Arquivo da tag: Garbine Muguruza

Primeiro samba em Paris
Por José Nilton Dalcim
22 de maio de 2022 às 18:48

Depois de seis anos, o tênis feminino brasileiro voltou a vencer nas chaves de simples de Roland Garros. Na sua volta ao saibro parisiense desde a estreia de 2017, Beatriz Haddad Maia saiu vitoriosa em um jogo em que novamente controlou a cabeça. A última a ganhar em Paris havia sido Teliana Pereira, em 2016.

Bia agora tem vitórias em três diferentes Grand Slam, somando-se às três da Austrália e às duas de Wimbledon. Apenas Maria Esther Bueno e Cláudia Monteiro ganharam até hoje ao menos um jogo em cada Slam ao longo de suas carreiras.

Sua próxima adversária será a estoniana Kaia Kanepi, veterana de 36 anos que esteve duas vezes nas quartas de Paris, mas a última há exatos 10 anos. Gosta de bater firme e comandar os pontos e não à toa 10 de suas 15 vitórias sobre top 10 foram em Slam. Foi exatamente assim hoje contra a instável Garbiñe Muguruza. Quem vencer, deve encarar Coco Gauff.

Se está inconstante, principalmente com o saque a favor e com certa pressa nas definições, Bia mostra outra vez que a cabeça está em dia. Levou 1/6 e esqueceu rapidamente. Explorou muito bem o saque aberto de canhota no lado da vantagem na reta final.

“Tenho feito muitos jogos no terceiro set e isso acaba dando confiança, porque você se sente fisicamente bem e muito competidora”. Bia vai jogar duplas com Anna Danilina, repetindo a parceria de sucesso da Austrália, e mistas ao lado de Bruno Soares.

Ritmo de treino
Alexander Zverev e Carlos Alcaraz venceram em ritmo de treino. Sem jogar desde o título de Madri, o garoto espanhol teve um adversário bem apropriado, o argentino Juan Ignacio Londero, que fez um bom primeiro set. Agora, vem um novo teste diante do compatriota Albert Ramos, canhoto cheio de experiência. Maria Sakkari e Belinda Bencic liquidaram rapidamente suas tarefas.

Primeiras surpresas
Alejandro Davidovich Fokina voltou a ser o reclamão inconformado e. mesmo vencendo fácil o primeiro set, levou virada do bom holandês Tallon Griekspoor, dono de um pesado forehand e que não pensa muito na devolução de saque. Também caiu o cabeça 31 Jenson Brooksby, mas esse não joga nada no saibro e pegou a raposa velha Pablo Cuevas, que o massacrou.

A grande surpresa coube a Magda Linette, que soube reagir depois de um primeiro set em que se rendeu às bolas variadas de Ons Jabeur, uma sensação da temporada de saibro. A tunisiana se perdeu então nos erros – 47 no total – e, mais grave ainda, nos game decisivos dos sets seguintes, como o bisonho smash que antecedeu o match-point.

Sinal de alerta
Apesar do desempenho surpreendente do peruano Juan Pablo Varillas, a estreia de Felix Aliassime foi temerosa. Talvez tenha pesado o fato de nunca ter vencido em Roland Garros. Vamos ver o que acontece contra outro sul-americano, o argentino Ugo Carabelli. Outro que não me agradou foi Diego Schwartzman, com intensos altos e baixos, e se continuar assim pode tropeçar em Jaume Munar.

Fiascos
Dominic Thiem não se achou um minuto sequer diante do versátil Hugo Dellien, totalizando um set vencido em sete partidas desde o retorno. Voltou a falar que precisa de paciência. Garbiñe Muguruza terminou a temporada de saibro com duas vitórias, vem de contusões no ombro e na panturrilha e isso lhe custa confiança. Nem mesmo saindo na frente, a campeã de 2016 conseguiu sustentar o ritmo e por vezes sacou muito mal.

Os novos tempos
Foi inaugurado oficialmente o novo sistema de placar do quinto set em Roland Garros, o único que mantinha o ‘set longo’ no circuito. O argentino Camilo Carabelli surpreendeu o russo Aslan Karatsev, por 6/3, 4/6, 6/4, 3/6 e 7/6, com 10-5 no supertiebreak decisivo. Será assim em todos os Slam a partir de agora.

Nadal faz mágica outra vez
Por José Nilton Dalcim
13 de março de 2022 às 00:13

É bem verdade que foi o pior Rafael Nadal da temporada 2022, mas ganhar sem jogar o melhor tênis é também uma virtude dos campeões e o canhoto espanhol sabe muito do assunto. Na base de garra, com tremendas oscilações principalmente no saque, ele contou com a falta de determinação do garoto Sebastian Korda na hora de concluir o placar e com isso chega à 16ª vitória consecutiva.

A batalha de Indian Wells foi aquele típico jogo de capítulos claramente distintos. Korda entrou apressado e levou um baile, mas depois calibrou a devolução, ousou mais da base e achou um buraco interessante ao fugir para bater o forehand cruzado. Tudo é claro favorecido por um serviço muito instável do número 4 do ranking.

De repente, Korda estava com duas quebras, saque e 5/2 de vantagem. Parecia irreversível. Apenas parecia. O norte-americano sentiu os nervos na primeira chance e viu Rafa aplicar grandes contragolpes na segunda. AInda teve um break-point incrivelmente fácil para ir a 6/5. Conseguiu empurrar para o tiebreak e de novo teve dois saques com 3-2. Faltou a ele o que sobra para Nadal: controle mental. Ainda assim, consciente do dia ruim, o espanhol admitiu que teve sorte e frisou a dificuldade de se controlar a bola no deserto californiano.

Nadal, que antecipadamente já descartou Miami do seu calendário – um dos raros grandes torneios que jamais conquistou, mas uma decisão sábia frente à longa trajetória no saibro europeu -. tentará terceira vitória na quadra dura contra Daniel Evans, que não ganhou set até hoje. Se estiver inteiro na parte física, é de se esperar o espanhol explorar sem descanso o backhand do britânico, que abusa no uso do slice. E todos sabemos que esse golpe não incomoda Rafa.

Bem mais cedo e com muito maior facilidade, Daniil Medvedev deu o primeiro dos três passos que precisa para manter o número 1 do ranking. Até demorou um pouquinho para achar o ritmo de fundo de quadra, mas daí em diante o tcheco Tomas Machac foi presa fácil. Reencontra agora Gael Monfils, contra quem perdeu uma e venceu outra em 2019, e se confirmar terá outro jogo duro diante de um espanhol, Carlos Alcaraz ou Roberto Bautista.

A parte inferior da chave masculina ainda terá a estreia dos favoritos neste domingo e alguns jogos parecem interessantes: Berrettini-Rune, Aliassime-Zandschulp, Carreño-Munar, Nakashima-Tiafoe, Querrey-Isner e Bublik-Murray. Com a desistência de Novak Djokovic, Grigor Dimitrov herdou o lugar do cabeça 2 e sua caminhada, mas o búlgaro não anda confiável e pode então pintar a grande chance de Murray fazer um Masters decente, algo que não acontece desde seu título em Bercy de 2016.

Dez cabeças fora no feminino. E contando.
A chave feminina, mais adiantada, completou todo o quadro da terceira rodada e manteve o padrão atual: festival de surpresas e grandes nomes deixando a briga muito cedo.

O lado superior perdeu Garbiñe Muguruza, Karolina Pliskova, Elina Svitolina, Belinda Bencic, Tamara Zindasek e Alizé Cornet, enquanto o lado inferior já não tem mais Aryna Sabalenka, Ons Jabeur, Jelena Ostapenko e Jessica Pegula. Ouso dizer que somente as quedas de Jabeur e Ostapenko foram menos esperadas.

E não foi só. Simona Halep, Emma Raducanu, Iga Swiatek e Petra Kvitova foram levadas ao terceiro set e a atual campeã Paula Badosa quase se enrolou. Estreia realmente tranquila coube apenas para Anett Kontaveit e Maria Sakkari.

Três destaques, um tanto tristes. Primeiro, a virada inacreditável que Muguruza levou da boa Alison Riske, já que a espanhola fez 6/0 e 3/0 e ganhou depois tão somente mais um game até o fim da partida. Depois, o abandono completamente sem sentido de Amanda Anisimova depois de perder quatro match-points contra a guerreira Leylah Fernandez. E pior de tudo, a ofensa da torcedora que tirou Naomi Osaka de órbita, levou a japonesa às lágrimas e à derrota. Como ela bem lembrou, isso aconteceu com Serena e Venus lá mesmo em Indian Wells, levando a longo boicote das irmãs ao torneio.

A briga por vaga nas oitavas tem como destaque Halep-Gauff, Swiatek-Tauson, Kasatikina-Kerber, Azarenka-Ribakina e Sakkari-Kvitova.

Bia Haddad Maia fez três jogos distintos. Em simples, se aproveitou dos mais de 70 erros de Sofia Kenin nos dois sets disputados, mas diante da jovem Tauson faltou um saque mais contundente. A canhota paulista até aguentou a pancadaria imposta pela dinamarquesa, que faz tudo muito direitinho. Em duplas, Bia e Anna Danilina deixaram escapar cinco match-points diante das campeãs do US Open de 2020.

A força mental de Medvedev
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2022 às 13:03

Só havia uma chance para Nick Kyrgios complicar a vida do cabeça 2 do Australian Open: o russo entrar na ‘pilha’ de seus devaneios e na guerrinha da torcida, perder a cabeça e a consistência necessárias. Ainda que tenha cedido um set e jogado outros dois bem apertados, Danill Medvedev confirmou o favoritismo e saiu muito forte rumo à terceira rodada.

Na maior parte do tempo, Medvedev sacou com grande qualidade, explorando o maior defeito do australiano, que sempre foi a devolução. Quando precisou do segundo serviço e não foi contundente o bastante, Kyrgios agrediu com a incrível habilidade que possui. O russo também se aventurou bem mais à rede, aproveitando certa lentidão do adversário. Este jogo foi um grande exemplo de como Kyrgios desperdiça sua carreira por falta de entusiasmo, já que exigiu atenção máxima de Medvedev o tempo inteiro, com variações táticas e técnicas de enorme qualidade diante do jogador talvez em melhor momento em todo o circuito.

No entanto, o que chama de novo a atenção é a fortaleza mental que Medvedev construiu em tão pouco tempo. Encarou a torcida barulhenta, os ruídos provocativos entre o saque, os delírios de Kyrgios e sua própria frustração. E na hora da entrevista, diante de vaias, ainda deu bronca e exigiu que o público respeitasse pelo menos o entrevistador, o bicampeão Jim Courier. Esse Urso não é pouca coisa.

Outros pontos altos da rodada masculina foram os jogos muito equilibrados e de enorme empenho em que Felix Aliassiame superou Alejandro Fokina e Benoit Paire barrou Grigor Dimitrov. Na soma, oito sets e seis tiebreaks. O francês aliás é mais um que melhorou o forehand e hoje nem foge mais do golpe como antes. Stefanos Tsitsipas demorou para bater o baixinho Sebastian Baez, mas garante que o cotovelo direito parou de doer desde domingo.

Bem mais tranquilas foram as vitórias de Andrey Rublev, Jannik Sinner e Roberto Bautista. Frustrações enormes vieram com as quedas em sets diretos de Diego Schwartzman e Andy Murray. O argentino parou no 175º do ranking, o local Christopher O’Connell que não tem nada de muito especial mas é brigador. Murray não sacou bem, errou demais e encarou um animado Taro Daniel, que não deu bola para a torcida em peso para o escocês.

Ficam marcados encontros promissores na luta pelas oitavas: Rublev x Marin Cilic, Aliassime x Daniel Evans, Paire x Stefanos Tsitsipas e Bautista x Taylor Fritz. De todos eles, acho que Rublev é o único favorito mais destacado.

Zebras e duplas faltas no feminino
Mais quatro cabeças de chave se despediram na sempre imprevisível chave feminina, dando oportunidade para muitos nomes pouco badalados. Garbiñe Muguruza e Anett Kontaveit foram as top 10 eliminadas, Elena Rybakina abandonou e Emma Raducanu não superou bolhas na essencial mão direita.

Agressiva, Alizé Cornet fez uma belíssima partida diante de uma Muguruza muito instável e sem confiança, enquanto a garota dinamarquesa Clara Tauson deu um espetáculo de força, precisão e frieza com sua capacidade de trocar direções diante de Kontaveit.

E Aryna Sabalenka achou um cheio de sobreviver ao show de horrores que seu saque proporcionou até a metade do jogo contra Xinyu Wang. Foram seis duplas faltas no game inicial, nove em dois serviços de abertura e 12 ao final do primeiro set. Parecia que a cabeça 2 não iria se achar, mas aos poucos ela controlou a situação, despachou seus pesadíssimos golpes de base, fez então até aces de segundo saque e avançou.

Enquanto isso, Iga Swiatek fez outra partida muito tranquila e vai crescendo. Anastasia Pavlyuchenkova, como era esperado, marcou a despedida emocionada e a justa homenagem a Samantha Stosur, que ainda seguirá nas duplas ao menos nesta temporada.

Não deu para Bia
Era importante para Bia Haddad Maia que a ex-número 1 Simona Halep não estivesse num bom dia ou sentisse algum tipo de pressão por voltar à Rod Laver. Nada disso aconteceu e, de forma cristalina, a romena foi superior do primeiro ao último game. Mexeu muito bem a bola, sacou com qualidade acima da esperada e vibrou o tempo todo.

A canhota brasileira, que mais uma vez ficou sem uma terceira rodada de Slam, demorou para achar um ritmo que equilibrasse o duelo de base. Aí passou a bater mais forte e mais reto, obtendo alguns pontos excelentes, além de realizar transições corretas à rede. Mas quando deixou Halep tomar conta precoce dos lances, esteve sempre correndo atrás da bola. De qualquer forma, não há motivo para desânimos. Esse é o nível em que precisará jogar daqui em diante para ter chances nos eventos de nível WTA.

Ela, Bruno Soares, Marcelo Melo e Thiago Monteiro estão na segunda rodada da chave de duplas. Se vencerem a segunda rodada, os mineiros fazem duelo direto nas oitavas.