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A fronteira final
Por José Nilton Dalcim
9 de outubro de 2020 às 19:38

Roland Garros percorreu 13 dias quase tão frios como seu inusitado clima de outuno, mas a emoção maior ficou reservada para a final masculina de domingo. Como era previsível desde o sorteio da chave, Novak Djokovic e Rafael Nadal irão mesmo decidir um histórico título.

Enquanto o espanhol busca um inimaginável 13º título em 16 participações e o empate com Roger Federer na contabilidade dos Grand Slam, o sérvio pode se tornar o primeiro profissional com ao menos dois troféus em cada Slam e o único a bater Rafa numa final de Paris. Não dá para ser mais eletrizante.

Os números desse duelo são todos gigantes, de estremecer o chão: os atuais líderes do ranking irão se cruzar pela 56ª vez desde que duelaram nas quartas de Roland Garros de 2006, com 29 vitórias do sérvio. Ele também lidera em finais gerais, com 16 a 11. Há empate por 4 em finais de Slam.

Quando se trata de saibro, no entanto, Nadal dá a volta por cima: 17 a 7 no total, incluindo as três mais recentes. Ganhou 6 de 7 em Roland Garros – única derrota foi nas quartas de 2015 – e faturou as duas decisões entre eles, em 2012 e 2014. Com esse domínio, é superior nos confrontos de Slam, com 9 a 6. Não por acaso, Djokovic é quem mais derrotou Rafa em torneios de Slam, mas o inverso também acontece.

É pretensão querer imaginar o que se passa na cabeça tão experiente de jogadores de tais nível e currículo, mas minha impressão é que existe pressão muito maior sobre Nadal. O motivo parece simples: será que haverá uma nova chance tão expressiva de igualar os 20 títulos de Federer?

Essa ansiedade talvez seja menor para Djokovic. Além de estar diante do mega-campeão, para quem uma derrota por qualquer placar seria mais do que aceitável, ele tem ainda um bom tempo pela frente para colecionar troféus de Slam, dentro e fora do saibro.

Então, é razoável dizer que Nadal tem 60% do favoritismo natural, mas que Nole carrega um peso 60% mais leve.

Esforços distintos
As semifinais desta sexta-feira caminhavam para desfechos muito semelhantes, o que reforçaria a imprevisibilidade da final, mas quando o dia acabou vimos Nadal fazer esforço muito menor para derrotar Diego Schwartzman e se manter sem set perdido nas duas semanas, enquanto Djokovic se desgastou fisica e emocionalmente para conter um abusado Stefanos Tsitsipas.

Ao contrário do que eu esperava, Nadal começou defensivo, cauteloso e trocou quebras com o argentino. Mas Peque não repetia a atuação firme de Roma, com um backhand de ataque muito falho. Foi sendo engolido pelo adversário e, cada vez mais solto, Nadal enfim disparou forehands para abrir larga vantagem, além de sacar cada vez melhor. Atrapalhou-se repentinamente com 3/1 no terceiro set, mais trocas de quebra e Schwartzman reagiu. Forçou um tiebreak, em que então sua produtividade foi pífia.

Djokovic sofreu no game inicial e foi só. Muito mais sólido que o grego, precisou salvar um ou outro break-point para chegar a fácil vantagem. Sacou para acabar com a festa no 5/4 e aí tudo mudou. Até então equivocado na ideia de competir com o sérvio nas trocas da base, o grego enfim adotou postura ofensiva, arriscou tudo e de repente virou um leão em quadra.

Enquanto o sérvio se defendia como era possível, Tsitsipas ia para cima. Salvou um caminhão de break-points no quarto set, fez coisas incríveis com o backhand e conseguiu um empate improvável e merecido. Mas o esforço custou o resto de energia que havia e o grego, 11 anos mais jovem, foi quem não tinha pernas no set decisivo. De qualquer forma, exigiu muito de Nole num piso lento e certamente levou uma lição de como se administra uma partida de cinco sets, sobretudo no aspecto mental.

E mais
– Nadal e Djokovic também se aproximam de Federer em quantidade de finais de Slam. Agora Rafa tem 28, uma a mais que Djoko e apenas três atrás do suíço.
– Com 13 decisões em Paris, Nadal tem mais do que Borg (6) e Djokovic (5) juntos. O sérvio igualou Federer, Lendl e Wilander, entre os profissionais.
– O título também valerá a 100ª vitória no torneio para Nadal. Apenas Federer (em dois Slam) e três mulheres (Evert, Navratilova e Serena) já atingiram três dígitos em Slam.
– Este será o 49º duelo entre os dois principais cabeças em finais de Slam na fase profissional e a 10ª em Paris. O número 1 ganhou 25 vezes.
– Sofia Kenin busca às 10h deste sábado seu segundo troféu de Slam aos 21 anos, tentando repetir a campanha notável de Melbourne. Reencontra a polonesa Iga Swiatek, surpresa absoluta do torneio, que a venceu na chave juvenil de Paris há quatro anos.
– O título levará a norte-americana ao inédito terceiro lugar do ranking, superando Naomi Osaka. A polonesa já garantiu o 24º e tentar ir ao 17ª.
– E o tênis brasileiro concorre a mais dois títulos de Roland Garros: Bruno Soares entra em quadra ao lado do croata Mate Pavic depois da final feminina e os garotos Natan Rodrigues e Bruno Oliveira tentam repetir Guga Kuerten e Matheus Pucinelli, que também foram campeões juvenis de duplas em Paris.