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Para que serve o talento
Por José Nilton Dalcim
30 de março de 2022 às 20:47

Carlos Alcaraz e Nick Kyrgios são dois tenistas de excepcional talento, disso ninguém provavelmente duvida. O resultado final de cada um na primeira parte das quartas de final do Masters 1000 de Miami, no entanto, evidencia a gigantesca diferença.

Enquanto um não soube administrar frustrações, perdeu-se em comportamento inadequado e saiu derrotado da quadra, o outro virou uma partida em que estava por baixo, empenhou-se ferozmente atrás de bolas impossíveis e achou soluções. O eliminado tem 26 anos e 10 temporadas de estrada, o vencedor é um adolescente de 18 anos que disputa apenas seu 21º torneio de primeiro nível. Não por acaso, Kyrgios luta para voltar ao top 100 e Alcaraz já pode comemorar o 15º posto do ranking.

Pena que Nick ainda tenha recebido apoio ruidoso da torcida e olhos tapados da ATP, porque esse é exatamente o caminho que o leva a nunca se corrigir. Claro que ele é uma atração, eu próprio tento ver todos seus jogos. Possui tênis vistoso e criativo, que sai do lugar comum do circuito, e a descontração tem um lado muito positivo desde que não caia para o abuso, algo que Gael Monfils e Alexander Bublik, por exemplo, o fazem muito bem.

Kyrgios não tem essa capacidade emocional. Cai rapidamente na vulgaridade dos atos descontrolados e se torna piegas na busca de piedade, como se fosse sempre a vítima de tudo e de todos. Já que andou dando conselhos à amiga Naomi Osaka, poderia muito bem acompanhá-la nas sessões de psicanálise. O tênis agradeceria.

O quadro fica ainda mais triste quando comparado a Alcaraz. O antagonismo de comportamento e desempenho são chocantes. O espanhol deu um show de maturidade, determinação e acima de tudo de competência técnica e tática. Não jogava mal, mas estava sendo pressionado por um Stefano Tsitsipas muito firme e agressivo.

Deu é verdade um tanto de sorte, ao acertar lobs milimétricos em situações de grande aperto, porém lá na frente essa correria defensiva desenfreada rendeu. O grego, me parece, passou a mirar cada vez mais a linha já incomodado com a necessidade de bater sempre uma bola a mais para vencer os pontos. Ao mesmo tempo, perdeu confiança e alguns milésimos de segundo de preparação no backhand, que ficou inseguro e impreciso. Diferente do US Open de meses atrás, quando ganhou no quinto set, desta vez Alcaraz foi claramente superior em todos os campos, incluindo o físico e acima de tudo o emocional. Monstro.

Não posso esperar outra coisa do que vê-lo na semifinal diante de Daniil Medvedev. Se o russo passar pelo atual campeão Hubert Hurkacz, o que não é pouca coisa, será de novo número 1 e imagino o gosto especial que isso vai gerar para o espanhol. No entanto, o próprio Alcaraz precisa conter a euforia porque enfrentará nesta quinta-feira um compacto Miomir Kecmanovic, outro que não se entrega em quadra e possui diferentes recursos.

No tênis, jogar como favorito sempre se torna um pouco mais difícil e será uma interessante oportunidade para avaliarmos a reação do espanhol em diferente tipo de pressão.

Iga confirma, masculino com semi inesperada
A quarta-feira começou estranha e um tanto desestimulante, com abandonos logo no quinto tanto tanto de Jannik Sinner como de Paula Badosa. O italiano, que vinha de notável exibição diante de Kyrgios, onde mostrou aquela frieza e eficiência que o havia feito salvar oito match-points nas rodadas anteriores, não superou uma bolha no pé e deu vaga na semi para o argentino Francisco Cerundolo. Ele deu sorte, é fato, mas vinha de duas atuações memoráveis diante de Gael Monfils e Frances Tiafoe.

O atual 103º baseia seu jogo na regularidade e assim fará uma semi inesperada porém curiosa diante do norueguês Casper Ruud, outro tenista sem golpes espetaculares mas muito sólido. Foi assim que ele tirou o futuro número 3 Alexander Zverev. O alemão jogou abaixo do seu potencial quase o tempo todo, mas não é realmente surpreendente que sinta dificuldade no piso noturno tão lento de Miami.

Badosa por sua vez voltou a se sentir mal, como havia acontecido na véspera, e não ficou muito em quadra diante de Jessica Pegula. A dura missão da norte-americana agora é segurar a embaladíssima Iga Swiatek, que voltou a ter atuação segura tanto no saque como na base e não deu chance à canhota Petra Kvitova. A polonesa tenta assim a quarta final seguida em nível 1000, justificando plenamente sua ascensão ao número 1.