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New Kids on the Grass
Por José Nilton Dalcim
1 de julho de 2022 às 18:50

Garotos mais promissores do circuito atual, os amigos Carlos Alcaraz e Jannik Sinner terão um duelo de importância dobrada em suas carreiras neste domingo. Ambos buscam a terceira presença em quartas de final de Grand Slam e há uma chance considerável de o vencedor desafiar o hexacampeão Novak Djokovic na rodada seguinte.

Não menos curioso é o fato de que os dois já possuem quartas de Slam no saibro e na quadra dura, embora o espanhol no US Open e o italiano na Austrália. Portanto, alguém irá enriquecer o currículo com um terceiro e nobre piso.

Carlitos ganhou de Sinner nas duas vezes que se cruzaram em torneios profissionais, é dono de mais recursos sobre a grama, já que voleia direitinho e não economiza no slice. Porém, depois das atuações muito boas desta sexta-feira, é difícil falar em favoritismo.

Alcaraz mostrou clara evolução, ainda que eu tenha ficado desapontado com a impotência de Oscar Otte. O espanhol devolveu bem, movimentou-se à perfeição – o que proporcionou notáveis contragolpes – e pela primeira vez pareceu confiante em ir à rede. O primeiro saque andou bem mais também. Aos 19 anos e 66 dias, é mais jovem na quarta rodada de Wimbledon em 11 anos.

Sinner, que atingiu oitavas em todos seus quatro últimos Slam e contratou Darren Cahill para a fase de grama, foi soberbo frente ao grandão John Isner. Cumpriu com máximo louvor o primeiro objetivo de quando se enfrenta um super-sacador, que é aplicar-se no próprio serviço, e não permitiu um único break-point. Depois, levou 24 aces, jamais se frustrou e foi ofensivo em todas as devoluções de segundo saque, obtendo notáveis 61% de sucesso.

Com certeza, irão me perguntar quem teria mais chance de barrar Djokovic e a resposta tem de ser Alcaraz, porque já fez isso antes num Masters 1000 e a pressão seria um pouco menor. O italiano só cruzou com o sérvio no lento saibro de Monte Carlo e ganhou seis games.

Jogo a jogo
Aula de Djokovic
– Não havia qualquer ilusão de que Miomir Kecmanovic assustasse Djokovic numa quadra de grama. Levou uma aula de como atuar no piso, jogado para todos os lados com os mais variados efeitos. Fica a expectativa de que o surpreendente Tim van Rijthoven não trema e exija mais do sérvio. O holandês tem feito grandes resultados na grama graças ao saque forte, bolas retas e voleios apurados. Em Wimbledon já barrou Reilly Opelka, o que exige devolução competente.

Semi inédita – A segunda vaga na semi do lado superior da chave está entre David Goffin, Frances Tiafoe, Cameron Norrie e Tommy Paul, quatro tenistas totalmente de base. Os dois primeiros já fizeram quartas de Slam – o belga em Wimbledon – e se enfrentam, com histórico de 3-1 para Goffin, incluindo recente Roland Garros. Para o canhoto britânico e o norte-americano, as oitavas já são completas novidades. Norrie leva 2-1 e a torcida de vantagem. Um palpite? Tiafoe é quem melhor saca entre todos eles.

Mamãe Maria – A novidade da chave feminina foi a vitória de Tatjana Maria, 34 anos e mãe de dois filhos, em cima da cabeça 5 Maria Sakkari. A alemã sabe definitivamente jogar na grama. Fato curioso é que mudou o backhand para uma mão quando voltar a treinar em 2013, após a primeira gravidez. Não vencia um jogo de Slam desde o US Open de 2018 e estava compreensivelmente emocionada após a ótima atuação, em que errou 12 bolas em 21 games.

Jabeur e Ostapenko? – As duas tenistas de maior ranking ainda vivas no lado inferior da chave são sem dúvida muito talhadas para ir à final. Ons Jabeur continua fazendo belas apresentações, usa seus ótimos recursos e parece feliz. Tem um jogo perigoso contra a experiente Elise Mertens. A letã se sente muito à vontade num piso que valoriza seus golpes tão forçados, mas continua perdendo muitos serviços.

Bia em dose dupla – A boa fase da grama continua para Bia Haddad, que venceu duas vezes nesta sexta. Passou às oitavas de duplas onde jogou muito bem ao lado de Magdalena Frech e depois se entrosou de novo com Bruno Soares. Mas suas chaves são duríssimas.

Matos nas oitavas – É bem verdade que o veterano Aisam Qureshi sentiu a coxa e abandonou, mas nem isso tira o mérito de Rafael Matos e seu parceiro espanhol David Vega. Entrosados e com vitórias sobre adversários de gabarito. Agora, podem cruzar com os cabeças 1 Ram/Salisbury. Será que dá?

Novo recorde para Isner – Com os 24 de hoje, Isner atinge 13.748 aces na carreira (veja vídeo) e supera a marca de Ivo Karlovic por 20. É um recorde para durar muito: o croata está quase em 500 do ranking e apenas Federer (11.478) e López (10.149) já fizeram mais de 10 mil, ambos em fim de carreira. Sempre importante lembrar que essa contabilidade só vale a partir de 1991 e não inclui challengers para baixo.

A volta de Venus – E por falar nos velhinhos, que divertido e prazeroso constatar Venus Williams, aos 42 anos, tão feliz e tão empenhada numa primeira rodada de duplas mistas. Combinou direitinho com Jamie Murray e o público lotou a Quadra Nº 1.

Tsitsipas segue a rotina
Por José Nilton Dalcim
2 de setembro de 2021 às 01:17

As duras críticas que recebeu após as reclamações de Andy Murray não afetaram Stefanos Tsitsipas. No plano técnico, fez outra partida com muito mais elogios do que defeitos e manteve a rotina de dar uma longa pausa no vestiário. Gastou oito minutos para reiniciar a partida após Adrian Mannarino levar o jogo ao quarto set, mas o francês preferiu não reclamar de nada.

Apesar do tiebreak perdido após um set de muito empenho do adversário, Tsitsipas fez uma exibição vistosa. Forçou sempre, ajudado ainda pelo teto fechado, e chegou a bater seu recorde pessoal de aces num jogo (27), tendo vencido 85% dos pontos com o primeiro saque. Levou vaias no retorno à quadra, pareceu pouco à vontade na entrevista pública e a pergunta é se isso tudo irá influenciar seu mental nos momentos mais complicados.

Encara agora a juventude de Carlos Alcaraz, que tem me chamado a atenção por ter se adaptado muito bem às quadras duras como mostrou na vitória de hoje sobre Arthur Rinderknech, francês que possui um tênis bem moderno. Com as quedas dos cabeças, o quadrante ficou com os sacadores Henri Laaksonen e Peter Gojowczyk. O alemão joga muito no risco, saiu do quali e já fez 10 sets na chave principal.

Daniil Medvedev por sua vez jogou com a seriedade e eficiência necessárias para não gastar energia. Ficou é bem verdade preso lá na base e isso foi mais do que suficiente para dobrar o canhoto Daniel Koepfer, a quem carece agressividade, algo um tanto semelhante a Pablo Andujar, seu próximo adversário. Para superar Medvedev numa quadra dura veloz, é preciso muito mais do que trocar bolas e assim dificuldades autênticas se podem esperar diante de Daniel Evans ou Alexei Popyrin, ainda que o favoritismo de Medvedev permaneça.

Andrey Rublev corre por fora nesse briga, não apenas porque tem resultados menos relevantes em Slam como também seu setor ficou muito mais forte. Chegou a perder set de Pedro Martinez antes de enfim dominar as trocas de bola, pega agora o imprevisível Frances Tiafoe em jogo inédito e quem vencer enfrentará Roberto Bautista ou Felix Aliassime. Rublev ganhou as duas de Bautista neste ano e tem 2-0 sobre o canadense.

Só dá favorita
E para contrariar a todos, a chave feminina prossegue com atuações consideralmente rápidas e tranquilas das principais cabeças de chave. Duas caíram nesta quarta-feira, mas Coco Gauff jamais se mostrou solta e parou na campeã Sloane Stephens, o que está longe de ser surpresa, e Ekaterina Alexandrova só entrou como cabeça devido aos abandonos de Sofia Kenin e Serena Williams.

Aryna Sabalenka foi bem mais consistente em seu segundo jogo e isso é ainda mais relevante quando se considera o vento que já soprava forte ali no meio da tarde. Ótima atuação também de Garbiñe Muguruza, num divertido jogo contra a amiga Andrea Petkovic, e de Simona Halep, que fez 19 winners e 18 erros tomando sempre a iniciativa. Naomi Osaka nem precisou entrar em quadra e Vika Azarenka me parece instável demais.

A terceira rodada marca duelos já muito interessantes, principalmente Muguruza x Azarenka vc, que está 2 a 2. Mas também haverá Sabalenka x Collins, Mertens x Jabeur, Halep x Rybakina e Svitolina x Kasatkina.

Tempestade alaga Armstrong
A previsão de chuva em Nova York se confirmou, mas ainda que tenha atrasado o começo dos jogos nas quadras externas e provocado uma paralisação no meio da tarde, o cronograma inteligente da organização – que marcou todos os jogos de simples para o começo da rodada – garantiu que apenas um jogo acabasse adiado.

E curiosamente isso aconteceu num estádio coberto. O aguaceiro combinado com ventos muito fortes entrou pelas laterais da Louis Armstrong e alagou completamente o segundo maior estádio, prejudicando o andamento do jogo entre Diego Schwartzman e Kevin Anderson. Eles conseguiram completar um set e mais um game até que a suspensão se tornou inevitável, e aí entraram na Ashe quase meia-noite local para o reinício.

Um vídeo de Darren Cahill dá a dimensão da força da chuva e uma imagem surreal da Armstrong pelas câmeras da ESPN são perfeitas para explicar o caos.

Thiem enfim joga como digno cabeça 2
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2020 às 00:50

Demorou, mas finalmente o austríaco Dominic Thiem voltou àquele tênis poderoso e agressivo, com golpes surpreendentes e corajosos, que o levou no começo do ano à inesperada final do Australian Open. É bem verdade que ainda perdeu um set de Marin Cilic e passou alguns apertos antes de completar a vitória, porém derrotou um genuíno adversário de piso veloz e um campeão do US Open.

Houve no geral muitos pontos favoráveis ao cabeça 2 do US Open na noite deste sábado. Usou muito bem o primeiro saque, o que automaticamente permitiu atacar a segunda bola. Exibiu um forehand angulado de grande força e precisão, mas o sinal mais claro do retorno da confiança esteve no backhand sólido. Fez uma sucessão incrível de winners com o plástico revés.

Para completar,  se mexeu muito melhor do que vimos no Masters ou nas primeiras rodadas desta semana. Ainda que tenha por vezes exagerado na busca das linhas, foi ótimo vê-lo correr atrás de todas as bolas, o que criou pressão constante no adversário. Fechou os dois primeiros sets com apenas quatro erros não forçados, depois caiu de intensidade. De qualquer forma, recupera o prestígio. Um alívio.

Com a vitória de Thiem, o único dos oito sobreviventes na parte inferior da chave com 30 anos é Vasek Pospisil, que fez uma partida primorosa de cinco sets contra Roberto Bautista e, sem abrir mão do ataque, marca seu maior resultado no US Open e o segundo mais valioso em um Slam depois de cinco anos.

Todos os outros seis classificados pertencem à nova geração. Já com resultados de peso, Daniil Medvedev e Matteo Berrettini fizeram 24 ao longo da pandemia. Andrey Rublev e Frances Tiafoe têm 22; Alex de Minaur, 21; e Felix Aliassime, apenas 20 e único entre todos que debuta em oitavas de Slam.

O adversário de Thiem será justamente Aliassime, duelo inédito, e embora o austríaco seja favorito natural é de se prever um ferrenho duelo de fundo de quadra. Se o garoto canadense mantiver o padrão dos últimos dois jogos, tem chance real.

Tiafoe encara tarefa das mais árduas contra Medvedev. Ele venceu uma vez o russo, mas lá em 2015, e no recente Australian Open tirou um set. O que mais me agradou no norte-americano nesta semana foi sua tendência de avançar mais à rede.

Muito firme no saque e na base, Rublev é forte candidato às quartas e terá revanche contra Berrettini, que o venceu nas oitavas de 2019 do mesmo US Open. Oficialmente, o russo ganhou um de três duelos, mas há poucas semanas levou a melhor sobre o italiano em exibição no saibro.

Por fim, o velocíssimo e raçudo De Minaur é o antídoto perfeito contra o jogo ofensivo de Pospisil, tanto que ganhou os dois confrontos entre eles, ambos em 2018. Como o jogo deve ir para o Armstrong, onde o piso é mais lento que nas quadras externas, sua chance ainda aumenta.

Show das mamães
O complemento da terceira rodada feminina foi uma festa para as mães do tênis: Serena Williams, Victoria Azarenka e Tstavana Pironkova fizeram excelentes apresentações. E não é nada impossível que elas façam uma série de confrontos entre si para decidir a finalista da parte inferior da chave.

Serena teve um início pouco inspirado, mas depois se soltou e, com o afiado e insuperável conjunto de saque e devoluções, virou com sobras em cima de Sloane Stephens. Assim como aconteceu com Thiem, foi enfim uma apresentação digna de Serena, mas agora vem um desafio interessante: encara a mesma Maria Sakkari que a tirou do Premier da semana anterior.

Se for à frente, já vislumbrar cruzar com Pironkova nas quartas. Superando a falta de ritmo de competição mas com jogo muito sólido, a búlgara atropelou Donna Vekic e segue sem perder set. Enfrenta agora a encardida Alizé Cornet, que viu Madison Keys desistir no segundo set. Este era o único Slam onde a francesa de 30 anos e ex-11 do ranking nunca havia chegado na quarta rodada.

A excelente sequência de vitórias e atuações convincentes seguem para Azarenka, que vai enfrentar a quarta adversária com menos de 25 anos no torneio. Passou com autoridade pela boa polonesa Iga Swiatek e precisa de cuidado com Karolina Muchova, quadrifinalista de Wimbledon no ano passado e responsável pela queda de Venus Williams logo na estreia.

O caminho de Vika promete encarar outra jovem, e das mais perigosas, antes de um possível duelo de mães. Sofia Kenin fez nesta noite seu jogo mais duro do torneio e precisou equilibrar melhor o dueto ataque-defesa diante do jogo versátil de Ons Jabeur. O histórico diante de Elise Mertens é de duas vitórias, porém sempre de virada. Então não pode vacilar.

E o Brasil avança
Dois excelentes resultados para o tênis brasileiro em Flushing Meadows. Luísa Stefani e a parceira Hayley Carter tiraram as cabeças 6 num jogo apertado, com destaque para o excelente trabalho de rede da paulista.

Com isso, ela é a primeira brasileira nas quartas de um Grand Slam desde 1982, quando Patrícia Medrado e Cláudia Monteiro chegaram tão longe em Wimbledon. A última semi coube a Maria Esther Bueno, quando  ganhou as duplas de Forest Hills em 1968, aliás seu único título de Slam na Era Profissional.

Bruno Soares e o croata Mate Pavic obtiveram outro grande resultado na difícil chave que ocupam, ao tirar o dueto norte-americano liderado por Jack Sock. Agora, eles enfrentam justamente a dupla britânica que tirou Marcelo Demoliner, formada por Jamie Murray e Neal Skupski.