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Vale tudo
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2018 às 12:23

A primeira e talvez maior história deste Australian Open será escrita às 6h30 de sábado. A final feminina envolverá duas tenistas com apenas um ano de diferença, que estarão na maior luta de suas carreiras: erguer enfim um troféu de Grand Slam após várias frustrações e cobranças. Simona Halep ou Caroline Wozniacki? Uma irá realizar um sonho, a outra permanecerá no pesadelo. Bem menos importante, o jogo também vale a liderança do ranking.

Guerreira nata diante de suas limitações de força, Halep fez um duelo épico contra Angelique Kerber nesta madrugada. Abriu 5/0 e depois chegou a ter 6/3 e 3/1 com a paciência de esperar a canhota alemã ditar o ritmo do jogo, para o bem ou para o mal. A campeã de 2016 enfim se achou e levou a um épico terceiro set, onde aconteceu de tudo. Halep teve 5/3 e saque, perdeu dois match-points no game seguinte e levou virada para 6/5 e desta vez dois match-points para Kerber. Mas incrivelmente achou forças para reagir e vencer por 9/7. Esforço memorável das duas.

A romena prometeu que não iria se render depois da terrível derrota na final de Roland Garros, em que deixou escapar 3/0 no segundo set e 3/1 no terceiro set diante de Jelena Ostapenko. Sua primeira chance, também em Paris de 2014, foi menor diante de Maria Sharapova.

Wozniacki mostrou alguma tensão na semi diante da pouco experiente Elise Mertens e são justamente os nervos que geralmente dificultam as coisas para a vice do US Open de 2009 e 2014, que chegou a cair para 74º do ranking em agosto de 2016 e agora está com o pé na porta para reassumir a ponta.

Talvez, Halep mereça um pouquinho mais. Torceu o tornozelo ainda na estreia, quando salvou três match-points, e sobreviveu a maratona de 3h45 diante de Lauren Davis, sem falar no duelo tão duro contra Kerber que exigiu o máximo de poder mental. Wozniacki também fez mágica ao sair de 1/5 no terceiro set contra Jana Fett. Sem dúvida, o título e o número 1 estarão em boas mãos.

Final e número 3
Marin Cilic por sua vez confirmou com relativa facilidade sua terceira diferente final de Grand Slam e a segunda nos últimos três eventos disputados. É um currículo muito respeitável. O campeão do US Open de 2014 e finalista de Wimbledon no ano passado será também o número 3 do ranking na segunda-feira, seu recorde pessoal.

Kyle Edmund só deu trabalho por um set. Ele até começou bem a partida e teve dois break-points, mas rapidamente passou a mostrar um backhand frágil e acabou indo ao vestiário para atendimento médico ao final do set. Sua movimentação era ainda pior do que o normal e deu sinal de abandono, mas uma discussão com o árbitro lhe carregou de tanto ânimo que acabou fazendo um segundo set consistente ainda que jamais ameaçasse para valer o saque do croata.

A estatística mostra que Cilic nem precisou fazer seu melhor. Disparou 11 aces, mas acertou apenas 56% do primeiro saque. Lá do fundo, foram 20 winners e 29 erros não forçados, o que está longe de ser um fenômeno. O importante é ter economizado energia e se mostrar fisicamente inteiro, bem diferente da frustrante final de Wimbledon. Certamente torcerá agora para dar Hyeon Chung na outra semifinal, já que perdeu 8 de 9 para Federer e ganhou todas as três frente o sul-coreano.

A sexta-feira
– Federer já perdeu quatro jogos de Slam para tenistas de ranking inferior ao 58º atual de Chung, mas desde 2004 só aconteceu uma vez (Stakhovsky em Wimbledon-2013).
– A última vez que um Australian Open não teve qualquer representante do Big 4 foi com Safin-Hewitt de 2005.
– A diferença de idade de 14 anos e 284 dias é a quarta maior entre semifinalistas de Slam na Era Profissional.
– Federer pode se tornar o tenista com mais finais na Austrália (7) e o terceiro mais velho desde 1972. E aumentar seu total de Slam para 30.
– Das 13 vezes que Federer perdeu uma semi de Slam, sete aconteceram em Melbourne (Djokovic por três vezes, Nadal em duas, Murray e Safin).
– Suíço tenta atingir sua sexta final de Slam sem perder sets. Ele ganhou dois Slam invicto: AusOpen-2007 e Wimbledon-2017).
– Chung tenta se tornar terceiro asiático na final de um Slam, repetindo Na Li (dois títulos) e Kei Nishikori.
– Coreano pode ser primeiro jogador a debutar numa final profissional diretamente num Slam desde Tsonga em 2008. Hyung-Taik Lee é único coreano finalista de ATP até hoje.
– Este é apenas seu oitavo torneio de Slam. Se atingir a final, repete o feito de Sampras no US Open de 1990
– Chung venceu três top 20 neste início de temporada: Isner em Auckland, Zverev e Djokovic em Melbourne. Ele já garantiu o 29º posto, chegará a 21º se derrotar Federer e ao top 10 se for campeão.
– O tênis brasileiro pode sonhar com uma final de duplas mistas no Australian Open, mas com um de cada lado. Bruno Soares reativou a parceria com Ekaterina Makarova e tem favoritismo para decidir o título. Marcelo Demoliner se juntou a Maria Jose Martinez. Ambos disputam semi na manhã desta sexta-feira. Vale a torcida.

Espelho, espelho meu
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2018 às 13:31

Hyeon Chung cresceu e ainda treina pensando em atingir o mesmo nível de Novak Djokovic. Ainda que tenha menor potência nos golpes, usa um tênis sólido na base com enorme elasticidade para alcançar bolas incríveis e executar contra-ataques mágicos. Num dia em que muita coisa deu errado, Nole experimentou do próprio veneno, levou inúmeras bolas desconcertantes e se rendeu à aplicação ferrenha do sul-coreano de 21 anos e mesmos 1,88m. Foi como duelar contra um espelho.

O cotovelo voltou a incomodar Djokovic e o levou a cometer duplas faltas ingratas, tanto no tenebroso início de partida como no tiebreak tão importante do primeiro set. Guerreiro, Nole ainda lutou com todas suas forças, mesclando táticas, e foi graças a isso que vimos as melhores qualidades de Chung. Mesmo deixando escapar vantagens e vacilando em momentos cruciais, o sul-coreano cobriu a quadra ao melhor estilo Djokovic, fez escolhas incrivelmente acertadas em pontos de pressão e exigência física. Escondeu emoção o quanto pôde, mas não aguentou e imitou o ídolo ao pedir aplauso à torcida após mais um de seus lances geniais da noite.

Vindo de um país de pouca tradição no tênis, Chung treinou três anos na Flórida e foi eleito o novato do ano em 2015. Mas seu tênis carecia de peso nos golpes. Para piorar, sofreu uma contusão abdominal que atrapalhou todo seu segundo semestre de 2016 e no ano passado precisou jogar challengers antes de enfim entrar para o top 50. Sofreu mais duas contusões (tornozelo e outra vez abdômen) mas mostrou estar recuperado ao conquistar o Next Gen, em novembro.

Para manter seu histórico de grandes surpresas, o Australian Open deste ano também coloca luz sobre Tennys Sandgren, norte-americano de 26 anos e 97º do ranking que só tem três títulos de challengers na carreira e ousou eliminar Stan Wawrinka e Dominic Thiem num misto de jogo agressivo, ótimo físico e sangue frio. Com 1,88m, se movimenta bem e usa tudo da quadra dura. Há duas semanas, deu muito trabalho a Chung na segunda rodada de Auckland e assim se projeta um duelo bem interessante nas quartas de final.

Importante salientar que o curioso nome de Sandgren não tem nada a ver com o esporte, nem com Tennessee, onde nasceu, mas sim quase uma enorme coincidência: é o nome de seu avô, que era sueco de nascimento e jamais pegou uma raquete na mão.

Enquanto isso, Federer aproveitou para treinar à luz do dia. Não que o húngaro Marton Fucsovics seja um tenista ruim. Até fez ótimos ralis no segundo set, mas sequer conseguiu um break-point ao longo da partida em que o suíço foi sempre para cima. Divertiu-se acima de tudo, como no lance em que defendeu três smashes. Ele se torna assim o tenista de mais idade a ir às quartas da Austrália em 41 anos e de um Slam, em quase 27.

Agora, vem Tomas Berdych, que atropelou também Fabio Fognini e assim merece todo o respeito pelo desempenho que teve até agora em Melbourne. Há um ano atrás, levou uma aula tão desconcertante do suíço que saiu da quadra atordoado, porém o tcheco parece melhor de pernas, está menos apressado e se aventura mais à rede. Não vence Federer desde Dubai de 2013.

O complemento do quadro de quartas de final femininas é muito promissor. Campeã de 2016, Angelique Kerber é definitivamente outra desde o início desta temporada, com a confiança restaurada. Precisou de toda paciência para achar soluções e barrar o estilo cheio de efeitos malucos de Su-Wei Hsieh, algo que provavelmente não teria acontecido nos últimos meses. Seu desafio agora será ainda maior, diante de uma inspirada Madison Keys, que disparou nada menos que 32 winners nos 17 games em que não tomou conhecimento de Caroline Garcia. Mais tarde, Keys confessou que precisou de tempo para digerir a péssima atuação na final do US Open.

A outra luta por vaga na semi tem todos os ingredientes: os estilos antagônicos de Simona Halep e Karolina Pliskova, o sonho de um título de Slam e a briga direta pelo número 1 (que ainda inclui Carol Wozniacki e Elina Svitolina). A romena fez um jogo sem sustos contra Naomi Osaka e a tcheca precisou virar contra Barbora Strycova em duelo que terminou na madrugada local e trouxe para a quadra a rivalidade pessoal das compatriotas.

A terça-feira
– Nadal e Cilic se enfrentam pela sétima vez. O croata só venceu uma, em 2009, e desde então só levou um de 12 sets. Espanhol tenta 27ª semi de Slam, que será a quinta melhor marca. Das 6 derrotas que Rafa sofreu nas quartas de um Slam, 4 foram em Melbourne.
– Dimitrov ganhou os dois duelos contra Edmund, porém sempre jogos duros e na quadra dura. De longe, o AusOpen é o melhor Slam do búlgaro. Edmund pode ser sexto britânico numa semi de Slam desde 1968 e a vitória o levará ao top 30.
– Svitolina pega Mertens, 36ª e uma surpresa no torneio. Ucraniana ganhou único duelo. Nenhuma delas perdeu jogo em 2018, vindo de títulos em Brisbane e Hobart.
– Wozniacki tem 5-2 nos duelos diretos com Súarez, mas a espanhola ganhou o mais recente, em Madri. Espanhola tem sexta chance de enfim fazer semi de Slam e chegou ao torneio com longa série de derrotas. Carol foi quartas em Melbourne seis anos atrás.
– Marcelo Melo e polonês Lukasz Kubot jogam quartas com amplo favoritismo sobre McLachlan e Struff. Mineiro busca segunda semi de duplas na Austrália.