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Mágico Fognini
Por José Nilton Dalcim
20 de abril de 2019 às 16:06

Fabio Fognini chegou a Monte Carlo com um de seus piores inícios de temporada. Apenas quatro vitórias em 12 jogos, cinco derrotas em primeira rodada nos seis últimos torneios e, pior ainda, sem um único triunfo sobre o saibro em quatro tentativas em 2019.

Faltou muito pouco para outra despedida precoce, quando viu Andrey Rublev abrir 6/4 e 4/1, com break-point. Salvou-se com um ace e começou suas conhecidas reações. Passou sufoco ainda maior nas quartas: Borna Coric teve 6/1 e 2/0, e novamente o italiano fez mágica.

Dono de um talento raro no tênis, Fognini sabia que não era possível jogar de forma passiva contra o ‘rei do saibro’ em um de seus palcos prediletos. Entrou intenso, decidido a bater na bola. Tirou logo o primeiro saque, mas não sustentou a postura tática e de repente Nadal já tinha 3/1.

O italiano segurou a cabeça, e quando isso acontece ele fica extremamente perigoso. Arrancou incríveis paralelas dos dois lados, fez curtas magníficas e voleios competentes. Venceu 11 dos 14 games seguintes e faltou um único ponto para aplicar um incrível ‘pneu’ no segundo set. Encurralou Nadal numa de suas melhores atuações de toda a carreira.

Números explicam bem o tamanho da façanha de Fognini. Esta foi apenas a quinta derrota de Nadal em suas 16 participações em Monte Carlo (duas para Djokovic e outras para Ferrer e Coria) e a 37ª em 455 partidas sobre o saibro, lista que tem apenas sete diferentes adversários. Um deles é exatamente Fognini, que se junta a Djokovic, Thiem e Gaudio como únicos a vencer o espanhol ao menos três vezes na terra.

Nadal diria pouco depois que “foi um dos meus piores jogos no saibro em 14 anos”, mas talvez fosse justo reconhecer que atuou de maneira burocrática, quase medrosa, muito parecida aliás ao primeiro set da véspera contra Guido Pella, em que sua única postura tática se limitou a colocar spin, trocar bolas e esperar erros. Só foi bater com determinação e arrojo quando estava a um passo da derrota. Desta vez, tarde mais.

Não apenas por esta vitória de gala, mais pelo conjunto da obra, Fognini, aos 31 anos, merece ganhar seu primeiro Masters. No entanto, ainda existe mais um obstáculo: o animado Dusan Lajovic, que vive uma semana ainda mais irrepreensível: não perdeu set mesmo diante de David Goffin, Dominic Thiem e Daniil Medvedev.

Arrancou um feito e tanto neste sábado. Perdendo de 1/5, com saque do adversário, incomodado com o vento e seus erros, reagiu. Foram 10 games seguidos diante de um atônito Medvedev, que 24 horas antes havia sido mais sólido do que o número 1 do mundo.

Lajovic nunca havia ganhado quatro jogos seguidos num mesmo torneio e fará a primeira final de toda a carreira. Aos 28 anos, é o tenista de mais baixo ranking (48º) a atingir a final de Monte Carlo desde que Hicham Arazi (53º) perdeu para Guga Kuerten em 2001. Nunca enfrentou Fognini, o que deixa a disputa ainda mais aberta.

E mais
– Esta é a primeira vez, desde 1990, que Monte Carlo tem dois finalistas inéditos.
– Esta foi apenas a segunda vitória de Fognini sobre um top 2 do ranking em 16 tentativas. A anterior veio sobre Murray, em Roma-2017
– Nadal perdeu sequência de 18 jogos e de 25 sets vencidos, mas seu recorde no Principado é de 46 vitórias e 31 sets.
– Medvedev permanece como o tenista que mais venceu na temporada, com 21.
– Lajovic é segundo sérvio, fora Djokokvic, a ir a uma final de Masters, repetindo Filip Krajinovic, vice em Paris-2017. Já garantiu o 24º posto do ranking e será 19º com eventual título.
– Federer continua como o tenista com mais finais de Masters (50). Nadal vem logo atrás (49). Djokovic tem 47.
– Não foi nesta semana que Nadal se tornou o primeiro e único homem com 12 títulos no mesmo torneio. Mas ele terá nova chance a partir de segunda-feira, em Barcelona. Ele ficou do lado de Dominic Thiem e vê Fognini e Alexander Zverev na parte inferior da chave.
– O sábado foi triste para o tênis brasileiro: as meninas perderam os dois primeiros jogos na Eslováquia, Bruno Soares ficou de fora da final em Monte Carlo, Bellucci não jogou nada em Túnis e Monteiro caiu logo na estreia do quali de Barcelona. A esperança é Sakamoto, com boa campanha e semi noturna no challenger de San Luis Potosi.

Número 1 continua sem brilho
Por José Nilton Dalcim
19 de abril de 2019 às 18:38

Perder faz parte do tênis e todo mundo sabe que há dias em que as coisas simplesmente não funcionam. Mas os frequentes tropeços do número 1 Novak Djokovic vão além do infortúnio. Falta mesmo qualidade.

Com exceção a alguns grandes momentos aqui ou ali, o fato é que Djokovic não jogou um tênis de seu excepcional nível nos três Masters que disputou desde a conquista do Australian Open. Sofreu contra Bjorn Fratangelo antes de ser dominado por Philipp Kohlschreiber em Indian Wells; perdeu set de Federico Delbonis e caiu depois para Roberto Bautista. E no reencontro com o alemão em Monte Carlo, passou apuros.

Coincidência ou não, na semana anterior à volta ao saibro europeu, ele descansava na República Dominicana, onde treinou sua adaptação ao lentíssimo piso de Mônaco sobre uma quadra de har-tru. Publicou até um vídeo onde brincava de jogar na chuva. Ao que parece sua preparação foi, digamos, descontraída.

Na entrevista oficial, considerou a derrota para Daniil Medvedev normal, admitiu desconforto com o vento e com as bolas baixas do russo. Acha que tem muito tempo ainda para chegar bem a Roland Garros, seu objetivo principal. Lembremos que Madri serve de pouquíssimo parâmetro devido à altitude e eventual teto coberto – o sucesso ajudaria mais na confiança – e a adaptação final tem de acontecer em Roma, aí sim um saibro mais próximo a Paris, porém onde se treina pouco porque se joga todo dia.

Rafa Nadal, por questões óbvias, levou muito mais a sério sua preparação para a fase de saibro, o grande ganha-pão de sua temporada. E isso se reflete claramente na quadra. É bem verdade que o saque ainda não engrenou, o que explica a brecha que abriu para o valente Guido Pella dar aquele susto todo do primeiro set. Porém, a atitude, o empenho, a busca por soluções, o preparo físico estão tão afiados que Roland Garros poderia começar amanhã para o espanhol.

Rafa é experiente e inteligente o bastante para não menosprezar Fabio Fognini. Suas três derrotas diante do habilidosíssimo italiano foram em 2015, duas sobre o saibro e a terceira naquela virada histórica do US Open. Depois disso, mesmo o espanhol tendo sofrido altos e baixos físicos e emocionais, ganhou todos os seis duelos. Em Roma do ano passado, perdeu o primeiro set e depois atropelou Fognini.

A virada sobre Borna Coric deste sábado repetiu o script que estamos tanto acostumados. Frio e desinteressado, ele demora para engatar. E se o adversário afrouxa, seu tênis tão rico de repente faz diferença. O garoto croata teve 6/1 e 2/0, e deixou o leão acordar. Mesmo com o braço direito enfaixado – uma real preocupação para a semi deste sábado -, Fognini ganhou 12 dos 15 games seguintes, escapando de quatro break-points com coragem e apoio do público.

Medvedev não é um saibrista e reconhece sua própria surpresa com a ótima campanha na lentidão de Monte Carlo. Na véspera já havia feito uma partida complicada diante de Stefanos Tsitsipas. A ventania do sábado era um prenúncio de horas difíceis para Djokovic, que fez um primeiro set pavoroso, com 21 erros não forçados. Achou finalmente um caminho com as curtinhas que o russo detesta, porém Medvedev se mostrou notavelmente sólido no terceiro set, aguentando trocas com movimentação perfeita.

Tal qual Fognini, os recorrentes pedidos de atendimento para aliviar dores nas duas coxas ao longo de todo o terceiro set deixam dúvida sobre o estado físico do russo para reencontrar Dusan Lajovic. Como se esperava, o sérvio de 28 anos fez valer a experiência em cima do bom Lorenzo Sonego e continua mesclando muito bem o jogo, ataque e defesa, força e jeito. Quem diria, o backhand de uma mão sobrevive em Monte Carlo.

E mais
– Outra vez Nadal errou mais do que o adversário no saibro: 31 a 28. O primeiro saque evoluiu em relação aos outros jogos (66%), mas o índice de pontos vencidos com ele foi baixo: 58%.
– Coric cometeu um único erro não forçado no set inicial contra Fognini. Mas depois se perdeu e terminou com 28.
– Medvedev não foi para a quadra e assim Marcelo Demoliner parou nas quartas de duplas. O gaúcho anda mesmo sem sorte. Bruno Soares avançou ao lado de Jamie Murray e os dois são favoritos para o título. Até houve, nenhum duplista brasileiro foi campeão no torneio. Soares chegou a duas finais e Melo, a uma.
– Lajovic já garantiu o melhor ranking da carreira, ao subir 16 postos e ir ao 32º. Chegará ao 24º se atingir a final. Pella será um inédito top 30, já que avança provisoriamente ao 27º.
– Enfim, um jogo fácil para Thomaz Bellucci. Com a semi em Túnis, terá seu melhor ranking em 12 meses, com o 212º posto. Se ganhar do português João Domingues, irá a 201. Sua última final aconteceu no ATP 250 de Houston, em abril de 2017.

A lista cresce
Por José Nilton Dalcim
10 de maio de 2018 às 19:40

Rafael Nadal continua a reescrever a história do tênis a cada semana que passa sobre o saibro europeu. Diego Schwartzman foi o bom adversário que se esperava e fez o que deu. Tentou bater mais na bola, correu muito para cobrir ângulos, inventou jogadas. Foi premiado por uma quebra de serviço improvável quando o espanhol já dominava totalmente a situação e aí fez bobagens quando encarou a chance de liderar o segundo set.

Mas a diferença de força, movimentação e qualidade técnica eram grandes demais para o pequeno e valente argentino. Como incomodar Nadal com segundo saque a 130 km/h? O espanhol fez talvez seu jogo mais irregular desde que pisou no saibro, lá na Copa Davis, e ainda assim nada de ser ameaçado sequer de perder set.

Nesta sexta-feira, reencontrará Dominic Thiem, curiosamente o último homem a vencê-lo na terra há praticamente um ano, mas que levou uma surra humilhante dias atrás em Monte Carlo. Se a maior velocidade de Madri pode ajudar o pesado primeiro saque de Thiem, ao mesmo tempo lhe dará menor tempo de preparar o backhand, seu calcanhar de Aquiles. Rafa sabe exatamente o que fazer.

Nadal e os recordes no saibro
– 10 títulos em Roland Garros
– 5 títulos seguidos em Roland Garros
– 11 títulos em Monte Carlo
– 11 títulos em Barcelona
–  7 títulos em Roma
–  4 títulos em Madri
– 403 vitórias
– 55 títulos
– 23 títulos de Masters
– 81 vitórias seguidas
– 50 sets consecutivos
– 46 vitórias seguidas em Monte Carlo

As quartas
Kyle Edmund e Dusan Lajovic certamente são as grandes surpresas nas quartas de final de Madri. O britânico, depois de superar Djokovic, mostrou muita confiança em cima de um instável David Goffin. Garantido no top 20, fará duelo da nova geração contra o canhoto Denis Shapovalov, que dominou Milos Raonic. Jogaço à vista entre dois tenistas que batem sem dó.

Lajovic, tal qual Shapovalov, usa backhand simples e mostrou versatilidade na vitória inesperada em cima de Juan Martin del Potro. É bem verdade que o argentino vacilou feio e deixou escapar 4-0 no tiebreak decisivo. O sérvio tem outro gigante pela frente, Kevin Anderson. O sul-africano chega às quartas de um Masters pela 11ª vez, a primeira no saibro, e nunca fez sequer uma semi.

Alexander Zverev se mostra bem mais à vontade num saibro veloz e fez dois bons jogos em Madri. Revive a decisão de Miami de poucas semanas atrás contra John Isner. Seria interessante se Zverev fizesse semi contra Edmund ou Shapovalov, garantindo juventude na decisão de domingo. Mas Isner não pode ser desprezado.

As semis
Também existe novidade, e das boas, nas semifinais do Premiére. Caroline Garcia enfrentará Kiki Bertens, que é de longe a grande sensação da semana, já que tirou sucessivamente Anastasija Sevastova, Carol Wozniacki e Maria Sharapova. A holandesa de 1,82m e 26 anos têm se mantido na faixa das top 20 há 12 meses e foi semi de Roland Garros em 2016. Neste ano, já ganhou Charleston.

A outra vaga na final é um duelo de força entre as tchecas Karolina Pliskova e Petra Kvitova, A canhota ganhou Madri em 2015 e faz sua melhor sequência sobre o saibro em anos. É mais tenista do que Pliskova, ao menos no papel.