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Djoko reforça favoritismo com chave dura de Nadal
Por José Nilton Dalcim
25 de junho de 2022 às 09:02

Novak Djokovic entra como o favorito natural para este Wimbledon, isso não se discute. Atual tricampeão e dono de mais três títulos nas últimas dez edições do mais tradicinal e importante torneio do circuito, invicto portanto por 21 jogos, pode encarar uma série de bons sacadores, o que dificulta mas nunca foi um obstáculo para sua devolução primorosa. Certamente, o mais perigoso tende a ser Reilly Opelka, mas o gigante de bons golpes de base anda mal das pernas.

A expectiva por duelo contra a sensação Carlos Alcaraz diminuiu muito para mim ao constatar o garoto espanhol jogando a exibição com proteção no cotovelo, uma das regiões diretamente impactadas pelo golpe torto que pega fora do centro da quadra, tão típico da grama. Se não for ele, surgem Jannik Sinner ou o velho John Isner para ocupar lugar nas quartas, com chance distante porém nunca desprezível de Andy Murray estar por lá ou aparecer uma novidade como Oscar Otte.

Semi do ano passado, quando tirou Roger Federer, e campeão em Halle no último domingo, Hubert Hurkacz surge como nome forte no segundo quadrante da chave de cima, um setor sem grandes estrelas na grama. Ele começa contra o espanhol Alejandro Davidovich, precisa de cuidados contra Jiri Vesely e teria Tommy Paul em seguida antes de Cameron Norrie ou Grigor Dimitrov. O outro quadrante é muito fraco, com os saibristas Casper Ruud e Sebastian Baez, o que deixa Pablo Carreño e Frances Tiafoe mais cotados. Daí que apostar no cazaque Alejandro Bublik não seria loucura.

De volta a Wimbledon, onde não joga desde 2019 e fez última final em 2011, Rafael Nadal tem mais ‘senões’ no caminho, entre eles Sam Querrey na segunda rodada e Marin Cilic nas oitavas. O reencontro com Felix Auger-Aliassime me parece ter boa chance de se repetir e, se o canadense levou o espanhol a cinco sets no saibro de Paris, na grama tende a ser muito mais perigoso, até porque nunca sacou tão bem, arma essencial na vitória sobre Rafa na exibição desta sexta-feira. Felix no entanto tem uma estreia delicadíssima contra o saque-voleio ‘vintage’ e incessante de Maxime Cressy e ainda vê Daniel Evans e Taylor Fritz em sua rota. Por isso precisará remar muito antes das quartas.

Estilo perfeito para a grama como já cansou de provar, Matteo Berrettini é também sério concorrente na chave de baixo. Atual finalista e bicampeão em Queen’s no domingo, tem ainda por cima trajetória muito favorável, com algum trabalho previsto se Jenson Brooksby jogar muito e se Alex de Minaur devolver mais do que o normal. Não é nada impossível que chegue bem descansado para quartas e aí pode vir Stefanos Tsitsipas. Mas o grego deve encarar Filip Krajinovic ou Nick Kyrgios na terceira rodada e Roberto Bautista em seguida. Terá de subir o nível que apresentou nos três torneios de grama que fez.

Thiago Monteiro jogará Wimbledon pela quarta vez e não pode se queixar da estreia diante do espanhol Jaume Munar, ainda que tenha perdido dele em challenger no saibro dias atrás numa maratona de 3h30. O também canhoto Cameron Norrie seria o adversário seguinte e, quem sabe, chegue em Grigor Dimitrov.

No post de domingo, falarei das meninas

Hora de sonhar alto
Por José Nilton Dalcim
19 de junho de 2022 às 20:13

Beatriz Haddad Maia e sua canhota poderosa já registraram seu lugar entre os maiores tenistas brasileiros da Era Profissional. Tem agora os mesmos dois títulos de WTA de Niege Dias e Teliana Pereira, soma quatro de duplas como Cláudia Monteiro e só perde por um de Patrícia Medrado e atinge o maior ranking entre as meninas, igualando Maria Esther Bueno. Claro que qualquer comparação com Estherzinha é fútil, porém sempre uma referência agradável.

O extremamente animador é que Bia está em franca ascensão. Melhorou muito o físico, mostra golpes bem agressivos e compactos, a confiança cresce a cada semana e grande vitória. A campanha em Birmingham incluiu vitórias sobre duas campeãs de Wimbledon, a de Nottingham marcou outro triunfo em cima de uma top 5. O duelo de força pura e pernas firmes contra Simona Halep encheu os olhos. Fazia tempo que eu não ficava tão nervoso.

Grama obviamente não pode ser o piso predileto, porque praticamente inexiste no Brasil e mesmo em nível internacional está limitada a três ou quatro semanas de competições, então há pouco sentido em se preparar especificamente para isso. No entanto, certos estilos combinam e se adaptam bem com a superfície natural do tênis e esse é o caso desta paulistana de 26 anos e 1,85m. Como relembrou dias atrás, Petra Kvitova sempre foi seu espelho. Que continue assim.

Falta agora campanha de peso num Grand Slam, categoria em que soma seis vitórias porém nunca passou da segunda rodada, incluindo Wimbledon de 2017 e 2019. Depois de tanto sucesso nestas duas últimas semanas, cresce a expectativa não apenas aqui, mas também lá fora. Há muitos analistas falando que vale ficar de olho nela, e concordo plenamente. É hora de sonhar alto.

Como cabeça 24 do Slam londrino, Bia evita cruzar numa eventual terceira rodada com uma das oito principais favoritas, mas a rigor isso não facilita muita coisa porque entre 9 e 16 estão nomes de muito respeito no piso, como Emma Raducanu, Coco Gauff, Jelena Ostapenko, Leylah Fernandez e Belinda Bencic. Abre no entanto chance de cruzar com Garbiñe Muguruza, a quem venceu lá mesmo.

Só precisamos torcer para que venha um sorteio favorável para as duas primeiras partidas porque o equilibrado e imprevisível circuito feminino possui jogadoras bem perigosas que estarão soltas na chave, como Shuai Zhang, Alison van Uytvanck, Clara Tauson e Bianca Andreescu para ficar em poucos exemplos.

Por isso, fica a inevitável pergunta: Bia não deveria dar uma pausa e pular Eastbourne? Além de ter uma estreia duríssima contra Kaia Kanepi, aquela que a venceu batendo tudo em Roland Garros, existe sempre o risco de uma contusão ou sequelas das inevitáveis dores no quadril e coxa que a grama provoca a cada jogo. Se a ideia é manter o embalo e não deixar a parceira na mão, quem sabe entrar somente nas duplas. Bia afirmou neste domingo que não é momento de descanso. Resta respeitar e torcer.

E mais

  • Ainda que os olhos estejam sobre Djokovic e Nadal, Wimbledon ganhou corpo com os resultados dos preparatórios masculinos para a grama. Matteo Berrettini voltou totalmente em forma – e acho que ainda pode jogar melhor -, Hubert Hurkacz fez uma notável campanha em Halle jogando um tênis extremamente competitivo e Nick Kyrgios se mostrou menos fanfarrista e mais focado, o que o torna sempre um grande perigo nesse piso.
  • A decepção por outro lado fica ainda com Stefanos Tsitsipas, ainda que o grego tenha perdido para gente grande como Kyrgios e Andy Murray. Alguém tão versátil, com backhand simples e saque respeitável, tem que fazer mais na grama.
  • Berrettini ganhou quatro de cinco finais que já disputou sobre a grama, com única derrota na final de Wimbledon do ano passado. Hurkacz ergueu o quinto troféu sem jamais ser vice, feito que iguala Alcaraz e Enqvist e fica atrás só de Gulbis e Klizan.
  • Daniil Medvedev, é bom lembrar, perdeu as cinco finais que disputou desde o título do US Open e agora tem 13-12 na carreira.
  • Oscar Otte fez duas semifinais, voleia muito e foi ótima surpresa. Nada bom cruzar com ele nas primeiras rodadas de Wimbledon. Aliás, também estarão soltos na chave Kyrgios, Murray, Bublik, Ivashka, Vesely, Gasquet e Paire.
  • Ótimas atuações de Ons Jabeur em Berlim. Sobe para o terceiro lugar do ranking e pode torcer agora para ficar bem longe de Iga Swiatek na chave. Bencic se machucou e, caso se recupere, é outra que pode sonhar grande. Raducanu, a grande estrela britânica, não jogará Eastbourne e corre contra o tempo para estar inteira até Wimbledon.
Sexta-feira mágica na Caixa
Por José Nilton Dalcim
5 de maio de 2022 às 18:52

O aguardadíssimo reencontro entre Rafael Nadal e Carlos Alcaraz coroa uma sexta-feira do mais alto gabarito nas quartas de final do Masters 1000 de Madri. Nada menos que sete top 10 estarão em quadra, seis deles com no máximo 25 anos, além é claro dos dois maiores ganhadores de Masters da história. Será que existem favoritos?

Com certeza. A começar pelo próprio Nadal. Ainda que tenha ficado por quatro vezes a um ponto da derrota para o valente David Goffin, o rei do saibro adorou essa extrema dificuldade de 3h09 e garante que isso o ajudou tanto na confiança como no apuro físico. Esteve várias vezes contra a parede. Começou o jogo com quebra atrás, mas tomou o domínio imaginado com distribuição muito firme de bolas e deveria ter completado a vitória em dois sets.

Depois de ter evitado dois match-points, Goffin mudou sua postura e passou a jogar de forma bem mais agressiva, pegando bola na subida para ganhar potência e diminuir o tempo do adversário. Fez um ótimo terceiro set, evitando os dois únicos break-points de toda a série logo no game inicial. E teve toda chance do mundo no tiebreak, principalmente no segundo match-point, quando deixou na rede um forehand de ataque bem fácil.

Inspirado na façanha do Real Madrid na véspera, Rafa colocou todo o coração em quadra, salvou mais dois match-points com curtinhas desconcertantes e por fim saiu vitorioso. Jamais perdeu um tiebreak desde que Madri mudou para o saibro, em 2009, totalizando agora 10.

Quem imagina que isso tudo irá gerar grande desgaste, fica certamente surpreso quando Nadal diz que foi excelente ter passado por todo esse sufoco. “Preciso de dias como este para entrar em forma mais rapidamente”, atestou.

Em sua 99ª presença nas quartas de um Masters 1000, ele será desafiado outra vez pela juventude, potência e variação de Alcaraz. Como presente pelos 19 anos completados nesta quinta, ele passou pelo também canhoto Cameron Norrie, mas sem brilhar tanto. “Estou ansioso pela terceira chance”, afirmou ele, que há um ano perdeu para Nadal lá mesmo em Madri em sets rápidos e poucas semanas trás fez um duelo eletrizante na semi de Indian Wells.

Frustrações
Madri deveria ter tido seu primeiro grande momento nesta quinta-feira com a reedição do duelo entre Djokovic e Andy Murray, mas o escocês frustrou todo mundo ao contrair uma intoxicação alimentar e nem entrar em quadra. O número 1 avançou e talvez essa falta de jogo não seja uma boa notícia, já que vai encarar agora o peso pesado Hubert Hurkacz. É bem verdade que Nole venceu todos os três duelos entre eles, mas o polonês deu enorme trabalho em Bercy no ano passado e tirou um set do sérvio em Wimbledon de 2019.

Os italianos Jannik Sinner e Lorenzo Musetti também decepcionaram. Esperava-se uma batalha entre Sinner e Felix Aliassime, mas o pupilo de Toni Nadal foi absoluto. vencendo 90% dos pontos em que acertou o primeiro saque. Aliás, o canadense havia atropelado Cristian Garin na rodada anterior e assim coloca pulga atrás da orelha de Alexander Zverev, que se favoreceu do abandono de Musetti depois de 10 games. O alemão tem 4 a 2 no histórico, mas Aliassime venceu 2 dos 3 últimos, o que diminui a cotação de Zverev para quem sabe 60%.

Por fim, Stefanos Tsitsipas justificou favoritismo com atuação muito firme diante de Grigor Dimitrov, repetindo a recente vitória em Barcelona, e cruzará pela nona vez com Andrey Rublev, com quatro vitórias para cada lado; “Vou ter que me concentrar no meu jogo defensivo um pouco mais”, avaliou o grego. Os dois aliás já ergueram troféus no saibro deste ano. Tsitsipas foi bi em Monte Carlo e Rublev venceu Belgrado com ‘pneu’ em Djokovic. Este sim é um jogo sem prognóstico.

Título gigante
Embora Ons Jabeur tenha currículo mais vistoso do que Jessica Pegula, as duas finalistas de Madri têm um desafio em comum: ganhar o segundo título da carreira e, de longe, o mais importante deles. Tenho a impressão que dominar a ansiedade será a chave desta curiosa decisão.

A tunisiana já figura no top 10 graças à inegável consistência de suas campanhas, porém lhe falta um troféu de peso, depois de ter perdido quatro das cinco finais que já participou, a maior delas uma de nível 500 em Chicago. É dono de um tênis gostoso de se assistir, com variações constantes. Fica apenas a dever na parte emocional.

Pegula, todo mundo sabe, é de família muito rica e isso merece ser encarado como um elogio a seu grande esforço de arrumar um lugar de respeito no circuito. Esta será apenas sua quarta final, a primeira no saibro. Sem abandonar os golpes mais retos, que no final das contas funcionam nas condições mais velozes de Madri, pode enfim chegar ao top 10 em caso de conquista do título.

Para colocar o molho apropriado, o duelo direto entre elas está empatado por 2 a 2.