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Vantagem para Nadal
Por José Nilton Dalcim
14 de maio de 2021 às 19:17

Depois de uma chave dura nas três primeiras rodadas, em que teve de encarar a nova geração e suas inconstâncias, o espanhol Rafael Nadal terá vantagem na fase decisiva do Masters 1000 de Roma, o que abre as portas não apenas para um histórico 10º título mas também à completa recuperação da confiança para buscar o 21º Grand Slam em Paris.

Muito inteiro fisicamente apesar da batalha de 3h20 contra Denis Shapovalov, onde já havia mostrado evolução, o canhoto espanhol não repetiu as falhas de Madri e barrou Alexander Zverev num jogo mais duro do que o placar indica. Vai agora enfrentar um Reilly Opelka de saque muito perigoso mas de nenhuma tradição no saibro e ainda verá seu possível adversário da final ter de jogar duas vezes no sábado, devido ao problema que a chuva causou na tarde romana. E se não surgir uma mudança drástica de cenário, ainda pode ver Novak Djokovic se despedir.

A postura do espanhol foi muito diferente da véspera. Entrou em quadra já batendo firme na bola e desta vez com a profundidade recomendada. E mais importante: procurou golpear bem perto da linha de base, o que seria essencial para diminuir o tempo de reação de Zverev. Isso tudo tirou o ímpeto agressivo do alemão e o forçou a trabalhar o ponto. Quando decidiu arriscar, muitas vezes não estava equilibrado o suficiente.

Como aconteceu diante de Kei Nishikori, pouco a pouco Zverev cresceu e o segundo set ficou bom. Teve 0-40 e uma boa chance no terceiro break-point, mas não deu sorte. Perdeu o serviço em seguida e ainda poderia ter evitado o 4/2, mas outra vez Nadal saiu do aperto. O saque do espanhol aliás funcionou bem melhor nos momentos importantes, principalmente para evitar o 5/5 que poderia animar o adversário.

Djokovic por seu lado viveu intensos altos e baixos. Perdeu o saque logo de cara e desperdiçou seguidas chances de se recuperar, incluindo um quarto game muito longo em que o grego foi testado no seu controle emocional. Stef ainda abriu 4/1, mas enfim levou a quebra ensaiada e Djoko encostou. Aí veio a primeira parada pela chuva e a espera foi longa.

Na retomada, o grego encarou muito bem o piso mais pesado e impôs o saque. O número 1 continuou instável e sofreu a quebra perigosa no terceiro game do segundo set antes que o mau tempo adiasse de vez o duelo e talvez tenha lhe dado a chance de recomeçar mais firme no sábado. Quem vencer, retorna à tarde contra Lorenzo Sonego ou Andrey Rublev, que sequer iniciaram a partida.

Um dos tenistas afetados pela infecção por coronavírus, Opelka disputará sua primeira semi de Masters. O hoje 47º do mundo cravou 18 aces diante de Federico Delbonis e só perdeu 10 pontos quando acertou o primeiro serviço, mas ainda assim precisou salvar quatro break-points, um deles muito importante na reta final do segundo set. O gigante de 2,11m nunca enfrentou Nadal e sabemos que isso torna o desafio ainda mais difícil. Sua meta provavelmente será decidir tudo em tiebreaks. A média da semana: 19,4 aces por jogo.

Barty se poupa
Na chave feminina, uma situação pouco comum: liderando o jogo por 6/4 e 2/1, Ashleigh Barty desistiu. Alegou dor no braço direito, uma lesão já existente, e o risco de comprometer Roland Garros. A quadra muito pesada nesta sexta-feira em Roma contribuiu para o desgaste, sem falar que Coco Gauff não alivia nos golpes e estava exigindo muitos ralis. A adolescente só conhecerá adversária no sábado, entre Elina Svitolina e Iga Swiatek, outro jogo adiado.

E quem está perto de sua terceira final seguida no Foro Itálico é a tcheca Karolina Pliskova. A campeã de 2019 e vice de 2020 marcou uma virada suadíssima contra Jelena Ostapenko, tendo salvado três match-points no terceiro set. E não vai ter vida fácil diante da Petra Martic, uma jogadora respeitável no saibro e que tem 4-2 nos duelos diretos.

Federer em quadra
Vacinado e entusiasmado, Roger Federer iniciou os treinamentos na sede do torneio de Genebra e já sabe quem enfrentará no retorno às quadras: Pablo Andujar ou Jordan Thompson, provavelmente na quarta-feira. Se avançar, pode encarar os garotos Cristian Garin e Casper Ruud. O cabeça 2 é Shapovalov.

Thiago Monteiro entrou na chave e precisará estar firme para estrear contra Laslo Djere e quem sabe desafiar Fabio Fognini em seguida.

Duríssimo de matar
Por José Nilton Dalcim
13 de maio de 2021 às 18:49

Favoritismo é algo só para a teoria mesmo. Quem imaginaria que Denis Shapovalov fosse capaz de dominar Rafael Nadal em pleno saibro de Roma? E, talvez o mais incrível de tudo, com paciência na construção de jogadas, aplicação tática e cabeça no lugar?

Foi um jogo de surpresas do começo ao fim. Shapovalov estudou direitinho o roteiro e soube tirar proveito do saque pouco contundente do espanhol. Agressivo na medida certa, o que é pouco usual, não deixou Nadal em paz nos games de serviço e isso explica as impensáveis vantagens que teve para vencer o jogo: 4/0 no primeiro set, depois 6/3 e 3/0 com break-point ou ainda 6/3, 3/1 e 40-0. E no terceiro set, mais 3/1 e dois match-points no 6/5.

Se por um lado Shapovalov pode ser acusado de não aproveitar tantas oportunidades, de outro foi admirável a forma com que segurou o mental e nunca deixou Nadal arrancar nas reações. Isso por fim só aconteceu no tiebreak que decidiu tudo, quando voltou a ser quem conhecemos: precipitado e indeciso.

Nadal viveu intensos altos e baixos e certamente sabe que o quão perto esteve da derrota e até de um placar vexatório para seu currículo no saibro. Porém, é preciso novamente se render a sua resiliência. Pressionado o tempo todo, quase sem tempo para respirar, arrumou de novo um jeito de superar deficiências e achar antídotos. Estavam lá o backhand na paralela, a curtinha, o avanço à rede, as passadas nunca repetidas.

Poucas vezes se viu no tênis alguém tão competitivo. Se é fato que estamos diante do Nadal mais vulnerável sobre o saibro, de outro esse espanhol mais fragilizado dá sucessivas aulas de como ganhar sem jogar o seu melhor. E isso, convenhamos, também é uma arte.

Desafios para os cabeças 1 e 2
Com muita razão, Nadal reclamou de ter jogado tão cedo nesta quinta-feira e agora, depois de 3h20 de enorme esforço, terá de voltar à quadra para rever Alexander Zverev. O alemão não foi tudo aquilo contra Kei Nishikori, dando ares de esgotamento até a metade do segundo set, mas também se superou e arrumou motivação para a virada. Vale lembrar que Novak Djokovic foi o único até hoje a ganhar de Nadal duas semanas seguidas no saibro, nas finais de Madri e Roma de 2011.

Por falar em Djokovic, vitória muito tranquila e sem qualquer susto diante de Alejandro Davidovich e duelo marcado contra Stefanos Tsitsipas, o que gera expectativa de outro jogaço no Foro Itálico. O grego anda tão confiante que venceu seis pontos seguidos no tiebreak que fez diante de Matteo Berrettini. O número 1 tem favoritismo pelo histórico de 4 a 2 no geral e 2 a 0 no saibro, mas vocês se lembram que o Stef  já levou Nole a cinco sets em Roland Garros de 2020.

Já na madrugada e sem público no set final, Lorenzo Sonego foi um gerreiro na vitória de 3h24 sobre Dominic Thiem, em que nada menos 50 de seus 129 pontos na partida foram winners. O italiano impôs agressividade, mas também toques sutis e está cada vez mais firme na rede. Poderia ter vencido ainda no segundo set, mas depois viu Thiem sacar para a vitória e falhar. Sonego Irá carregar a pequena torcida diante de Andrey Rublev para tentar vingar a derrota sofrida na final de Viena do ano passado. Rublev foi superior outra vez a Roberto Bautista no saibro, como aconteceu em Monte Carlo.

Lá no começo do dia, Reilly Opelka e Federico Delbonis ganharam o direito de ser a ‘zebra’ da semifinal – jamais foram tão longe em nível Masters – e mostram que um saque potente pode ajudar muito na terra romana. Opelka superou Aslan Karatsev e o canhoto argentino superou Felix Aliassiime em roteiros muito parecidos, já que o russo sacou para ganhar o tiebreak do primeiro set e o canadense teve set-point na série inicial, fatores que poderiam ter mudado a história dos jogos.

Gauff brilha em Roma
A chave feminina viu a queda de Aryna Sabalenka para a juventude de Coco Gauff, que continua a mostrar evolução sobre a terra, tendo já batido Maria Sakkari. Agora, o desafio é ainda maior: Ashleigh Barty, em confronto inédito. Quem vencer irá cruzar com Elina Svitolina ou Iga Swiatek. A ucraniana exibiu o saque frágil de sempre, mas foi bem mais consistente do que Garbiñe Muguruza em seu retorno depois de lesão na perna. Já a atual campeã de Roland Garros precisou salvar dois match-points diante da surpreendente Barbora Krejcikova, que já havia atropelado Sofia Kenin.

O outro lado verá quartas de duas jogadoras que pegam pesado: Karolina Pliskova e Jelena Ostapenko, duas tenistas com histórico de sucesso no saibro europeu. Petra Martic acabou com a festa de Nadia Podoroska e terá pela frente as bolas retas de Jessica Pegula.

Roma poderá dar boa mexida no ranking das meninas. Svitolina precisa de mais duas vitórias para recuperar o quarto posto perdido para Sabalenka e Swiatek pode enfim chegar ao top 10 em caso de título. Gauff avança para o 32º posto e isso pode lhe dar cabeça de chave em Paris.

Justiça tarda, mas não falha
Por José Nilton Dalcim
27 de novembro de 2016 às 19:53

Demorou, foi incrivelmente sofrido, mas a Argentina enfim levantou a Copa Davis. Se existe um país que merecia essa glória, são nossos hermanos. Não apenas pela qualidade de gerações e gerações que marca sua trajetória nas quadras, mas acima de tudo por sua paixão pelo tênis e o coração que colocam a cada bola rebatida.

Aliás, perseverança e espírito de superação foram exatamente o que tiveram nesta duríssima final contra a Croácia. Fora de casa – aliás, todos os quatro duelos foram como visitantes na campanha deste ano -, com placar desvantajoso desde o primeiro jogo, estiveram a apenas um set para engolir mais uma desilusão.

Como sempre, jamais desistiram. O gigante Juan Martin del Potro não se entregou. Ele havia estado em outras duas decisões. A dolorosa derrota em casa para a Espanha, em 2008, em Buenos Aires, quando perdeu para Feliciano López, deixou claro o atrito interno na equipe. Em 2011, mais difícil, teve de ir à Espanha e foi batido tanto por David Ferrer como por Rafa Nadal.

Delpo estava afastado do time desde 2012 por desentendimentos com a federação e rixa com o grupo, especialmente David Nalbandian. Só retornou em julho deste ano na dupla contra a Itália porque precisava cumprir o regulamento dos Jogos Olímpicos. Marcou o ponto e virou referência do time. Foi essencial na vitória sobre os britânicos, superando Andy Murray diante dos escoceses.

O desempenho em Zagreb fechou um ano incrivelmente emocionante para Delpo. Ele, que não atuava desde Estocolmo, marcou um ponto de empate duro contra Ivo Karlovic na sexta-feira, não se saiu bem na dupla de sábado e foi dominado por Marin Cilic no jogo decisivo de domingo cedo. Mas aí achou forças. Começou a jogar cada vez melhor, mexeu as pernas para disparar forehands, teve paciência para esperar as falhas de Cilic no saque e conseguiu uma virada de arrancar lágrimas.

Entregou a decisão para o canhoto Federico Delbonis, que fez um jogo impecável a partir da metade do primeiro set diante de Karlovic, que dinossauricamente praticava seu saque-voleio cada vez mais desconfortável. Nota 10 para a tranquilidade de Delbonis, que, lembremos, já havia marcado o ponto decisivo em julho contra Fabio Fognini.

A invasão da torcida argentina, onde se incluiu um empolgadíssimo Dom Diego Maradona, completou um final de semana inesquecível. Sofrido, como sempre foi para os argentinos, mas que coroa um currículo invejável, principalmente em termos de tênis latino-americano. Nada menos que 11 nomes já figuraram no top 10, desde Guillermo Vilas, o pioneiro em 1974, passando por Jose-Luis Clerc, Alberto Mancini, Martin Jaite, Guillermo Coria, Gastón Gaudio, Guillermo Cañas, David Nalbandian, Mariano Puerta, Delpo e Juan Mónaco, sem falar em Gabriela Sabatini.

Para se fazer definitivamente a justiça com eles, só falta mesmo a ATP reconhecer seu erro e dar a Vilas o número 1 do mundo ao final de 1977, temporada em que ganhou nada menos do que 16 torneios, entre eles Roland Garros e US Open.