Arquivo da tag: Felipe Meligeni

Nadal abandona quadras rápidas
Por José Nilton Dalcim
17 de junho de 2021 às 11:51

Num anúncio que considerei surpreendente, Rafael Nadal desistiu de competir na grama de Wimbledon e na veloz quadra dura de Tóquio, onde poderia disputar suas quartas Olimpíadas. Se a saída do Slam britânico já havia até sido ventilada por ele após a queda em Roland Garros, saltar os Jogos foi totalmente inesperado porque Rafa sempre se mostrou muito ligado às competições nacionais e ao clima olímpico.

Algumas considerações são possíveis, ainda que não se possa cravar. A primeira é física, já que percebemos um Nadal desgastado no quarto set diante de Novak Djokovic em Paris. Também não se pode eliminar a questão lombar que o incomoda desde o Australian Open e o forçou a mudar o movimento de saque. No entanto eu ainda destacaria a questão técnica, porque o segundo serviço do espanhol não se mostrou grande coisa ao longo de toda a fase do saibro e sem ele ficaria ainda muito mais difícil competir em pisos velozes.

Por fim, ir a Tóquio significaria viagem longa, fuso horário sempre difícil e o evidente desconforto frente à pandemia e a uma família olímpica de 10 mil atletas. Também complica calendários. Os Jogos terminam apenas uma semana antes do Masters de Toronto e a sequência daí em diante é apertada, com Cincinnati imediatamente a seguir e o US Open sete dias depois, ou seja, são três grandes torneios em cinco semanas. Para quem sempre criticou Nadal por não espaçar melhor sua agenda, seria insensato pensar agora que, com a idade e a resistência menos apurada, ele se sujeitasse a uma maratona dessas.

Esta será a quarta vez que o bicampeão Nadal não vai a Wimbledon. A primeira foi lá no começo da carreira, em 2004, quando também não conseguiu fazer o que seria sua estreia em Roland Garros devido já ao problema no joelho. Depois, firmado como um dos grandes do circuito, saltou 2009, em situação parecida com esta agora, já que vinha de campanha frustrante em Paris devido ao joelho, e mais tarde em 2016, agora com fortes dores no punho que o haviam forçado a se retirar na 3ª rodada de Roland Garros.

O canhoto espanhol é o Big 3 que mais deixou de disputar Slam, se considerarmos seu início no US Open de 2003, em que já tinha ranking para entrar e foi até a terceira rodada. Além desses dois em 2004, que não podem ser muito considerados já que ele ainda era juvenil, faltou também a dois importantes Australian Open (2006 e 2013) e a três US Open (2012, 2014 e 2020). Ou seja, perdeu oito chances na sua melhor vida útil e dez no total.

Novak Djokovic, por exemplo, só deixou de disputar um Grand Slam desde que entrou na chave principal do Australian Open, em 2005. Foi o US Open de 2017, quando estava com o cotovelo lesionado. Aliás, desde então ganhou sete troféus nesse nível dos 13 disputados.

Já Roger Federer chegou a ser recordista de Slam consecutivos a partir da Austrália-2000, interrompendo a série quando resolveu cortar Paris do calendário (2016 a 2018). Faltou ao US Open em 2016 e 2020 e Roland Garros também do ano passado, além da Austrália em fevereiro, estes provocados por artroscopia nos joelhos. Portanto, pulou seis Slam que poderia ter jogado na sua carreira adulta.

E mais
Murray ganhou convite para Wimbledon, mas só ganhou um jogo em Queen’s e foi facilmente batido por Berrettini com um segundo saque muito lento. O Big 4 vai definitivamente fragilizado para Londres, à exceção é claro de Djokovic.
– O sérvio aliás aproveita o torneio próximo de casa e jogará duplas em Mallorca como preparativo para Wimbledon. Sérvio tem uma mansão em Marbella, avaliada em 10 milhões de euros, e fixou residência lá depois de 15 anos morando em Monte Carlo.
Wimbledon anunciou lotação total para a Central nas rodadas finais, ou seja, 15 mil assistentes. A corrida por ingressos começou hoje, mas o site de venda ficou instável. Ao mesmo tempo, dará 5% a menos de premiação, reduzindo quase 30% dos campeões.
– Já o US Open embalou na flexibilização total de Nova York e festeja ‘vida normal’, com venda máxima de ingressos. O torneio costuma ter mais de 700 mil visitantes nas duas semanas.
– Felipe Meligeni conseguiu vaga e assim fará companhia no quali de Wimbledon a Wild, Menezes e Bia. Só Monteiro está direto.
– Para quem não leu, nota curiosa sobre um universitário que ajudou Djoko a se preparar na semi contra Nadal.
– Vice juvenil de Wimbledon em 2018, o canhoto Jack Draper, agora 19 anos, tirou Sinner e Bublik e virou sensação em Queen’s. O britânico não ganhou sequer future nesta temporada e é hoje 309º do ranking.

Renovação forçada
Por José Nilton Dalcim
19 de março de 2021 às 19:49

Nem dá para fingir surpresa. A desistência de Novak Djokovic de Miami, anunciada há pouco pelo número 1 do mundo, era simplesmente lógica. Depois de um esforço hercúleo para completar a campanha vitoriosa no Australian Open, o sérvio tinha mesmo de se tratar. Viajar aos Estados Unidos para um único torneio e depois voltar para a Europa e ter apenas cinco dias de preparação para o saibro de Monte Carlo soaria completamente absurdo.

Nole seguiu os passos de Rafael Nadal, que também saiu contundido de Melbourne, e em menor grau os de Roger Federer, ainda se recuperando da dupla cirurgia no joelho, mas o sérvio será certamente o desfalque maior em Miami. Afinal, ele e Andre Agassi são os únicos com seis títulos no Masters, onde possui a marca de 44 vitórias em 51 jogos. Vale lembrar que Djoko ainda não perdeu jogos em 2021, tendo vencido todos na ATP Cup e no Australian Open.

A consequência imediata e histórica é que Miami se torna o primeiro Masters 1000 desde Paris de 2004 a não ter qualquer um dos Big 3 em quadra. Nessa longa trajetória, passaram-se 138 torneios de tal quilate. Isso é tão distante na memória que a ATP recorreu a um vídeo para lembrar que Marat Safin levou o título em cima de Radek Stepanek. Também será o primeiro Masters de Miami sem um dos Big 3 desde 1998.

Essa renovação forçada abre o leque para que surja um novo campeão de Masters, o que também tem sido algo raro. Desde o início de 2009, apenas 17 tenistas fora do Big 4 conseguiram erguer um troféu. Sinal dos tempos, isso ficou um pouco mais normal a partir de 2018, com títulos de Juan Martin del Potro, John Isner, Alexander Zverev, Karen Khachanov, Dominic Thiem, Fabio Fognini e Danill Medvedev.

Até o final desta sexta-feira, a ordem dos oito primeiros cabeças de chave em Miami relaciona Medvedev, Stefanos Tsitsipas,Zverev, Andrey Rublev, Diego Schwartzman, Matteo Berrettini, Roberto Bautista e Denis Shapovalov. Observem que apenas dois deles já ganharam Masters e seis podem ser considerados da nova geração.

A outra pergunta que se faz necessária é o motivo de tantos abandonos. Da lista original de inscritos, nada menos que 30 já desistiram e poucos deles por contusão declarada. O corte original era o 77º, mas hoje já está no 114º. O próximo aliás a garantir vaga direta é a sensação de Acapulco, o garoto Lorenzo Musetti.

A explicação mais lógica parece estar no misto da grande baixa de premiação – 60% menor do que a de 2019, última edição realizada -, da saída pelo segundo ano consecutivo de Indian Wells e a sempre arriscada viagem diante de um quadro ainda preocupante da pandemia internacional. Sem falar que a temporada de saibro agora ficou quase grudada, uma vez que Monte Carlo começa apenas seis dias depois da final de Miami.

Na longa lista de abandonos, além de quatro dos top 6 figuram Gael Monfils, Pablo Carreño, Stan Wawrinka, Borna Coric, Filip Krajinovic, Richard Gasquet, Nick Kyrgios, Alejandro Davidovich, Kyle Edmund, Jo-Wilfried Tsonga, Gilles Simon, Pablo Cuevas, Lucas Pouille, Egor Gerasimov, Marco Cecchinato e Roberto Carballes. Fácil notar que muitos desses nomes estavam normalmente no circuito há uma ou duas semanas.

A boa notícia para o tênis brasileiro é que Felipe Meligeni conseguiu vaga em seu primeiro qualificatório de nível Masters e juntou-se a Thiago Wild e João Menezes. O próprio Wild está a seis vagas da chave principal, algo que não parece agora tão impossível Thiago Monteiro é nosso único nome garantido em simples. O torneio será aberto na quarta-feira.

É crucial observar que tal debandada não acontece na chave feminina. Ao contrário, até mesmo a número 1 Ashleigh Barty saiu de seu auto-isolamento e garantiu presença. Das atuais top 50, só não jogarão Karolina Muchova, Donna Vekic e Barbora Strycova, o que garante um grupo extremamente forte.

As oito principais cabeças serão Barty, Naomi Osaka, Simona Halep, Sofia Kenin, Elina Svitolina, Karolina Pliskova, Serena Williams e Aryna Sabalenka.

  • No domingo, volto para a análise das incríveis surpresas deste começo de temporada
O caminho das pedras
Por José Nilton Dalcim
29 de novembro de 2020 às 21:05

O título de Felipe Meligeni Alves neste domingo em São Paulo não deve apenas nos dar esperança de termos mais um garoto talentoso e trabalhador na luta pelas principais posições do ranking, mas também nos mostra que existe um caminho a seguir.

Para quem não se lembra, há dois anos ele e Orlando Luz receberam convite da Confederação para treinar na academia BTT, pertinho de Barcelona, parceria em que atuou diretamente o treinador Leo Azevedo, um nome muito respeitado lá fora e que deixamos de aproveitar aqui dentro.

Felipe e Orlandinho encararam então uma outra realidade. Viram que o peso do preparo físico e do deslocamento adequado em quadra faz enorme diferença, seja na resistência de um jogo longo, seja para executar golpes com menor desgaste e maior precisão. E tudo isso ao longo do tempo eleva aquele atributo que tanto se fala no tênis, a tal de confiança.

Os treinamentos são exigentes, exaustivos. Mas também existem facilidades, como viajar pelo continente a custo bem mais baixo e estar diante de um vasto calendário de torneios dos mais variados níveis (isso, claro, fora da pandemia), E, apesar de doloroso, também vieram o desligamento da família, a independência, as responsabilidades, as metas.

Felipe colheu nesta notável semana no Hípico de Santo Amaro o que está plantando. Ganhou de adversários experientes e de melhor ranking, mostrou resiliência física e emocional, brilhou em simples e duplas. Claro que ainda estamos falando em nível challenger, numa arrancada para o top 250 da lista internacional.

Não se deve ter pressa, muito menos cobrança, evitar o detestável imediatismo que se costuma colocar em cima dos emergentes. É muito mais saudável continuarmos a oferecer oportunidades: parcerias internacionais de fato e de qualidade, prospecção constante de talentos, calendário de torneios de base mais amplo.

Nesta segunda-feira, os quatro melhores tenistas masculinos do Brasil estarão entre os 245 primeiros do ranking e três deles não têm mais do que 23 anos. É nisso que temos de mirar.