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A dura nova era dos Masters
Por José Nilton Dalcim
10 de agosto de 2021 às 21:10

Desde agosto de 2006, quando Novak Djokovic galgou o ranking, entrou no top 30 e passou a ter direito a disputar todos os grandes torneios que quisesse,  apenas dois eventos de nível Masters 1000 não tiveram a presença de ao menos um dos chamados Big 3, grupo da super elite que inclui Roger Federer e Rafael Nadal.

O primeiro deles foi em março deste ano, em Miami, quando Djokovic preferiu cuidar melhor da lesão abdominal contraida em Melbourne, Rafa sentia problema nas costas também da Austrália e Federer ainda estava em dúvida quanto a seu joelho, abalado com o desempenho fraco em Doha.

O segundo acaba de acontecer em Toronto. Federer continua com o joelho instável, Djokovic preferiu descansar após a aventura olímpica e Nadal voltou a sentir o pé, contusão que o tirou de Wimbledon e de Tóquio.

E o terceiro pode vir na semana que vem em Cincinnati, que já sabe que não terá Nole nem Roger e certamente passa a considerar a ausência do canhoto espanhol. A dura nova era dos Masters só pode sonhar em reunir o Big 3 em Paris, já que Xangai foi retirado do calendário de 2021.

Ao que tudo indica, Djokovic optou por poupar-se ao máximo e entrar com máxima energia no US Open, ainda mais diante do clima pesadíssimo que atormenta o verão no Hemisfério Norte no momento. Será a primeira vez desde 2010 que não jogará um preparatório importante antes do quarto Slam. Ainda que tenha sentido dor no ombro em Tóquio, ele tem melhores motivos do que os parceiros do Big 3 para saltar os Masters, já que se mostrou em ótima forma a partir da metade da fase do saibro.

A situação de Nadal, ao contrário, preocupa muito. Ele ficou dois meses afastado com a lesão no pé esquerdo, entrou em Washington e, mesmo com apenas dois jogos realizados, voltou a sentir o problema. Foi a Toronto e treinou nos últimos dias, até que no final desta tarde percebeu que forçar poderia comprometer de vez a presença em Nova York. Muito pouco provável que se arrisque em Cincinnati, ainda que não se descarte sua presença na chave de duplas, como forma de buscar ritmo sem forçar tanto.

Federer, tal qual Nole, já anunciou que não disputará nenhum dos Masters, completando 22 meses sem competir nesta categoria de torneio. Talvez esteja resguardando forças para o US Open, porém é difícil acreditar que o suíço possa estar competitivo logo num torneio tão exigente e em melhor de cinco sets. Ele não joga desde a triste derrota em Wimbledon.

Em termos de ranking, Djokovic não corre grande risco de perder a liderança, a menos que Daniil Medvedev faça mágicas e levante os três troféus, sem falar que o próprio sérvio ainda não pode ir além das quartas em Flushing Meadows. Nadal já perdeu os pontos de Toronto e o terceiro lugar e sofre ameaça de ser superado por Alexander Zverev, caso o alemão seja finalista em Cincinnati. Já o suíço só cairá para 10º se Denis Shapovalov ganhar algum dos Masters.

Que os candidatos ao futuro trono do tênis aproveitem a oportunidade de ouro que têm pela frente.

P.S.: Lance inusitado, com decisão incrível da juíza.

A um passo da eternidade
Por José Nilton Dalcim
9 de julho de 2021 às 18:55

Novak Djokovic cumpriu todos os prognósticos, ganhou 18 sets consecutivos, mostrou o melhor tênis de todos os outros 127 participantes e está agora a um passo de igualar os 20 troféus de Grand Slam de seus mais diretos adversários, mas com vantagens numéricas e estatísticas que o colocarão acima de Roger Federer e Rafael Nadal caso derrote o estreante finalista Matteo Berrettini e conquiste seu sexto Wimbledon neste domingo.

Nole tem a oportunidade de ganhar os três primeiros Grand Slam de uma mesma temporada, algo que só Rod Laver fez na Era Profissional, mas diferentemente do excepcional australiano ele tentará tal feito em três pisos distintos. Desde 1968, apenas Rafa conseguiu ganhar três Slam sequenciais em superfíceis diversas, mas sua façanha de 2010 foi em ordem diferente (Paris, Londres e Nova York). o que não abriu caminho para ‘fechar o Grand Slam’.

Mais uma vez, Djokovic declara que Wimbledon é o maior troféu que se pode sonhar no tênis. E ele está perto de somar seis conquistas na legendária Quadra Central no curto espaço de 10 anos, tornando-se o digno sucessor de Federer e Pete Sampras como ‘rei da grama’. Aliás, o piso natural do tênis passou a ser o de maior sucesso do sérvio em termos percentuais: 101 vitórias em 119 jogos, ou seja, 84,9%, ligeiramente acima dos 84,3% da quadra dura e dos 80,4% do saibro. Apenas ele, Federer e Andy Murray passaram de uma centena de vitórias na grama.

A vitória sobre o canhoto Denis Shapovalov desta sexta-feira provou o quanto a experiência faz diferença em Wimbledon e reforçou o poder mental tão diferenciado de Djokovic, salvando break-points cruciais e aproveitando as chances na hora certa. O canadense jogou bem, mas falhou sempre nos momentos decisivos de cada set, principalmente é claro quando sacou para fechar a série inicial e cometeu erros imperdoáveis diante do número 1 do mundo. Perdeu o tiebreak e o segundo set com dupla falta.

O sérvio também fez mais aces, ganhou mais pontos com o primeiro saque, errou infinitamente menos (15 em  37 games!) e praticou o clássico saque-voleio com perfeição, enquanto o jovem adversário forçou muito, mas ficou preso demais na base, com 36 falhas e 40 winners. Foi sua primeira semifinal e é bem possível que se candidate a aventuras ainda maiores na grama quando amadurecer o necessário.

Com seis semis vencidas desde 2013 – desde então, só não chegou lá em 2016 e 2017 -, esta será a sétima decisão de Djokovic no Club, igualando Sampras e Boris Becker, e a 30ª de Slam, o que o deixa apenas uma atrás do recordista Federer. Desde que ergueu o troféu de Wimbledon em 2018, Nole só deixou de estar numa final de Slam por três vezes.

Berrettini aumenta festa italiana
O grande momento do tênis masculino italiano merecia mesmo sua primeira final de Grand Slam em 45 anos. Mais especial ainda, a primeira no templo sagrado do tênis em todos os tempos. E, como todo mundo sabe, ainda no mesmo domingo em que a Azzurra disputará a final da Eurocopa a poucos quilômetros dali, no final do dia.

A vitória desta sexta-feira sobre a surpresa Hubert Hurkacz, que vinha de vitórias sobre Daniil Medvedev e Federer, seguiu o script imaginado, apesar de o polonês ter vivido altos e baixos mais intensos. A partir do 3/3 do primeiro set, perdeu 10 games seguidos. Não se conformou, continuou brigando e enfim fez um set num padrão elevado e viu um raro momento infeliz do adversário com o saque ao longo do tiebreak. Mas a quebra logo de cara no quarto set criou pressão grande e ele só tirou cinco pontos de Berrettini no serviço italiano. A estatística mostra a diferença: 60 a 27 nos winners, com 22 a 5 nos aces, e nenhum break-point de Hurkacz.

Com 1,96m, Berrettini se encaixou mesmo na grama. São 11 vitórias seguidas, incluindo a conquista no Queen’s Club, e os números divulgados pela ATP são notáveis: nesse sequência, fez 169 aces (101 em Wimbledon), ganhou 83,5% dos pontos quando acertou o primeiro saque (82%) e 58,5% com o segundo serviço (61%). Nestas duas semanas, manteve 95 de 100 games de serviço (95%), apenas um pouco pior do que em Queen’s (56 de 58, com 97%) e salvou 22 de 27 break-points (81%), depois de ter evitado 10 de 12 (83%) há quatro semanas.

Como se pode ver claramente, sua maior arma tem sido o saque, o que também permite usar o pesadíssimo forehand de qualquer ponto da quadra, já que costuma fugir muito para o lado esquerdo. Ele sabe que o backhand é o ponto frágil e onde todo adversário vai tentar desestabilizá-lo, mas a defesa com slice na grama tem muito mais eficiência do que em qualquer outro piso e geralmente traz um problema para quem está do outro lado.

Nos dois duelos que fez contra Djokovic, perdeu. O primeiro veio no Finals de 2019 e levou uma aula, mas há dois meses em Roland Garros conseguiu até tirar um tiebreak do sérvio e caiu no quarto set por 7/5. Dos cinco títulos que tem na carreira, dois foram na grama. Nesta temporada, ganhou Belgrado e Queen’s e foi à final de Madri, onde levou virada de Alexander Zverev. Com justiça, já garantiu volta ao 8º lugar do ranking e passa a ser  o 3º mais bem pontuado da temporada.

Força contra jeito
A final feminina de Wimbledon também é muito especial, porque envolve duas tenistas que têm estilos diferentes porém ambos muito eficientes para as quadras de grama. Enquanto Ashleigh Barty aposta nas trocas de efeito e velocidade, com slice perigoso e boa mão para os voleios, Karolina Pliskova aposta na força do saque e de seu excelente forehand que gera golpes retos e quique baixo.

Obviamente, ganhar Wimbledon é um sonho enorme para ambas, mas arriscaria a dizer que existe mais pressão sobre Pliskova que, aos 29 anos, vê uma rara chance de enfim conquistar seu primeiro Slam. Quatro anos mais jovem, Barty se vira bem nos variados pisos e ainda tem várias temporadas à frente para aumentar seus números.

Além disso, a australiana costuma mostrar mais firmeza emocional do que a adversária, ainda que Pliskova tenha anotado uma virada excepcional na semi contra Aryna Sabalenka e deve ter se enchido de confiança. Promessa de um grande jogo.

Djokovic e Berrettini, a final mais lógica
Por José Nilton Dalcim
8 de julho de 2021 às 19:50

Há uma distância abismal entre a experiência e o currículo de Novak Djokovic para os demais semifinalistas deste Wimbledon. Cinco vezes campeão e imbatível na superfície há 18 jogos, é o único dos quatro que já decidiu um Grand Slam e também a ter atingido uma semi no All England Club, sem falar que está no ápice de sua forma e no grau máximo de confiança.

A diferença para seu adversário desta sexta-feira é tão ampla quanto o retrospecto de 6 a 0 nos confrontos diretos. Aos 34 anos, 12 a mais que o canhoto Denis Shapovalov, entrará outra vez na mágica Quadra Central com 15 de suas últimas 16 semifinais de Slam vencidas. O canadense atinge seu maior resultado nesse nível de competição.

O italiano Matteo Berrettini também tem diversas vantagens sobre o polonês Hubert Hurkacz. Será sua segunda tentativa de chegar numa final de Slam, repetindo o US Open de 2019, e tem na galeria dois troféus sobre a grama, um deles há quatro semanas, ali pertinho, no Queen’s Club. Nos duelos diretos, há um empate sobre a quadra dura.

Vejam as principais curiosidades das semifinais masculinas:

– Wimbledon não via três estreantes em semifinais desde Nadal, Bjorkman e Baghdatis, em 2006.
– Se atingir 7ª final, Nole iguala Becker e Sampras. Chegará também a 30 em Slam, apenas 1 atrás de Federer. A última vez que perdeu uma semi em Wimbledon foi em 2012, tendo vencido cinco seguidas.
– Shapovalov tirou 2 sets de Djokovic nos seis duelos, ambos na quadra dura e um deles em Slam (AusOpen de 2019).
– Djokovic ganhou 23 de seus últimos 24 confrontos diante de canhotos em Slam (a exceção foi Nadal em Paris-2020). Na carreira, sua marca é de 124-38 frente a canhotos.
– Canadense tem recorde negativo na carreira em tiebreaks (53-62) e na temporada (5-9). Djoko está empatado em 2021, com 8-8.
– Sérvio ganhou 9 dos 10 jogos que chegaram ao quinto set em Wimbledon, com única derrota para Ancic em 2006. Shapovalov jogou dois e venceu, ambos nesta edição.
– Último canhoto a decidir o torneio foi Nadal, em 2011. Espanhol também foi último a ganhar, em 2010.
– Shapovalov tenta ser terceiro canadense numa final em Wimbledon, repetindo Raonic (2016) e Bouchard (2014). e o quarto em Slam, juntando-se também a Andreescu, única a ser campeã.
– Berrettini e Hurkacz tentam ser os primeiros tenistas de seus países a decidir o torneio. O último italiano na final de um Slam foi Panatta (Paris-1976). A Polônia teve apenas mulheres finalistas, com Radwanska em Wimbledon e Swiatek em Paris.
– Berrettini é agora único de seu país na história a ter ao menos oitavas nos quatro Slam.
– Hurkacz pode bater o terceiro top 10 na semana, após tirar Medvedev e Federer. Também ganhou de Tsitsipas e Rublev rumo ao título de Miami, em março.
– Berrettini ganhou todos seus 10 jogos na grama em 2021.
– Quando chegou ao torneio, polonês vinha de seis derrotas seguidas e não vencia jogos desde abril.
– Italiano e polonês estão muito bem nos tiebreaks nesta temporada: 13-4 para Berrettini e 11-3 para Hurkacz

Nova campeã no sábado
Wimbledon terá certamente uma nova campeã neste sábado e os Grand Slam também poderão ter um nome estreante na lista. Ashleigh Barty jogou como digna número 1 do mundo nesta quinta-feira num embate de ótimo nível diante de Angelique Kerber e tenta ganhar seu segundo troféu de Slam em superfícies tão distintas como o saibro e a grama.

Karolina Pliskova mostrou sangue frio e maturidade para virar o jogo contra Aryna Sabalenka, no imaginado duelo de força: 38 a 32 nos winners, sendo 18 a 14 nos aces, para a bielorrussa. A tcheca de 29 anos ganha assim a oportunidade de lutar pela segunda vez por um inédito troféu de Slam, cinco anos depois de ter sido vice no US Open. Ela chegou a liderar o ranking meses depois e ficou na ponta por oito semanas.

Barty ganhou o título juvenil de Wimbledon quando tinha 15 anos e agora tenha encerrar longo jejum de seu país na galeria feminina do Club. A última a vencer foi Evonne Goolagong, bicampeã em 1980, ídolo que Barty resolveu homenagear neste ano ao vestir o mesmo traje da célebre campeã de 50 anos atrás. No masculino, a Austrália não triunfa em Wimbledon desde Lleyton Hewitt, em 2002.

A ótima campanha nestas duas semanas é uma volta por cima para Pliskova, que amargou aquela triste ‘bicicleta’ na final de Roma e, pior ainda, acabou por deixar o top 10 pela primeira vez desde 2016 justamente no dia que começou o Slam da grama. Suas seis vitórias já a recolocam no sétimo lugar e o eventual título, em quarto. Seria mesmo uma redenção espetacular.

O histórico entre as duas finalistas aponta vantagem de 5 a 2 para Barty. Elas se cruzaram há muito tempo na grama, em 2012 e 2016, com uma vitória para cada lado, e no momento Barty tem três triunfos seguidos, incluindo o saibro de Stuttgart, em maio, com 7/5 no terceiro set.