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El Peque ficou gigante
Por José Nilton Dalcim
19 de setembro de 2020 às 19:16

É quase impossível não torcer para Diego Schwartzman. O baixinho argentino vive numa terra de gigantes, onde sua média de saque de 161 km/h parece uma heresia e sua envergadura cobre talvez 30% a menos de espaço. Mas isso nunca o limitou. Ainda que não tenha grandes títulos na carreira – o maior foi o do Rio Open -, consegue se destacar em todos os pisos e isso o mantém há pelo menos três temporadas entre os 20 ou 30 primeiros do ranking.

Um de seus pesadelos terminou enfim neste sábado, ao derrubar o tabu de nove derrotas contra o todo-poderoso Rafael Nadal, o digno ‘rei de Roma’. O argentino foi o tenista realmente agressivo em quadra, mostrou notável solidez até mesmo para encarar os forehands cruzados do espanhol e ousou com curtinhas e voleios. Fez um primeiro set impecável e poderia ter vencido ainda com maior facilidade. Os números mostram o quanto ele mandou nos pontos: 31 a 21 nos winners e 17 erros frente a 30, vencendo 11 das 15 tentativas junto à rede, o que inclui o match-point. Para completar, ainda se mostrou superior nas trocas mais longas (23 a 16).

Faltou a Rafa esse poder decisivo. Tentou fazer um começo de jogo burocrático, apostando talvez que El Peque pouco a pouco caísse na armadilha. Quando viu que o adversário estava com a mão boa e com muita perna, foi obrigado a tentar decidir mais os lances e aí seu forehand o deixou na mão. A bola descalibrada na paralela é o sinal mais evidente de sua falta de confiança. Sem mais o que jogar, terá de solucionar esses problemas antes de Roland Garros começar, dentro de oito dias.

Às 14 horas deste domingo, Schwartzman tenta um novo passo para realizar outro sonho: chegar ao top 10. Ele encara mais um canhoto, Denis Shapovalov, em duelo inédito no circuito, e o próprio canadense é um candidato ao 10º lugar caso vença. Aos 21 anos e 20cm mais alto, Shapovalov é dono de enorme força física, backhand simples belíssimo mas nem sempre calibrado, jogo de rede cada vez mais vistoso. Mesmo tão jovem, já decidiu o Masters de Paris do ano passado.

Depois das quatro vitórias no US Open e de ter ficado perto da semi, adaptou-se rapidamente ao saibro e já tirou especialistas como Guido Pella e Pedro Martinez. Segurou a cabeça contra Ugo Humbert e se mostrou muito mais consistente do que Grigor Dimitrov neste sábado, mesmo com índice fraco de primeiro saque. O saibro não é sua praia, a ponto de ter vencido um único top 20 no piso e ter chegado a Roma com 12 vitórias e 12 derrotas na carreira.

E existe uma terceira surpresa nas semifinais de Roma, um ‘next gen’ bem menos badalado. Filho de ex-top 40, Casper Ruud é um genuíno jogador de saibro com seus golpes firmes da base e 1,83m ideais para o piso. A vitória deste sábado sobre Matteo Berrettini foi sua primeira sobre um top 10 em quatro tentativas e a segunda da semana em cima de um dos 20 primeiros, já que também tirou Karen Khachanov em três sets na primeira rodada. Fã confesso de Nadal e campeão de Buenos Aires em fevereiro, terá uma experiência inédita e obviamente dificílima contra Novak Djokovic.

Se servir de motivação para o garoto norueguês, o líder do ranking e tetracampeão de Roma esteve longe dos seus melhores dias diante do 97º do ranking, o canhoto alemão Dominik Koepfer. Deixou escapar vantagens confortáveis, o que o forçou a jogar o terceiro set, perdeu o controle e destruiu raquete, além de ser chamado de ‘Federer’ pelo juiz. Cometeu 38 erros, 26 deles de forehand, e ganhou apenas 45 de 75 pontos com o saque. Vencer é sempre bom, mas não dá para ficar radiante.

Quer dizer, depois da queda de Nadal, até que dá.

Feminino: imprevisível
As semifinais femininas de Roma também têm uma canhota de 21 anos motivada para barrar as concorrentes de maior nome: Marketa Vondrousova. Mas o fato é que a rodada deste domingo está completamente aberta.

A cabeça 1 Simona Halep jogou apenas 10 games antes do abandono de Yulia Putintseva e agora faz duelo de ex-números 1 contra Garbiñe Muguruza, que reagiu e virou em cima de Victoria Azarenka. A espanhola ganhou quatro dos seis duelos diante de Halep.

Muguruza e Vika fizeram um jogo de altos e baixos, marcado por 13 quebras de serviço num total de 31 break-points. Os erros também se destacaram, com 36 da vencedora e 31 da bielorrussa. Vika fez um segundo set tenebroso, com apenas cinco pontos no próprio saque, e quase levou o terceiro, virando de 1/3 para 4/3 e com break-point. Muguruza teve sangue frio e foi incrivelmente consistente na reta final.

A outra semi também é muito interessante, já que reúne a atual campeã Karolina Pliskova e a também tcheca Vondrousova, a atual vice de Roland Garros. Pliskova fez um jogo de risco, o que gerou mais winners e erros, e atropelou Elise Mertens no terceiro set. Vondrousova teve vida muito mais fácil e só perdeu três games para Elina Svitolina, abusando de curtas e lobs. Pliskova que se prepare para correr.

Palmo a palmo
Por José Nilton Dalcim
18 de setembro de 2020 às 20:03

Embora em situações diferentes, os dois grandes favoritos para o título masculino em Roma deram o segundo passo rumo à que parece ser a inevitável conclusão do torneio, na segunda-feira. Novak Djokovic encarou um primeiro set bem complicado diante do amigo e parceiro de treino Filip Krajinovic, vivendo alguns altos e baixos, e Rafael Nadal mostrou versatilidade diante de Dusan Lajovic, o sérvio que bate backhand com uma mão.

A disputa entre Djoko e Nadal pela hegemonia dos Masters é bem equilibrada. Ambos somam 35 títulos e 51 finais. Rafa leva vantagem nas semifinais (73 a 68), vitórias (386 a 362) e eficiência (83% a 82,1%). E não é lá muito justo acusar o espanhol de ser soberano num piso só. Vejam: Nadal tem 25 títulos no saibro, mas Djokovic soma 26 na dura. Não há Masters na grama.

O primeiro set entre os sérvios foi uma maratona de 88 minutos, em que cada um perdeu seu primeiro game de serviço e desperdiçou chances preciosas de quebra. Djokovic poderia ter simplificado com os dois set-points que atingiu no 10º game, um deles numa devolução de segundo saque raramente falha. Aí no tiebreak levou um susto, ao ver Krajinovic sacar com 4-1. Um único vacilo e a virada veio, mas Nole ainda precisou de três set-points para concluir, depois de desperdiçar um deles com uma dupla falta que saiu 1 metro.

Há de se elogiar acima de tudo a exibição arrojada e sólida de Krajinovic. Entrou com proposta ofensiva, aguentou a pancadaria, correu demais atrás de curtinhas, foi à rede e contra-atacou com qualidade. Tremendo esforço. Djokovic fez lances excepcionais, mas também errou bastante, ainda que muitas vezes tenha sido por mínimos centímetros. Quando aquele forehand mais rasante na paralela – que exibiu com enorme desenvoltura em Flushing Meadows – começou a entrar, disparou.

Nadal se deu ao luxo de tentar variadas táticas. Devolveu lá atrás, jogou em cima da linha, cruzou backhand, subiu à rede, deu curtinha. Cardápio completo diante de um Lajovic apenas esforçado. Mais uma vez, o primeiro saque do espanhol foi o ponto menos consistente, a ponto de perder dois games de serviço.

As quartas de final deste sábado não prometem surpresas para os dois. Djokovic será favoritíssimo diante do quali alemão Dominik Koepfer e Nadal entra com histórico de 9 a 0 sobre Diego Schwartzman.

Matteo Berrettini é a esperança local e tenta sua segunda semi de Masters diante do bom norueguês Casper Ruud, que tem jogo de base firme. Quem vencer, provavelmente desafiará o número 1. Já Grigor Dimitrov faz uma campanha digna, marcou ótima virada sobre Jannik Sinner e encara outro ‘nextgen’, o canadense Denis Shapovalov. Vale lembrar que Dimitrov é outro grande ‘freguês’ de Nadal, com 13 derrotas em 14 jogos.

Quem vai parar Azarenka?
Nem mesmo a troca radical de piso atrapalhou Victoria Azarenka. que já ganhou mais três jogos em Roma, entre eles uma incrível ‘bicicleta’ sobre a número 5 Sofia Kenin. A bielorrussa também jogou pouco hoje, já que a russa Daria Kasatkina se machucou no começo do tiebreak, e agora se prepara para desafios. De quebra, uma bela atitude ao socorrer e consolar a adversária.

Neste sábado, encara a força de Garbiñe Muguruza sobre as quadras de saibro e, se passar, poderá cruzar com a cabeça 1 Simona Halep. É um quadro digno de finais de Roland Garros. Mas nem de longe indicará a possível campeã, porque no lado inferior estão a atual campeã Karolina Pliskova e a vencedora dos dois anos anteriores, Elina Svitolina. E cada uma tem problemas nas quartas. Svitolina encara Marketa Vondrousova, a inesperada vice de Paris no ano passado, e a tcheca joga contra Elise Mertens, uma jogadora completa e que vem de 15 vitórias nos quatro últimos torneios.

E de sobra, fiquemos na torcida por Luísa Stefani, que está na semi de duplas ao lado da parceria Hayley Carter. Não vai ser fácil, já que encaram as duas líderes do ranking e atuais campeãs de Wimbledon, a taiwanesa Su-Wei Hsieh e a tcheca Barbora Strycova.

E mais
– Caso Djokovic mantenha o amplo favoritismo deste sábado, ele atingirá um feito curioso: irá superar Guillermo Vilas no percentual de vitórias sobre o saibro. Neste momento, o sérvio é o quinto colocado, com 79,7%, e o canhoto argentino está a sua frente, com 79,74%.
– Em número absolutos, Vilas é o tenista que mais ganhou no piso na Era Aberta, com 681 vitórias, acima de Manuel Orantes (555) e de Nadal (438).

Bem vindo, Rafa
Por José Nilton Dalcim
16 de setembro de 2020 às 19:45

Depois de quase sete meses sem disputar qualquer jogo, nem mesmo amistoso, Rafael Nadal retornou ao circuito no tradicional saibro de Roma e a impressão que deu foi a melhor possível dentro das circunstâncias, como se quase nada tivesse acontecido.

O último dia em que Nadal entrou em quadra foi na conquista do ATP 500 de Acapulco, no dia 1º de março. Ficou totalmente parado ao longo do período de isolamento social na Espanha e só retornou aos treinos quando foram relaxadas as normas. Decidiu não competir nos torneios combinados de Flushing Meadows, apostando todas suas fichas no saibro.

Freguês de carteirinha, Pablo Carreño, aquele que ficou a um set da final do US Open cinco dias atrás, mal serviu para um treino. É bem verdade que fez uma opção pelo risco e cometeu erros bisonhos, mas Rafa não tem nada a se queixar. Mostrou ótima mobilidade, fugindo até mesmo do backhand lá na linha de dupla, e fez o que melhor que sabe no saibro, aquela excepcional mistura de topspin defensivo todo enroscado com golpes muito agressivos. Totalizou 20 winners e 11 erros, ganhou 31 dos 39 pontos com o saque e olha que a média de primeiro serviço deixou a desejar, na casa dos 49%.

Quando pisa no saibro, Nadal vira um semideus. Seu percentual de aproveitamento é absurdo: 437 vitórias e apenas 39 derrotas, ou seja, eficiência de 91,8%. A chave de Roma promete lhe dar diferentes desafios, como o slice de Dusan Lajovic ou o saque poderoso de Milos Raonic na próxima rodada, o jogo peso pesado de Andrey Rublev ou a correria de Diego Schwartzman nas quartas. Com o novo vexame de Stefanos Tsitsipas, concorrem à semi Fabio Fognini, Denis Shapovalov e Grigor Dimitrov.

Djoko sem sequelas
A quarta-feira também viu a estreia de Novak Djokovic e foi também muito bom perceber que o sérvio não mostrou qualquer sequela do drama vivido com a desclassificação em Nova York. O italiano Salvatore Caruso até foi competitivo no começo, fixando-se quase em cima da linha, de onde pegou na subida e trocou direções com competência. Mas bastou Nole achar o ritmo mais ofensivo da devolução para dominar com ampla superioridade.

Seu desafio de quinta-feira talvez seja o mais perigoso antes da presumível reedição da final de 2019 contra Nadal. O amigo e parceiro de duplas e treino Filip Krajinovic é um adversário respeitável no saibro e tem diferentes armas. Fora ele, o dono da casa Matteo Berrettini não pode ser subestimado e ficou como forte candidato à semi com a queda incrível de David Goffin diante de Marin Cilic.

Djokovic sempre se sentiu à vontade em Roma, conquistando quatro troféus, mas desde 2016 não achou mais o caminho dos títulos. Nesse ano, chegou a derrotar Nadal antes de perder a final para Andy Murray e na edição seguinte foi surpreendido pelo então garoto Alexander Zverev na decisão. Nadal foi quem o tirou na semi de 2018 e o superou na final de altos e baixos de 2019.

E mais
– O pessoal que gosta das contagens regressivas anote aí: faltam apenas nove para Nadal se tornar o quarto profissional a atingir a incrível marca de 1.000 vitórias, lista que tem Connors (1.274), Federer (1.242) e Lendl (1.068).
– O tênis italiano colocou de forma inédita oito representantes na segunda rodada. Três já avançaram: Berrettini faz duelo direto com Travaglia e Sinner tirou Tsitsipas no terceiro set, embora tenha tido 6/1, 5/3 e saque antes disso.
– O adolescente Musetti mostrou qualidades diante de um Wawrinka em seus dias de preguiça e pega o também ex-top 5 Nishikori nesta quinta. Vale assistir.
– Fognini é outra atração do dia, mas seu histórico em Roma é muito pobre: uma quartas em 12 tentativas. Para piorar, perdeu do 303º do mundo semana passada em Kitzbuhel. Seu adversário é o elétrico canhoto Humbert.
– Dimitrov fez coro às críticas inconsoláveis de Tsitsipas sobre o piso da magnífica quadra Pietrangeli. Eles acusam de estar muito irregular.
– E não se esqueçam: a final de Roma será na segunda-feira.

Desafio US Open
Kauê Guedes foi o único participante do Desafio US Open a dizer que Zverev precisaria de cinco sets para ganhar de Carreño e que Thiem venceria Medvedev em sets diretos. Assim, ele leva o prêmio e os parabéns: a Editora Évora enviará o livro cheio de dicas importantes de Fernando Meligeni, o “Jogando Junto”.