quadra dura se dá porque está atuando de forma mais agressiva, porém acima de tudo na escolha dos momentos certos para isso.

Já a grega tem um problema pessoal a resolver, uma vez que, apesar de seu tênis muito competitivo e da ascensão contínua no circuito, ainda lhe faltam títulos. Seu único troféu até hoje, em quatro finais feitas, foi o pequeno 250 de Rabat e em 2019. É verdade que fez semis importantes, como em Roland Garros, US Open e Finals do ano passado, porém seria justamente a falha mental nas rodadas realmente grandes o que atrapalha Maria.

Eis uma chance de ouro para acabar com isso e fazer jus ao número 2, já que tecnicamente a grega é uma tenista bem completa. Foi o que mostrou por exemplo na semi contra a atual campeã Paula Badosa, em que terminou com um placar acachapante de winners (28 a 6) e ainda obteve três quebras no set decisivo com devoluções oportunas.

O velho Nadal contra o novo Nadal
Por José Nilton Dalcim
18 de março de 2022 às 00:25

O esperado reencontro entre Rafael Nadal e Carlos Alcaraz se concretiza em Indian Wells. Se dez meses atrás o pupilo de Juan Carlos Ferrero era apenas uma promessa talentosa, hoje o garoto de 18 anos já é considerado o mais provável súdito de Rafa, após um salto notável de resistência, velocidade, força e mão habilidosa.

A semifinal de sábado tem tudo para ser um eletrizante duelo entre duas gerações de espanhóis que jogam de forma claramente distinta mas que possuem como máxima a determinação ferrenha de lutar por cada ponto de maneira quase irritante e são dotados de recursos variados para optarem por diferentes e inesperadas táticas. Não dá para pedir mais.

O nono duelo entre Nadal e Nick Kyrgios foi além do que eu esperava, porque o australiano conseguiu resistir mental e fisicamente por quase três horas de intensa batalha. Um quesito pode ser o suficiente para definir a tênue diferença que favoreceu o espanhol: confiança. Com pouco ritmo competitivo nesse alto nível nos últimos meses, Kyrgios desperdiçou pontos cruciais, enquanto Nadal, em seu excepcional momento na temporada, nunca se desesperou e achou pequenas soluções que foram fundamentais. De novo, ganhou tiebreak e, como dizia Boris Becker, há muito mais de nervos do que de técnica num desempate.

O próprio Rafa explicou que, depois de escapar de um início tenso de terceiro set, decidiu mudar a posição de recebimento do saque com o único objetivo de mexer com a cabeça do adversário. E deu muito certo. Apesar de ter perdido dois games de serviço, no começo do jogo e para ceder o segundo set, no geral o espanhol utilizou muito bem o primeiro saque para conter a impetuosidade de Kyrgios. E se havia algum problema com o pé esquerdo, jamais demonstrou isso, deslocando-se de maneira notável.

Além da 19ª vitória consecutiva neste início de 2022, Nadal atinge a 76ª semi de nível Masters em 124 torneios disputados, ou seja, esteve pelo menos na penúltima rodada em mais de 61% das vezes. Com 402 vitórias em Masters em 485 possíveis, a eficiência está pertinho dos 83%, recorde absoluto.

Alcaraz por sua vez teve uma tarefa dura diante do atual campeão Cameron Norrie. O britânico liderou o primeiro set por duas vezes com quebras à frente, e repetiu isso no começo da segunda série, mas o empenho do garoto espanhol foi assombroso. Além de correr atrás de bolas impossíveis e fazer sempre o canhoto suar pelos pontos, utilizou muito bem outra vez as paralelas e sua visão para encaixar curtinhas esteve apuradíssima. Totalizou 36 winners, quase dois por game.

Sem dúvida, o saque de Alcaraz foi instável e ele sabe que isso será uma falha imperdoável diante de um canhoto muito mais experiente e de golpes bem mais pesados do que Norrie. Ao menos, ele já teve a experiência de encarar o jogo tão especial de Rafa em Madri do ano passado, quando levou um passeio no saibro veloz. No jogo desta quinta-feira, Alcaraz fez uma opção curiosa de ficar bem afastado na devolução do primeiro saque e jogar quase em cima de linha para retornar o segundo. Será que funciona contra Nadal? Curioso para ver.

A rodada desta sexta-feira define os outros dois semifinalistas. Tanto Taylor Fritz como Grigor Dimitrov já estiveram na penúltima rodada de Indian Wells, mas Andrey Rublev tem no currículo dois vices de Masters. O mais inexperiente é Miomir Kecmanovic. Ele enfrenta Fritz, que além da torcida tem histórico de 2 a 0, enquanto Rublev e Dimitrov farão o quinto duelo, todos em piso duro, com empate por 2 a 2. Nas bolsas de aposta, Fritz tem ligeiro favoritismo e Dimitrov é considerado razoável ‘zebra’.

Grandes jogos e número 2 em jogo
Três das atuais top 10 e uma ex-líder do ranking fazem uma rodada das mais interessantes na semifinal feminina de Indian Wells. Campeã de 2015 mas hoje apenas 26ª do mundo, Simona Halep leva vantagem de 2 a 1 sobre Iga Swiatek, enquanto Paula Badosa se mantém na luta pelo segundo título seguido e tenta repetir a vitória de novembro sobre Maria Sakkari.

Nos jogos desta quinta-feira, Sakkari começou lenta e viu Elena Rybakina abrir 4/1, mas depois a grega calibrou as devoluções e fechou com 18 a 12 nos winners, sendo 6 a 4 nos aces. Sakkari ainda tenta o primeiro título da temporada e chega a sua terceira semi seguida.

Badosa foi bem mais dominante e voltou a ter grande atuação, desta vez barrando Veronika Kudermetova em jogo sem sustos. Apesar de sempre forçar mais o jogo, a espanhola terminou com apenas seis erros. Swiatek, Badosa e Sakkari lutam entre si pelo número 2 do ranking.