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Raducanu faz história, circuito ganha estrelas
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2021 às 21:06

Emma Raducanu colocou a história do tênis profissional feminino de cabeça para baixo. Além de se tornar a primeira tenista saída do qualificatório a ganhar um Grand Slam, em qualquer sexo, ela conquistou o US Open logo em sua primeira participação e com apenas três outros títulos de nível ‘future’ no currículo. Aos 18 anos e 10 meses, com um tênis incrivelmente moderno, parece ter lugar garantido em muitos outros grandes momentos daqui em diante.

A rapidez com que chegou ao estrelato é notável. Jogou seu primeiro torneio de nível WTA em junho, sem passar da primeira rodada em Nottingham, mas em seguida aproveitou o convite para Wimbledon e, então uma mera 338 do ranking, atingiu as oitavas de final. Questionada como chegara ao sucesso tão instantaneamente, ela argumentou: “Acho que minha boa formação escolar ajuda muito”, referindo-se à sua habilidade com matemática e finanças. “Absorvo facilmente as informações e sinto que na quadra eu tenho sempre uma tática astuta”.

Ao viajar para a temporada norte-americana de quadras duras, tomou uma inesperada decisão e trocou de treinador logo depois de perder na primeira rodada de San Jose. Deixou Nigel Sears, o sogro de Andy Murray, e contratou Andrew Richardson, que havia sido um de seus treinadores como juvenil. Jogou então o WTA 125 de Chicago, indo à final, e quando chegou ao quali do US Open era a 186ª do mundo.

Aí entrou na chave e iniciou uma campanha inesperada, ainda que não tenha enfrentado qualquer top 10. Não perdeu set, ao contrário o maior placar que permitiu em sete partidas foi 6/4, mesmo diante de Belinda Bencic e Maria Sakkari. Ao repetir o feito de Virginia Wade de 53 anos atrás em Nova York, ganhou elogios da última britânica a ter vencido um Slam, em 1977. “Ela é muito boa em todos os campos, tem golpes fantásticos e certamente irá ganhar outros Slam”.

E foi exatamente isso que Raducanu mostrou na final contra a não menos surpreendente Leylah Fernandez. Extremamente aplicada na parte tática, explorou o saque no backhand da canadense e forçou sempre paralelas dos dois lados, além de aproveitar qualquer chance para ser agressiva desde a devolução, como foi seu padrão ao longo das duas semanas. Ao colocar a adversária na defensiva, não reluta em ir à rede e finalizar com voleio clássico.

Claro que Raducanu precisará de adaptações quando chegar a pisos mais lentos e encarar oponentes que a obriguem a ter mais consistência, porém nada indica que isso não seja possível porque seu preparo físico se mostrou impecável.

Leylah também parece fadada a muito sucesso no circuito. Tenista leve e rápida, se defende muito bem e possui o topspin como alternativa. Acaba de fazer 19 anos e portanto tem tempo e agora confiança para trabalhar um pouco mais na devolução de backhand, que foi um buraco bem explorado pela britânica.

O que coloca Raducanu e Fernandez como fortes candidatas a chegar com firmeza ao top 10 é o fato de elas se mostrarem forte mentalmente com tão pouca experiência no circuito e de jogar com tanta alegria e energia. O tênis feminino, recheado de jogadoras promissoras e jovens, promete muito para 2022.

Djoko a três sets de Laver
Por José Nilton Dalcim
11 de setembro de 2021 às 00:39

Sob o olhar de Rod Laver e num jogo disputado ponto a ponto, Novak Djokovic conseguiu de novo. Virou seu quarto jogo seguido após perder o primeiro set, vingou-se de Alexander Zverev em grande estilo e agora está a uma única vitória de marcar o maior feito do tênis profissional: a conquista do quarto Grand Slam consecutivo na mesma temporada.

Apenas Daniil Medvedev pode impedir a história. Mas enquanto o russo chega a sua terceira final ainda em busca do primeiro troféu, Djokovic iguala mais um recorde de Roger Federer e estará na 31ª. Se chegar ao tetra do US Open, terá também 21 troféus de Slam e desempatará a disputa contra Federer e Rafael Nadal.

A decisão entre os dois líderes do ranking é o fecho perfeito de um torneio espetacular. O quinto set entre Nole e Zverev foi o 34º desta edição, a segunda maior marca da história, e nada menos que outros 15 duraram mais de quatro horas, algo que não acontecia há 30 anos.

E foram cinco sets tensos e intensos. Zverev encarou o número 1 de igual para igual, aguentando pontos longos. Fez um grande primeiro set, viu Djoko melhorar muito com o saque no seguinte e com as devoluções no terceiro. Obteve uma quebra precoce no quarto e segurou a cabeça diante de todas as tentativas de Nole.

Por fim sucumbiu à superioridade do adversário, como se o sérvio houvesse guardado sua melhor energia para a reta final. Claro que o alemão cometeu erros absurdos no quinto set, mas é preciso considerar a pressão de ter de colocar bolas na linha depois de três horas de tamanha correria. Os números estatísticos foram bem semelhantes, mas um deles merece citação especial: Djokovic foi 43 vezes à rede e ganhou 35 lances, o que dá 81% de aproveitamento.

Sascha continua sem ganhar de um top 10 em Slam, mas está certamente jogando o melhor tênis de sua vida. Nole o fez pela 61ª vez num Slam e pela 225º no total – agora novo recorde – e deu um show na entrevista em quadra, ao defender Stefanos Tsitsipas, frisar a forte amizade com Zverev e dizer que na sua cabeça o foco é “apenas” o tetra em Nova York. Enfatizando: “Tratarei este jogo como se fosse o último de minha carreira”.

Medvedev vai tentar de novo
Mesmo reconhecendo não ter jogado seu melhor tênis, Medvedev fez o bastante para superar a instabilidade emocional de Felix Auger-Aliassime. O canadense vendeu caro o primeiro set e aí sacou com 5/3 para empatar a partida, perdendo dois set-points. O jogo acabou nesse momento. Ele se perdeu completamente e o russo foi absoluto. Enquanto Felix via a volta do fantasma das duplas faltas – cometeu 10 -, o número 2 anotava 12 aces.

Medvedev se torna apenas o segundo tenista fora do Big 4 a fazer duas finais de Slam na mesma temporada desde 2004, repetindo Dominic Thiem. No total, é sua terceira tentativa de ganhar o título tão esperado. Em toda a Era Aberta, jamais um tenista perdeu três finais sem conquistar em algum momento seu Slam. Então o russo pode ao menos ter muita esperança, caso Djoko repita os 3 a 0 da final do Australian Open de fevereiro.

Fato curioso, Medvedev chega à final com 11h51 em quadra, menos do que Leylah Fernandez (12h19) e quase o mesmo de Emma Raducanu (11h34). E olha que ele ainda perdeu um set.

Soares: digno vice
Faltou um set para o tricampeonato de Bruno Soares no US Open. Ele e Jamie Murray buscavam repetir a conquista de cinco anos atrás e foram bem superiores ao local Rajeev Ram e ao britânico Joe Salisbury na série inicial. Só que aí os adversários subiram de nível, tanto na devolução como no saque, enquanto a dupla do brasileiro passou a cometer pequenos erros que se mostrariam fatais.

Embora Ram tivesse sido perfeito nos serviços nos dois sets seguintes, Salisbury estava no seu dia. Fez jogadas incríveis, mostrou-se eficiente na rede e nos contragolpes. Não por acaso está na final de mistas também. Ele e Ram mereceram o segundo troféu de Slam e se firmam como vice-líderes da temporada.

Bruno sabe que sua campanha foi além do esperado depois da parada forçada pela cirurgia do apêndice, por isso merece todos os elogios. Ele e Murray sobem para o oitavo lugar na Corrida e estão com grande chance de chegar ao Finals de Turim.

A incrível falta de sorte de Stefani
Lesões fazem parte do esporte e o tênis, um esporte que mexe com dezenas de músculos e articulações ao mesmo tempo e em diferentes dimensões, está sempre fadado a prejudicar alguém. A cena de Luísa Stefani pisando em falso ao tentar trocar de direção, o que a levou a torção de tornozelo e ao rompimento do ligamento do joelho, foi terrível e preocupante.

Ela e Gabriela Dabrowski haviam acabado de se safar de set-points e iniciavam um tiebreak que prometia ser equilibrado. Aguentavam com firmes voleios as bolas pesadas de Coco Gauff e Caty McNally, que não têm a mesma intimidade com o jogo de rede. Uma pena em todos os sentidos, porque a partida estava divertida. A contusão da brasileira calou o estádio e deixou as adversárias perplexas.

Infelizmente, a expectativa é de retorno em apenas seis meses, o que a impedirá de lutar por vaga no WTA Finals, que estava tão perto.

E mais
– Com a derrota de Aliassime, Casper Ruud garantiu seu inédito lugar no top 10 na lista de segunda-feira. Outros recordes pessoais para Felix (11º), Sinner (14º), Garin (17º), Opelka (19º) e Alcaraz (38º).
– Há exatos cinco anos, Medvedev ganhava seu único título de challenger no piso duro de St. Remy.
– Leylah Fernandez e Emma Raducanu decidem o US Open no dia do 20º aniversário da queda das Torres Gêmeas, mas nenhum delas havia sequer nascido naquele triste dia.
– A vencedora da final marcada para as 17 horas se juntará à série de inesperadas campeãs de Slam que vem desde 2017 e inclui Jelena Ostapenko, Sloane Stephens, Naomi Osaka, Bianca Andreescu, Sofia Kenin, Iga Swiatek e Barbora Krejcikova.
– As duas nunca se enfrentaram, mas a canhota Fernandez tem um título de WTA, mais Slam disputados e melhor ranking, o que lhe confere certo favoritismo. O prêmio é o mesmo dos homens: US$ 2,5 milhões.

O US Open é das meninas
Por José Nilton Dalcim
10 de setembro de 2021 às 00:51

Era de se esperar novidade na chave feminina do US Open, mas a final deste sábado superou de longe qualquer expectativa. De um lado, Leylah Fernandes de 19 anos recém completados, que eliminou sucessivamente Naomi Osaka, Angelique Kerber, Elina Svitolina e Aryna Sabalenka, todas no terceiro set. Do outro, Emma Raducanu, de 18 anos e 10 meses, que se torna a primeira tenista oriunda do qualificatório, entre mulheres ou homens, a atingir uma final de Grand Slam. Não dava para ser mais sensacional.

As vitórias em si já seriam extraordinárias, mas a forma com que Leylah se comporta em quadra fala ainda mais. Joga com alegria e leveza, interage com o público, concentrada. Sem gritaria ou exageros. De 1,68m, faz alavancas perfeitas para arrancar saques eficientes e winners desconcertantes. De repente, solta uma deixadinha ou decide o ponto bem construído no voleio. Dá gosto vê-la jogar.

No duelo diante da número 2 do ranking desta quinta-feira, Fernandez saiu de 1/4 para o empate, evitou set-point e foi firme no tiebreak. Após destruir a raquete, Sabalenka repetiu a dose na outra série, desta vez mais feliz na conclusão forçada dos pontos, e na série decisiva ainda salvou-se após a canadense abrir 4/2. No game final, no entanto, cometeu duas duplas faltas seguidas e mandou longe um forehand, jogando por terra sua segunda chance seguida de decidir o primeiro Slam.

Na tentativa de repetir a compatriota Bianca Andreescu, inesperada campeã de dois anos atrás também aos 19 anos, irá enfrentar no sábado a não menos surpreendente Raducanu, que saiu do quali e já fez nove jogos neste US Open… vencendo todos os sets! Sua trajetória foi um pouco menos vistosa, mas ainda assim incluiu Shelby Rogers, uma rodada depois de a americana ter eliminado Ashleigh Barty, e em seguida Belinda Bencic e Maria Sakkari. O set mais duro dos 18 que disputou chegou a 6/4.

Há muitas qualidades também no jogo desta canadense de nascimento, que se mudou para Londres aos dois anos. As principais são o segundo saque forçado e as devoluções agressivas quase sempre pelo centro da quadra, ao melhor estilo masculino. É muito eficiente no uso das paralelas, tem um forehand veloz e seus voleios são quase tão impecáveis quanto aos de Virginia Wade, a última britânica a ganhar o US Open em 1968, e Tim Henman, que lhe deu conselhos. Os dois estavam na plateia para assisti-la.

Um tanto diferente de Fernandez, Emma não esconde emoções. Quem olha o placar de sua vitória sobre Sakkari desta noite pode achar que a grega tremeu, mas o fato é que Sakkari tentou de tudo e raramente conseguiu ser melhor do que a jovem adversária, que tomou a iniciativa e jamais vacilou, nem mesmo na hora de fechar seu primeiro jogo no Arthur Ashe.

Sábado à noite vem mais história…

Soares vai atrás do sétimo Slam
Competência nunca faltou a Bruno Soares, mas esta final do US Open, a sexta que faz na soma de sua carreira em Flushing Meadows, é ainda mais especial. O mineiro de 39 anos chegou sem treinamento apurado devido à cirurgia inesperada de apêndice e assim sem qualquer ritmo de competição desde Wimbledon.

Está agora muito perto de defender o título do ano passado com parceiro diferente, o croata Mate Pavic, e busca o segundo troféu ao lado de Jamie Murray. Bruno tem outras duas conquistas no US Open em duplas mistas e por pouco não levou também o título de 2013 ao lado de Alexander Peya. É muito fácil amar Nova York dessa maneira, mas Soares também já foi campeão no Australian Open, ao lado do mesmo Murray, e tem final em Roland Garros com Pavic e de mistas em Wimbledon. Um cardápio completo.

Há duas dificuldades a ser superadas na final desta sexta-feira, ás 13 horas: o dono da casa Rajeev Ram, que faz entrosada parceria com o britânico Joe Salisbury, com quem venceu o Australian Open do ano passado e foi à final de 2021, justamente após superar Soares e Murray numa semi de dois sets.

Bruno já garantiu o prêmio de US$ 165 mil dos US$ 330 mil dedicados aos vices, o retorno ao top 10 como nono colocado e a oitava posição na Corrida para o Finals.

E logo depois, mas no estádio Louis Armstrong, Luísa Stefani busca a quarta final consecutiva ao lado de Gabriela Dabrowski, e obviamente a mais importante delas. As campeãs de Montréal e vices de Cincinnati encaram as jovens Coco Gauff e Caty McNally.

Sonhos na semi masculina
Felix Auger-Aliassime é o intruso nas semifinais masculinas do US Open. Aos 21 anos e com apenas uma presença em quartas na carreira, o canadense ocupa o espaço que deveria ser de Stefanos Tsitsipas. Não derrotou qualquer dos atuais top 20, mas ainda assim fez uma campanha consistente, tendo superado Roberto Bautista, Frances Tiafoe e Carlos Alcaraz.

Por isso mesmo, o favoritismo de Daniil Medvedev é absoluto. O russo já decidiu o US Open de 2019, levando Rafael Nadal ao quinto set numa reação notável, e também foi à final do Australian Open de fevereiro, barrado por Novak Djokovic. O número 2 do mundo tem 12 títulos na carreira – três deles neste ano -, sendo um Finals e quatro Masters, todos no piso duro. Aliassime perdeu as oito decisões que já fez em nível ATP em três pisos diferentes e foi batido no único duelo direto com Medvedev, mas num jogo em 2018 e que terminou no tiebreak do terceiro set.

Ainda assim, dá para acreditar. Aliassime mostrou um saque muito eficiente neste US Open, ficou mais corajoso para tentar pontos junto à rede e tem usado slices, elementos táticos que podem funcionar muito bem contra Medvedev. O russo joga muito atrás da linha e deixa os ângulos mais vulneráveis, porém é uma máquina de bater na bola e muito aplicado taticamente. Muito provável que ataque o segundo saque para tirar a confiança do adversário.

Djokovic e Alexander Zverev, ao contrário, seguem o roteiro imaginado desde o sorteio da chave. O sérvio perdeu set em quatro de seus cinco jogos, tendo saído atrás nos três últimos, mas sempre mostrou a conhecida capacidade de elevar o nível ao longo das partidas. Zverev economizou mais energia, ainda que tenha levado sustos de Jack Sock e Lloyd Harris. Além do saque poderoso, continua a mostrar cabeça bem mais focada.

É de se esperar uma batalha direta entre o saque alemão e a devolução sérvia, ainda que Sascha também tenha evoluído como devolvedor como mostrou na vitória olímpica. São dois dos melhores backhands do circuito atual e será interessante observar quem vai arriscar paralelas primeiro.

O histórico de 7 a 4 é favorável ao sérvio, que também ganhou as duas em Slam, incluindo o recente Australian Open. E se somarmos isso ao fato de Zverev jamais ter vencido um top 10 nas dez vezes que os encarou num Slam, então a aposta mais lógica fica com Djokovic.