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Até o último suor
Por José Nilton Dalcim
2 de junho de 2019 às 19:15

Foram 389 pontos ao longo de 5h09 de um jogo disputado game a game, mínimas vantagens e sempre uma chance de reviravolta. Melhor e mais relevante: Stan Wawrinka e Stefanos Tsitsipas buscaram o tempo todo tomar a iniciativa e encurtar o tempo do adversário, nem que fosse preciso mirar a linha ou se arriscar num voleio voador. Um duelo daqueles que não se esquece tão cedo, talvez o mais empolgante da temporada até aqui.

Wawrinka precisou dar 284 saques e encarou incríveis 27 break-points, dos quais salvou 21. Talvez o mais importante deles tenha sido ali no finalzinho da partida, 5/5 no quinto set e Tsitsipas grudado na rede, em que o suíço conseguiu o ponto numa segunda tentativa de passada batendo o forehand na paralela num autêntico bate-pronto.

Tsitsipas deu o máximo que podia, jogando-se diversas vezes ao chão para bloquear bolas inalcançáveis. Foi nada menos que 74 vezes à rede sem temer o bombardeio do adversário, somou 61 winners e curiosamente terminou a partida com um ponto somado a mais. Completamente compreensível, o garoto de 20 anos confessou pouco depois ter chorado muito no vestiário. Sinal de grandeza. É essa vontade de vencer que tanto se admira.

Stan fez outra magnífica exibição em Paris, e não apenas por seus golpes de base de cair o queixo ou o sangue frio com que encarou tantas pressões. Também aplaudiu os lances notáveis do grego, incentivou participação da torcida, mandou beijo a uma espectadora e consolou Stef na hora amarga da derrota.

Deixa claro que, aos 33 anos, está definitivamente recuperado na parte física. Talvez seja demais pedir que apareça inteiro para enfrentar o amigo e rival Roger Federer dentro de 48 horas. Não bastasse o histórico de 22 derrotas em 25 tentativas, ainda encontrará o compatriota mais famoso descansado e confiante. Vale no entanto lembrar que a última vitória de Stan sobre Roger foi exatamente nas quartas de Paris de quatro anos atrás na trajetória de seu título inesperado.

Mais um passeio
Federer e Rafael Nadala justificaram amplamente o favoritismo diante dos argentinos. A tarefa do suíço foi ainda mais tranquila porque Leonardo Mayer conseguiu fazer pouco com o serviço. Esperto, Roger pressionou sempre as devoluções, usou o slice à maestria e explorou a rede para concluir games rapidíssimos no mais deslumbrante saque-voleio. Alguém avisou Federer que a temporada de grama só começa dentro de oito dias?

Nadal e Juan Ignacio Londero encararam rajadas de ventos terríveis na Philippe Chatrier e a adaptação não foi fácil. O argentino começou nervoso mas depois se soltou, encarou as trocas sem medo, foi abusado e premiado com uma quebra de saque. O espanhol novamente me deixou ótima impressão: 39 winners, forehand afiadíssimo, backhand batido na primeira oportunidade, um ritmo pesado, envolvente, sufocante. Londero, a certa altura, virou para o box e revelou: não tinha mais fôlego.

Há grande chance de Rafa reencontrar Kei Nishikori, que até já podia ter ido dormir classificado, mas falhou no tiebreak e terá de voltar à quadra para tentar mais um set diante de Benoit Paire.

Stephens supera teste
Aumentou a chance de uma segunda final seguida entre Simona Halep e Sloane Stephens em Roland Garros. A norte-americana também garantiu lugar nas quartas de final ao recuperar um começo ruim e ver Garbiñe Muguruza abrir 3/1. A espanhola no entanto só ganharia mais quatro games na partida.

A tarefa de Stephens continua exigente. Encara agora Johanna Konta, que a venceu dias atrás em Roma mas que nunca foi tão longe em Paris. É outro jogo em que a norte-americana terá de encarar uma adversária que prefere sempre o ataque.

Petra Martic venceu num jogo muito instável diante de Kaia Kanepi, que perdeu inúmeras chances na partida. Pela primeira vez nas quartas, a croata de 28 anos encara a jovem tcheca Marketa Vondrousova. A canhota de 19 anos arrasou Anastasija Sevastova e é mais uma novata que se candidata a surpresa em Paris.

A segunda-feira
– Djokovic pode se tornar o único homem a atingir 10 quartas consecutivas no torneio se passar por Struff. Um dia quente como neste domingo aumenta as chances do alemão. Previsão no entanto é de 25 graus.
– Monfils tenta se igualar a Noah e Leconte como franceses com mais quartas em Paris (5). Nunca venceu Thiem em 4 duelos, 2 no saibro.
– A única presença em quartas de Slam veio em Roland Garros tanto Zverev como para Fognini. Italiano nunca esteve tão perto do sonhado top 10.
– Delpo lidera duelo contra Khachanov por 3 a 0 e tenta 14ª presença em quartas de Slam, aproximando-se assim das 19 do recordista argentino Vilas.
– Esta é apenas a terceira vez na Era Profissional que os 10 principais cabeças atingiram as oitavas de um mesmo Slam, repetindo Paris-68 e Austrália-70.
– Nova geração domina rodada feminina que completa as oitavas de final. Halep é favorita diante de Swiatek (18 anos) e aguarda Anisimova (17) ou Bolsova (21).
– O outro quadrante também tem novidades: Kenin (20), que tirou Serena, e Siniakova (23), algoz de Osaka. Favoritismo da experiência de Barty e Keys.

Que venham los hermanos
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2019 às 20:18

Em seu primeiro teste real em Roland Garros, Rafael Nadal foi muito bem. Perdeu um set, é verdade, mas porque David Goffin jogou um tênis primoroso e surpreendente. Como não sair satisfeito de uma partida em que se errou apenas 21 vezes? Muito mais do que isso, o canhoto espanhol fez uma proposta ofensiva desde o começo, sufocou o experiente belga nos dois primeiros sets. Não tivessem escapados os break-points no comecinho da terceira série, e o placar talvez tivesse sido bem elástico.

O importante para o undecacampeão é que ele se mostrou muito competente também num estilo agressivo, em que buscou os pontos mais rápidos e mirou as paralelas com frequência. Com esse volume todo de jogo, só um dia daqueles excepcionalmente desastrosos poderia tirar sua vaga nas quartas diante do pouco experiente Juan Ignacio Londero, um saibrista de verdade mas que disputa seu primeiro Grand Slam.

Roger Federer venceu em sets diretos, porém teve altos e baixos com o saque, sua arma tão importante, ao longo do terceiro set. Isso deu algumas brechas para o garoto Casper Ruud, que saiu quebrando, fez outro 0-30, teve um break-point e no tiebreak chegou ao set-point. Claro que o suíço achou soluções, fez lances espetaculares e usou o primeiro saque em momentos cruciais. Na contabilidade final, anotou 52 winners e 36 erros.

Leva também o natural favoritismo sobre outro argentino, Leonardo Mayer, a quem já venceu três vezes na quadra dura. Será interessante ver como os dois se encaram no saibro com seus backhands de um mão, um piso que afinal das contas é mais natural para Mayer.

Os outros jogos
No lado de Nadal, Kei Nishikori e Benoit Paire têm metas distintas. O japonês quer repetir sua melhor campanha em Paris e cravar a terceira presença em quartas, algo que é muito respeitável para quem precisou adaptar seu estilo ao saibro. Paire tenta pela terceira vez enfim superar as oitavas de um Slam (US Open-15 e Wimbledon-17 foram as outras).

Nishikori sofreu um desgaste incrível para vencer Laslo Djere no quinto set, após 4h26 de batalha, e estava claramente ‘morto’ no finzinho do jogo. Por isso, a chance de Paire aumenta, embora ele tenha retrospecto negativo de 2-6, tendo já perdido duas vezes em Roland Garros: 2013 e 2018.

A vaga do lado do Federer está indefinida, mas parece bem mais nas mãos de Stan Wawrinka, que ganhou os dois tiebreaks de Grigor Dimitrov, e de Stefanos Tsitsipas, que lidera por 2 sets e tem 5/5 frente a Filip Krajinovic. Se confirmado, será um duelo de gerações inédito.

Números mágicos
Federer se tornou nesta sexta-feira o primeiro profissional a totalizar 400 partidas de Grand Slam, das quais venceu 345, outro amplo recorde. O mais próximo dos homens é Novak Djokovic, com 308 feitas e 267 vencidas. Serena Williams está com 335 vitórias.

Nadal, por sua vez, busca no domingo a 90ª vitória em Roland Garros. Se vencer Londero, será apenas o terceiro homem a atingir tal domínio num Slam, junto a Federer (97 na Austrália e 95 em Wimbledon) e a Jimmy Connors (98 no US Open). Mesmo o feminino só tem três nomes com esse número: Martina Navratilova, Chris Evert e Serena.

A campeã voltou?
Apesar de ter perdido três vezes o saque no primeiro set, Garbiñe Muguruza superou Elina Svitolina com placar dilatado, o que pode deixá-la mais relaxada. Como sempre, arriscou bastante, marcando 23 winners e 29 erros, e agora terá de encarar o contragolpe de Sloane Stephens, que complicou um jogo que parecia mais simples e foi vencer Polona Hercog num duro terceiro set. Quem avançar, pegará Johanna Konta ou Donna Vekic.

Num dos melhores momentos da chave feminina deste ano, Anastasija Sevastova virou em cima de Elise Mertens com 11/9 no terceiro set e nada menos que cinco match-points literalmente evitados graças a golpes de extrema coragem e precisão. Enfrenta agora Marketa Vondrousova e nada é impossível num setor que tem Petra Martic e Kaia Kanepi. Em grande momento, Martic não tomou conhecimento de Karolina Pliskova e garantiu o número 1 para Naomi Osaka.

O sábado
– Em toda carreira, Djokovic só perdeu três vezes para um adversário de ranking tão baixo como o do 147º do mundo Caruso. E jamais foi batido por um quali em Slam em 18 duelos. O tenista de melhor ranking que o italiano venceu era 33º.
– Thiem perdeu de Cuevas quatro anos atrás em Roland Garros e o placar geral é de duros 3-2 a seu favor. Em fevereiro, ganhou de virada do uruguaio em Buenos Aires.
– Lajovic traz duras lembranças a Zverev, que precisou de cinco suados sets para superar o sérvio na segunda rodada de 2018.
– Delpo estará inteiro para seu primeiro duelo contra Thompson? O maior feito do australiano até hoje foi ganhar de Murray em Queen´s-2017.
– Em 10 duelos contra Bautista, Fognini venceu sete. No saibro, está 3-1.
– Mais um NextGen no caminho de Struff. Ele já tirou Shapovalov e agora encara Coric. Placar está 2-2. No saibro de Madri do ano passado, croata só permitiu 2 games.
– Monfils x Hoang e Khachanov x Klizan são duelos inéditos no circuito.
– Três dos oito jogos femininos envolvem tenistas que não são cabeças. Expectativa é que Osaka e Keys vençam e se cruzem nas oitavas.
– Halep venceu todas as seis diante de Tsurenko e Serena nunca cruzou com a ascendente Kenin. Duas tenistas cheias de estilo, Barty e Petkovic podem fazer a partida mais divertida.

Murray surpreende em dia da nova geração
Por José Nilton Dalcim
2 de agosto de 2018 às 00:39

É bem verdade que falta de tudo em Andy Murray. O saque está bem instável, o forehand escapa com frequência e o backhand outrora matador lembra muito pouco a sua marca registrada.  Na maior parte do tempo, seus golpes estão curtos e o contraataque não machuca tanto.

Mas, apesar de tudo, o escocês já passou duas rodadas em Washington, onde seu grande trunfo tem sido uma enorme vontade de vencer. Não é nada difícil passar também pelo romeno de pouco currículo Marius Copil. A pergunta agora é como estará de pernas depois de seis sets disputados em 48 horas.

A outra boa notícia destes primeiros dias vem com a nova geração. Teremos ao menos seis nas oitavas de final de Washington, praticamente um em cada jogo: Alexander Zverev, Denis Shapovalov, Frances Tiafoe, Stefanos Tsitsipas, Hyeon Chung e o vencedor entre Andrey Rublev e Tommy Paul, com chance ainda de avançarem Alex de Minaur e Noah Rubin (jogos adiados por causa da chuva). Pode-se até colocar Lucas Pouille nessa lista.

Aliás, a garotada também avança em Los Cabos com Quentin Halys, Cameron Norrie e Michael Mmoh, e se destaca no saibro de Kitzbuhel, após o avanço para as quartas de Jaume Munar, Nicolas Jarry, Matteo Berretini e Max Marterer. Nada ruim.

Houve também novidades, verdadeiras sandices, nos WTA. Serena Williams jogou qualquer coisa menos tênis e foi destroçada por Johanna Konta, britânica que gosta de atuar de forma agressiva e busca uma reação na carreira. Pior aconteceu com Garbiñe Muguruza, que num dia deu declarações toda otimistas e repentinamente desistiu de competir em San Jose.

Ainda em Los Cabos, fiquemos atentos a Juan Martin del Potro. Ele está muito perto de atingir o maior ranking de sua carreira e tirar o número 3 de Zverev, que tem a dura missão de defender seguidamente os títulos de Washington e do Canadá. O argentino é favorito no México e assim pode chegar a Toronto com 5.600 pontos. Aí teria chance de superar também Roger Federer, que irá perder os 600 pontos de Montréal.