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Em ritmo de treino
Por José Nilton Dalcim
1 de junho de 2021 às 18:59

Rafael Nadal suou um pouco mais que Novak Djokovic, porém os dois nomes mais cotados para o título de Roland Garros tiveram estreia quase protocolar nesta terça-feira. Daqui a dois dias, terão novamente amplo favoritismo diante de adversários também veteranos. Rafa reencontra um de seus maiores ‘fregueses’, Richard Gasquet, contra quem tem 16 a 0, enquanto Djoko faz duelo inédito contra o acrobático Pablo Cuevas.

O megacampeão fez dois sets muito tranquilos diante de Alexei Popyrin, que até conseguiu ser competitivo em trocas longas e abusou do saque, porém o espanhol falhou num game de serviço e por muito pouco não perdeu o terceiro set. Na verdade, Popyrin foi muito incompetente. No primeiro set-point, fez dupla falta. No outro, errou smash. A decisão acabou num tiebreak que ratificou então a enorme diferença entre os dois.

Num saibro lento da noite parisiense, Tennys Sandgren se esforçou ao máximo diante de condições que não combinam nada com seu jogo e Djokovic sempre achou as melhores soluções. O sérvio não perdeu serviços, mas precisou salvar seis break-points no segundo set em dois games distintos, ainda que já dominasse o placar naquela altura. O número 1 marcou 33 winners em 26 games e fez um primeiro set quase perfeito com meros 4 erros.

Enquanto isso, a nova geração tropeçou feio. Andrey Rublev ensaiou reação após perder os dois primeiros sets. No entanto, não conseguiu superar o tênis muito mais variado de Jan-Lennard Struff, que já havia lhe dado muita dor de cabeça em Roma dias atrás. Vice de Monte Carlo onde parou Nadal, o russo foi perdendo energia ao longo da temporada de saibro. No ano passado, foi quadrifinalista. Já Felix Aliassime não achou antídoto para as bolas retas do veteraníssimo Andreas Seppi, de 37 anos e hoje 98º do ranking. É bem verdade que o italiano tem histórico em Paris e chegou a ter 2 sets a 0 contra Djoko nas oitavas em 2012.

As boas notícias vieram com Diego Schwartzman e Gael Monfils. O argentino pegou o fraco Yen-Hsun Lu, fez seu papel e venceu com autoridade. O francês esteve a um ponto de ver Albert Ramos abrir 2 sets a 0, quando o espanhol jogou um slice no meio da rede. A partir daí foi engolido pela determinação de Monfils e sua ruidosa torcida. Favoritos na próxima rodada, Schwartzman pode cruzar com Aslan Karatsev na terceira fase e Monfils, com Sinner.

Mais problemas no feminino
Desta vez, nenhuma cabeça de chave caiu. Ao menos em quadra. Um dia depois de perder Naomi Osaka na confusa polêmica das entrevistas obrigatórias, Petra Kvitova anunciou ter sido vítima de um torção no pé quando. por ironia do destino, saia da coletiva de domingo, quando venceu duríssimo jogo de estreia. A canhota tcheca fez ressonância e constatou que não dava para continuar. Tanto Osaka como Kvitova estavam no lado inferior da chave.

E não foi só. Durante a exigente vitória no terceiro set diante da canhota Bernarda Pera, a campeã de 2019 Ashleigh Barty voltou a sentir lesão lombar e preocupa. Ela minimizou a contusão, porém sabe que terá de estar inteira diante de Magda Linette, vice de Estrasburgo no sábado.

A rodada teve ainda uma atuação sofrível de Elina Svitolina, boa recuperação de Karolina Pliskova depois do vexame em Roma e Coco Gauff de intensos altos e baixos. Muito legal rever Carla Suárez em quadra, recuperada do câncer linfático. Jogou bem, teve 6/3 e 5/4 com saque para vencer Sloane Stephens. Levou a virada e ganhou um abraço apertado da adversária.

Começa a segunda rodada
A parte inferior das chaves de simples abre nesta quarta-feira a segunda rodada de Roland Garros, mas poucos jogos me empolgam.
– Tsitsipas pode ter a tarefa mais dura, já que Pedro Martinez é especialista e surpreendeu Korda, ainda que seja 103º com meras 14 vitórias de ATP na carreira.
– Medvedev encara Paul, campeão juvenil do torneio em 2015 e que vem de maratona de cinco sets. Colocaram na tal rodada noturna, onde tudo é bem mais lento, o que não agrada o russo.
– Zverev reencontra Safiullin, um adversário dos tempos de juvenil. O russo progrediu pouco e hoje é 182º.
– Bautista é super favorito contra Laaksonen e Carreño, frente Couacaud.
– Jogos interessantes envolverão Khachanov e Nishikori – japonês acabou de fazer 3-2 no histórico com virada em Madri – e de Fognini frente Fucsovics, em que italiano tem 2-1 mas nunca se cruzaram no saibro.
– Sabalenka tenta ir à 3ª rodada de Paris pela primeira vez contra Sasnovich.
– Serena pega segunda romena em sequência. Buzarnescu já fez oitavas em Paris há três anos.
– Bencic e Kasatkina fazem tira-teima já que empatam por 2-2. Azarenka pega a campeã juvenil de 2018, Clara Tauson.
– Monteiro faz último jogo da quadra 12 e deve entrar por volta de 12h. Faz duelo inédito contra Steve Johnson, que basicamente só bate slice de backhand. Será preciso paciência e ficar esperto para rápida transição à rede e volear as bolas mais lentas.

Assombroso, Djokovic desafia Nadal
Por José Nilton Dalcim
15 de maio de 2021 às 18:40

Se Rafael Nadal mereceu todos os elogios por sua resiliência nos jogos duros que teve nesta semana em Roma, Novak Djokovic mostrou um nível técnico, mental e físico de deixar qualquer super-homem de queixo caído. Foram quase cinco horas de uma intensidade raramente vista, encarando dois adversários que não economizaram energia e coração para tentar derrubá-lo. Não fosse o desgaste tão superior que sofreu neste sábado, Nole sairia como favorito para levar o título no 57º capítulo do confronto com Rafa.

A virada sobre Stefanos Tsitsipas foi considerada por Nole como seu principal jogo da temporada. Acho mais: foi a partida de melhor qualidade de 2021. Um tanto diferente da véspera, Djokovic entrou em quadra firme, consistente, agressivo, com devoluções impecáveis e muitas opções táticas. O grego no entanto parecia ter resposta para tudo. Sustentou trocas de bola de tirar o fôlego, arriscou backhands incríveis, usou tudo de seu forehand tão ofensivo.

Que bom que Stef entregou um serviço e pudemos ver um terceiro set ainda mais acirrado, cada um tentando empurrar o outro para trás, surpreender com deixada ou um voleio. Tsitsipas não cedia terreno. Fez 2/1, esteve perto de ampliar, cedeu o empate mas imediatamente quebrou de novo e sacou para a vitória. Nem chegou ao match-point porque Djoko tirou da cartola suas devoluções milimétricas. Por fim, usou novamente deixadinhas para sacar com 6/5 e avançar. É um jogo que merece ser revisto para quem aprecia um tênis realmente bem jogado.

Poucas horas depois, o número 1 voltou à quadra e parecia estar fazendo o quarto set do jogo anterior. Continuava firme, sólido, desta vez usando mais o backhand na paralela. Sonego tinha dificuldade para ganhar pontos no saque do sérvio, mas por fim passou a jogar melhor e fez um segundo set de primeira linha. Variou o máximo que pôde, arrancava força da torcida, corria por todos os cantos. E foi premiado pelo único vacilo real de Djokovic no dia, quando sacou para fechar a partida e perdeu dois match-points num momento de tensão evidente. O italiano ainda virou o tiebreak e por muito pouco não abriu o terceiro set com quebra. Só dois games depois enfim se rendeu. Vale lembrar que ele fizera três sets inteiros na manhã contra Andrey Rublev, sua terceira grande vitória do torneio.

Enquanto isso, Nadal jogou 20 games bem mais rápidos, ainda que mereça nota 10 pela forma com que encarou o super-sacador Reilly Opelka. O norte-americano disparou ousados forehands da base no começo da partida e ameaçou tirar o saque do espanhol logo no quarto game, o que seria um problema. Não conseguiu e o espanhol esperou suas chances de quebra, uma em cada set, para uma vitória em que havia pouca margem para erros.

Assim, garantiu sua 12ª final em Roma, uma a mais que Djokovic, e vai atrás do deca enquanto o sérvio quer o hexa. Ou seja, mais uma vez o torneio ficará entre os dois, como acontece desde 2005 com duas exceções. Se Djoko leva 29-27 de vantagem no geral, 16-12 em Masters, 15-12 em finais e 7-6 em finais de Masters, Nadal lidera por 18-7 no saibro, 8-4 em finais no saibro, 5-3 em Roma e 3-2 em finais em Roma. Aliás, não perdeu para o sérvio nos últimos quatro jogos sobre o saibro. A última foi justamente em Roma, há cinco anos.

No feminino, uma luta pelo título também muito interessante. A polonesa Iga Swiatek faz sua maior final desde o surpreendente troféu do ano passado e também ganhou duas vezes no sábado, primeiro uma vitória categórica sobre a bicampeã Elina Svitolina e depois o duelo de jovens contra Coco Gauff. O título no domingo valerá também a chegada ao top 10.

Mas ela terá pela frente alguém que conhece os atalhos do Foro Itálico. Karolina Pliskova  faz a terceira final seguida, tendo vencido em 2019. A tcheca se sente muito à vontade, desde o saque até investidas à rede e foi assim que tirou com justiça Petra Martic. Para melhorar a imprevisibilidade, as duas nunca se cruzaram.

Duríssimo de matar
Por José Nilton Dalcim
13 de maio de 2021 às 18:49

Favoritismo é algo só para a teoria mesmo. Quem imaginaria que Denis Shapovalov fosse capaz de dominar Rafael Nadal em pleno saibro de Roma? E, talvez o mais incrível de tudo, com paciência na construção de jogadas, aplicação tática e cabeça no lugar?

Foi um jogo de surpresas do começo ao fim. Shapovalov estudou direitinho o roteiro e soube tirar proveito do saque pouco contundente do espanhol. Agressivo na medida certa, o que é pouco usual, não deixou Nadal em paz nos games de serviço e isso explica as impensáveis vantagens que teve para vencer o jogo: 4/0 no primeiro set, depois 6/3 e 3/0 com break-point ou ainda 6/3, 3/1 e 40-0. E no terceiro set, mais 3/1 e dois match-points no 6/5.

Se por um lado Shapovalov pode ser acusado de não aproveitar tantas oportunidades, de outro foi admirável a forma com que segurou o mental e nunca deixou Nadal arrancar nas reações. Isso por fim só aconteceu no tiebreak que decidiu tudo, quando voltou a ser quem conhecemos: precipitado e indeciso.

Nadal viveu intensos altos e baixos e certamente sabe que o quão perto esteve da derrota e até de um placar vexatório para seu currículo no saibro. Porém, é preciso novamente se render a sua resiliência. Pressionado o tempo todo, quase sem tempo para respirar, arrumou de novo um jeito de superar deficiências e achar antídotos. Estavam lá o backhand na paralela, a curtinha, o avanço à rede, as passadas nunca repetidas.

Poucas vezes se viu no tênis alguém tão competitivo. Se é fato que estamos diante do Nadal mais vulnerável sobre o saibro, de outro esse espanhol mais fragilizado dá sucessivas aulas de como ganhar sem jogar o seu melhor. E isso, convenhamos, também é uma arte.

Desafios para os cabeças 1 e 2
Com muita razão, Nadal reclamou de ter jogado tão cedo nesta quinta-feira e agora, depois de 3h20 de enorme esforço, terá de voltar à quadra para rever Alexander Zverev. O alemão não foi tudo aquilo contra Kei Nishikori, dando ares de esgotamento até a metade do segundo set, mas também se superou e arrumou motivação para a virada. Vale lembrar que Novak Djokovic foi o único até hoje a ganhar de Nadal duas semanas seguidas no saibro, nas finais de Madri e Roma de 2011.

Por falar em Djokovic, vitória muito tranquila e sem qualquer susto diante de Alejandro Davidovich e duelo marcado contra Stefanos Tsitsipas, o que gera expectativa de outro jogaço no Foro Itálico. O grego anda tão confiante que venceu seis pontos seguidos no tiebreak que fez diante de Matteo Berrettini. O número 1 tem favoritismo pelo histórico de 4 a 2 no geral e 2 a 0 no saibro, mas vocês se lembram que o Stef  já levou Nole a cinco sets em Roland Garros de 2020.

Já na madrugada e sem público no set final, Lorenzo Sonego foi um gerreiro na vitória de 3h24 sobre Dominic Thiem, em que nada menos 50 de seus 129 pontos na partida foram winners. O italiano impôs agressividade, mas também toques sutis e está cada vez mais firme na rede. Poderia ter vencido ainda no segundo set, mas depois viu Thiem sacar para a vitória e falhar. Sonego Irá carregar a pequena torcida diante de Andrey Rublev para tentar vingar a derrota sofrida na final de Viena do ano passado. Rublev foi superior outra vez a Roberto Bautista no saibro, como aconteceu em Monte Carlo.

Lá no começo do dia, Reilly Opelka e Federico Delbonis ganharam o direito de ser a ‘zebra’ da semifinal – jamais foram tão longe em nível Masters – e mostram que um saque potente pode ajudar muito na terra romana. Opelka superou Aslan Karatsev e o canhoto argentino superou Felix Aliassiime em roteiros muito parecidos, já que o russo sacou para ganhar o tiebreak do primeiro set e o canadense teve set-point na série inicial, fatores que poderiam ter mudado a história dos jogos.

Gauff brilha em Roma
A chave feminina viu a queda de Aryna Sabalenka para a juventude de Coco Gauff, que continua a mostrar evolução sobre a terra, tendo já batido Maria Sakkari. Agora, o desafio é ainda maior: Ashleigh Barty, em confronto inédito. Quem vencer irá cruzar com Elina Svitolina ou Iga Swiatek. A ucraniana exibiu o saque frágil de sempre, mas foi bem mais consistente do que Garbiñe Muguruza em seu retorno depois de lesão na perna. Já a atual campeã de Roland Garros precisou salvar dois match-points diante da surpreendente Barbora Krejcikova, que já havia atropelado Sofia Kenin.

O outro lado verá quartas de duas jogadoras que pegam pesado: Karolina Pliskova e Jelena Ostapenko, duas tenistas com histórico de sucesso no saibro europeu. Petra Martic acabou com a festa de Nadia Podoroska e terá pela frente as bolas retas de Jessica Pegula.

Roma poderá dar boa mexida no ranking das meninas. Svitolina precisa de mais duas vitórias para recuperar o quarto posto perdido para Sabalenka e Swiatek pode enfim chegar ao top 10 em caso de título. Gauff avança para o 32º posto e isso pode lhe dar cabeça de chave em Paris.