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Leylah e sua incrível história de sucesso
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2021 às 23:49

Com cinco vitórias de qualidade, entre elas duas sobre campeãs de Grand Slam e outra sobre uma top 5, Leylah Fernandez roubou todas as cenas do US Open nesta terça-feira, ao se tornar a mais jovem semifinalista do torneio desde Maria Sharapova, em 2005, justamente um dia depois de completar 19 anos. Curiosamente, sua marca pode cair menos de 24 horas depois, caso a britânica Emma Raducanu, de 18 anos e 10 meses, elimine nesta quarta-feira a campeã olímpica Belinda Bencic.

A campanha de Fernandez, uma canhota franzina de 1,68m, é assombrosa. Tirou na estreia Ana Konjuh, ex-top 20; superou Kaia Kanepi, que já chegou seis vezes nas quartas de um Slam; eliminou a bicampeã Naomi Osaka e em seguida superou Angelique Kerber, outra vencedora do torneio e que vinha de 17 vitórias em 19 jogos. Por fim, encarou grande batalha e levou o tiebreak do terceiro set em cima de Elina Svitolina, a quinta do ranking. Todos seus jogos foram marcados pelo estilo agressivo, forehand preciso, ótima movimentação e enorme frieza.

Essa competência toda se mostra ainda mais assustadora quando vemos a história de Leylah, filha da filipina-canadense Irene e do equatoriano Jorge. A menina se empolgou com o tênis aos 5 anos, rebatendo contra a parede, até passar a treinar aos 7. Mas não conseguiu entrar num programa de treinamento, só aceitava ser orientada pelo pai e coube a ele a dura tarefa de aprender tudo sobre tênis para tentar atender ao sonho da filha, que assistia Justine Henin no YouTube e se inspirava na belga.

Jorge conta que sua primeira preocupação foi com a parte mental e estudou a história de pais que treinaram filhas, espelhando-se em Richard Williams. Adotou um critério penoso de ‘recompensa e castigo’, e deu certo. Aos 12 anos, Leylah ganhou o nacional de 16, recebeu apoio oficial da federação e a família se mudou para a Flórida, onde moram até hoje. Jorge então contratou o mesmo rebatedor que trabalhou com Henin e Kim Clijsters, um técnico para viajar e um preparador físico. Leylah, que esteve em Porto Alegre e ganhou a então Gerdau, foi campeã juvenil de Roland Garros aos 16 anos. O pai continua a ser o mentor e traça os planos táticos de cada partida.

Fernandez é agora a 18ª mais jovem semifinalista do US Open, mas está longe de ameaçar as recordistas: Andrea Jaeger foi semi aos 15, Pam Shriver chegou à final com 16 e 2 meses e Tracy Austin ganhou aos 16 anos e 8 meses. Se Raducanu também vencer, será a repetição de 1991, quando Jennifer Capriati, de 15, e Monica Seles, de 17, estiveram na penúltima rodada. De qualquer forma, este é o 13º Slam consecutivo que a chave feminina tem uma semifinalista inédita.

Já com o 36º posto do ranking garantido, num salto de 37, seu próximo desafio será a vice-líder Aryna Sabelenka, que na rodada noturna atropelou a tcheca Barbora Krejcikova numa partida um tanto estranha. A bielorrussa repete assim a campanha de Wimbledon e tenta enfim decidir um Slam em sua 16ª tentativa. Seus dois troféus desse quilate vieram em duplas, um deles no US Open de 2019.

E a festa canadense cresce
Só houve um set e meio do aguardado duelo da novíssima geração entre Felix Aliassime e Carlos Alcaraz e, como eu suspeitava, o espanhol estava mesmo no limite físico de seu monumental esforço nesta excelente e inesperada campanha nas quadras duras. Então cabe ao tênis canadense comemorar, com justiça, mais um semifinalista no US Open. E não vamos esquecer que Gabriela Dabrowski disputa as quartas de duplas nesta quarta-feira ao lado de Luísa Stefani.

Embora o jogo não tenha sido o que se esperava, ver Aliassime em seu primeiro grande momento num Slam tão importante é excelente. Em que pese suas falhas emocionais em tantos vices acumulados em nível ATP, ninguém nunca duvidou de seu potencial. A entrada de Toni Nadal no time parece ter lhe dado a estabilidade necessária e isso gerou fluidez maior no seu tênis, centrado em grandes golpes da base. Agora, vemos um Felix com saque bem mais eficiente e um jogo de rede vistoso.

Assim como Fernandez, a tarefa agora é muito dura: encarar o número 2 do mundo, Daniil Medvedev, um jogador já com considerável experiência em Grand Slam com dois vice-campeonatos. O russo perdeu seu primeiro set nesta edição do US Open para o quali holandês Botic van de Zandschulp, que pareceu um tanto perdido nos dois primeiros sets mas depois elevou o nível, passou a sacar melhor e ficou bem sólido na base, exigindo toda a atenção do adversário num quarto set disputado palmo a palmo.

É favorito absoluto contra Aliassime, mas tomara que o canadense veja isso como um ponto positivo.

Soares, a dois jogos do tri
Depois do susto da apendicite, Bruno Soares recuperou a melhor forma, cresceu jogo a jogo neste US Open e está agora nas semifinais, ou seja, a duas vitórias de conquistar um espetacular tricampeonato em Flushing Meadows, que seria também o segundo ao lado do escocês Jamie Murray, cinco anos depois da primeira conquista.

Atual campeão, quando jogava com Mate Pavic, o mineiro de 39 anos fez uma exibição sólida nesta noite contra Marcel Granollers e Horacio Zeballos, com o único senão de cometer dupla falta no set-point que definiu o tiebreak do primeiro set. Isso no entanto acabou se transformando num elogio, porque Bruno não se abateu e sua parceria não perdeu qualquer outro serviço nos sets seguintes.

Os adversários de quinta-feira serão os experientes John Peers e Filip Polasek, que tiraram Pierre Herbert/Nicolas Mahut. A outra vaga na final será entre Rajeev Ram/Joe Salisbury e Steve Johnson/Sam Querrey. De todos, Polasek é o único que pode repetir um Slam na temporada, já que ganhou na Austrália ao lado de Ivan Dodig.

Garoto Djokovic
Por José Nilton Dalcim
7 de setembro de 2021 às 01:44

Duelo apertado, grandes trocas de bola, games demoradíssimos, correria para todos os lados, empenho máximo. E quem vai cansar primeiro? O mais veterano, é claro. Seria a lógica, caso esse velhinho não se chamasse Novak Djokovic. O garoto sérvio de 34 anos minou as energias do valente Jenson Brooksby, de 20, e marcou uma bela virada para ficar a apenas três vitórias do maior feito da história do tênis profissional.

Brooksby já havia mostrado toda sua qualidade técnica nos recentes torneios que disputou desde julho, mas o fato é que ele foi além do eu esperava por um set e meio. Encarou o número 1 do mundo com disposição leonina, concentrado para não cometer erros, nem ceder espaço. Mostrou inúmeras armas, cometeu um único erro não forçado e aplicou um raro 6/1 sobre Djokovic.

O desempenho se manteve muito alto no começo do segundo set, quando ele chegou a recuperar uma quebra importante após lances espetaculares e trocas sufocantes entre os dois. Cirúrgico, Djokovic prosseguiu sólido, obrigando o adversário a rebater sempre mais uma bola difícil e aí acabou o gás de Brooksby. Ficou cada vez mais à mercê do sérvio, que nessa altura já combinava saques poderosos, paralelas agudas, transições à rede. Ficou evidente que o volume de jogo era proporcional à diferença de idade. Fato curioso, Djokovic nunca perdeu para um norte-americano em 11 jogos no US Open.

O aguardado reencontro com Matteo Berrettini se confirma depois que o italiano suou para equilibrar a disputa contra o quali alemão Oscar Otte, até que o adversário sentiu o punho e não jogou mais nada no quarto set. Berrettini garante ascensão ao 7º lugar do ranking e faz quartas de Slam pela terceira vez seguida, ou seja, em três pisos distintos. Mas não parece confiante como se viu na campanha de Wimbledon, talvez por ainda não estar fisicamente inteiro. Contra a precisão da avassaladora máquina sérvia, considero muito pequena sua chance na quarta-feira.

Alexander Zverev por sua vez fez dois sets e meio impecáveis diante de Jannik Sinner, mas vacilou no finzinho e faltou pouco para o italiano esticar a partida. O piso mais veloz parece bem encaixado no estilo do alemão, a ponto de não perder sobre a superfície há 15 jogos. Esta será sua sétima presença nas quartas de um Slam e a terceira do ano.

Reencontrará a surpresa Lloyd Harris, 46º do ranking, a quem venceu duas vezes na quadra dura, incluindo a recente segunda rodada de Cincinnati. Com os mesmos 24 anos, o sul-africano já venceu três top 10 neste ano, tem agora 11-11 em partidas de Slam e merece elogios pela grande virada que conseguiu em cima de Reilly Opelka. Teve aliás o primeiro set nas mãos, porém sustentou a cabeça fria e aproveitou a perda de intensidade do grandalhão.

Mais uma ‘teen’ nas quartas
Emma Raducanu é a terceira adolescente nas quartas deste US Open, seguindo os passos de Leylah Fernandez e Carlos Alcaraz. Ela veio do quali e portanto já fez sete partidas, e sequer perdeu sets. É bem verdade que ainda não cruzou com uma cabeça de chave, mas destruiu nesta segunda-feira Shelby Rogers, que vinha da vitória heroica em cima de Ashleigh Barty.

Com apenas 15 games perdidos na chave principal, a canadense de nascimento não possui um saque excepcional, mas tenta sempre dominar rapidamente os pontos. E ainda assim consegue ser econômica nos erros.

Agora, vai enfrentar a campeã olímpica Belinda Bencic, que venceu uma partida difícil contra Iga Swiatek. em que precisou salvar quatro set-points na série inicial que fizeram enorme diferença. Apesar da vitória em dois sets, os números estatísticos foram muito semelhantes. Bencic fez semi no US Open de 2019, o que continua seu melhor resultado num Slam.

A outra vaga na semi ficará entre Karolina Pliskova e Maria Sakkari, que se encontraram duas vezes no saibro de Roma e estão empatadas. Depois de cravar 24 aces na segunda rodada e 20 na última, a vice de 2016 acertou apenas 6 contra Anastasia Pavlyuchenkova, mas foi muito bem na devolução, com 35% dos pontos. Sakkari virou contra Andreescu num jogo intenso de 3h30 em de novo a campeã de 2019 sentiui a parte física.

Stefani, Soares e Demoliner na briga
E o tênis brasileiro continua firme na luta pelos títulos de duplas do US Open. Luísa Stefani e Bruno Soares se juntaram a Marcelo Demoliner e assim temos um representante nas quartas de final em cada modalidade.

Stefani e a canadense Gabriela Dabrowski estiveram um set e uma quebra atrás, mas conseguiram grande reação em cima das ucranianas Marta Kostyuk e Dayana Yastremska. Foram especialmente sólidas nas devoluções no terceiro set. Descansam nesta terça antes de encarar as tchecas Marie Bouzkova e Lucie Hradecka.

Bruno e Jamie Murray encontraram inesperada resistência de Daniel Koepfer e Emil Ruusuvuori, com tiebreaks tensos nos dois primeiros sets, e só então foram dominantes. Jogam nesta terça contra os especialistas Marcel Granollers e Horacio Zeballos, os cabeças 2.

Demoliner e Ellen Perez também jogam nesta terça contra Giuliana Olmos e Marcelo Arevalo. Se vencerem, a semi será contra Yastremska e Max Purcell.

Sangue novo nas quartas
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2021 às 02:14

Dois cabeças de chave, um deles top 5, e duas grandes novidades marcam as quartas de final da parte inferior da chave masculina do US Open, com uma interessante realidade: a média de idade entre estes postulantes à decisão é de apenas 22,2 anos. O feminino não fica muito atrás, 23 de média, sendo 26 a maior e 18 a menor.

O grande favorito deste grupo masculino é obviamente Daniil Medvedev, que continua jogando um tênis de primeiríssima qualidade e mais uma vez economizou energia ao despachar o agressivo Daniel Evans em sets diretos e com autoridade absoluta. O britânico foi quem mais tirou games do cabeça 2 neste US Open: apenas 10.

Seu adversário será o quali holandês Botic van de Zandschulp, que tem os mesmos 25 anos porém nunca figurou sequer no top 100, tendo agora 6 vitórias em 9 jogos de Slam, curiosamente 2 delas de virada após perder os dois primeiros sets. Fez um longo e entediante duelo contra Diego Schwartzman, recheado de trocas e de erros. Deveria ter vencido em sets diretos, mas a garra do argentino conseguiu esticar a batalha antes de ser totalmente dominado no quinto set.

A outra vaga para a semi estará entre dois dignos representantes da nova geração e do tênis moderno: Felix Aliassime e Carlos Alcaraz. O canadense é muito mais rodado, faz quartas pelo segundo Slam seguido e tem o diferencial importante de sacar com maior qualidade. O espanhol no entanto mostra personalidade de campeão, com aquele espírito de jamais se entregar e, mais valioso ainda, buscar diferentes soluções.

Aliassime fez uma belíssima exibição diante de Frances Tiafoe e da torcida. Perdeu o set inicial, mas manteve um padrão agressivo, com excelente produtividade no saque (24 aces), ótimas transições à rede e nenhum desespero para finalizar os pontos. Alcaraz jogou bem menos do que fez contra Stefanos Tsitsipas e sofreu complicada instabilidade com o serviço (11 quebras em 18 break-points). Pareceu bem exausto. A sorte é que o quali alemão Peter Gojowczyk sentiu demais a longa jornada e mal andou no quinto set, totalizando incríveis 84 erros não-forçados.

Aos 18 anos recém completados, Alcaraz é agora o mais jovem profissional nas quartas do US Open e o de menor idade desde o gaúcho Thomaz Koch, sensação do torneio em 1963, ainda sobre a grama. O duelo contra Aliassime serão as quartas mais jovens de um Slam desde Nadal-Djokovic de 2006 e do US Open desde Cash-Wilander de 1984.

Leylah se mete entre as grandes
A adolescente Leylah Fernandez aprontou mais uma, derrubou a campeã e ex-número 1 Angelique Kerber de virada e é a única não cabeça entre as quadrifinalistas na parte inferior da chave feminina. Outra vez, a canadense mostrou incrível cabeça, tanto na aplicação tática como na frieza para jogar pontos muito delicados. Enfrentar o poder defensivo e de contragolpe de Kerber não é tarefa fácil, daí o valor dobrado da nova façanha.

Sua adversária não será menos complicada: Elina Svitolina, que sabe alternar o ritmo da partida com maestria e está com tanta confiança que passou sem sustos por Simona Halep. A ucraniana fez semi na última ida a Flushing Meadows, em 2019.

Aryna Sabalenka segue no seu sonho de enfim decidir um Slam. Chegou perto em Wimbledon. Neste domingo, passou por Elise Mertens sem grande esforço e sem sacar tão bem, porém mostrou-se outra vez mais comedida e conseguiu equilibrar winners e erros (22 a 21), algo que será importante diante de Barbora Krejcikova.

A tcheca, campeã de Roland Garros meses atrás, curiosamente joga a chave de simples do US Open pela primeira vez. Venceu um jogo um tanto maluco contra Garbiñe Muguruza, em que chegou a ter 6/3 e 4/0, sendo obrigada depois a salvar set-point. Sentiu então algum incômodo que a levou ao atendimento no vestiário e então dominou o tiebreak. A espanhola, em dia muito diferente daquele que passou por Victoria Azarenka, não gostou nada da parada. De qualquer forma, o US Open segue o único dos Slam em que Muguruza não fez quartas até hoje..

O show de Luísa
A apertadíssima vitória nas oitavas de final comprovou que Luísa Stefani é hoje uma das jogadoras mais eficientes junto à rede do circuito feminino. A paulistana deu um show de voleios, com ótima movimentação, reflexos e improvisos, que foram muito importantes diante de adversárias que pegaram bem pesado na bola: Petra Martic e Shelby Rogers.

Nem de longe se pode esquecer que a canadense Gabriela Dabrowski também foi muito bem, com passagens importantes pelo serviço e segurando firme as trocas de bola. Também é uma voleadora esperta. As duas não vão ter muito tempo para comemorar e já voltam à quadra às 14h desta segunda-feira para encarar as ucranianas Marta Kostyuk e Dayana Yastremska, que também se focam muito mais em simples do que em duplas no circuito.

Outro importante resultado para o tênis brasileiro veio com Marcelo Demoliner. O gaúcho se juntou à australiana Ellen Perez e está nas quartas de duplas mistas. Com chances.

US Open muito especial
– Este foi o segundo US Open consecutivo em que houve quatro representantes da nova geração nas oitavas masculinas (Alcaraz, Sinner, Aliassime e Brooksby).
– Houve três adolescentes nas oitavas (Alcaraz, Fernandez e Raducanu), algo que não acontecia no torneio desde 1998 (Safin, Venus, Hingis e Kournikova)
– 33 jogos já foram ao quinto set, marca superada apenas pelos 35 em 1983 e os 34 em 2004.
– Já aconteceram 10 viradas de 0-2, igualando os recordes de 1974 e 2012.
– 7 jogos foram ao tiebreak de quinto set, recorde dividido com 1980 e 1983.
– Nove cabeças chegaram às oitavas, menor número num Slam desde os nove em Wimbledon-2013 e no US Open desde os oito de 2005.
– Onze homens têm no máximo 25 anos entre os classificados para as oitavas, maior número desde os 11 de Roland Garros-2010 e os 11 do US Open-2006.