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Por um triz
Por José Nilton Dalcim
25 de maio de 2022 às 19:57

Faltou muito pouco, na verdade um único ponto, para que Roland Garros perdesse num dia só e ainda na segunda rodada dois dos considerados nomes fortes da chave masculina. Tanto Alexander Zverev como Carlos Alcaraz tiveram de contar até com a sorte para escapar do match-point que encararam em duríssimas batalhas de cinco sets. O quanto isso comprometerá o físico ou ajudará na confiança, teremos de esperar para ver.

Era imaginável que Sascha encontrasse resistência diante do baixinho Sebastian Baez, apesar da parca experiência do argentino em Grand Slam, já que o recente duelo entre eles em Roma fora parelho. Porém o cabeça 3 se incomodou também com as rajadas de vento e acabou amplamente dominado. Baez pecou a meu ver por não ter insistido no plano tático inicial de alongar os golpes no forehand do adversário e mesclar com curtas. Assim que Zverev achou um padrão, soltou os golpes da base, calibrou o saque e aí o jogo foi ao quinto set.

Só então Baez retomou a estratégia, abriu 4/2 e aí jogou mal. Teria sua chance de vitória no 30-40 do 5/4, mas Zverev estava no saque, cravou ace e isso mudou sua postura. Não resta dúvida que o fato de ter vencido 7 de 8 jogos anteriores no quinto set em Roland Garros ajudou. A marca geral do alemão aliás é expressiva, com 17 de 27 na carreira. Agora, já são três reações após estar dois sets abaixo. Muito pouco provável que tenha o mesmo suadouro diante de Brandon Nakashima na sexta-feira.

O sufoco de Alcaraz, no entanto, me surpreendeu. O canhoto Albert Ramos é muito experiente, ganhou de gente como Federer, Murray e Thiem, mas a forma com que Alcaraz atuou no primeiro set e somava oportunidades no segundo abriam uma considerável lacuna técnica. No entanto o pupilo de Juan Carlos Ferrero fazia escolhas ruins e, mesmo tendo 4-2 no tiebreak, viu tudo se transformar. Ramos ganhou esse set e ficou perigoso. Usou seu ótimo forehand de canhoto para forçar o lado esquerdo do adversário, sempre mais frágil, e o jogo virou uma maratona de lances e emoções para delírio da torcida.

Alcaraz sempre assumiu os riscos – terminou o jogo com 74 winners e 74 erros – e a maior lentidão de Paris, como era esperado, gerava problemas para seu estilo. Ramos sacou então com 5/4, chegou ao match-point, errou o primeiro saque por míseros centímetros e mandou um backhand bobo no meio da rede logo na segunda bola. A correria somente continuou. Alcaraz ainda fechou o quarto set na quarta tentativa e viu o adversário abrir 3/0 no quinto set. Lutou muito, virou para 4/3 num lance espetacular, perdeu o saque e voltou a quebrar em outra sucessão de defesas enlouquecedoras. Disparou três gloriosos aces para completar a duríssima tarefa, confessando-se exausto.

Ao contrário de Zverev, o garoto espanhol não pode relaxar na terceira rodada, já que reencontra Sebastian Korda, que jogou muito e o barrou de forma muito inesperada no lento saibro de Monte Carlo semanas atrás.

Os favoritos trabalham mais – Novak Djokovic e Rafael Nadal não correram o menor risco, mas tiveram ao menos um set exigente em suas vitórias de segunda rodada. Nole levou com a maior seriedade a tarefa diante do canhoto Alex Molcan, que se sabia ter poucos recursos para incomodar, mas foi levado ao tiebreak no terceiro set por um adversário mais decidido. Nadal também encarou um canhoto e a torcida, marcando a 300ª vitória em Slam. Corentin Moutet só mostrou força de vontade, apesar de um terceiro set animado. Há mínimas chances para Aljaz Bedene frente a Djoko na sexta-feira, mas Botic van de Zandschulp joga direitinho e vai exigir concentração de Rafa.

Altos e baixos – Felix Aliassime aproveitou-se da fragilidade do argentino Ugo Carabelli, disparou 41 winners e ainda ganhou 28 de 34 pontos na rede. Tem agora Filip Krajinovic rumo ao esperado cruzamento com Nadal nas oitavas. Carabelli, que venceu a duras penas Aslan Karatsev na estreia, contou ter desmaiado no quarto de hotel frente ao estresse e que foi socorrido pelo treinador. Destaque ainda para John Isner. Fez 51 winners, entre eles 23 aces, está pela oitava vez na terceira rodada de Paris e pega a surpresa Bernabe Zapata, que tirou Taylor Fritz de virada.

Peque também vira – A façanha de Diego Schwartzman acabou meio esquecida frente ao dia agitado dos favoritos. Ele também perdia por dois sets de Jaume Munar antes de engatar triplo 6/2 e anotar a quinta vitória em cinco sets em Roland Garros em sete tentativas. Vai pegar Grigor Dimitrov, que está voando e venceu seus seis sets até agora com muita autoridade. Promete.

Bia não sai feliz – Apesar de não ter sofrido derrota feia, Bia Haddad ficou insatisfeita com sua atuação diante do fogo cruzado de Kaia Kanepi. A situação poderia ser outra caso a canhota brasileira aproveitasse os quatro break-points que deixou escapar no começo da partida em dois games distintos. Isso fez enorme diferença, até porque a estoniana é ainda mais perigosa quando se torna confiante e joga solta. Na entrevista, Bia voltou a falar que precisa jogar mais feliz e curtir o momento. Acho que é exatamente isso que está faltando. A auto cobrança talvez esteja alta demais.

Sem top 10… – Maria Sakkari se torna a quinta top 10 eliminada de Roland Garros, e todas na parte inferior da chave. Que loucura. Isso obviamente abre caminho para gente que está querendo reagir, como Belinda Bencic, Vika Azarenka, Leilah Fernandez. Angie Kerber e Sloane Stephens, mas também para sedentas por sucesso como Coco Gauff, Amanda Anisimova e Jil Teichmann. Há dois confrontos que me chamam mais atenção: Bencic-Fernandez, cuja vencedora pode cruzar com Anisimova, e Azarenka-Teichman, com chance de encarar Gauff nas quartas. Apesar das zebras, continua interessante.

… E sem Emma – E houve uma comoção talvez um tanto exagerada pela queda de Emma Raducanu ainda na segunda rodada. Ela até venceu o set inicial, mas depois parou no estilo de risco de Aliaksandra Sasnovich. O fato é que a britânica jogou muito pouco no saibro em sua curtíssima carreira e assim as críticas desta vez me parecem deslocadas. Está faltando confiança, isso no entanto fica cristalino. E pressão é o que não vai faltar nos seus torneios na grama caseira.

Reflexões
Por José Nilton Dalcim
14 de abril de 2022 às 18:33

Apesar do evidente rejuvenescimento que surge nestas quartas de final de Monte Carlo, há muita experiência em quadra. Cinco dos oito pretendentes ao título que ainda estão de pé já possuem ao menos um título de nível Masters na carreira: Stefanos Tsitsipas, Alexander Zverev, Hubert Hurkacz, Taylor Fritz e Grigor Dimitrov, este o veterano da turma, com seus 30 anos.

Como as rodadas agora serão diárias e empolgantes, vamos a algumas reflexões dos últimos dois dias no saibro monegasco:

  • Jannik Sinner (20 anos), Alejandro Fokina (22) e Diego Schwartzman (29) são as três exceções nessa turma que já tem grandes troféus na carreira. E destes três, somente Fokina nunca decidiu um 1000.
  • Fokina e Fritz irão se cruzar pela terceira vez, sempre no saibro, com uma vitória para cada lado. Depois de tirar Djokovic, o espanhol atropelou David Goffin e está nas quartas de Mônaco pelo segundo ano seguido.
  • Depois de quase perder na estreia para o anônimo Lucas Catarina, Fritz deu sorte e pegou dois jogadores que batem ainda mais reto do que ele: Marin Cilic e Sebastian Korda. Dos últimos cinco Masters que disputou, Fritz fez ao menos quartas em quatro deles.
  • Carlos Alcaraz decepcionou ao perder de Korda, ainda que o americano mereça elogios por golpear tão reto e arriscar tanto na rede num saibro lento e sob ventania brava. O espanhol fez escolhas ruins, algo que não se viu em Indian Wells e Miami, e seu poder defensivo caiu. Como era esperado, jogar com favoritismo vai pesar mais.
  • Não menos surpreendente foi a vitória de Dimitrov sobre Casper Ruud, um dos grandes especialistas do saibro atual. O búlgaro vinha de grande virada sobre Dusan Lajovic na véspera. Dimi não vence um torneio desde o título no Finals de 2017, mesmo ano que faturou Cincinnati. Seu adversário será Hurkacz, a quem venceu em Indian Wells de outubro.
  • Mesmo com altos e baixos, Tsitsipas se mantém na luta pelo bi. A vitória sobre Laslo Djere foi muito menos brilhante do que a atuação diante de Fabio Fognini. Vai pegar Schwartzman, que chegou a estar 6/2 e 3/1 atrás de Lorenzo Musetti. O descontrole emocional do garoto italiano é quase proporcional a sua facilidade em jogar. Uma pena.
  • Zverev e Sinner devem fazer o grande jogo das quartas. O alemão perdeu o primeiro duelo entre eles, em Roland Garros de 2020, mas venceu os dois seguintes na quadra dura. O italiano só fez jogos complicados nesta semana e teve cabeça para reagir hoje diante de Andrey Rublev, fazendo um terceiro set primoroso.
  • Talvez ainda seja cedo para falar disso, mas eventual título de Zverev no domingo o colocará a 235 pontos do número 1. Claro que terá o título de Madri a defender. De qualquer forma, é uma tremenda motivação.
‘Fake’ Djokovic
Por José Nilton Dalcim
12 de abril de 2022 às 18:00

Apesar de ter dois títulos no Principado, é bem verdade que o saibro lento de Monte Carlo nunca foi o melhor dos mundos para Novak Djokovic. Ainda assim, o retorno do número 1 do mundo ao circuito foi uma tremenda decepção. Errou demais, teve postura defensiva, safou-se de um placar vexatório e por fim desabou fisicamente no terceiro set, algo inimaginável em outros tempos. Foi definitivamente uma versão ‘fake’ do homem que dominou o tênis em 2021.

Não chega a ser surpresa que Djokovic tenha dificuldade em achar ritmo e jogar com confiança diante do calendário irrisório que fez até agora, limitado a três jogos em Dubai. Também existe a pressão, tanto pelo ranking que ocupa como para mostrar que sua decisão de não tomar a vacina e automaticamente se ver afastado dos grandes torneios do primeiro trimestre não o afetariam. O preço continua alto.

Alejandro Fokina sabia que era a chance de sua vida e mergulhou na partida de corpo e alma. Ousou mais, correu muito, se jogou nas bolas e poderia ter saído com uma vitória acachapante, quando sacou com vantagem de 6/3 e 4/2. O vento atrapalhava demais e foi um ingrediente a exigir foco o tempo todo, daí outro ponto de destaque na atuação do espanhol, que no ano passado fez quartas em Mônaco tendo vencido Matteo Berrettini.

Nole raramente se sentiu à vontade, mesmo vencendo a duras pernas o segundo set. Saiu de quadra com 51 erros, 25 deles de forehand, e viu o espanhol arriscar mais (37 a 27 nos winners). Chegou também a hora dos recordes negativos: foi o jogo de três sets em que Djoko mais perdeu serviços na carreira (nove vezes) e vive seu pior desempenho em ATP nos quatro primeiros meses de uma temporada desde 2005.

Djokovic reconheceu a falta de pernas no terceiro set, mas tentou se manter positivo, ao lembrar que tem sido normal nos últimos anos um começo fraco no saibro europeu. Para sua sorte, vai jogar em Belgrado na próxima semana e terá enfim a chance de emendar vitórias, reerguer um troféu e sentir alívio. Haverá então uma semana de descanso para a sequência Madri-Roma. Portanto, existe tempo de sobra para reagir. Só precisa melhorar. Em tudo.

E mais

  • Apesar da derrota, Djoko aumentará a vantagem para Medvedev no ranking de 10 para 100 pontos. A próxima chance do russo será em Madri, onde o sérvio defende 500 pontos ainda do torneio de 2019.
  • Nadal está definitivamente fora de Barcelona, adiando expectativa de retorno para Madri, que acontece dentro de duas semanas.
  • Tsitsipas começou muito bem a defesa do título e atropelou Fognini, o campeão de 2019. O italiano fez 6 winners e cometeu 34 erros numa atuação lastimável. Sairá do top 50 pela primeira vez desde 2012.
  • Outro que está num momento terrível é Benoit Paire. Ele sofreu a nona derrota consecutiva em estreias.
  • Dimitrov ao contrário superou a dificuldade do saibro lento e virou o jogo contra Lajovic depois de estar um set e uma quebra abaixo.
  • Apesar das duas derrotas no seu retorno, Wawrinka diz que não está chateado e que espera um progresso lento,
  • Alcaraz estreia às 6h desta quarta-feira contra Korda e fará sua primeira aparição em Monte Carlo. Nesse período do ano passado, ele era 133 do ranking e se dividia entre challengers e convites nos ATPs.
  • Apesar de sua extraordinária semana em Bogotá, em que saiu do quali e chegou na final de seu primeiro WTA 250, Laura Pigossi não conseguiu vaga direta para Roland Garros. O vice lhe garantiu um ótimo 126º posto e isso ao menos lhe dará chance de entrar de cabeça de chave no quali para Paris. De todos os brasileiros, apenas Bia Haddad entrou direto no Slam francês.
  • O Brasil de Pigossi, Bia, Carol, Cé e Rebeca inicia hoje a disputa do zonal americano da BJK Cup. A estreia deve ser fácil contra a Guatemala, depois vem a desfalcada Colômbia e a definição da vaga promete acontecer diante da Argentina. Os jogos são no piso duro de Salinas, no Equador.