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A hora da verdade
Por José Nilton Dalcim
1 de junho de 2019 às 19:07

Chegou a hora da verdade na chave masculina de Roland Garros. Pelo menos para seis jogadores. Dominic Thiem contra Gael Monfils, Alexander Zverev frente Fabio Fognini e Stefanos Tsitsipas diante de Stan Wawrinka. Quem vai dar um passo adiante no sonho de desafiar o Big 3 nas rodadas decisivas?

Zverev continua brigando contra seus fantasmas e precisou de mais cinco sets diante do tênis super variado de Dusan Lajovic. Misturar efeitos, chamar o adversário para a frente ou acelerar nas paralelas é algo que Fognini se mostra verdadeiro mestre. Mas como estará o italiano de fôlego?

Este é um duelo excepcionalmente interessante porque parece muito provável que o vencedor tenha de encarar Novak Djokovic nas quartas. E aí não basta apenas confiança, mas também físico e ousadia. Nole mostrou novamente o tamanho de sua solidez diante do quali Salvatore Caruso, que aguentou o quanto pôde o ritmo alucinante das trocas de bola. Tirou oito games, o que é de se aplaudir. Nole sacou extremamente bem nos momentos delicados.

Thiem e Monfils não tem prognóstico, ainda que o austríaco lidere por 4 a 0 o histórico, dois no saibro. É um duelo curioso também pelo fato de três confrontos não terem acontecido por contusão (duas do francês). Existe o fator torcida e minha impressão de que Thiem joga um pouco pressionado por resultado. Me agrada ver Monfils bem mais agressivo, soltando o forehand, e acredito que ele venha com uma nova proposta para acabar com o pequeno tabu.

Autêntico duelo de gerações, Stan e Stef tiveram de completar seus jogos suspensos neste sábado. O grego teve uma evidente queda de intensidade, alternou demais e não teria sido surpresa uma derrota no quinto set diante de Filip Krajinovic. Já o suíço quase ressuscitou Grigor Dimitrov quando tinha tudo nas mãos. Acredito que a experiência jogue a favor de Wawrinka se o placar seguir apertado, exatamente como aconteceu diante do búlgaro.

Juan Martin del Potro continua correndo por fora. Não vi sequelas no problema do joelho no atropelamento em cima de Jordan Thompson e o coloco como favorito para marcar sua quarta vitória em cima de Karen Khachanov.

Domingo cheio
A abertura das oitavas de final terá os outros três jogos da parte de baixo, onde estão Wawrinka e Tsitsipas. Quem vencer, tem tudo para encarar Roger Federer, favorito diante de Leonardo Mayer. Percebam que é um quadrante todo formado por tenistas com backhand de uma mão e assim provável adversário de Rafael Nadal na semi.

O espanhol enfrenta Juan Ignacio Londero, autêntico saibrista e portanto um paciente construtor de pontos com bom forehand. Como todo tenista que nunca enfrentou o topspin de canhoto de Rafa, deve penar no primeiro set. Um placar desastroso e ele tenderá a ficar completamente perdido em quadra.

Bem interessante pode ser a contraposição de estilos entre Kei Nishikori e Benoit Paire. O japonês me pareceu esgotado ao final da batalha com Laslo Djere e não sei se jogar só no contragolpe contra o habilidosíssimo Paire será uma boa ideia, com toda a torcida gritando ‘gol’. Para economizar pernas e prender o francês no fundo, talvez seja ideal Nishikori atacar primeiro, até mesmo indo à rede. O backhand na paralela em cima do fraco forehand do adversário é conduta óbvia.

Chave abre para Halep
O favoritismo de Simona Halep para o bicampeonato só aumenta. Não há mais Petra Kvitova, nem Serena Williams ou Naomi Osaka. Mais significativo ainda, a romena fez seu melhor jogo da semana e agora seu quadrante só tem novatas: enfrenta Iga Swiatek e, se mantiver o favoritismo, depois Amanda Anisimova ou Aliona Bolsova.

Claro que não se pode desprezar Ashleigh Barty ou Madison Keys, as cabeças que restam no outro quadrante. Osaka voltou a jogar mal e desta vez não teve remédio diante de uma animada Katerina Siniakova. E a falta de movimentação de Serena não conseguiu superar a atuação firme de Sofia Kenin, que aprofundou a bola, usou curtas e sacou bem.

Agora, Siniakova enfrenta a experiência maior de Keys e Kenin experimenta o estilo variado de Barty. Não descartem mais surpresas.

A rodada de domingo, que abre as oitavas, tem Muguruza x Stephens, as mais gabaritadas a tentar a vaga na final, mas também Vekic x Konta e as duas sensações da sexta-feira: Sevastova e Martic que têm como marca o arrojo.

Testes para Zverev e Osaka
Por José Nilton Dalcim
28 de maio de 2019 às 18:17

Alexander Zverev e Naomi Osaka são sem dúvida os jogadores da nova geração de maior sucesso, obtendo conquistas relevantes e atingindo posições nobres no ranking quando mal saíram da adolescência. Os dois também têm em comum o fato de não aceitar que o tênis seja a única prioridade de suas vidas, o que, como tudo na vida, tem o lado bom e o lado ruim.

Mas há uma diferença sintomática. Enquanto Osaka já tem dois troféus de Slam e lidera o ranking desde janeiro, Zverev ainda precisa mostrar resultados. Esperava-se que o notável título do Finals sobre Rgoer Federer e Novak Djokovic lhe tirasse a carga pesada dos ombros, mas o que temos visto em 2019 é um jogador perdido no plano tático, sem grande progresso técnico e com lacunas enormes de confiança, mesmo tendo atrás de si Ivan Lendl.

Naomi e Sascha tiveram estreias complicadas em Roland Garros. A japonesa levou um ‘pneu’ – ganhou 9 pontos no set – e ficou a dois lances de uma surpreendente eliminação diante da número 90 Anna Schmiedlova antes de enfim esquentar e fazer um terceiro set decente. Zverev não correu tanto risco de eliminação, mas logo de início sofre o desgaste de 4h08 de esforço, com direito a raquete arrebentada e 73 erros, dos quais 14 duplas faltas. Lembremos que no ano passado ele até chegou nas quartas de Paris, mas ficou sem pernas após três jogos seguidos no quinto set. Para sua sorte, vem agora o inexperiente sueco Mikael Ymer.

O saibro nunca foi o piso predileto de Osaka e a pressão maior sobre ela pode ser a defesa de uma liderança frequentemente ameaçada nas últimas semanas. Na próxima rodada, terá de mostrar serviço diante de Vika Azarenka num duelo que promete tirar o fôlego. A bielorrussa despachou Jelena Ostapenko em mais uma exibição incrivelmente irregular da campeã de 2017, com direito a 33 winers e 60 erros. Aliás, fez 17 duplas faltas, quase o total de todas as 19 falhas de Azarenka na partida. Dado curioso mostra que Ostapenko só ganhou sete partidas em cinco participações em Roland Garros, exatamente as sete do título. A vida da letã continua um tudo ou nada.

E mais
– Considerados coadjuvantes por conta do físico incerto, Juan Martin del Potro e Fabio Fognini perderam sets na estreia mas achei que jogaram bem na maior parte do tempo. Delpo tem tudo para economizar energia: agora vem Nishioka, depois Karlovic ou Thompson e quem sabe Khachanov ou Pouille. A trajetória do italiano promete mais dureza, com Delbonis, talvez Bautista e aí Zverev.
– E o exército francês aumentou para 13, somando-se Monfils, Pouille, Mannarino e três novatos (Hoang, Barrere e Benchetrit), mas duvido que a metade disso avance. Gael permanece como melhor aposta. O feminino ficou restrito a Garcia, Mladenovic e à garota Parry.
– Halep iniciou a defesa do título com altos e baixos, mas a tendência é que evolua. Com a saída de Kvitova, a vaga na semi ficou muito mais fácil.
– Monteiro poderia ter jogado melhor diante de Lajovic, ainda que o sérvio tenha mostrado uma boa diferença técnica. Faltou ‘punch’. Bruno e Jamie fizeram uma despedida melancólica, sinal que era mesmo hora de mudar. Melo e Kubot avançaram e Demoliner ainda vai estrear.

A quarta-feira
– Nadal e Federer jogam em estádios separados, com chance de se misturarem nos horários, mas pegam alemães sem curriculo. O melhor do dia pode ser Nishikori-Tsonga, Wawrinka-Garin ou Cilic-Dimitrov.
– Não acredito muito em Tsonga, acho Garin perigoso e gostaria de ver Dimitrov reagir, agora que contratou Stepanek para trabalhar junto a Agassi, repetindo o dueto dos tempos de Nole.
– Pliskova e Bertens tem amplo favoritismo e tomara que Svitolina e Muguruza confirmem para fazer o duelo direto de terceira rodada. Mladenovic-Martic pode dar grandes emoções, Stephens precisa entrar firme diante de Sorribes.

Ferrer mostra ao tênis que vale a pena lutar
Por José Nilton Dalcim
8 de maio de 2019 às 20:24

Ferrer nasceu David, um nome escolhido com precisão. Sem ter qualquer golpe espetacular, capaz de facilitar definição sem esforço de pontos, ele precisou trabalhar duro ao longo de duas décadas de carreira profissional para derrotar os Golias que apareceram pela frente. Encerrou nesta quarta-feira sua trajetória no circuito internacional com números de fazer inveja, principalmente por ter encarado a mais dourada era do tênis masculino já vista.

Dono de 27 títulos individuais e uma coleção de vices imponentes, é injusto dizer que ‘Ferru’ foi um saibrista. De seus 27 títulos, 12 foram no sintético e 2 na grama. Fez seis semifinais de Grand Slam e só duas delas em Roland Garros, além de ter atingido pelo menos quartas em todos eles. Claro que seu grande momento foi o vice em Paris, mas ele também decidiu o Finals e ganhou Bercy na quadra dura coberta. Aliás, das sete finais de Masters, somente duas vieram na terra. Em que pese seu 1,75m de altura, encarou o desafio de mudar o estilo, pegar bola na subida, jogar sobre a linha e treinar voleios.

Esse esforço de progresso técnico lhe deu um grande período de auge e em plena vigência do Big 4, tendo atingido o terceiro lugar do ranking em julho de 2013. Forjou uma invejável coleção de vitórias sobre os grandes, invariavelmente marcadas por dedicação física e emocional extremas. Derrotou seis vezes Nadal, Murray e Del Potro; bateu Djokovic em cinco duelos; Wawrinka, Roddick e Ferrero, em sete, além de três sobre Hewitt. Seu maior freguês foi Fognini (11-0). Venceu 54 adversários então no top 10, três deles como líder do ranking (Andre Agassi, Nadal e Djokovic).

A grande frustração foi jamais ter derrotado Federer em 17 tentativas. “A forma com que ele mudava o ritmo me deixava maluco. Sei que o fiz suar, mas nunca consegui derrotá-lo”, contou recentemente. Na mesma entrevista, garante que o Big 4 o puxou para cima e que Rafa sempre foi um espelho para ele. Agradeceu a ajuda recebida de Ferrero, que “me deu conselhos e abriu suas portas”, algo que ele faz hoje com Roberto Bautista. “Houve momentos na minha carreira em que não sabia que rumo tomar”.

Todo mundo conhece as histórias de seu início, em que chegou a abandonar a raquete – até os 24 anos só havia vencido dois ATPs 250 no saibro – e ir trabalhar de pedreiro, retornando assim que descobriu como a vida fora do tênis era tão mais árdua. Nem do fato de que fumou cigarros a maior parte do tempo, contraste curioso para sua fenomenal resistência física. Ferrer não guarda mágoas. “Não sei se teria vencido um Slam em outra época, não há como saber isso”, diz. “O que mais sentirei falta é da adrenalina dos jogos. Isso é insubstituível”. Vale conferir a biografia mais completa do espanhol de 37 anos feita por Mário Sérgio Cruz no TenisBrasil.

O tênis no entanto não ficará muito tempo sem Ferrer. O primeiro passo da aposentadoria é viajar o mundo “desta vez com calma, curtindo com a família”, mas ele deixa claro que gostaria muito de comentar jogos e quem sabe treinar garotos de 10 a 16 anos, para quem acredita ter muito a ensinar. Questionado a resumir sua carreira, ele afirmou: “Estes 20 anos passaram rapidamente, mas porque eu fui feliz”.

A quarta-feira
– Nadal afastou quem temia por seus problemas de saúde. O saque evoluiu, permitiu que jogasse mais com o forehand e Aliassime errou muita bola fácil. Agora vem outro NextGen, o mesmo Tiafoe a quem atropelou em Melbourne em janeiro.
– Monfils fez um dos lances mais geniais dos últimos tempos, virou contra Fucsovics e fará interessante duelo contra Federer. Os dois não se cruzam desde junho de 2015 e o placar é um tanto apertado: 9 a 4 para o suíço.
– Fognini confirmou e teremos então um duelo direto contra Thiem, os dois que ousaram bater Nadal no saibro nas últimas semanas. Será apenas o quarto duelo, com 2-1 para o austríaco. Fognini venceu em Roma no ano passado.
– O terceiro grande jogo da quinta-feira é Wawrinka contra Nishikori. Suíço jogou muito bem, o japonês suou mais do que o necessário. Stan tem 6-4 e venceu os dois últimos.
– Chardy ganhou o direito de enfrentar Djokovic nas oitavas. Perdeu todos os 28 sets em 12 confrontos. E pode dar duelo sérvio nas quartas: Djere tirou um Delpo sem pernas nos games finais e desafiará Cilic.
– Zverev, que aposentou Ferrer, enfrenta o ascedente Hurkacz e quem passar terá Tsitsipas ou o bom e velho Verdasco.
– Quartas de final bem interessantes no Premier, a começar pelo duelo de estilos de Halep x Barty e de Osaka x Bencic. A romena marcou ‘bicicleta’ contra Kuzmova. Se japonesa avançar, mantém o número 1.
– Muito promissor também Kvitova x Bertens, que sequer perderam sets até agora e reeditam a final de Madri do ano passado. Tcheca tem 3-2 nos duelos. Stephens cometeu 45 erros, mas é favorita diante de Martic.