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Dez feitos (quase) impossíveis de superar
Por José Nilton Dalcim
27 de julho de 2015 às 15:18

O site oficial do tênis canadense, o Tennis Canada, soltou uma lista curiosa nesta semana: os 10 recordes que jamais serão batidos. Será? Vamos à lista e minhas considerações. Sigo a ordem dada pelo site.

1. Jogo mais longo
A maratona de 11h05 entre John Isner e Nicolas Mahut na primeira rodada de Wimbledon de 2010, com direito a 70/68 no quinto set. Equivale a uma viagem São Paulo-Paris. Mais incrível ainda é que cada tenista marcou pelo menos 100 aces na partida. Realmente, será extremamente difícil alguém superar isso.

2. Raquetes quebradas
Vencedor de dois Grand Slam, o russo Marat Safin se notabilizou também por quebrar raquetes: apenas em competição, ele danificou 48 raquetes na temporada de 1999. No total, foram mais de mil: “1.055. Sei porque a Head me deu uma prancha com o número impresso”. Bom, essa marca não me parece tão absoluta assim, tem muito maluco no circuito.

3. Aces numa temporada
O croata Goran Ivanisevic anotou nada menos que 1.477 aces na temporada de 1996, a maior quantidade desde que a ATP passou a medir isso, há 24 anos. Esta sim é uma marca quase insuperável, ainda mais com as bolas pesadas e as quadras mais lentas de hoje em dia.

4. Duplas
Bob e Mike Bryan já pulverizaram todas as marcas do tênis profissional: 16 Grand Slam e 104 juntos. Parece também muito difícil de ser superada, e olha que os gêmeos de 37 anos ainda têm boas temporadas pela frente.

5. Simples
Com uma extensa carreira de duas décadas, tendo disputado inúmeros torneios no piso sintético americano no início da Era Profissional, Jimmy Connors totalizou 109 títulos de simples. O todo-poderoso Roger Federer está ainda com 86. Parece inalcançável mesmo.

6. Supercampeã
Mas se a marca de Connors é impressionante, o que dizer dos 167 torneios (de simples) vencidos por Martina Navratilova? São nada menos que 99 a mais do que Serena Williams tem hoje.

7. Prova dos 9
Se ganhar um torneio ATP múltipla vezes já é uma façanha e tanto, imagine o que é vencer um Grand Slam por nove vezes. A atual marca de Rafael Nadal em Roland Garros, que ainda está em plena atividade, também não parece atingível até mesmo para um ATP comum. Sem falar no seu recorde de 81 vitórias seguidas sobre o saibro.

8. Semifinais
Entre tantos recordes que possui, talvez o mais notável de Roger Federer sejam as 23 semifinais consecutivas de Grand Slam, ou seja, uma sequência de seis anos chegando à penúltima rodada na grama, no saibro e na quadra dura. O segundo colocado é Novak Djokovic com “apenas” 14. Atualmente, está em 6.

9. Número 1
Nem foi uma das mais longas carreiras, mas ainda assim Steffi Graf liderou o ranking por 377 semanas. Para se ter uma ideia da grandiosidade, basta ver que Serena teria de manter o posto por mais três anos para chegar tão longe.

10. O Slam
Mesmo tendo dominado o tênis por quatro temporadas, Federer não conseguiu. No seu auge, Djokovic também não. Vencer os quatro Slam num só ano continua a ser uma missão quase impossível. E Rod Laver não fez isso apenas uma, mas duas vezes.

Incrível Čilić
Por José Nilton Dalcim
9 de setembro de 2014 às 00:31

O jogo acabou há algumas horas, faço pesquisas para reunir dados para um texto interessante, mas no fundo ainda estou espantado com o feito de Marin Cilic. Melhor dizendo, com o tênis que esse croata, perto de completar 26 anos, jogou nas três últimas rodadas deste US Open.

Ele, que vi ameaçado de forma um tanto anônima na quarta rodada por Gilles Simon, atropelou Tomas Berdych, Roger Federer e Kei Nishikori como se conquistar Grand Slam fosse a coisa mais banal do mundo. Além de um volume de golpes com força e precisão assustadoras, pareceu não sentiu qualquer pressão. Não demonstrou medo de ganhar, nem receio de perder. Um assombro. Incontestável.

Marin nasceu e cresceu numa pequena cidade da Bósnia. Deu a sorte de que o pai Zdenko queria que seus três filhos tivessem oportunidade de uma carreira esportiva que ele própria não tivera. Quando construíram a primeira quadra de tênis em Medugorje, o garoto Marin, 12 anos, estava lá. O destino quis que fosse visto pelo campeão de Wimbledon Goran Ivanisevic, que percebeu seu talento e recomendou que se mudasse para Zagreb, onde teria mais condições de treino. Mais ainda. Goran o indicou para trabalhar com seu ex-treinador Bob Brett, o mesmo que construiu o fenômeno Boris Becker, e o menino de 15 anos se mudou para San Remo, experimentando a cultura e o saibro italianos. Virou fã do Milan.

Não demorou muito para os resultados aparecerem. Em 2005, foi campeão juvenil de Roland Garros, superando Andy Murray na semifinal, e terminou a temporada como número 2 do ranking mundial, atrás de Donald Young. Já disputava também futures e challengers e começou 2006 como 587º do ranking da ATP, já virando titular da Copa Davis. Tudo acontecia rápido. Ganhou logo seus dois primeiros challengers e espantou Queen’s em 2007 ao derrotar Tim Henman na grama.

Coincidência do destino, o mundo do tênis começou mesmo a notar Cilic quando ele derrotou Murray nas oitavas do US Open de cinco anos atrás. Na rodada seguinte, ganhou o primeiro set e teve uma quebra na frente no segundo diante de Juan Martin del Potro, que se tornaria herói dias mais tarde. Em janeiro, se vingou, tirou Delpo e foi à semi na Austrália. Tinha então 21 anos e era apontado como a maior revelação da nova geração, um top 10 certo. Cumpriu a profecia em fevereiro de 2010. Mas, de forma inexplicável, parou aí. Ganhou é verdade mais quatro ATPs nas temporadas seguintes, mostrando versatilidade no piso duro e na grama. No entanto, foi de promessa a decepção.

Meses atrás, quando acabava de ser contratado por Cilic como novo treinador, Ivanisevic deu uma explicação bem razoável para isso. “Durante os últimos dois anos, ele não estava conseguindo evoluir seu jogo. Não estava indo a lugar algum. Não era o suficiente para encarar os tops. Ele tem 1,98m, então tinha de ser agressivo. Hoje ele está fazendo dois aces por game, mas o importante mesmo são os pontos fáceis que ganha com o saque ou na segunda bola”, sentencia.

Ivanisevic voltou à vida de Cilic, que o considera seu maior herói, logo depois de um capítulo triste. O croata não entrou em quadra para jogar a segunda rodada de Wimbledon porque um teste antidoping feito em Munique detectou uso excessivo de glicose. Recebeu nove meses de suspensão, perdeu todos os pontos e prêmios recebidos a partir de Munique. Inconformado, o croata apelou para a Corte de Arbitragem do Esporte, que considerou a pena exagerada para sua infração, reduzindo para quatro meses. Ele pôde retornar em Paris, recebeu alguns pontos de volta, no entanto agora era o 47º do mundo.

O trabalho com Ivanisevic produziu resultados quase imediatos. Ganhou Brisbane em cima de Dimitrov, foi vice em Roterdã tirando Tsonga e Murray, faturou Delray Beach. Levou Djokovic a três sets em Indian Wells, tirou um set do sérvio em Roland Garros. Na grama de Wimbledon, superou Berdych e foi às quartas, forçando Nole agora a cinco sets. Deu também trabalho para Federer em Toronto.

Todo mundo deve se lembrar que Ivanisevic foi o maior sacador da história moderna do tênis, com 10.183 aces contabilizados ao longo da carreira. E proporcionou uma das passagens mais emocionantes com a conquista de Wimbledon após três finais frustradas. Esse conjunto de habilidades certamente contribuiram muito para aperfeiçoar a técnica e a cabeça do pupilo. “Goran está relaxado quando saca. O que mais fizemos foi simplificar meu jogo e me deixar mais solto na quadra. Eu não era ofensivo como deveria”.

Além do grande esforço com o preparador físico Slave Hrvoj, Cilic passou por uma ‘lavagem cerebral’. Goran conta em entrevista à ATP em março: “Ele precisa acreditar, saber que é capaz de ganhar de qualquer um, estar certo de cada golpe que bate. A gente pode falar horas sobre tática, mas quando ele está na quadra, é tudo por sua conta. Quando ele acreditar 100%, conseguirá grandes coisas”. Dito e feito.

E mais:
– Cilic se tornou o tenista de mais baixo ranking a ganhar um título de Slam desde Gaudio, em 2004
– Também é o jogador de menor ranking a vencer o US Open desde Sampras, em 2002
– Cilic lidera hoje o ranking de aces da temporada, com 756 em 68 jogos (fez 98 no US Open)
– Sua média de acerto do primeiro saque é de 52%, com 83% desses pontos vencidos
– O croata tem faturado 85% de seus games de serviço nesta temporada
– Com os US$ 3 milhões que ganhou em Nova York, supera a casa dos US$ 12 milhões na carreira
– Seu apelido entre os amigos é “Chila”

Multifavoritos
Por José Nilton Dalcim
21 de agosto de 2013 às 10:32

A excelente temporada e o sucesso inquestionável em Montréal e Cincinnati fazem de Rafael Nadal o favorito absoluto para o US Open, certo? Não, nem tanto. Essa ao menos é a opinião de dois tenistas cuja experiência e qualidade falam por si. Obviamente, ambos incluem Rafa no rol dos grandes candidatos, mas diferentemente do que se imagina não apostam todas suas fichas no bicampeonato do canhoto espanhol.

O campeão de Wimbledon Goran Ivanisevic, por exemplo, coloca o favoritismo sobre Novak Djokovic, mas alerta que Roger Federer não pode ser descartado: “Todo mundo quer achar que ele está acabado, mas eu não diria isso”, afirma o croata. “A quadra de Flushing Meadows é mais rápida que as outras e Federer causou problemas a Nadal em Cincinnati. Se ele estiver forte de cabeça, ainda poderá ganhar o torneio”. Quanto a Andy Murray, o maior sacador do tênis profissional tem dúvidas: “Depois de Wimbledon, Murray não conseguiu reencontrar seu jogo e vai viver uma situação diferente. Quando você é o atual campeão, todos querem ganhar de você”.

Vale lembrar aqui que Federer acabou de completar 32 anos, mesma idade com que Andre Agassi conquistou seu último Slam. Mas, a bem da verdade, o título do Australian Open de 2003 veio sem que o americano enfrentasse um único top 10. Antes disso, Pete Sampras e Jimmy Connors venceram aos 31, o que são as marcas mais expressivas da fase recente do tênis profissional.

Já o excepcional John McEnroe, hoje comentarista assíduo nas TVs americanas e europeias, vê um grande equilíbrio entre os três primeiros do ranking e acha que o US Open valerá como um autêntico tira-teima: “Quem ganhar seu segundo Grand Slam da temporada, merecerá ser chamado de número 1”, determina. E em quem ele confia mais? Murray. “Ele vai viver uma pressão diferente, que é defender um título de Slam. Por um lado, você se sente muito confiante, mas de outro é o homem a ser batido. É a grande chance de ele se firmar”.

A opção por Murray não é tão descabida. O escocês esteve na final de quatro dos cinco últimos Slam, vencendo dois deles, sem falar é claro no título olímpico. Ou seja, a grosso modo, ele tem sido o tenista que se saiu melhor nos grandes torneios desde 2012.

Como se vê, o US Open promete mesmo emoções. Até mesmo para os apostadores. A bolsa de Las Vegas, muito respeitada, dá favoritismo a Djokovic (que paga US$ 7 a cada US$ 4 apostados), seguido por Nadal (9 em 4) e Murray (5 em 2). Até Juan Martin del Potro (9 para 1) está à frente de Federer (12 para 1). Quem quiser embolsar melhor, pode tentar Tomas Berdych (30 para 1) ou John Isner (50 para 1).