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Meninas roubam a cena no US Open
Por José Nilton Dalcim
30 de agosto de 2019 às 01:13

Se a Next Gen masculina tem sofrido para arrancar grandes resultados dos mais experientes do ranking, principalmente nos Grand Slam, o circuito feminino está repleto de meninas cheias de vontade. E nada melhor do que duas pratas da casa para roubar a cena do US Open: Taylor Townsend e Coco Gauff foram os grandes destaques da quinta-feira em Nova York.

Townsend tem uma história controversa. Tida como grande promessa desde os 15 anos, não conseguia se livrar do excesso de peso e viu retirada a ajuda oficial da USTA por não entrar na considerada forma física ideal. Canhota, ela sempre se virou na base do talento e o que fez contra Simona Halep foi incrível: ao melhor estilo Martina Navratilova, sacou com slices e subiu à rede até mesmo atrás do segundo saque, colocando pressão constante na campeã de Wimbledon, que não achou um jeito de contornar a súbita mudança tática da adversária.

Taylor jamais foi uma tenista de saque-voleio, aliás nem tem um excepcional jogo de rede, mas a ousadia justificou a vitória. Terminou o jogo com 105 subidas, tendo feito apenas 16 no primeiro set mas 63 no terceiro. Não menos curioso: de seus 96 pontos na partida, 63 vieram com voleios ou com a pressão em cima de Halep e apenas 23 com erros não forçados da número 4 do mundo. Townsend enlouqueceu a torcida e analistas, caiu em lágrimas na entrevista em quadra e provou que vale a pena continuar tentando.

Na rodada noturna, Gauff voltou a brilhar, não apenas pelo tênis maduro mas pela postura profissional e jamais deslumbrada, algo difícil para quem tem apenas 15 anos. Fez um pouco de tudo. Ganhou o primeiro set de Timea Babos de forma conservadora, trabalhando cautelosamente os pontos, mas depois da reação da húngara percebeu que teria de arriscar para se antecipar e tomar mais conta dos lances. Sua média de primeiro saque beirou os 170 km/h e saiu de quadra com 83% desses pontos vencidos. Agora, nada menos que Naomi Osaka.

Masculino: o lado de cima
Os onze jogos da parte superior da chave não realizados na quarta-feira obrigarão seus vencedores a voltar à quadra nesta sexta-feira e alguns terão tarefas indigestas. O local Denis Kudla ganhou o direito de encarar o número 1 Novak Djokovic pelo segundo Slam seguido, tendo vencido apenas oito games em Wimbledon semanas atrás, e o habilidoso Daniel Evans tirou Lucas Pouille e reencontrará Roger Federer com placar de 0-8 em sets.

Stan Wawrinka se candidata a desafiar Nole nas oitavas se superar Paolo Lorenzi, que suou 4h48 para avançar no quinto set. Danill Medvedev cedeu um set, sentiu cãibras e pega outro veteraníssimo, Feliciano López, que ao menos não é de trocar muitas bolas. Claro que fica a expectativa sobre o problema no ombro esquerdo do sérvio, que passou por ressonância e não aparentou problema mais sério. Kudla não tem poder de fogo para incomodar tanto.

Jogo bem interessante envolverá David Goffin e Pablo Carreño, possíveis adversários de Federer nas oitavas, que primam por um jogo compacto na base e um bom trabalho de pernas.

Masculino: a parte inferior
Rafael Nadal nem precisou entrar em quadra e sempre fica a dúvida de quanto isso é realmente bom, ou seja, passar três dias sem competição real logo no início de um Slam. Ele vai pegar o esforçado Hyeon Chung e vislumbra John Isner, já que Marin Cilic continua em momento sofrível. Alexander Zverev manteve o padrão, já soma 10 sets e abre oportunidade para Diego Schwartzman ou até Tennys Sandgren se aventurarem por ali.

O outro quadrante está bem mais empolgante e já reserva Nick Kyrgios x Andrey Rublev e Gael Monfils x Denis Shapovalov nesta terceira rodada, mas ali no meio está também Matteo Berrettini, italiano de grande saque e que, num grupo de gente tão instável emocional ou fisicamente, pode muito bem tirar proveito.

Destaque
É excelente rever Chung em alto nível. O coreano de apenas 23 anos tem vivido tremendos altos e baixos desde que surgiu como grande sensação da nova geração, ainda em 2015. As contusões não o deixaram em paz e ele seguidamente interropeu a carreira para tratar dos mais variados problemas. Fez uma incrível semi no Australian Open do ano passado, superando até Djoko e chegando ao top 20, porém no meio do ano sucumbiu outra vez ao físico, agora panturrilha, lombar e até bolha. Deixou de jogar 11 torneios desde maio e ainda abandonou outro. Retornou agora em janeiro, mas em seguida sentiu as costas. Outra longa parada. Há poucas semanas, recomeçou em challengers. Passou o quali do US Open e terá a terceira chance de encarar Nadal. Em 2017, perdeu as duas sempre em sets diretos, mas levou Rafa ao tiebreak no saibro de Barcelona.

Para a história
– Batido por Chung, o veterano Fernando Verdasco, 35 anos, jogou a 48ª partida que foi até o quinto set, sofrendo a 23ª derrota. Pela sexta vez, levou virada tendo vencido os dois primeiros sets. Ele também ganhou outras seis após ter perdido os dois sets iniciais. Mais cruel ainda, sacou para a vitória com 5/4 no quinto set diante do coreano, fez um game tenebroso e desperdiçou um match-point no 6/5.
– Segundo a ATP, esta é a primeira vez na Era Profissional que o US Open tem três tenistas com 37 anos ou mais na terceira rodada: Federer, López e Lorenzi.

O salto de Coric e a noite dos velhinhos
Por José Nilton Dalcim
15 de março de 2018 às 20:21

Atualizado à 1h35

Três torneios, duas quartas de final e agora uma semi, com direito a duas vitórias sobre top 10. O que afinal mudou no croata Borna Coric para um 2018 tão diferente, que lhe renderá na próxima segunda-feira a primeira presença no top 40 em mais de dois anos?

Bom, antes de tudo é preciso lembrar que Coric completou 21 anos em novembro. O fato de ter chegado ao 33º lugar do ranking quando ainda era adolescente gerou uma natural cobrança. Ele fez duas finais de ATP em 2016, ganhou duas partidas de Rafa Nadal e outra de Nick Kyrgios. Mas uma cirurgia no joelho direito, feita em setembro, interrompeu sua trajetória.

Quando voltou, foi recuperando a confiança pouco a pouco. Só ganhou três jogos até chegar a Miami, quando então superou Dominic Thiem e se animou. Amargava o 79º posto do ranking ao faturar Marrakech. Derrotou em seguida Andy Murray e foi às quartas de Madri. E olha que o piso duro sempre foi seu predileto. Sobre ele, em pleno US Open, ganhou de Alexander Zverev antes de cair facilmente para o mesmo Kevin Anderson que eliminou nesta quinta-feira.

Mas voltemos à pergunta original: o que mudou em 2018? Basicamente, Coric ficou muito mais agressivo. Força mais o saque, arrisca saque-voleio, vai para winners e sabe agora aproveitar o deslocamento do adversário para avançar à rede porque está mais dentro da quadra. Não por coincidência, ele passou a trabalhar com o técnico Riccardo Piatti na preparação para 2018 e esses ingredientes me parece evidentes.

Numa entrevista em fevereiro, Coric contou: “A coisa que mais fez meu tênis crescer nestas semanas foi entender o jogo. Vimos e analisamos inúmeros vídeos. Acreditei que jogar mais perto da linha de base seria o caminho”.

Piatti não foi um grande tenista. Aos 30 anos, começou sua carreira de treinador depois de absorver o máximo dos conceitos de Nick Bollettieri. Seu primeiro grande trabalho veio com Ivan Ljubicic. Pegou o croata como 954 do ranking e o levou ao terceiro posto em 2012. Também acompanhou o final da carreira juvenil de Novak Djokovic e até hoje o sérvio lamenta a recusa do italiano em ficar com ele. Piatti levou ainda Richard Gasquet ao top 10. Seu último pupilo foi Milos Raonic e desde então ele tem se dedicado muito mais a desenvolver o tênis nas escolas.

Noite dos velhinhos
Se a tarde foi de Coric e do tênis variado e talentoso da russa Daria Kasatkina, a noite em Indian Wells coube aos veteranos. Primeiro, Venus Williams atropelou o backhand de uma mão de Carla Suárez e voltará a disputar uma semifinal em Indian Wells depois de 17 anos. Que feito. Mas encarar Kasatkina exigirá um esforço extra, porque a jovem russa sabe trocar a direção e a velocidade das bolas, uma mistura interessante contra Venus.

Por fim, Roger Federer manteve-se invicto na temporada e repetiu a vitória sobre Hyeon Chung do Australian Open, num cada vez mais curioso duelo de gerações e de estilos. O jogo não foi espetacular o tempo todo, porém marcou alguns incríveis trocas de bola de muita força e profundidade.

Federer precisou jogar muito perto da linha para conter os contraataques extraordinários do coreano, enquanto Chung muitas vezes se viu obrigado a ser agressivo para não ficar nas cordas o tempo todo. Taticamente, um jogo agradável. O placar se explica em boa parte pelos winners: 32 (sendo 12 aces) contra apenas 8.

Já com o número 1 garantido pelo menos até o final de Miami, vem aí outro garoto de 21 anos. Coric só ganhou três games de Federer no duelo de 2015 em Dubai e terá de mostrar se realmente consegue manter um padrão agressivo para não ser engolido pelo pentacampeão.

Ataque contra defesa
Por José Nilton Dalcim
24 de janeiro de 2018 às 12:11

Antagonismo total marcará a segunda semifinal masculina do Australian Open. O superexperiente e agressivo Roger Federer enfrentará a perseverança defensiva de Hyeon Chung, 15 anos mais jovem e mais de 1.080 vitórias a menos no currículo. Enquanto o suíço chega a sua 14ª semi em Melbourne, a 43ª da carreira – 11ª sem perder sets -, o coreano é o tenista de menor idade na semi de um Grand Slam desde Marin Cilic, em 2010. Contraste de estilos geralmente traz os melhores espetáculos numa quadra de tênis.

Como se previa pelas atuações anteriores, Tomas Berdych exigiu respeito e cuidado na partida desta manhã. O tcheco saiu atacando, usou com inteligência as paralelas e dominou até ter 5/3 e saque. Aí Federer usou mais slices para diminuir os erros e a altura da bola, porém ainda assim teve de salvar set-point com coragem para soltar um backhand de devolução na paralela.

O jogo continuou duro e Berdych teve outro set-point, agora no serviço do suíço, mas não evitou o tiebreak. Daí em diante, Federer acordou de vez, passou a mesclar muito melhor velocidade e efeito, colocou Berdych para correr e ficou envolvente. O tcheco não perdeu a cabeça, numa prova que está mesmo mudado, e ainda recuperou uma quebra no começo do terceiro set. Exigiu ao final das contas muita perna, precisão e inteligência tática do cabeça 2, mas cometeu o grave erro de perder a agressividade ao longo dos sets. Terminou com 22 winners contra 61 do suíço e fez menos do que deveria com o saque (56%). Desse jeito, só se vence Federer com a sorte de um dia ruim.

Momento curioso da partida, Federer discutiu com o árbitro por conta de um desafio eletrônico não mostrado e chegou a ser irônico alguns lances mais tarde, porém ao final admitiu que estava errado.

Chung por sua vez passou pela surpresa Tennys Sandgren em três sets bem disputados. O jovem coreano, que será top 30 na semana que vem, esteve perto de perder o segundo set, quando o norte-americano sacou com 5/4, mas mostrou saborosa maturidade para quem vinha da incrível vitória sobre Novak Djokovic. Também foi um bom teste os seis match-points que precisou para fechar a partida.

Para encarar Federer com chance, Chung vai precisar ser um pouco mais ousado. Fez 29 winners e cometeu 33 erros, um saldo negativo que pode custar muito caro diante de um adversário que gosta de sufocar e provavelmente irá forçar em cima do segundo serviço ainda não tão convincente. Mais do que nunca, Chung necessita assistir às vitórias de Djokovic sobre Federer em Melbourne para se inspirar.

Pouco antes da entrevista oficial, Sandgren leu um discurso para atacar a imprensa, que desde a véspera relembra passagens suas nas mídias sociais com condutas sugestivamente racistas ou de extrema-direita. Um minuto antes de seu jogo começar na TV americana, Serena Williams soltou um “mudando de canal” no Twitter.

Vale o número 1
O complemento das quartas femininas foi totalmente sem graça. Angelique Kerber despachou uma apática Madison Keys em meros 51 minutos com a chocante cena de ver o público torcendo para a norte-americana ganhar games. Logo depois, Simona Halep não tomou conhecimento de novo de Karolina Pliskova, que soltou a pérola: “Eu apenas rezo para que ela não esteja no meu lado da chave”.

O duelo de Kerber contra Halep é totalmente imprevisível e o placar geral de 4 a 4 apenas reforça isso. A romena ainda diz sentir a perna e talvez não esteja em condições de outra maratona como a que fez diante de Lauren Davis.

Halep ainda tem o peso de defender o número 1. Caso Carol Wozniacki justique seu amplo favoritismo contra a pouco experiente Elise Mertens no jogo que abre a programação na nossa madrugada, a romena perderá o posto em caso de derrota.

Para o bem do tênis feminino, claro que o ideal seria uma decisão entre Halep e Wozniacki no sábado, que valeria título de Grand Slam inédito, e tão sonhado, além da ponta do ranking. Mas Kerber terá de concordar com isso. A campeã de 2016 recuperou seu lugar no top 10, mas não sairá do 9º mesmo com eventual bi.

Diagnóstico
Rafa Nadal deverá estar recuperado dentro de três semanas e assim manteve seu calendário original, que é jogar em Acapulco antes de Indian Wells e Miami.

A ressonância magnética feita em Melbourne indicou que o problema é no músculo que liga o quadril à coxa direita, uma contusão leve, segundo comunicado divulgado pela assessoria do espanhol. Ele fará fisioterapia para acabar com a inflamação e pretende estar de volta aos treinos em duas semanas.