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Chocante e indiscutível
Por José Nilton Dalcim
6 de setembro de 2020 às 18:18

Atualizado com a rodada às 01h23

Um dia, iria acontecer. Quem acompanha a longa carreira de Novak Djokovic já cansou de ver seus destemperos, muitas vezes injustificados, descontando raiva na bola e na raquete. Passou bem perto de ser desclassificado em plena final de um Grand Slam, mas deu sorte porque a raquete passou por centímetros.

Neste domingo, no entanto, os centímetros não estiveram a seu favor. Após perder o terceiro set-point com uma deixadinha ousada do adversário, a frustração o levou a dar uma bolada violenta na placa de publicidade. Desconcentrado, permitiu minutos depois 0-30 e aí tropeçou e caiu sobre o ombro. Medicado, voltou e perdeu o saque. Levou a virada para 6/5 e então jogou a bola para trás, atingindo direto o pescoço de uma juíza de linha.

A imagem não deixa mínima margem de dúvida. O árbitro geral até contemporizou demais antes de cumprir a regra e desclassificar o número 1 do mundo de um torneio em que ele estava jogando um tênis magnífico, era o favorito absoluto, a passos largos para o 18º troféu de Grand Slam.

Antes que alguém pergunte, frise-se: não importa a intenção do tenista – muito raramente ele vai tentar atingir alguém de propósito – e o regulamento é extremamente claro sobre isso. Se o jogador usar qualquer meio de extravasar emoções e através disso atingir qualquer pessoa, dentro ou fora da quadra, a punição é imediata. Há inúmeros casos de desclassificação não intencional. Fernando Meligeni e Teliana Pereira já viveram isso.

O que mais choca nesta situação tão inusitada e amarga é que Djokovic começou a perder o controle emocional no 5/5 do primeiro set. Cedo demais para um jogador tão competente como ele, com histórico espetacular de viradas e recuperações. E não foi a primeira deste US Open. Contra Kyle Edmund, já mostrava irritação exagerada para a ocasião, com urros e reclamações. Pagou um preço alto demais. De quebra, ficará sem pontos, sem o prêmio de US$ 250 mil e sem a invencibilidade, que para nos 26 jogos.

O sérvio não quis falar com a imprensa – o que pode aumentar sua multa -, foi visto no aeroporto já no fim da tarde e soltou um comunicado no Instagram em que reconheceu a falha, pediu desculpas a todos e garantiu que levará isso como lição para o restante da carreira e da vida. Tomara.

A consequência imediata é que veremos um novo campeão de Grand Slam daqui uma semana. No lado de cima de chave, os sobreviventes nunca sequer fizeram uma final. Do outro, Dominic Thiem e Daniil Medvedev já foram vices. É um US Open para ficar mesmo na história.

Como fica o masculino
– Este é o primeiro Slam desde Wimbledon-2003 em que as quartas não tem qualquer campeão de Slam. É também o primeiro sem um membro do Big 3 desde Roland Garros-2004. E o primeiro US Open sem um campeão anterior nas quartas desde 1997.
– Carreño, de 29 anos, é o único na parte de cima que já fez semi em Flushing Meadows, há três anos. Antes do incidente fatal com Djokovic, ele vinha fazendo uma bela partida, firme no saque e muito consistente no fundo. Havia evitado os quatro break-points que encarou, cometido apenas seis erros e estava com o saque a favor para fechar a série.
– Seu adversário será o canhoto Denis Shapovalov, 21 anos, em sua primeira quartas desse nível. Virou nesta noite contra David Goffin, um jogo em que o saque o salvou muitas vezes. Seu mérito foi ter batalhado com cabeça fria em dezenas de ralis importantes, além de 33 das 47 idas à rede. Denis aliás também está nas quartas de duplas, com Rohan Bopanna.
– Para Alexander Zverev, só boas notícias. Subiu mais um degrau no US Open e faz quartas pela primeira vez, economizando energia num jogo muito fácil sobre o espanhol Alejandro Fokina. Se for à semi, será a segunda seguida em Slam. O que sempre se esperou dele.
– Agora encara o jogo sólido de base de Borna Coric, que tem se aventurado com sucesso nos voleios. Os dois tem 23 anos. O croata, que vinha da maratona física e emocional da virada contra Stefanos Tsitsipas, passou fácil por Jordan Thompson e deve estar ‘zerado’.
– Carreño ganhou 3 de 4 duelos com Shapovalov, todos na dura e dois no ano passado. O canadense só ganhou no saibro. Coric ganhou apertado de Zverev no US Open de 2017 e tem mais duas vitórias em quatro duelos, incluindo Cincinnati e Halle do ano seguinte. O alemão só levou a melhor em Miami-2018.

Americanas tiram favoritas
– Para comprovar o bom momento neste reinício do circuito, Jennifer Brady e Shelby Rogers são as primeiras tenistas da casa nas quartas de final femininas.
– Campeã em Lexington, Brady se adaptou incrivelmente bem à canhota Angelique Kerber e cedeu apenas cinco games. Grande exibição. Enfrenta agora Yulia Putintseva, que foi mais determinada na reta final do jogo e tirou Petra Martic, a cabeça 8.
– Rogers, 93ª do ranking, nem figura entre as cabeças de chave e foi quem tirou Serena Williams de Lexington. Fez um jogo duríssimo contra Petra Kvitova, evitando quatro match-points, um deles no tiebreak e no saque da tcheca.
– O desafio agora é ainda maior: Naomi Osaka. A campeã de 2018 e ex-número 1 não precisou jogar o máximo para tirar Anett Kontaveit. Fez 21 winners mas também 18 erros. O ponto forte foi o saque, com 84% de pontos vencidos quando colocou o primeiro serviço.