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Federer cai feio e agora é Djoko contra sonhadores
Por José Nilton Dalcim
7 de julho de 2021 às 17:44

Horas depois de marcar virada notável sobre o número 2 do mundo, o polonês Hubert Hurkacz avisou: “não vou tremer diante de Roger (Federer)”. E cumpriu com máximo louvor. Jogou de forma sólida, aproveitou todas as chances de ser agressivo, foi preciso nos contragolpes e não se importou com o natural apoio da torcida ao multicampeão. Encerrou a atuação de gala com um histórico ‘pneu’ em cima daquele que o inspirou a jogar lá na infância. E diante da qualidade demonstrada, sua primeira semi de Grand Slam pode não ser ainda seu limite neste Wimbledon.

Hurkacz tem tido uma evolução constante, mas nem sempre tão vistosa. Ganhou seu primeiro ATP às vésperas do US Open de 2019, mas dois meses antes havia levado Novak Djokovic a um duro quarto set lá mesmo em Wimbledon, já mostrando qualidades sobre a grama. No final de 2020, juntou-se a Felix Aliassime para conquistarem o primeiro Masters 1000 da carreira e isso parece ter dado confiança ao polonês. Em março deste ano, faturou outro Masters, desta vez em simples, em cima de Stefanos Tsitsipas, Andrey Rublev e Jannik Sinner, pouco depois de ganhar Delray contra Sebastian Korda.

O polonês – que não tinha currículo expressivo nos Slam, com apenas seis vitórias em 18 jogos até este Wimbledon – chama a atenção pela mobilidade em quadra, mesmo com 1,96m. Além de um saque afiado, possui golpes firmes dos dois lados, devolve com categoria e sabe se virar muito bem junto à rede. Contra Federer, mostrou algumas vezes também habilidade, como um lob milimétrico ao buscar uma bola curta e baixa, além de disparar perfeitos drop-shots.

Cruzará na sexta-feira pela segunda vez com outra sensação deste Slam, o italiano Matteo Berrettini, que repete campanha do US Open do ano passado e obviamente sonha com sua primeira grande final. Os duelos anteriores foram na quadra dura, com vitória do italiano no quali do Australian Open-18 e vingança do polonês em Miami-19. Apesar de ter cedido um set ao amigo Felix Aliassime e passado alguns apertos com o ataque constante a seu backhand, Berrettini soube ter paciência para achar a hora certa de fulminar seu magnífico forehand sobre o jovem canadense. Mas os dois erraram muito:  45 a 41.

O futuro de Federer
E claro fica a pergunta: o que será de Federer após sua pior derrota em Wimbledon e o quinto 6/0 sofrido em toda a carreira? Imagino que sua equipe terá a dura missão agora de motivá-lo, porque após a queda no tiebreak do segundo set vimos um suíço muito semelhante àquele que desabou no terceiro set de Halle frente a Aliassime, ou seja, total falta de poder de reação.

E muito mais do que física, ainda que tenha ficado evidente sua falta de pernas para fugir de determinadas bolas ou chegar inteiro em outras, a parte mental de Federer nunca pareceu à vontade neste Wimbledon. E isso tenho destacado desde a estreia. Seus primeiros sets contra Richard Gasquet, Cameron Norrie ou Lorenzo Sonego não pareceram naturais. Demorou sempre para ganhar confiança e desta vez Hurkacz o abafou e não lhe deu o tempo imaginado. A imagem do set final não foi ruim apenas no placar, mas principalmente na atitude perdida, sem alternativa tática.

Teremos de esperar para ver se ele realmente vai confirmar a presença em Tóquio, o que exigirá viagem longa, troca de fuso e adaptação ao terceiro piso diferente em seis semanas. Quem sabe, no entanto, o clima da família olímpica não lhe dê a descontração necessária para finalizar a temporada de forma positiva. Apesar de eu imaginar que este Wimbledon tenha sido sua última chance de levantar um troféu de Grand Slam, boas campanhas no piso duro norte-americano podem fazê-lo acreditar em 2022.

Faltam só mais dois para Djokovic
Com 15 sets vencidos seguidamente com pouquíssimos sustos desde o ligeiro tropeço lá da estreia neste Wimbledon, o hexacampeonato se aproxima e com ele o tão sonhado 20º troféu de Grand Slam. Talvez por isso, e somente por isso, Novak Djokovic tenha mostrado pequenas oscilações na sempre traiçoeira quadra de grama. Mas o número 1 está sobrando em qualidade e confiança. Atingiu nesta sexta-feira mais uma série de números arrepiantes: 100 vitórias na grama, 10 semis em Wimbledon e 41 semis em Slam, agora apenas cinco atrás do recordista Federer.

A atuação contra Marton Fucsovics foi até um tanto burocrática e por vezes o jogo se tornou mera troca de bolas de fundo de quadra. Nole sabia que nesse tipo de situação o húngaro dificilmente teria regularidade para ameaçar. E assim disparou com 5/0 antes de enfim o adversário arriscar mais e diminuir a surra. O sérvio soube esperar o momento da quebra no segundo set, forçando devoluções, e já abriu a série final com quebra para liquidar as esperanças do húngaro, que ainda assim lutou até o fim. Economizando energia, Djokovic fez até menos winners (23 a 24) e quase os mesmos erros (30 a 31).

Para atingir sua sétima final em Wimbledon, vai encarar um jovem ‘freguês’, o canhoto e habilidoso Denis Shapovalov, a quem já derrotou por seis vezes. Aos 22 anos, o canadense é outro em sua primeira semi de Slam e tem feito uma campanha admirável na grama, um piso que combina com seus golpes ousados mas onde raramente havia obtido sucesso. No Club, havia ganhado uma só partida até 2021, mas desta vez conseguiu controlar a impetuosidade exagerada, mostra um backhand muito mais sólido e não deixa de aproveitar qualquer chance para praticar seus voleios tão bem feitos.

Ganhou de Karen Khachanov no segundo jogo de cinco sets deste torneio com estatísticas novamente expressivas: 17 aces (mas 10 duplas faltas), 63% de primeiro saque (com 86% de pontos vencidos), 5 de 19 break-points aproveitados, 59 winners e 48 erros, com 29 pontos em 40 subidas à rede. Será um volume capaz de ser competitivo diante de Djokovic? Os dois se cruzaram em fevereiro na ATP Cup e o sérvio ganhou por duplo 7/5. O confronto pode ser um espetáculo se Shapovalov sacar muito e suportar as bolas pesadas nas trocas.

Grandes semifinais femininas
Embora duas postulantes ainda sonhem com o primeiro Slam e apenas uma tenha chegado à final de Wimbledon, as semis femininas reúnem jogadoras bem experientes no circuito. Como bem destaca Mário Sérgio Cruz no TenisBrasil, elas acumulam 50 títulos de WTA e 125 semanas como número 1. E todas têm estilo muito adequado ao jogo sobre a grama.

Ashleigh Barty e Angelique Kerber fazem o duelo das campeãs de Slam. A australiana de 25 anos busca o segundo troféu e a canhota alemã, de 33, o quarto e o segundo em Wimbledon. Os confrontos empatam por 2 a 2, todos na quadra dura e nenhum depois de 2018. Completamente aberto, já que as duas adoram trocar o ritmo e os efeitos.

Aryna Sabalenka e Karolina Pliskova tentam o primeiro Slam. Para a tcheca de 29 anos, a espera é mais penosa. Ela já decidiu o US Open em 2016 e liderou o ranking. Seis anos mais jovem, a bielorrussa nunca chegou tão longe num Slam e leva vantagem de ter vencido os dois duelos anteriores. Gostam acima de tudo de espancar a bola e rapidamente definir os pontos, então vai depender muito do dia mais feliz.

Urso perde e se conforma
Por José Nilton Dalcim
6 de julho de 2021 às 20:34

Ao contrário do que muitos apostavam, Daniil Medvedev perdeu no complemento de seu jogo suspenso na segunda-feira pela chuva e não reclamou de nada, nem de jogar no terceiro estádio, muito menos da mudança para uma quadra coberta no mesmo dia. Nada. O russo conformou-se: o único motivo de sua queda nas oitavas de final foram, a seu próprio julgamento, os dois piores sets que jogou desde maio.

Ao mesmo tempo, o polonês Hubert Hurkacz deixou extremamente claro que a paralisação pela chuva foi tudo o que ele poderia querer naquela altura da partida, quando perdia por 2 sets a 1 e tinha pequena vantagem de 4/3, mas com saque do Urso. Vejamos o que o campeão de Miami afirmou: “A chuva foi crucial para mim. Pude estudar calmamente (com meu treinador) o que não estava fazendo direito, recalcular a parte tática”.

E foi bem assim. Hurkacz quebrou logo de cara, fechou o quarto set e ganhou enorme confiança para concretizar a virada num quinto set muito bem jogado, onde o saque calibrado e os golpes de base mais bem ajustados fizeram a diferença.

Está pela primeira vez nas quartas de final de um Grand Slam, considera uma honra enfrentar agora Roger Federer, mas o necessário respeito não significa submissão. Hurkacz entrará para vencer e precisará novamente elaborar uma boa estratégia, porque é muito provável que terá de encarar  venenosos slices o tempo todo. Aliás, o adiamento lhe deu outro ponto positivo: “Pude sentir o clima de jogar na Central”. No único duelo diante de Federer, o suíço venceu em sets diretos em Indian Wells-2019, um piso bem mais lento.

As quartas de final masculinas começam às 9 horas desta quarta-feira com o interessante embate entre Karen Khachanov e Denis Shapovalov, que buscam inédita semi de Slam e se enfrentaram apenas uma vez, com vitória do canadense. Pode-se esperar um jogo mais tenso e certamente os erros não forçados farão diferença. Meia hora depois na Central, Novak Djokovic é favorito contra Marton Fucsovics, a quem já venceu duas vezes, em 2018 e 2019, para atingir uma notável 10ª semi em Wimbledon, a 41ª de Slam e nada menos que 100 vitórias na grama. O húngaro tirou Sinner, Schwartzman e Rublev neste torneio.

Os amigos Matteo Berrettini e Felix Aliassime fazem o outro jogo da Quadra nº 1, e o italiano certamente é o mais cotado para atingir a segunda semi de Slam de sua carreira. Ganhou o único duelo entre os dois na final de Stuttgart de 2019, sobre a grama. Por fim, Federer e Hurkacz fecham a Central. O suíço tenta 14º semi no torneio e 47ª de Slam, assim como a 370ª vitória em Slam.

Enfim, lógica total no feminino
Não houve surpresas e sequer set perdido para as quatro favoritas que entraram em quadra para buscar a semifinal de Wimbledon. Ashleigh Barty passeou em cima de Alja Tomjanovic e garante assim sua permanência na liderança do ranking.

Seu adversária de quinta-feira será a campeã de 2018 Angelique Kerber, que após um longo período sem resultados excepcionais volta à penúltima rodada de um Slam e, mais do que isso, a demonstrar um tênis sólido e muita perna, aos 33 anos. Também passou fácil por Karolina Muchova. Já foram quatro confrontos entre Barty e Kerber, com empate. Promete muito!

Aryna Sabalenka e Ons Jabeur fizeram talvez o jogo mais equilibrado do dia. O primeiro set foi decidido nos detalhes e a tunisiana teve chance de reagir, mas desperdiçou break-points essenciais e não teve a precisão das outras partidas. A bielorrusa de 23 anos não sentiu pressão por jogar suas primeiras quartas de Slam.

Karolina Pliskova continua sem ceder set, chega na semi do único Grand Slam em que não havia ido tão longe. Sacou muito, vencendo 75% dos pontos com o serviço, e reage depois de perder na estreia nos dois preparatórios para Wimbledon, sem falar na histórica ‘bicicleta’ em Roma. Nos duelos contra Sabalenka, perdeu ambos, um deles na grama. Tenta repetir final do US Open de 2016.

Afinal das contas, após tantas surpresas, as semifinais serão as melhores possíveis. De um lado, Barty ou Kerber tentará um novo Slam; do outro, Sabalenka ou Pliskova, o primeiro.

Big 2 se impõe na rodada de surpresas
Por José Nilton Dalcim
5 de julho de 2021 às 19:06

A segunda-feira maluca que marca a rodada completa de oitavas de final de Wimbledon deu esperança e emoção. Se o favorito Novak Djokovic fez uma exibição redonda, Roger Federer subiu mais um degrau na sua tentativa de recuperação e isso aumenta a expectativa de revermos uma final para lá de histórica em Wimbledon.

Mas também foi um dia de muito vento e de surpresas, tanto na chave masculina como na feminina, onde as duas principais favoritas avançaram com jogos trabalhosos como já era esperado.

Djoko nem precisou forçar muito para superar Cristian Garin, que fez o melhor que pôde num piso que lhe é claramente estranho. Com 28 winners, sendo 9 aces, o número até errou um pouco mais do que o normal (23). Chega às quartas de um Grand Slam pela 50ª vez, sendo 12 delas em Wimbledon, onde não perde há 18 jogos. Aliás, são agora 24 vitórias nas últimas 25 de Slam.

Eu esperava que ele agora enfrentasse Andrey Rublev, mas o húngaro Marton Fucsovics mostrou físico e cabeça notáveis para virar depois dos 2 sets a 1, atropelando nas duas séries decisivas mesmo com apenas 40% de primeiro saque em quadra no set final. Derrotado por Nole nos dois duelos que já fizeram, tendo tirado um set no US Open de 2018, o 48º do ranking de 29 anos terá de contar com um dia excepcional na quarta-feira.

A outra vaga no lado superior da chave estará entre Karen Khachanov e Denis Shapovalov, que viveram jogos radicalmente diferentes nas oitavas. Enquanto o russo batalhou quase 4 horas para tirar Sebastian Kordan, num quinto set de 18 games e 13 quebras de serviço, o canhoto canadense passou por cima do experiente Roberto Bautista, numa atuação admirável, em que mesclou paciência e agressividade, como já fizera contra Andy Murray. O vencedor fará sua primeira semi de Slam. O canadense ganhou o único duelo entre eles e confesso nunca tê-lo visto tão maduro numa sequência de vitórias.

Federer ainda melhor
Pela primeira vez desde janeiro de 2020, Federer ganhou quatro jogos seguidos. Foi um tenista muito diferente da tenebrosa estreia, ainda que seu primeiro set contra Lorenzo Sonego tenha sido preso e nervoso. O suíço demorou para explorar o backhand adversário e se atrapalhou em dois games de serviço, mas daí em diante se soltou e os erros despencaram (4 no segundo set e 5 no último). Fez lances muito bonitos, mexeu-se incrivelmente bem e manteve postura ofensiva, com 46 subidas à rede.

Atinge 58 quartas de final em Slam e agora tem ao menos 12 em cada um, sendo 18 em Wimbledon. Aos 39 anos e 337 dias, é agora o mais velho profissional a ir tão longe no torneio. E ainda deu sorte, ao ver que Daniil Medvedev e Hubert Hurkacz terão de voltar à quadra na terça-feira para completar o jogo. Pode ser rápido, se o russo ganhar mais três games e liquidar o quarto set, mas o polonês está firme e vai querer esticar.

O quarto semifinalista sairá de um duelo de amigos: Matteo Berrettini contra Felix Auger-Aliassime. O italiano continua muito firme, mal tomou conhecimento de Ilya Ivashka e conhece muito bem o garoto canadense, com quem já treinou muitas vezes. Aliassime deu uma das grandes surpresas do dia, ao barrar Alexander Zverev no quinto set.

O alemão viveu intensos altos e baixos, cometeu 20 duplas faltas mas ainda assim o jogo foi duro até o finalzinho. Aliassime ganhou os dois primeiros sets em que saiu atrás em ambos, depois viu Zverev crescer muito no saque. Nunca se assustou e continuou buscando os pontos. Fez 54 winners, sendo 17 aces, mas também errou 51 vezes. Gostei muito da postura ofensiva, tendo vencido 31 dos 40 lances junto à rede. Está pela primeira vez nas quartas de um Slam e com um pé no top 15, tudo aos 20 anos. Muito bom.

Demorou, mas aconteceu e o tênis canadense terá dois representantes nas quartas de um mesmo Slam pela primeira vez em sua história.

Virada de Jabeur e show de Kerber
A rodada foi intensa também para as meninas e, apesar de as duas favoritas avançarem, haverá duas não pré-classificadas nas quartas. Ashleigh Barty saiu atrás de Barbora Krejicikova e precisou lutar o tempo todo para evitar um terceiro set, num jogo de alta qualidade técnica e muito empenho. Aryna Sabalenka venceu o duelo de bolas forçadas contra Elena Rybakina, onde cada uma fez 10 aces.

Se Barty será ampla favorita já nesta terça-feira diante da compatriota Ajla Tomlljanovic, que nem precisou terminar o jogo contra a jovem britânica Emma Raducanu, Sabalenka precisará da máxima atenção para encarar a embalada Ons Jabeur. A tunisiana anotou virada espetacular em cima de Iga Swiatek, com duplo 6/1 nos sets finais, à base de um tênis muito criativo e variado e sempre com muita perna. Cada uma venceu uma vez nos duelos. Deve ser o grande jogo do dia.

Aos 33 anos, Angelique Kerber parece de novo em ótima forma física e foi muito inteligente contra Coco Gauff, usando slices matreiros para segurar as bolas ofensivas da adolescente americana de tanto potencial. O sonho do bi agora passa pela tcheca Karolina Muchova, que repete as quartas de 2019 e gosta de comandar pontos. A alemã ganhou os dois confrontos de 2019.

Por fim, Karolina Pliskova não deu bola para a atrevida Liudmila Samsonova, que vinha de ótima série de vitórias, e terá pela frente mais uma novidade da chave feminina, a suíça Viktorija Golubic, de 28 anos e currículo pouco expressivo em Slam. Ainda assim, fez um jogo muito firme, onde o backhand se destaca, e tirou Madison Keys com apenas 9 erros não forçados nos 22 games disputados.

Desafio para Melo
Marcelo Melo e o polonês Lukasz Kubot também continuam na luta pelo segundo título em Wimbledon. Não precisaram entrar em quadra por conta da contusão de um dos adversários, mas nesta terça-feira terão de encarar a melhor dupla da temporada, os croatas Mate Pavic e Nikola Mektic, que já venceram 7 torneios em 9 finais mas ainda sonham com um Slam. O ótimo confronto está previsto para as 12h de Brasília.