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O grande desafio
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2019 às 19:57

Roger Federer pode estar diante da maior façanha de sua carreira; Se quiser recuperar o troféu de Wimbledon e erguê-lo por uma impensável nona vez, terá muito provavelmente de derrotar Rafael Nadal e Novak Djokovic. E isso parece especialmente difícil porque tanto o espanhol como o sérvio jogaram até aqui um tênis superior ao do próprio suíço.

Adversário de sexta-feira, num reencontro que não acontecia na Quadra Central desde as três finais consecutivas de 2006 a 2008, Nadal está jogando um tênis tão exuberante que Federer o encheu de elogios. Reconheceu antes de tudo que o espanhol é um tenista muito superior ao de 11 anos atrás e que está longe de ser apenas um jogador de saibro.

Federer no entanto fez seus três melhores sets no torneio diante de Kei Nishikori. Surpreendido no começo por um tênis consistente do japonês, optou por bater mais o backhand e atacar as devoluções. A virada veio quase com naturalidade, ainda que ele tenha desperdiçado muitos break-points por vezes exagerando na força com que batia na bola. Fez um lance defensivo de incrível qualidade, cruzando a quadra de uma ponta à outra para obter a passada de backhand no contrapé a 150 km/h. Os voleios… bem, os voleios do suíço dispensam adjetivos.

O backhand batido e as devoluções agressivas serão chave diante de Nadal. O espanhol no entanto está sacando demais e contra Sam Querrey incluiu mais uma variação de sucesso, com muitos serviços sobre o corpo do grandalhão. Como se esperava, o norte-americano deu trabalho e endureceu o primeiro set, mas ficou difícil viver quase exclusivamente do primeiro saque e pouco a pouco foi dominado pelo espanhol. Voleios curtos, slices e passadas milimétricas complementaram outra atuação vistosa do número 2, com nada menos do que 42 winners.

Não resta dúvida de que o 40º capítulo do ‘Fedal’, e o segundo seguido de Grand Slam, tende a roubar todas as cenas da semifinal de sexta-feira, ainda mais porque parece haver pequeno favoritismo de um lado ou de outro. No entanto, Djokovic e Roberto Bautista também podem dar um belo espetáculo, principalmente se o espanhol se livrar com rapidez do nervosismo natural da inédita presença numa penúltima rodada de Slam e se lembrar das duas vitórias obtidas em 2019 sobre o número 1.

Finalista em cinco das últimas oito edições de Wimbledon, período em que ergueu seus quatro troféus, Djokovic levou um pequeno susto com o grande começo de partida de David Goffin. Solto, leve e determinado, o belga desceu o braço, apertou todos os serviços do sérvio até obter a quebra, abrir 4/3 e 30-0. Aí virou abóbora. Passou 10 games em quadra totalmente perdido,  incapaz de fazer frente ao jogo cada vez mais acelerado do líder do ranking. Djoko atropelou o finalista de Halle dando-se ao luxo de desacelerar no terceiro set.

Bautista joga diferente. Não força tanto o saque e procura sempre um percentual alto para manter o adversário sob pressão. Bate bem mais reto na bola, o que na grama funciona bem, e fica pertinho da linha na procura dos contragolpes. Tem surpreendido em Wimbledon com idas mais frequentes à rede, média superior a 20 por jogo. O duelo contra Guido Pella foi bem divertido, os dois muito empenhados o tempo todo, games longos e chances para os dois lados. Prevaleceu o oportunismo do espanhol, que converteu 4 de 16 break-points, salvando-se em 11 de 13 chances que cedeu.

Em que pese os resultados de Doha e de Miami – houve outra vitória do espanhol nos 10 confrontos, na veloz Xangai em 2016 -, o favoritismo é todo de Djokovic porque possuiu duas grandes habilidades essenciais sobre a grama: saque e devolução.

E mais
– É a 13ª vez que o Big 3 domina as semis de um Slam e a segunda seguida. Antes disso, só haviam se reunido em Roland Garros de 2012.
– Federer se torna primeiro homem na história com 100 vitórias num mesmo Slam e assume o recorde de mais vitórias sobre a grama da Era Aberta, com 186. É ainda o mais velho semi de Slam desde Connors no US Open de 1991, quando tinha 39 anos.
– Djoko iguala as 9 semis de Becker em Wimbledon e chega a 70 vitórias no torneio, que passa a ser seu Slam de maior sucesso (tem 69 no US Open ainda a ser disputado).
– Nadal soma agora 32 semis de Slam e assim o Big 3 pontua a lista (Federer tem 45 e Djoko, 36). Os três também são os únicos a ter pelo menos 50 vitórias em cada Slam.
– É a primeira vez na história de Wimbledon que dois espanhóis estão na semi.
– Bautista retornará a seu recorde pessoal do 13º posto. Se for à final, entrará no top 10.
– Magnífica vitória de Bruno Soares e Nicole Melichar (que jogou muito!) sobre Andy Murray e Serena Williams. Cabeças 1, eles avançaram para as quartas. O escocês sai de certa forma decepcionado com as poucas vitórias com Pierre Herbert e Serena.
– Semis femininas começam às 9h com Elina Svitolina diante de Simona Halep, seguindo-se Serena contra Barbora Strycova. A aposta lógica é Halep x Serena na final de sábado. Seria a primeira da romena no Club e a 11ª da heptacampeã.

À espera de adrenalina
Por José Nilton Dalcim
9 de julho de 2019 às 19:18

É bem verdade que cada um dos Big 3 já teve seu jogo mais apertado neste Wimbledon, deixando um set no caminho, mas aquela emoção mesmo ainda não veio. Ao encarar nas quartas de final adversários experientes e ambiciosos, quem sabe a adrenalina suba de vez.

Fato curioso, tanto David Goffin, como Kei Nishikori e Sam Querrey ganharam o duelo mais recente que fizeram diante de seus oponentes desta quarta-feira, o que coloca um molho adicional. Possuem também estilos bem diferentes, para agradar todos os gostos.

Vamos a um rápido resumo das quartas masculinas,que começam às 9h:

Djokovic x Goffin – Belga surpreende na grama desde Halle. Apesar da falta de potência nos golpes, se mexe muito bem. Tem usado slices e voleios com frequência. Tenta pela quarta vez fazer sua primeira semi de Slam, enquanto sérvio busca a 36ª. Djoko tem 5-1 nos confrontos, com única derrota no lento saibro de Monte Carlo.

Federer x Nishikori – Japonês é muito forte nos contragolpes, joga perto da linha e pega tudo na subida, acelerando bem o jogo. Para surpreender o suíço no Finals do ano passado, também foi bem agressivo pelas paralelas.  Federer lidera por 7-3 e 1-0 na grama e busca a histórica 100ª vitória em Wimbledon.

Nadal x Querrey – Norte-americano tem um estilo moderno, com aposta no saque mas solidez nos golpes de base. Usa bem o slice e se vira na rede. Já fez semi em Wimbledon há dois anos, quando bateu Murray. Espanhol ganhou 4 dos 5 duelos, com única derrota em Acapulco-2017, e tenta 32ª quartas em Slam e sétima em Wimbledon.

Bautista x Pella – Os dois tiraram cabeças de chave na caminhada e buscam inédita semi de Slam. Com golpes retos, espanhol ainda não perdeu sets. Canhoto argentino tirou Anderson e Raonic com competência nas devoluções e passadas. Bautista venceu os 2 duelos entre eles e já ganhou um ATP na grama.

E mais
– O mais jovem quadrifinalista da chave masculina é Goffin, de 28 anos. Cinco são ‘trintões’: o Big 3 mais Bautista e Querrey.
– A única vez que o Big 3 chegou na semi de Wimbledon foi em 2007. No geral, isso aconteceu 12 vezes em Slam e pode ser a segunda seguida.
– Esta é a quinta presença em quartas de Slam consecutiva de Nishikori. Em 3 de 4, ele perdeu do campeão.
– Bautista e Pella fazem primeiro duelo de quartas no torneio em que não há um top 20 desde 2013. O espanhol ficou 6h em quadra neste Wimbledon, a metade do argentino.

Viradas marcam quartas femininas
O que não faltaram foram emoções nas quartas de final femininas de Wimbledon desta terça-feira e todas as vencedoras tiveram de lutar com placar adverso e manter a cabeça fria.

Simona Halep e Elina Svitolina tiveram momentos difíceis. A romena chegou a estar a um passo do 1/5 no primeiro set, mas aí iniciou reação em cima de Shuai Zheng. A ucraniana, que havia perdido as quatro tentativas anteriores de ir a uma semi de Slam, viu Karolina Muchova abrir 5/2 com um tênis exuberante para então perder o ritmo. O jogo foi recheado de belos lances junto à rede.

Serena correu menores riscos, mas depois de vencer o primeiro set Alison Riske cresceu e abriu a série decisiva com quebra. Tudo parecia tenso e indefinido até o 3/3. Incrível mesmo foi o desmoronamento emocional de Johanna Konta. A britânica fez 4/1, permitiu empate e depois liderou o tiebreak. A partir daí, Barbora Strycova atropelou. Konta saiu de quadra com 34 erros diante de 9.

Halep e Svitolina já admitem um duelo sem favoritas na quinta-feira, ainda que a ucraniana tenha 4-3 no histórico. Também em semi inédita na carreira aos 33 anos, Strycova perdeu os três jogos diante de Serena sem ganhar set, mas pode dar trabalho se jogar como franco-atiradora.

Brilho argentino em dia de Big 3
Por José Nilton Dalcim
8 de julho de 2019 às 19:29

Como era esperado, o Big 3 avançou às quartas de final de Wimbledon. O que estava um tanto fora das previsões foi a facilidade com que Novak Djokovic, Rafael Nadal e Roger Federer derrubaram seus adversários. Não fossem alguns momentos de extraordinária capacidade técnica, teria beirada à monotonia.

O garoto Ugo Humbert não sacou nada, ficou preso ao fundo de quadra e aí é praticamente impossível ganhar de Nole, que deu uma aula de como mudar a direção da bola sendo ofensivo ao mesmo tempo. João Sousa tentou de tudo, mas quem sacou, voleou e deu deixada com perfeição foi Rafa, extremamente ágil. Matteo Berrettini decepcionou, e talvez só possamos desculpá-lo pela maratona de 4h30 de sábado. No mais, mostrou backhand pífio e saque fora de tom, sendo engolido pela velocidade e elegância daquele senhor de quase 38 anos.

Então quem brilhou mesmo na chave masculina nesta segunda-feira foi o saibrista Guido Pella. Venceu seu terceiro jogo no quinto set em uma semana e derrubou outro experiente sacador e também vice de Wimbledon, Milos Raonic. A façanha se mostrou ainda maior do que a vitória sobre Kevin Anderson, porque o canadense ganhou os dois primeiros sets e o quarto chegou ao tiebreak.

Canhoto de 29 anos, Pella chegou a Wimbledon com meras quatro vitórias na carreira sobre a grama, tendo perdido na estreia dos preparativos de Halle e Eastbourne. As armas mostradas foram a capacidade de ler muito bem o saque, se mexer com fluidez pela quadra e ter paciência para achar a passada ideal. Pella talvez seja a prova definitiva de que as condições gerais em Wimbledon estão mais lentas, o que não tira um milímetro do seu mérito.

O Big 3 continua favorito para ir à semi, embora há de se respeitar os adversários. Djokovic pega David Goffin, outro que se achou na grama e faz das pernas seu forte. Quem vencer, cruzará com Pella ou Roberto Bautista, que fazem o duelo imprevisto das quartas. O espanhol nunca foi tão longe no piso, está num momento muito confiante da carreira. Nunca é demais lembrar que venceu Djoko duas vezes em 2019.

Nadal por sua vez encara a experiência de Sam Querrey, sacador com bom jogo de base e semi de Wimbledon dois anos atrás. É perigoso, sem dúvida. Federer reencontra Kei Nishikori, que tem devolução e contragolpe suficientemente eficientes para exigir máxima atenção e parece com físico em dia. O ‘Fedal’ está próximo, mas longe de estar garantido.

Emoção continua no feminino
Nada menos que três grandes candidatas ao título deram adeus a Wimbledon nesta segunda-feira de oitavas de final, e todas em jogos eletrizantes e cheios de alternância.

Magnífica reação de Alison Riske sobre a líder do ranking Ash Barty praticamente na base das paralelas precisas, que podem também ser o caminho para barrar Serena Williams. Claro que a heptacampeã bate mais forte na bola e está jogando cada vez mais solta.

Virada também de Barbora Strycova sobre Elise Mertens e de Johanna Konta sobre Petra Kvitova, mas não se pode falar muito em surpresas, porque são todas tenistas com ótima adaptação aos pisos mais velozes.

Simona Halep brecou a sensação Cori Gauff mas não pode sossegar diante de Shuai Zheng, que ganhou dois dos três duelos entre elas. Quem vencer, pega Elina Svitolina ou Karolina Muchova, autora da grande surpresa do dia ao tirar Karolina Pliskova com 13/11 de muita qualidade e ousadia no terceiro set.

As quartas de final fenininas já acontecem nesta terça-feira e acho que, ao se olhar a diferença de currículo entre as que ainda estão de pé, a chance para Serena chegar ao 24º Slam cresceu muito.