Arquivo da tag: Gabriela Dabrowski

Luísa Stefani merece o top 10
Por José Nilton Dalcim
1 de novembro de 2021 às 20:41

O tênis brasileiro ganhou uma nova heroína. Luisa Stefani se tornou a primeira mulher e a sexta entre os jogadores nacionais a atingir um posto no top 10 do ranking profissional, ou seja, desde que ATP e WTA criaram seus sistemas matemáticos em 1973 e 1975. Na era amadora, Maria Esther Bueno foi aclamada número 1 pela Federação Internacional ao final de três temporadas.

O pioneirismo na Era Aberta coube a Cássio Motta e Carlos Kirmayr, que apareceram ao mesmo tempo entre os 10 primeiros em setembro de 1983, façanha que só seria repetida por Guga Kuerten, que entrou pela primeira vez nessa nobre faixa em agosto de 1997. Depois dele, novamente os duplistas garantiram o prestígio do tênis brasileiro: Bruno Soares virou top 10 em junho de 2013 e quatro meses depois Marcelo Melo fez o mesmo.

É bem importante observarmos que a evolução de Luísa nas últimas quatro temporadas foi excepcional. Ano a ano, ela praticamente dobrava de pontos e eficiência. Chegou a 182ª no final de 2018, atingiu  o 67ª em novembro da temporada seguinte, ficou bem perto do top 30 no fim de 2021 e no atual calendário subiu progressivamente até o top 10.

Entre os trunfos, está a abdicação da carreira de simples – com a ascensão rápida nas duplas, seu calendário mirou os grandes torneios -; o trabalho com o indiano Sanjay Singh, o guru de Leander Paes, e a troca de parceria, um tanto ao acaso, já que Hayley Carter teve problema médico e Gabriela Dabrowski pintou como providencial alternativa. Claro que o fato de Stefani ter crescido no piso duro norte-americano desde a adolescência possui um peso enorme nesse sucesso, tanto na adaptação ao piso mais importante do tênis de hoje como na técnica para as duplas. Seu trabalho junto à rede é excepcional.

A chegada ao top 10 veio no momento em que Luísa se recupera da cirurgia no joelho e viu duas concorrentes perderem pontos de 2019. Isso não deve ser encarado como ressalva. Afinal, não fosse a fatalidade da torção sofrida, Stefani era séria candidata à final e até mesmo ao título do US Open, bem como poderia somar muitos pontos em Indian Wells. O mérito é incontestável.

Até onde pode chegar esta paulista de meros 24 anos é a pergunta que mais me fizeram hoje. Observemos que o circuito de duplas das meninas é muito competitivo e tem sido bem democrático, com sucessivas trocas na liderança. No momento, as quatro primeiras estão na casa dos 7 mil pontos e a distância de Luísa para a número 5, a própria Dabrowski, é de 980 pontos.

A porta está certamente aberta para saltos ainda maiores, porém ainda é preciso ver quando Luísa terá condições de voltar ao circuito – o Australian Open está descartado -, se será possível retomar a parceria com Dabrowski e qual o grau e velocidade de sua readaptação. É mais um desafio a se encarar e vencer.

Emoções em Paris
Há muita coisa importante a acontecer nesta semana no Palácio de Bercy, em Paris, único dos Masters 1000 promovido sobre teto fechado permanente. Para começar, Novak Djokovic retorna após dois meses e tenta acabar com o sonho de Daniil Medvedev fechar o ano como número 1 do ranking da temporada. O piso sempre foi bem lento, mas não impediu o título do russo no ano passado em cima de Alexander Zverev. Campeão em 2019, Nole não competiu.

A luta pelas duas vagas restantes ao ATP Finals também esquenta as rodadas iniciais. Casper Ruud e Jannik Sinner estão muito perto de jogar o prestigiado torneio pela primeira vez, mas Cameron Norrie e Hubert Hurkacz estão próximos e não podem ser descartados. A partir dos 180 pontos das quartas de final, a coisa promete ficar tensa.

Por fim, Zverev merece atenção especial porque está jogando num nível muito elevado, bem acima de Stefanos Tsitsipas, e pode definitivamente barrar Medvedev e Djokovic. Suas exibições em Viena foram notáveis, tanto em confiança como em variações táticas. É a melhor versão de Sascha que já apareceu, não resta dúvida.

Djoko a três sets de Laver
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2021 às 00:39

Sob o olhar de Rod Laver e num jogo disputado ponto a ponto, Novak Djokovic conseguiu de novo. Virou seu quarto jogo seguido após perder o primeiro set, vingou-se de Alexander Zverev em grande estilo e agora está a uma única vitória de marcar o maior feito do tênis profissional: a conquista do quarto Grand Slam consecutivo na mesma temporada.

Apenas Daniil Medvedev pode impedir a história. Mas enquanto o russo chega a sua terceira final ainda em busca do primeiro troféu, Djokovic iguala mais um recorde de Roger Federer e estará na 31ª. Se chegar ao tetra do US Open, terá também 21 troféus de Slam e desempatará a disputa contra Federer e Rafael Nadal.

A decisão entre os dois líderes do ranking é o fecho perfeito de um torneio espetacular. O quinto set entre Nole e Zverev foi o 34º desta edição, a segunda maior marca da história, e nada menos que outros 15 duraram mais de quatro horas, algo que não acontecia há 30 anos.

E foram cinco sets tensos e intensos. Zverev encarou o número 1 de igual para igual, aguentando pontos longos. Fez um grande primeiro set, viu Djoko melhorar muito com o saque no seguinte e com as devoluções no terceiro. Obteve uma quebra precoce no quarto e segurou a cabeça diante de todas as tentativas de Nole.

Por fim sucumbiu à superioridade do adversário, como se o sérvio houvesse guardado sua melhor energia para a reta final. Claro que o alemão cometeu erros absurdos no quinto set, mas é preciso considerar a pressão de ter de colocar bolas na linha depois de três horas de tamanha correria. Os números estatísticos foram bem semelhantes, mas um deles merece citação especial: Djokovic foi 43 vezes à rede e ganhou 35 lances, o que dá 81% de aproveitamento.

Sascha continua sem ganhar de um top 10 em Slam, mas está certamente jogando o melhor tênis de sua vida. Nole o fez pela 61ª vez num Slam e pela 225º no total – agora novo recorde – e deu um show na entrevista em quadra, ao defender Stefanos Tsitsipas, frisar a forte amizade com Zverev e dizer que na sua cabeça o foco é “apenas” o tetra em Nova York. Enfatizando: “Tratarei este jogo como se fosse o último de minha carreira”.

Medvedev vai tentar de novo
Mesmo reconhecendo não ter jogado seu melhor tênis, Medvedev fez o bastante para superar a instabilidade emocional de Felix Auger-Aliassime. O canadense vendeu caro o primeiro set e aí sacou com 5/3 para empatar a partida, perdendo dois set-points. O jogo acabou nesse momento. Ele se perdeu completamente e o russo foi absoluto. Enquanto Felix via a volta do fantasma das duplas faltas – cometeu 10 -, o número 2 anotava 12 aces.

Medvedev se torna apenas o segundo tenista fora do Big 4 a fazer duas finais de Slam na mesma temporada desde 2004, repetindo Dominic Thiem. No total, é sua terceira tentativa de ganhar o título tão esperado. Em toda a Era Aberta, jamais um tenista perdeu três finais sem conquistar em algum momento seu Slam. Então o russo pode ao menos ter muita esperança, caso Djoko repita os 3 a 0 da final do Australian Open de fevereiro.

Fato curioso, Medvedev chega à final com 11h51 em quadra, menos do que Leylah Fernandez (12h19) e quase o mesmo de Emma Raducanu (11h34). E olha que ele ainda perdeu um set.

Soares: digno vice
Faltou um set para o tricampeonato de Bruno Soares no US Open. Ele e Jamie Murray buscavam repetir a conquista de cinco anos atrás e foram bem superiores ao local Rajeev Ram e ao britânico Joe Salisbury na série inicial. Só que aí os adversários subiram de nível, tanto na devolução como no saque, enquanto a dupla do brasileiro passou a cometer pequenos erros que se mostrariam fatais.

Embora Ram tivesse sido perfeito nos serviços nos dois sets seguintes, Salisbury estava no seu dia. Fez jogadas incríveis, mostrou-se eficiente na rede e nos contragolpes. Não por acaso está na final de mistas também. Ele e Ram mereceram o segundo troféu de Slam e se firmam como vice-líderes da temporada.

Bruno sabe que sua campanha foi além do esperado depois da parada forçada pela cirurgia do apêndice, por isso merece todos os elogios. Ele e Murray sobem para o oitavo lugar na Corrida e estão com grande chance de chegar ao Finals de Turim.

A incrível falta de sorte de Stefani
Lesões fazem parte do esporte e o tênis, um esporte que mexe com dezenas de músculos e articulações ao mesmo tempo e em diferentes dimensões, está sempre fadado a prejudicar alguém. A cena de Luísa Stefani pisando em falso ao tentar trocar de direção, o que a levou a torção de tornozelo e ao rompimento do ligamento do joelho, foi terrível e preocupante.

Ela e Gabriela Dabrowski haviam acabado de se safar de set-points e iniciavam um tiebreak que prometia ser equilibrado. Aguentavam com firmes voleios as bolas pesadas de Coco Gauff e Caty McNally, que não têm a mesma intimidade com o jogo de rede. Uma pena em todos os sentidos, porque a partida estava divertida. A contusão da brasileira calou o estádio e deixou as adversárias perplexas.

Infelizmente, a expectativa é de retorno em apenas seis meses, o que a impedirá de lutar por vaga no WTA Finals, que estava tão perto.

E mais
– Com a derrota de Aliassime, Casper Ruud garantiu seu inédito lugar no top 10 na lista de segunda-feira. Outros recordes pessoais para Felix (11º), Sinner (14º), Garin (17º), Opelka (19º) e Alcaraz (38º).
– Há exatos cinco anos, Medvedev ganhava seu único título de challenger no piso duro de St. Remy.
– Leylah Fernandez e Emma Raducanu decidem o US Open no dia do 20º aniversário da queda das Torres Gêmeas, mas nenhum delas havia sequer nascido naquele triste dia.
– A vencedora da final marcada para as 17 horas se juntará à série de inesperadas campeãs de Slam que vem desde 2017 e inclui Jelena Ostapenko, Sloane Stephens, Naomi Osaka, Bianca Andreescu, Sofia Kenin, Iga Swiatek e Barbora Krejcikova.
– As duas nunca se enfrentaram, mas a canhota Fernandez tem um título de WTA, mais Slam disputados e melhor ranking, o que lhe confere certo favoritismo. O prêmio é o mesmo dos homens: US$ 2,5 milhões.