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Como a Itália se tornou o exemplo do tênis
Por José Nilton Dalcim
2 de agosto de 2022 às 19:48

Vinte anos atrás, o tênis italiano era um grande problema, sem jogadores de destaque no circuito, crescimento interno estagnado e uma Federação à beira da falência. A transformação notável em espaço de tempo tão curto já chamou a atenção de potências como Estados Unidos, Espanha e França, interessados em compreender e adaptar o modelo de trabalho e de negócios que levou o tênis ao segundo lugar entre os esportes mais praticados da Itália e proporciona hoje 60 milhões de euros para os dirigentes investirem.

O primeiro degrau para se atingir o sucesso de hoje foi dado em 2001, quando Angelo Binaghi assumiu a presidência da Federação Italiana. A entidade sofria para sobreviver. O número de filiados havia desabado de 185 mil para 129 mil e mais de 700 clubes se retiraram. A modalidade deixou de ser motivadora para os patrocinadores e até mesmo o Aberto de Roma, importante fonte de renda, se via em caos financeiro.

Binaghi decidiu fazer profundas mudanças. Inovou o sistema de classificação de jogadores e a organização das competições, fazendo com que tenistas do mesmo nível jogassem entre si, recuperando a competitividade. Introduziu campeonatos regionais e ofereceu mais serviços aos filiados, investindo pesado em comunicação. Procurou também melhorar as relações com os treinadores particulares e graduou as escolas de tênis em cinco níveis. A ênfase maior foi aos estágios iniciais, as chamadas ‘escola do clube’ e a ‘escola básica’. Atualmente, existem 69 unidades espalhadas pelo país, mas apenas algumas com os estágios mais avançados.

A evolução revista ‘Supertennis’ para um canal de televisão foi a primeira grande sacada na questão comercial. O ambicioso projeto nasceu em 2008 e se voltou a divulgar todos os campeonatos nacionais, agregado a uma distribuidora via satélite. Assim, atinge hoje 95% do território nacional com programação ininterrupta. Com jogos de future, challengers, Copa Davis e depois ATPs e WTAs maiores, o canal atraiu fortes patrocinadores e virou fonte de renda fundamental.

O tênis profissional no entanto continuava seu calvário. Em 2003, a Itália chegou a cair para terceira divisão da Copa Davis, ao perder do Zimbábue; não havia top 20 e ninguém passava das oitavas de um Grand Slam. O único jovem promissor era Filippo Volandri.

Binaghi reconhece que houve também o fator sorte para cobrir essa entressafra, entre eles as campeãs Francesca Schiavone e Flávia Penetta; o aparecimento de Fabio Fognini no masculino, campeão de duplas no Australian Open ao lado de Simone Bolelli em 2015, e pouco depois a semifinal de Marco Cecchinato em Roland Garros de 2018.

O jornalista Vincenzo Martucci, que cobriu tênis por décadas na Gazzetta dello Sport, diz em seu livro ‘Il Rinascimento de Tênis italiano’ que Cecchinato mudou o cenário. “Por um lado, trouxe a Itália de volta ao nível semifinal de um Grand Slam masculino e por outro Marco não representa o modelo do jogador talentoso ou da mais alta qualidade, mas sim o de um jogador construído”. Ele ousa a dizer que essa façanha fez Fognini recuperar a vontade de jogar, que o levaria ao título de Monte Carlo logo depois.

Porém, antes mesmo de ressurgirem nomes de ponta para o tênis italiano, é preciso olhar o lento e decisivo trabalho de prospecção de talentos, que dá outra resposta essencial para o grande momento que a Itália vive hoje. Um dos maiores responsáveis é o mesmo Volandri, que em 2016 foi convidado pelo Conselho Nacional – sim, lá existe um Conselho Nacional – para ser o diretor técnico masculino da Federação, focado nos tenistas de 16 a 24 anos. Ele fincou base no centro de alto rendimento de Tirrenia e, numa entrevista dada ao site local Live Tennis, dá uma aula de como conduzir um trabalho coletivo.

“Nunca substitua o papel do treinador pessoal de um garoto, ele é o ponto de referência do tenista. Se dermos indicações contraditórias às crianças, criaremos confusão”. Volandri diz que é essencial compartilhar ideias e por isso acontecem extensas reuniões com os treinadores. “Somos a universidade que prepara os tenistas para o mundo do trabalho. Fornecemos as melhores ferramentas porque queremos que se tornem independentes. Quando andarem com as próprias pernas, teremos atingido nossa meta”, filosofa.

Ele explica que o primeiro trabalho do Centro é observar grupos de 15 crianças, ver características e possibilidades, como trabalha com seu treinador. Então se planeja um esquema e posteriormente acontecem as avaliações de como isso foi executado, o que deu certo ou errado. “Durante anos foi difícil convencer tenistas e treinadores da bondade do projeto e da oportunidade de compartilhar métodos. Temos um código de conduta. Não falamos diretamente com o garoto, mas com o treinador ou só na presença dele. A palavra de ordem é colaboração, o objetivo é trabalhar em conjunto”.

Volandri enfatiza a importância do extenso calendário profissional de futures e challengers que a Itália conseguiu nos últimos anos. “Tivemos um challenger por semana entre abril e novembro até a pandemia. E um resultado bom de um tenista puxa o outro. É o que vemos acontecer entre (Jannik) Sinner e (Lorenzo) Musetti, que são muito amigos. No entanto, é preciso ver que esse investimento demora muitos anos”.

A maciça maioria dos grandes nomes atuais passou longas temporadas em Tirrenia, como Matteo Berrettini, Lorenzo Sonego, Sinner, Musetti e os promissores Luca Nardi e Giulio Zeppieri. E Volandri ressalta a parceria que se criou com o time particular de cada um. “Levamos um tempo para mostrar que nossa filosofia era de somar e passamos a apoiar também aqueles que estavam fora do centro nacional, tanto em questão econômica como logística, além de compartilhar métodos. Quando Berrettini e Sonego jogavam futures, colocamos preparadores físicos e técnicos para acompanhá-los quando eles não tinham como levar um profissional. Pouco a pouco, fortalecemos a ideia de um grupo de trabalho”.

A Federtennis também colocou à disposição de todos os jogadores especialistas em psicologia esportiva, liderados pelo competente Lorenzo Beltrame, e repassa aos treinadores os vastos estudos estatísticos tão valiosos hoje em dia. “Na transição para o profissional, tática é fundamental. Muitos possuem técnica perfeita, mas erram na forma de administrar e construir um ponto. Essa é a outra importância dos torneios challengers, porque dá a experiência de como gerir uma partida. Claro que não há fórmula garantida para o sucesso, porque há muitos que não estão dispostos à dura vida do tenista profissional. Como vemos, há muita coisa a se encaixar até chegarmos a um padrão vencedor”.

Segundo estudos recentes, 35% da população italiana praticam alguma atividade esportiva e 2 milhões optaram pelo tênis. Desse total, 365 mil são membros da Federtennis, número apenas inferior ao 1 milhão do futebol e superior aos 320 mil do vôlei. Em nível competitivo, há 122 mil tenistas e 13 mil treinadores, o segundo maior contingente do planeta, atrás somente dos EUA. Existem pouco mais de 10 mil quadras, mas Binaghi não está satisfeito. “Queremos que o tênis chegue a todos os municípios, até mesmo os menores, e temos destinado os lucros do Aberto de Roma para financiar a construção de novas quadras. Temos de investir na base para que surjam campeões”.

“A Federtennis saiu da situação dramática no início dos anos 2000, transformando o passivo em um ativo de 12 milhões de euros por ano”, relata Martucci. “O circuito de challenger e futures permite que os jovens ganhem experiência e os mais velhos financiem seu próprio negócio. A Federação deu a si mesma uma imagem de empresa de nível médio e gerou confiança, a ponto de organizar hoje o Next Gen em Milão e o Finals de Turim. Se mantiver a seriedade, o faturamento anual de 60 milhões de euros mudará completamente o tamanho de tudo”.