Arquivo da tag: Denis Shapovalov

Melancolia para Rafa, história para Bia
Por José Nilton Dalcim
12 de maio de 2022 às 20:42

Não bastasse Novak Djokovic estar recuperando a cada dia sua grande forma e ao mesmo tempo ter surgido um audacioso Carlos Alcaraz decididamente perigoso, Rafael Nadal ganhou nova preocupação, e talvez esta ainda maior. Apenas cinco jogos depois da parada forçada para tratar de uma fratura na costela, o problemático pé esquerdo voltou a limitar o espanhol e contribuiu sobremaneira para sua eliminação nas oitavas de final de Roma, onde defendia o título do ano passado.

Rafa já deixou claro que é uma lesão crônica, portanto não há tratamento possível. Resta conviver com isso. Como já explicou antes, nem é uma questão de economizar calendário ou treinos. A dor de repente aparece e o atrapalha. Foi exatamente o que aconteceu nesta quinta-feira diante de Denis Shapovalov. Depois de um primeiro set avassalador, veio uma queda no começo da outra série e uma ligeira recuperação, mas já se percebia que aquele Nadal não era o mesmo, mais atrasado para arrancar e muito errático. Ainda saiu com quebra no terceiro set, porém não sustentou e daí em diante foi dominado por um adversário que soube conduzir o momento de forma taticamente esperta.

Eis que o ‘rei do saibro’ passa a ser uma grande incógnita para Roland Garros. Agora, nem é mais uma questão de discutir quem é mais favorito mas de perguntarmos o quanto ele conseguirá se recuperar nos 10 dias que faltam para o Aberto francês e em que medida sua confiança estará abalada. Porque, como todos sabemos, a parte atlética é componente essencial de seu plano de jogo. Será que Nadal se submeterá a infiltrações sucessivas para sua cabeça não desviar o foco? É de se esperar que seus adversários, desde a primeira rodada, ganhem inesperado ânimo. O clima desta noite na entrevista oficial do espanhol era melancólico e ele chegou a insinuar a aposentadoria.

Enquanto isso, Djokovic fez um treino de luxo contra Stan Wawrinka, que apesar de alguns ótimos lances mostra-se obviamente muito longe de estar competitivo num nível alto. No jogo que vale a permanência como número 1, enfrentará pela primeira vez Félix Auger-Aliassime, o novo pupilo de Toni Nadal, que não tem no saibro seu piso mais favorável. Mas será interessante ver se o canadense trará alguma coisa diferente para a quadra, já que a princípio trocar pancadaria da base pouco o beneficiará.

Se vencer, Nole poderá chegar no sábado em condição de anotar a histórica 1.000ª vitória da carreira contra Shapovalov ou Casper Ruud, duelo que revive a final de Genebra do ano passado vencida em dois sets pelo norueguês. Ele aliás precisa desesperadamente de uma grande campanha em Roma para sepultar as últimas semanas e chegar renovado a Paris.

O lado inferior da chave verá o segundo duelo entre Alexander Zverev e Cristian Garin e um imperdível reencontro entre Stefanos Tsitsipas e Jannik Sinner, o terceiro que acontecerá em Roma, com uma vitória para cada lado. Se o alemão leva certa favoritismo devido ao momento instável do chileno, ainda inseguro com o cotovelo, não dá para apostar no grego depois dos altos e baixos contra Grigor Dimitrov e Karen Khachanov. O italiano receberá apoio maciço da torcida mas nunca fez uma semi de Masters sobre o saibro. No ano passado, ganhou só um jogo em cada um deles e agora já fez quartas em Madri e oitavas em Monte Carlo.

Iga sobra na turma
O torneio feminino continua sendo um grande desfile de Iga Swiatek. É bem verdade que sofreu no começo do jogo contra Vika Azarenka, mas a partir do momento em que cortou os erros a polonesa deu outro grande espetáculo, com golpes muito agressivos tanto na cruzada como na paralela. A número 1 está claramente sobrando na turma e é de se esperar que some a 26ª vitória e quinta semi consecutivas contra Bianca Andreescu.

Tenho gostado também de Aryna Sabalenka. Sempre correndo riscos, mas menos ansiosa e se perdoando mais. Terá agora um teste de fogo diante de Amanda Anisimova, para quem perdeu todos os quatro confrontos, incluindo sobre o saibro. Não temos imperdível será a embalada Ons Jabeur contra Maria Sakkari, duas jogadoras de potencial comprovado mas que ainda pecam no emocional. Por fim, Paula Badosa causou nova decepção, foi incrivelmente instável e parou em Daria Kasatkina, que enfrentará a surpresa Jil Teichman.

O grande momento de Bia
Há uma enorme chance de Bia Haddad Maia chegar ao 50º lugar do ranking caso vença nesta sexta-feira a francesa Elsa Jacquemot, 229º do mundo, nas quartas de final do WTA 125 de Paris. As projeções apontam que ela totalizará 1.120 pontos e não poderá ser superada por concorrentes em ação nesta semana.

Caso isso aconteça, Bia será a quinta profissional brasileira a atingir o prestigiado grupo, juntando-se a Maria Esther, Niege Dias, Teliana Pereira e Patrícia Medrado. A última vez que um tenista nacional entrou de forma inédita no top 50 foi em 2015, com a mesma Teliana. O eventual título da canhota paulista em Paris a levará ao 41º posto.

Torçamos

No jeito e na marra
Por José Nilton Dalcim
25 de janeiro de 2022 às 13:10

Como dizia o título deste Blog de ontem, é preciso acreditar. E foi exatamente isso que fizeram Rafael Nadal, Matteo Berrettini e Bia Haddad Maia, em outra eletrizante rodada do Australian Open. Tanto o espanhol como o italiano levaram grande susto depois de dominar os dois primeiros sets, Bia e a parceria cazaque saíram de outro grande buraco. Valeu cada minuto de sono perdido.

Rafa considerou sua reação no quinto set sobre o garoto Denis Shapovalov, 13 anos mais jovem, como um ‘milagre’. Nem tanto pela parte técnica, mas pelo mal estar estomacal que diz ter começado a viver ao final do segundo set. Até ali, Rafa fazia uma exibição de gala, muito agressivo, veloz e com aquela noção tática que o faz absolutamente genial. Aí o canadense iniciou reação, ganhou com certa folga os sets seguintes e parecia que Rafa não teria forças para atingir sua sétima semi em Melbourne.

“Pensei que iria perder”, contaria mais tarde, depois de anotar seu recorde pessoal de duplas faltas, com 11. Afirmou que tudo que queria era manter o saque e torcer para acertar alguma hora a devolução. E foi o que aconteceu. Outra lição do espanhol de resiliência.

Em meio a tudo isso, surgiu um clima ruim. Shapovalov acusou os árbitros de favorecerem Nadal, irritadíssimo com a demora do espanhol no saque e mais ainda por sua ida ao vestiário antes do quinto set depois de ter sido atendido pela segunda vez pelo médico em quadra. Rafa evitou polemizar, se disse inocente e terminou por aconselhar o canadense a repensar suas palavras, lembrando que ele também fez julgamentos bobos quando jovem.

Drama parecido viveu Berrettini, que também foi superior a Gael Monfils nos dois primeiros sets de ótimo nível, mas cedeu espaço pouco a pouco e parecia com menor força física quando o francês empatou. Tudo bem parecido ao sufoco que levou de Carlos Alcaraz lá na terceira rodada. Aí juntou o fôlego que restava, recuperou a confiança no forehand e abriu rápida vantagem sobre um cansado adversário. Tornou-se assim o primeiro italiano na história a atingir a semi em Melbourne e não perdeu a chance de criticar parte do público que insistentemente o perturbava entre os saques.

Fato interessante, Berrettini fez quartas, final e quartas em seus três últimos Grand Slam e em todas perdeu para Novak Djokovic, desta vez ausente. Sua única experiência contra Nadal foram as semis do US Open de 2019, em que perdeu em sets diretos mas esteve a um ponto de ganhar o tiebreak da primeira parcial.

O bom para os dois é que as semifinais masculinas desta vez serão disputadas juntas na sexta-feira, o que dará a eles um dia a mais de descanso.

Bia espetacular
Com maturidade, potência nos golpes e ótimo trabalho de rede, Bia Haddad comandou a parceria com a cazaque Anna Dalinina rumo às semifinais do Australian Open. Foi outra reação incrível, já que elas perderam o set inicial e estiveram duas vezes com quebra atrás no segundo contra Rebecca Peterson e Anastasia Potapova.

Primeira brasileira em semi do torneio desde Maria Esther, vice de simples em 1965, Bia também tentará agora se juntar a Bueno como únicas numa final de Slam na história, façanha que escapou de Luísa Stefani no US Open do ano passado. A última decisão de Estherzinha em Slam foi em 1968. Ao mesmo tempo, a canhota paulista dispara no ranking de duplas e se garante no 64º, superando o recorde pessoal anterior de 79ª.

Apesar de a dupla com Danilina ter tido seus altos e baixos na partida, Bia sacou muito bem, fez devoluções espetaculares e foi muito oportuna nos deslocamentos junto à rede. As adversárias serão as cabeças 2, as japonesas Shuzo Aoyama e Ena Shibahara, a quem venceram na caminhada pelo título em Sydney duas semanas atrás.

Quartas sem graça
A definição das duas primeiras semifinalistas da chave feminina contrastaram e foram bem sem graça. Ashleigh Barty destruiu Jessica Pegula em 63 minutos, está pela segunda vez na penúltima rodada em casa e mantém sonho de ser a primeira australiana a levantar o título desde 1978. Em cinco jogos até agora, passou pouco mais de cinco horas em quadra.

Madison Keys e Barbora Krejcikova fizeram um jogo muito fraco, cheio de erros e tensão. A tcheca não se sentia bem, mas não quis abandonar e até se esforçou. Ex-top 10, Keys chega a sua quinta semi de Slam e enfrentará Barty pela terceira vez, tendo vencido uma.

E mais

  • Tsitsipas e Sinner duelam pela quarta vez, a primeira fora do saibro, à 1h. Grego venceu duas e ganhou todos seus quatro jogos de quartas de Slam até hoje. Sinner tenta ser mais jovem semi do torneio desde Roddick em 2003.
  • Medvedev também busca quinta semi de Slam contra Aliassime, que só tirou um set dele em três duelos. Na semi do US Open do ano passado, russo ganhou sem sustos.
  • Os dois jogos femininos são inéditos: Collins contra Cornet e Swiatek frente Kanepi. A norte-americana já foi semi no torneio em 2019, a polonesa é 16 anos mais jovem que Kanepi.
  • Após tirar os cabeças 1 Mektic/Pavic, os locais Kyrgios e Kokkinakis continuam lotando seus jogos de duplas. Tiraram agora os cabeças 6 Puetz/Venus e pegam Granollers/Zeballos. Kyrgios acertou garoto na arquibancada e lhe deu uma raquete.
  • Crivada de críticas, a organização recuou e permitiu entrada de torcedores com camiseta que faz alusão ao sumiço de Shuai Peng. No fim de semana, seguranças chegaram a confiscar um cartaz sobre isso.

‘Shapo’ dá lição no preguiçoso nº 3, Bia atinge façanhas
Por José Nilton Dalcim
23 de janeiro de 2022 às 12:41

Perder é obviamente parte do jogo, mas Alexander Zverev mostrou aquele velho conformismo que parecia ter sido superado com a ascensão dos últimos anos. Diante de um talentoso e animado Denis Shapovalov, esse sim um garoto que raramente se entrega, o número 3 do mundo foi um fiasco e levou verdadeira aula. Foi sua 15ª derrota para um top 20 em Grand Slam em 19 tentativas. Ele aliás jamais ganhou de um top 10 nos quatro maiores torneios em 11 duelos.

‘Shapo’, é preciso frisar, venceu agora três dos últimos quatro duelos contra Zverev. Semifinalista de Wimbledon no ano passado, está toda hora à procura de corrigir defeitos. Trocou Mikhail Youzhny por Jamie Delgado, o ex de Andy Murray, e parece menos afoito. Começou o ano com covid, mas se recuperou e foi essencial no título canadense da ATP Cup semanas atrás. Aliás, se Felix Aliassime também avançar, será a primeira vez que dois tenistas do país alcançam as quartas do Slam australiano.

O jogo contra Sascha foi um tanto estranho. O alemão quase quebrou de cara, aí cedeu o saque e o primeiro set. Parecia perdido ao sair de 0/2 na outra série, mas aí reagiu e chegou a sacar com 5/3, no que poderia mudar totalmente a história. Jogou errado, ficou frustradíssimo e a partir daí Shapovalov dominou, com muito mais atitude. O cabeça 3 insistia em trocar bolas no backhand, jogando lá atrás, e caiu diante de um adversário muito consistente.

Quem não poupou críticas a Zverev foi Boris Becker, ao comentar para a Eurosport. “Se ele sonha com um Slam, sua postura precisa ser diferente”, disparou. “Nunca o vi tão passivo e sem agressividade”, emendou. O campeão olímpico não achou desculpas, mas revelou que não se sentiu bem em quadra em toda a semana. Ele anotou apenas três aces na partida. “Foi meu pior desempenho desde Wimbledon”, assinalou, lembrando da derrota sofrida então para Aliassime.

Esta foi a segunda vitória de Shapovalov sobre um top 5. A outra foi justamente contra seu próximo adversário, o embaladíssimo Rafael Nadal, num resultado surpreendente em Montréal de 2017. Depois disso, perdeu três vezes mas em Roma do ano passado levou o espanhol ao tiebreak do terceiro set.

Rafa mostrou-se cirúrgico contra Adrian Mannarino. O primeiro set foi extremamente parelho, com domínio absoluto dos sacadores até o tiebreak. Então veio o grande momento do jogo e talvez do torneio, com ambos jogando em nível magistral por 28 minutos e 30 pontos. O francês teve suas chances, bateu muito na bola porém o campeão de 2009 sempre achou uma resposta, algumas vezes realizando seus lances impossíveis sob pressão. Muita confiança e principalmente postura determinada. Que contraste para Zverev. Nos sets seguintes, sentindo a virilha, Mannarino foi presa fácil.

Matteo Berrettini e Gael Monfils farão o outro duelo de quartas de final nesse lado de cima da chave. A atuação do italiano contra Pablo Carreño beirou a perfeição, tirando o máximo de seu incrível primeiro serviço, mas também se mexendo muito bem, indo à rede na hora certa e novamente mostrando evolução no backhand. Ele vinha dos cinco duríssimos sets contra Carlos Alcarez, fez 28 aces e só encarou um break-point. Berretini tem agora quartas em todos os Slam e chega pela quinta vez nessa fase de um Slam, apenas uma atrás de Adriano Panatta entre os italianos.

Depois de seis temporadas, Monfils volta às quartas em Melbourne e sonha com uma terceira semi de Slam, isso aos 35 anos, apenas três meses mais jovem que Nadal. Porém, apesar do placar de 3 a 0, a missão contra a surpresa Miomir Kecmanovic foi bem exigente. Muito firme na base, o sérvio teve três chances de quebra no 5/5 do primeiro set e ainda liderou o segundo por 3/1 e 4/2. O francês perdeu os dois confrontos diante de Berrettini, o primeiro deles numa memorável batalha de cinco sets que terminou só no tiebreak nas quartas do US Open de 2019.

Tudo aberto no feminino
Fácil vitória de Barbora Krejcikova sobre uma contundida Vika Azarenka, a queda de Maria Sakkari e o dia ruim de Paula Badosa agitaram a abertura das oitavas de final femininas. A número 1 Ashleigh Barty segue sua campanha de poucos sustos e nenhum set perdido, e por isso mesmo permanece como favorita. Mas todo cuidado é pouco.

Jessica Pegula surge como próximo desafio. A norte-americana repete as quartas do ano passado ao passar por Sakkari sendo superior em todos os campos, mas com destaque aos 71% de aproveitamento do primeiro saque. Barty, que tenta ser a primeira tenista da casa a ganhar o torneio desde 1978, superou Pegula na campanha do título em Roland Garros de 2019.

Em que pese um problema no pescoço que claramente limitou movimentos de Vika, Krejcikova fez uma bela partida, tirando tudo de sua capacidade de trocas de direção e velocidade de golpes. E isso coloca ótimo tempero no duelo inédito contra Madison Keys, que também é uma excelente estrategista. A norte-americana entrou em Melbourne fora do top 50 e atropelou Badosa com um tênis muito consistente mas também agressivo (26 a 10 nos winners).

Grande atuação e façanhas de Bia
Ninguém ganha jogo de dupla sozinho, mas é inegável que Bia Haddad Maia foi o grande nome em quadra na dura partida e excepcional virada que conseguiu ao lado da cazaque Anna Danilina. Elas perdiam de 1/4 no terceiro set, com duas quebras sofridas, mas brigaram muito e venceram Aliona Bolsova e Ulrikke Eikeri no supertiebreak. Agora, pegam Rebecca Peterson e Anastasia Potapova, que são acima de tudo jogadoras de simples.

Bia é a primeira brasileira a atingir as quartas do torneio na Era Aberta. Maria Esther ganhou duplas em 1960 e foi vice de simples em 1965, durante a fase amadora. Bia acabou de ganhar seu terceiro e maior troféu de duplas no WTA 500 de Sydney e agora tem sete vitórias seguidas ao lado de Danilina.

Com o resultado, a canhota paulista repete a façanha de 2018 e passará a figurar no top 100 dos dois rankings na próxima lista, dia 31 de janeiro. Naquele ano, ela foi 61ª de simples e 79ª de duplas na mesma semana e agora garantiu provisoriamente o 75ª e o 94ª. Se vencer mais uma, entrará então no top 70 da especialidade.