Arquivo da tag: Garbine Muguruza

Shapovalov rouba a cena
Por José Nilton Dalcim
2 de julho de 2021 às 19:52

Num dia em que o número 1 do mundo venceu sem tanto brilho e os heróis locais se despediram, Denis Shapovalov lembrou os bons tempos em que os canhotos faziam da grama um terreno fértil para grandes exibições. O canadense fez uma das mais sólidas partidas em palcos gigantes que me lembro de ter visto e avança pela terceira vez à segunda semana de um Grand Slam.

É bem verdade que Andy Murray esteve num dia muito apagado e na verdade escapou de um placar verdadeiramente vexatório na Central, mas isso tem muito a ver com as armas utilizadas pelo adversário. Atacado em seu lado direito, Shapovalov exibiu um backhand extremamente firme o tempo inteiro, trocando de direções na hora certa. Chegou a ter 5/1 no primeiro set, antes de o escocês reagir e dar um susto, tendo ficado a um ponto do empate.

Foi só. Sem achar buracos, apressou-se e ainda por cima sacou mal, o que permitia a Shapovalov atacar seu segundo serviço. Vieram outros dois 5/1 e eu diria que Murray levou até alguma sorte para escapar de ‘pneus’. A diferença de winners foi assombrosa – 45 a 16 – e Shapovalov nem precisou forçar tanto seu excelente jogo de rede, ainda assim tendo vencido 16 das 21 subidas à rede.

Para tentar a segunda quartas em Slam e repetir o US Open do ano passado, terá um perigoso Roberto Bautista pela frente, semifinalista dois anos atrás e que promete exigir muito mais nas trocas da base do que Murray foi capaz de fazer. Como de hábito, o espanhol faz uma campanha sem holofotes, tendo superado John Milmann, Miomir Kecmanovic e Daniel Koepfer. O duelo será inédito, o que deixa tudo ainda mais incerto.

Fica aberta a oportunidade para a nova geração brilhar em mais um Slam, já que o vencedor aqui cruzará com Sebastian Korda ou Karen Khachanov. O norte-americano fez outra belíssima atuação e não se incomodou com os golpes variados de Daniel Evans, nem com o apoio da torcida. Forçou sempre – 51 winners e 43 erros – e chegou a perder três serviços, porém mostra arsenal e tranquilidade admiráveis para seus 20 anos. Khachanov me surpreende, tendo feito poucas coisas empolgantes nos últimos 10 meses. Foi muito superior a Frances Tiafoe nesta sexta-feira e, confiante, é muito perigoso.

Nole mais humano
Não era de se esperar tantas dificuldades para Novak Djokovic no duelo contra Denis Kudla, a se julgar pelo volume de jogo que o número 1 vinha mostrando. Ele no entanto não sacou desta vez tão bem, cometeu mais erros da base e assim chegou a perder dois games de serviço e ficou próximo de ir a um quarto set, quando pareceu desconcentrado e viu o norte-americano chegar a 4/1. Também quase deixou o tiebreak escapar, perdendo três dos cinco primeiros pontos em que sacou, mas no final sua imensa superioridade técnica prevaleceu.

É mais do que natural que numa longa campanha o tenista viva dias menos inspirados e nunca se deve esquecer que Nole é sempre aquele que entra em quadra com a obrigação de vencer e de jogar bem, o que traz pressão inevitável. Mas não há nada que tire seu amplo favoritismo diante do saibrista Cristian Garin nas oitavas de final. O chileno joga um tênis todo certinho, sem nada tão espetacular, e deixa por vezes a cabeça fugir. Na única vez que cruzou com Nole, até que não perdeu feio na ATP Cup do ano passado.

Com 55 presenças nas oitavas de um Slam – a segunda melhor marca da Era Aberta -, sendo 13 delas em Wimbledon, Nole pode ter pela frente nas quartas Andrey Rublev. Depois de tirar Fabio Fognini numa exibição madura, o russo está perto das únicas quartas de final que lhe faltam em nível Slam e me parece em plenas condições de derrotar Marton Fucsovics. O húngaro joga de forma um tanto semelhante, na base de muito risco, e como não tem a mesma força perdeu neste ano os três duelos contra Rublev sem ganhar set.

Jabeur derruba a campeã
No melhor jogo do dia, a tunisiana Ons Jabeur usou seus grandes recursos técnicos e muita perna para superar Garbiñe Muguruza, a campeã de 2017, numa virada empolgante. Com 1,68m, Jabeur sabe entrar na bola para dar mais peso ao golpe, mas também tem muita mão e varia o tempo todo. Pode dar trabalho a Iga Swiatek, que a cada dia está mais confortável nos pisos mais velozes.

Outro duelo que promete é o de Aryna Sabalenka e Elena Rybakina. Nos dois anteriores, a cabeça 2 levou, mas sempre no terceiro set. Todas essas quatro estão no mesmo quadrante, o que deixa tudo muito embolado rumo à semifinal.

Liudimila Samsonova continua suas surpresas e já embalou 10 vitórias seguidas na grama desde o quali de Berlim. Na trajetória, tirou gente grande, como Vika Azarenka e Belinda Bencic e hoje eliminou Sloane Stephens. A russa de 20 anos é o desafio de Karolina Pliskova, que fez 30 winners em 18 games e tirou Tereza Martincova. Quem vencer, cruzará com Madison Keys ou Viktorija Golubic. A norte-americana tem um estilo bom para a grama e já fez quartas em 2015. A suíça de 28 anos e 66ª do ranking é novidade.

E mais
– Grande dia para o tênis brasileiro nas duplas. Melo/Kubot já avançaram às oitavas, Soares/Murray estrearam bem e Matos/Monteiro causaram bela surpresa. E ainda vencemos com Stefani/Demoliner nas mistas.
– O único britânico que venceu Federer em Wimbledon foi Henman, em 2001. Suíço tem 100 vitórias no torneio a mais que Norrie (103-3) e 355 em Slam (367-12).
– Medvedev só ganhou 1 de 8 jogos no quinto set que fez, enquanto Cilic já virou 8 quando atrás por 0-2. Russo levou a melhor no único duelo em 2019.
– Zverev reencontra Fritz em Wimbledon. Há três anos, ganhou lá no quinto set. O norte-americano é treinado por Annacone, ex de Federer.
– Siniakova é uma adversária que merece a atenção de Barty. Já ganhou seis vezes de top 10 e só perdeu um serviço nos jogos anteriores. Nunca se cruzaram.
– Gauff reencontra Juvan, para quem perdia de 3/6 e 0/3 no quali de Adelaide este ano. Nenhuma eslovena chegou até hoje nas oitavas de Wimbledon.
– Depois de fazer contra Sorribes o jogo feminino mais longo do torneio desde 2011, Kerber enfrenta Sasnovich, 100ª do ranking.

Murray vai por cima
Por José Nilton Dalcim
30 de junho de 2021 às 20:25

Andy Murray não poderia terminar sua heroica batalha de outra forma: dono do melhor lob que já vi no circuito, realizou dois seguidos em cima do grandalhão Oscar Otte, um jogador que surpreendeu pela disposição ofensiva apesar de suas evidentes limitações, e assim o escocês manteve sua sina de jamais perder antes da terceira rodada desde a estreia em 2005.

Murray, claro, está ainda longe do que pode realmente fazer numa quadra de grama, mas ele sabe achar atalhos e tira toda a energia possível da enlouquecedora torcida. São evidentes seus altos e baixos, a falta de pernas ou de confiança para meter mais a cara na rede, e aí o excessivo padrão defensivo acaba aflorando. De qualquer forma, há uma chance bem considerável de passar por Denis Shapovalov, canhoto com histórico pobre no piso, desde que consiga se recuperar fisicamente.

No começo do dia, Novak Djokovic deu mais um show. Foi tão superior que até parecia que Kevin Anderson não era um especialista na grama, com vice em Wimbledon. O sérvio tem exibido nestes dois jogos as qualidades mais especiais de quem se aventura na superfície: um saque devastador e devoluções milimétricas. Se mantiver o padrão, será praticamente impossível ganhar dele. Enfrenta agora Denis Kudla, que é um batalhador de bolas retas, e deve depois reencontrar Gael Monfils. O ‘freguês’ francês só beliscou oitavas em Wimbledon uma vez.

No outro quadrante, Andrey Rublev me causou espanto pelo tamanho do domínio sobre Lloyd Harris e é favorito natural contra Fabio Fognini e depois diante de quem passar entre Diego Schwartzman e Marton Fucsovics.

Já o setor de Murray tem ainda outra esperança local, Daniel Evans, que passou bem na estreia por Feli López e hoje ganhou com autoridade de Dusan Lajovic. Mas não será fácil cruzar com Sebastian Korda. Não ficaria surpreso aliás se acontecesse um duelo todo norte-americano, já que Frances Tiafoe fez outra ótima exibição diante de Vasek Pospisil e pode muito bem prevalecer em cima do pouco confiável Karen Khachanov.

Kyrgios lidera queda de cabeças
Nada menos que 27 jogos desta quarta-feira ainda foram válidos pela primeira rodada e entre eles alguns resultados relevantes. O destaque é claro foi Nick Kyrgios. Após cinco meses sem competir e apenas dois torneios disputados desde março do ano passado, fez um jogo de alto nível e tirou o embalado canhoto Ugo Humbert num emocionante quinto set, por 9/7. É um excepcional jogador sobre grama, com capacidade de alternar velocidades e efeitos, além do saque fulminante e enorme habilidade na rede. Tem chance real de passar por Gianluca Mager e dar trabalho a Felix Aliassime, que fez um jogo redondo e não deu qualquer chance a Thiago Monteiro.

Também caíram Pablo Carreño, Casper Ruud e John Isner entre os cabeças de chave. Semifinalista de 2017 e quartas em 2019, Sam Querrey nem de longe pode ser chamado de surpresa e venceu bem os três sets contra Carreño,. É perigoso. Com ‘apenas’ 1,70m e um tênis totalmente de contragolpe, o canhoto Yoshihito Nishioka fez 3 aces contra os 36 do gigante Isner, de 2,08m, e só ganhou 18% dos pontos como devolvedor, porém o japonês aproveitou dois de quatro break-points e ainda levou um tiebreak.

Notável a vitória em sets diretos de Kei Nishikori, ótima recuperação da esperança local Cameron Norrie e nova frustração para Jo-Wilfrid Tsonga, que também parece muito perto do adeus.E Matteo Berrettini está muito a fim de jogo. Todos os vencedores, mesmo os que fizeram cinco sets, têm de voltar à quadra nesta quinta-feira.

Campeãs de Slam dão adeus
Duas jovens e uma veterana vencedoras de Grand Slam já deram adeus ao torneio, mas foram surpresas pequenas em se tratando de grama.

Sofia Kenin caiu cedo pelo quarto Slam consecutivo diante da também americana Madison Brengle, repetindo a segunda rodada de Melbourne. Venus Williams também se foi, mas Ons Jabeur atravessa bom momento e varia muito bem seus golpes. Por fim Bianca Andreescu nem passou da estreia, com 34 erros e um placar arrasador imposto por Alizé Cornet.

Aryna Sabalenka, Iga Swiatek, Karolina Pliskova e Garbiñe Muguruza já estão na terceira rodada. A cabeça 2 precisou de virada e de paciência com a torcida, a polonesa foi muito firme e Muguruza já ganhou em Wimbledon e pode achar o caminho de sua recuperação.

Aliás, a grama também é ótimo lugar para Pliskova recuperar sua temporada instável, mas estou gostando mesmo é de Sloane Stephens. Ela não saca muito, nem bate tão forte, mas é uma jogadora taticamente muito aplicada e está num setor bem interessante da chave.

O feminino também teve 23 jogos ainda de primeira rodada, que marcaram estreia difícil de Elina Svitolina, quedas de Belinda Bencic e Anett Kontaveit e vitórias de Vika Azarenka e Anastasia Pavlyuchenkova.

Sustos e preocupação
Depois das contusões sérias de Serena Williams e Adrian Mannarino, que não conseguiram seguir em seus jogos na Central, o piso escorregadio causou várias outros sustos nesta quarta-feira. Djokovic, tal qual acontecera na estreia, foi ao chão algumas vezes e não se mostrou nada feliz. Isner e Kyrgios também sofreram quedas feias, que felizmente não causaram danos maiores, e o próprio Murray perdeu o equilíbrio e imediatamente colocou a mão na problemática virilha, um sinal de alerta temeroso.

Questionado sobre o problema, o All England Club colocou a culpa no excesso de umidade da atmosfera no período em que o piso foi cultivado. “Tivemos a maior umidade em uma década e assim o teto das quadras precisou ser fechado, o que isso influenciou no assentamento”, afirmou,  jurando que a preparação das quadras foi exatamente igual a todos os outros anos. “Conforme os jogos acontecerem, a quadra ficará firme”. Será?

Traiçoeira grama
Por José Nilton Dalcim
28 de junho de 2021 às 18:01

Por mais que um tenista treine, jogar sobre a grama nas primeiras rodadas sempre é um desafio. O piso começa impecável, mas ao mesmo tempo liso, escorregadio, o que exige adaptações constantes. Até mesmo multicampeões como Novak Djokovic e Petra Kvitova demoram para achar o equilíbrio e por vezes isso custa caro.

Os menos rodados sofrem para entender que é preciso fechar ângulos, ficando perto da linha e correndo em diagonal, assim como tentar usar as bolas mais retas e recorrer a bate-prontos. O deslocamento também precisa ser leve e a antecipação é essencial. Na soma de tudo, fica mais fácil entender como Stefanos Tsitsipas não ganhou set de Frances Tiafoe e por que vários nomes fortes sofreram logo de cara.

Djoko iniciou a defesa do título com pequeno susto, mas era evidente que o garoto canhoto Jack Draper não manteria a consistência. O sérvio achou a devolução, explorou o forehand menos eficiente do adversário e acima de tudo passou a sacar com enorme qualidade. Anotou 25 aces, com um game perfeito de 46 segundos, e acertou 78% do primeiro saque (mais de 80% dos dois sets finais e apenas quatro pontos perdidos após o set inicial). Fez aliás voleios muito exigentes após o saque e terminou com 17 pontos em 22 subidas. Reencontrará Kevin Anderson na quarta-feira, um finalista de Wimbledon que merece respeito mas que não está em ritmo, a ponto de suar muito contra o saibrista Marcelo Barríos.

Tsitsipas foi uma tremenda decepção. Jogou de forma incrivelmente passiva, dando espaço para Tiafoe atacar. À medida que ganhou confiança, o norte-americano de golpes pesados passou a fazer devoluções e contragolpes espetaculares e abocanhou com justiça toda a simpatia do público. Ficou a nítida impressão que o grego não fez a transição correta do saibro para a grama, não apenas técnica como também mental. Em seu quarto Wimbledon, o dono de jogo versátil e completo caiu na primeira rodada pela terceira vez.

Stef pode aproveitar o tempo livre e se inspirar em Andy Murray. Mesmo longe de seus melhores dias, o escocês mostrou no retorno à Central como se joga na grama. Com exceção à reta final da partida, funcionou tudo. Saque, slices, curtas, passos curtos, o essencial bate-pronto e a transição à rede. Depois de fazer 5/0 no terceiro set e ficar tão perto da vitória, vieram os nervos e Murray também mostrou o pior dos erros: esperou Nikoloz Basilashvili errar e isso raramente dá certo nesse piso tão traiçoeiro.

A rodada masculina viu também as quedas dos jovens Jannik Sinner e Alejandro Fokina, o que nem é tão inesperado em termos de grama, mas também a derrota do super-sacador Reilly Opelka para aquele Dominik Koepfer que deu sufoco em Roger Federer no saibro de Paris. O norte-americano disparou 19 aces, mas não salvou um único dos três break-points e jamais ameaçou o serviço adversário. A grama por incrível que pareça não é a praia de Opelka, que só ganhou dois jogos na carreira sobre a superfície. Andrey Rublev e Roberto Bautista perderam sets.

O precoce adeus de Kvitova
Não era de se esperar jogo fácil, mas também não era para derrota. O fato é que Petra Kvitova não se achou em quadra e foi dominada por Sloane Stephens, que ganhou seu sétimo jogo no torneio desde que atingiu as quartas em 2013. A tcheca, que perdeu na sexta-feira para Angelique Kerber na grama alemã, cometeu 20 erros não-forçados, um número gigantesco para este tipo de quadra.

Aryna Sabalenka, Sofia Kenin e Iga Swiatek bateram muito na bola e confirmaram ser boas candidatas a ir longe neste Wimbledon. Sabalenka cravou 48 winners em 17 games. Outro destaque foram os 50 minutos que Garbiñe Muguruza gastou para atropelar Fiona Ferro, 51º do mundo. A francesa ganhou apenas 5 pontos no primeiro set.

Frase do dia
“Sejam gentis com a grama”
Da juíza Eva Asderaki