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Manias e surpresas
Por José Nilton Dalcim
18 de junho de 2015 às 11:45

Ah, esses jornalistas.

Para esquentar a temporada de grama, nada como achar coisas diferentes para atrair o público. Dias atrás, um colunista do Independent reviveu a curiosa lista (acho que a primeira que li foi há cinco anos) das manias menos conhecidas de Rafael Nadal, mas que, tal qual alinhar garrafinhas, arrumar o calção antes do saque ou da devolução ou correr para o fundo da quadra após o sorteio da moedinha, sem jamais pisar as linhas, são cumpridas num verdadeiro ritual para que o espanhol esteja totalmente preparado para a batalha.

Vejam só:

– Por volta de 45 minutos antes de uma partida, ele toma um banho de água fria.

– Sempre entra em quadra com uma raquete na mão.

– Somente ele pode colocar os ‘grips’ (aquela proteção que vai no cabo da raquete para amenizar suor e melhorar a firmeza da mão no cabo) em suas raquetes. Rafa faz isso dentro do vestiário. Os grips são sempre brancos.

– Sua raqueteira precisa ser colocada bem próxima a ele, na cadeira, em cima de uma toalha. Jamais será colocada no chão.

– Ele sempre bebe um pouco do líquido que carrega em cada uma das duas garrafas que leva à quadra. Uma tem líquido gelado, a outra líquido morno.

– Jamais se levanta da cadeira para retornar à quadra antes do adversário, assim como jamais é o primeiro a ir se sentar, sempre dando passagem ao oponente.

– Nadal adotou novo critério para se enxugar, o que faz praticamente a cada ponto, até mesmo um ace ou dupla falta. Agora leva duas toalhas, entrega cada uma delas a um pegador e recebe ambas de volta a cada troca de lado.

Aliás, desde o começo do ano, quando esteve aqui no Rio, observei mais uma novidade: ao término de um game em que tem de ir para a troca de lados, esteja onde estiver, ele dá uma volta sobre o centro da quadra (aquela pequena marca que divide a linha de base e serve de orientação para sacar do lado certo).

Enquanto isso, a quadra de grama vai cobrando caro. Se existe uma superfície em que um tenista não pode se dar ao luxo de desperdiçar chances, essa certamente é a grama. Ainda mais se você estiver no saque, porque achar uma oportunidade de quebrar de volta pode ser uma tarefa inglória.

Foi assim com Nadal diante de Alexandr Dolgopolov – ter 4/2 no terceiro set e não levar é quase um crime na grama -, mas também com Stan Wawrinka e o absurdo erro de forehand no set-point do segundo tiebreak diante de Kevin Anderson e com o atual campeão Grigor Dimitrov, que fez 3-0 no tiebreak contra Gilles Muller antes de tomar a virada.

Ao final da segunda rodada em Queen’s e Halle, ao menos temos coisas diferentes acontecendo no circuito, como Jerzy Janowicz, Florian Mayer e Guillermo Garcia-López se juntando aos vitoriosos inesperados.

E o que foi essa marca de 27 aces da alemã Sabine Lisicki? Em 11 games de serviço, dá quase três de média! Poucos homens são capazes disso, ainda é claro que devolução no feminino seja um pouco mais frágil. Lisicki é sem dúvida uma das maiores sacadoras do circuito, o que também combina muito bem com a grama.

Traiçoeira, grama faz primeiras vítimas
Por José Nilton Dalcim
12 de junho de 2014 às 20:07

Depois que o US Open trocou a grama pelo saibro verde, em 1974, o circuito nunca mais foi o mesmo. Pouco a pouco, o calendário de torneios sobre o piso natural do tênis foi recuando e o golpe final viria com a mudança do Australian Open, que fez seu último torneio sobre a grama em 1987. Wimbledon então ficou como o único Grand Slam a manter a tradicional superfície e o calendário se resumiu a poucos torneios de aquecimento disputados quase sempre na própria Grã-Bretanha (e depois na Alemanha e Holanda).

Esse breve histórico apenas ilustra como a grama se tornou uma exceção e um desafio para os profissionais. Para os então especialistas em saibro, espalhados na Europa e na América Latina, era uma tortura; até mesmo os americanos, com suas quadras rápidas sintéticas, sofreram para se adaptar aos desvios e deslizes que esse tipo de piso invariavelmente causa. Enquanto o voleio imperou, coisa de 20 anos atrás, ainda exista uma saída. Agora, que o tênis ficou centrado no fundo de quadra, um grande sacador ou um tenista de bolas muito planas tem sido a ‘zebra’ mais comum.

No ano passado, Wimbledon assistiu a uma sucessão de surpresas ainda em sua primeira semana, lista que incluiu campeões como Roger Federer e Rafael Nadal e sacadores como Jo-Wilfried Tsonga, John Isner e Milos Raonic. E um indício de que coisas novas poderão surgir também neste ano vêm de Halle e Queen´s, torneios que se tornarão ATP 500 na próxima temporada. Na grama alemã, Nadal e Raonic fizeram companhia para Janowicz, Gasquet e Youzhny e nem chegaram nas quartas. Até mesmo Federer fez uma estreia ruim nesta quinta-feira. No tradicional torneio britânico, Murray, Tsonga e Gulbis decepcionaram.

A derrota de Nadal, ainda que com placar elástico demais, não chega a ser um desastre. Afinal, ele chegou em cima da hora e ainda pegou Dustin Brown, que gosta de bater na bola. Não podemos no entanto esquecer que Rafa só ganhou dois jogos na grama desde o vice em Wimbledon de 2011. Federer, por sua vez, continuou desperdiçando break-points e por pouco não se enrolou com João Sousa. O suíço não pode alegar falta de tempo para se preparar. O sempre perigoso Yen-Hsun Lu é um bom teste nesta sexta e quem sabe aconteça o reencontro com Kei Nishikori na semi. É interessante dar uma olhada no que Federer irá produzir e o quanto o japonês terá evoluído na grama (ele só ganhou quatro partidas em Wimbledon até hoje) .

Murray é uma dor de cabeça real para seus súditos. Numa temporada de pouco brilho, terá agora de defender o troféu diante da mesma torcida que tanto o apoiou em 2013. Uma campanha desastrosa – e existe sempre chance para isso, daí a importância de um bom sorteio da chave – poderá jogar o escocês para fora do top 10. É uma considerável dose de pressão para a nova treinadora Amélie Mauresmo, que nunca foi um grande exemplo de frieza em quadra.

A boa notícia para o escocês é que, segundo cálculos do site The Tennis Space, ele será mesmo o cabeça 3 em Wimbledon, o que evitará duelo contra Nadal, Djokovic ou Federer antes da semi. Se chegar até as quartas, ele certamente será favorito contra Wawrinka, Berdych, Ferrer ou Raonic. O chamado ‘ranking da grama’ foi um sistema matemático introduzido pelo All England Club em 2001, que aposentou o antigo ‘Comitê dos Cabeças’, que avaliava de forma mais empírica quem deveria ou não ser bem cotado para Wimbledon.

Agora, o Club adiciona ao total de pontos do ranking (da próxima segunda-feira) 100% dos pontos que cada tenista anotou na última temporada de grama e mais 75% do que realizou na temporada anterior. Veja abaixo os totais calculados pelo site:

1. Novak Djokovic – 14.070 (adicionou 1.740 na grama)
2. Rafael Nadal – 12.543,75 (somou 43,75)
3. Andy Murray – 7.990 (3.150 a mais)
4. Roger Federer – 6.740 (mais 1.795)
5. Stan Wawrinka: 5.647.5 (inc 167.5)
6. Tomas Berdych – 5.088,75 (adicionou 408,75)
7. David Ferrer – 4.820 (com 630)
8. Milos Raonic – 3.323,75 (mais 78,75)

Os torneios em andamento não irão alterar mais a ordem, ainda que Federer, Wawrinka, Berdych ou Nishikori sejam campeões.