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Nadal em cena
Por José Nilton Dalcim
19 de dezembro de 2021 às 23:06

Enfim, depois de quatro amargos meses, ainda que tenha sido num torneio não-oficial, Rafael Nadal voltou a competir. A tradicional exibição de Abu Dhabi mostrou um piso um tanto veloz e permitiu que o espanhol fizesse dois jogos exigentes tanto no aspecto técnico como físico. E ele não se deu mal, apesar de ter saído com derrotas diante de Andy Murray e Denis Shapovalov.

O espanhol gostou do que fez em quadra, mas não confirmou presença nem no ATP 250 de Melbourne, que começa no dia 4, muito menos no Australian Open, duas semanas depois. Ele argumenta que precisa sentir a reação do corpo – e principalmente do problemático pé esquerdo – nos próximos dias e que a avaliação será feita por toda a equipe, ou seja, haverá também palpite dos médicos.

Se considerarmos a longa parada desde Washington – e mesmo lá Rafa não estava bem -, a movimentação nos dois jogos em Abu Dhabi foi a contento. Deu para ver um espanhol com intuito de ser mais agressivo da base, embora obviamente o saque estivesse instável e isso tenha prejudicado muito vezes a ideia de encurtar pontos. De qualquer forma, Rafa chegou bem nas bolas, não economizou pernas e só mesmo no final do jogo contra Shapovalov pareceu um pouco mais lento e por consequência perdeu acuidade.

Todo mundo sabe, e com certeza ele próprio, que a quadra dura não é o local mais adequado para quem volta de contusão nos membros inferiores, devido ao impacto, algo que se agrava pelo estilo físico nada econômico do canhoto espanhol.

Por isso, não será surpresa se ele evitar o Australian Open e focar mesmo no seu habitat natural. A frase ao final da segunda entrevista é um indicativo: “Acredito que ainda posso ser competitivo e me dar chances de lutar pelas coisas que fiz de melhor nos últimos 15 anos”.

Slam, vacina e Federer
– Questionado sobre a disputa direta contra Novak Djokovic e Roger Federer pelo recorde de troféus de Grand Slam, Rafa foi cirúrgico: “Eu e Roger sofremos com contusão nos últimos cinco ou seis meses, então estamos em pé de igualdade. As chances de Novak são muito maiores do que a nossa”.
– Nas declarações que fez em Abu Dhabi, Nadal falou mais de uma vez que não está competitivo desde Roland Garros, quando já sentia o problema no pé, daí considerar que não esteve realmente em forma por todo o segundo semestre.
– Antes de derrotar Rafa na disputa do terceiro lugar neste sábado, Shapovalov foi quem mais treinou com o espanhol e se disse impressionado com a qualidade do megacampeão: “Ele me matou em quadra. Sempre que bato bola com ele, digo a mim mesmo ‘caramba, como ele é bom’. Você sente quão grande esses caras são quando treina com eles”.
– Claro que o tema vacina tinha que estar na mesa: “Não posso querer saber mais do que os especialistas, então se eles dizem que é preciso vacinar, quem sou eu para ter opinião diferente? Entendo aqueles que não querem se vacinar, mas acho isso um pouco egoísta”.
– Nadal também falou sobre Federer e afirmou categoricamente que os dois são hoje amigos muito próximos e que conversam com frequência. ‘Sei quais seus planos de seu retorno, mas não sou eu quem vai dizer isso para vocês’.

A dura nova era dos Masters
Por José Nilton Dalcim
10 de agosto de 2021 às 21:10

Desde agosto de 2006, quando Novak Djokovic galgou o ranking, entrou no top 30 e passou a ter direito a disputar todos os grandes torneios que quisesse,  apenas dois eventos de nível Masters 1000 não tiveram a presença de ao menos um dos chamados Big 3, grupo da super elite que inclui Roger Federer e Rafael Nadal.

O primeiro deles foi em março deste ano, em Miami, quando Djokovic preferiu cuidar melhor da lesão abdominal contraida em Melbourne, Rafa sentia problema nas costas também da Austrália e Federer ainda estava em dúvida quanto a seu joelho, abalado com o desempenho fraco em Doha.

O segundo acaba de acontecer em Toronto. Federer continua com o joelho instável, Djokovic preferiu descansar após a aventura olímpica e Nadal voltou a sentir o pé, contusão que o tirou de Wimbledon e de Tóquio.

E o terceiro pode vir na semana que vem em Cincinnati, que já sabe que não terá Nole nem Roger e certamente passa a considerar a ausência do canhoto espanhol. A dura nova era dos Masters só pode sonhar em reunir o Big 3 em Paris, já que Xangai foi retirado do calendário de 2021.

Ao que tudo indica, Djokovic optou por poupar-se ao máximo e entrar com máxima energia no US Open, ainda mais diante do clima pesadíssimo que atormenta o verão no Hemisfério Norte no momento. Será a primeira vez desde 2010 que não jogará um preparatório importante antes do quarto Slam. Ainda que tenha sentido dor no ombro em Tóquio, ele tem melhores motivos do que os parceiros do Big 3 para saltar os Masters, já que se mostrou em ótima forma a partir da metade da fase do saibro.

A situação de Nadal, ao contrário, preocupa muito. Ele ficou dois meses afastado com a lesão no pé esquerdo, entrou em Washington e, mesmo com apenas dois jogos realizados, voltou a sentir o problema. Foi a Toronto e treinou nos últimos dias, até que no final desta tarde percebeu que forçar poderia comprometer de vez a presença em Nova York. Muito pouco provável que se arrisque em Cincinnati, ainda que não se descarte sua presença na chave de duplas, como forma de buscar ritmo sem forçar tanto.

Federer, tal qual Nole, já anunciou que não disputará nenhum dos Masters, completando 22 meses sem competir nesta categoria de torneio. Talvez esteja resguardando forças para o US Open, porém é difícil acreditar que o suíço possa estar competitivo logo num torneio tão exigente e em melhor de cinco sets. Ele não joga desde a triste derrota em Wimbledon.

Em termos de ranking, Djokovic não corre grande risco de perder a liderança, a menos que Daniil Medvedev faça mágicas e levante os três troféus, sem falar que o próprio sérvio ainda não pode ir além das quartas em Flushing Meadows. Nadal já perdeu os pontos de Toronto e o terceiro lugar e sofre ameaça de ser superado por Alexander Zverev, caso o alemão seja finalista em Cincinnati. Já o suíço só cairá para 10º se Denis Shapovalov ganhar algum dos Masters.

Que os candidatos ao futuro trono do tênis aproveitem a oportunidade de ouro que têm pela frente.

P.S.: Lance inusitado, com decisão incrível da juíza.

A um passo da eternidade
Por José Nilton Dalcim
9 de julho de 2021 às 18:55

Novak Djokovic cumpriu todos os prognósticos, ganhou 18 sets consecutivos, mostrou o melhor tênis de todos os outros 127 participantes e está agora a um passo de igualar os 20 troféus de Grand Slam de seus mais diretos adversários, mas com vantagens numéricas e estatísticas que o colocarão acima de Roger Federer e Rafael Nadal caso derrote o estreante finalista Matteo Berrettini e conquiste seu sexto Wimbledon neste domingo.

Nole tem a oportunidade de ganhar os três primeiros Grand Slam de uma mesma temporada, algo que só Rod Laver fez na Era Profissional, mas diferentemente do excepcional australiano ele tentará tal feito em três pisos distintos. Desde 1968, apenas Rafa conseguiu ganhar três Slam sequenciais em superfíceis diversas, mas sua façanha de 2010 foi em ordem diferente (Paris, Londres e Nova York). o que não abriu caminho para ‘fechar o Grand Slam’.

Mais uma vez, Djokovic declara que Wimbledon é o maior troféu que se pode sonhar no tênis. E ele está perto de somar seis conquistas na legendária Quadra Central no curto espaço de 10 anos, tornando-se o digno sucessor de Federer e Pete Sampras como ‘rei da grama’. Aliás, o piso natural do tênis passou a ser o de maior sucesso do sérvio em termos percentuais: 101 vitórias em 119 jogos, ou seja, 84,9%, ligeiramente acima dos 84,3% da quadra dura e dos 80,4% do saibro. Apenas ele, Federer e Andy Murray passaram de uma centena de vitórias na grama.

A vitória sobre o canhoto Denis Shapovalov desta sexta-feira provou o quanto a experiência faz diferença em Wimbledon e reforçou o poder mental tão diferenciado de Djokovic, salvando break-points cruciais e aproveitando as chances na hora certa. O canadense jogou bem, mas falhou sempre nos momentos decisivos de cada set, principalmente é claro quando sacou para fechar a série inicial e cometeu erros imperdoáveis diante do número 1 do mundo. Perdeu o tiebreak e o segundo set com dupla falta.

O sérvio também fez mais aces, ganhou mais pontos com o primeiro saque, errou infinitamente menos (15 em  37 games!) e praticou o clássico saque-voleio com perfeição, enquanto o jovem adversário forçou muito, mas ficou preso demais na base, com 36 falhas e 40 winners. Foi sua primeira semifinal e é bem possível que se candidate a aventuras ainda maiores na grama quando amadurecer o necessário.

Com seis semis vencidas desde 2013 – desde então, só não chegou lá em 2016 e 2017 -, esta será a sétima decisão de Djokovic no Club, igualando Sampras e Boris Becker, e a 30ª de Slam, o que o deixa apenas uma atrás do recordista Federer. Desde que ergueu o troféu de Wimbledon em 2018, Nole só deixou de estar numa final de Slam por três vezes.

Berrettini aumenta festa italiana
O grande momento do tênis masculino italiano merecia mesmo sua primeira final de Grand Slam em 45 anos. Mais especial ainda, a primeira no templo sagrado do tênis em todos os tempos. E, como todo mundo sabe, ainda no mesmo domingo em que a Azzurra disputará a final da Eurocopa a poucos quilômetros dali, no final do dia.

A vitória desta sexta-feira sobre a surpresa Hubert Hurkacz, que vinha de vitórias sobre Daniil Medvedev e Federer, seguiu o script imaginado, apesar de o polonês ter vivido altos e baixos mais intensos. A partir do 3/3 do primeiro set, perdeu 10 games seguidos. Não se conformou, continuou brigando e enfim fez um set num padrão elevado e viu um raro momento infeliz do adversário com o saque ao longo do tiebreak. Mas a quebra logo de cara no quarto set criou pressão grande e ele só tirou cinco pontos de Berrettini no serviço italiano. A estatística mostra a diferença: 60 a 27 nos winners, com 22 a 5 nos aces, e nenhum break-point de Hurkacz.

Com 1,96m, Berrettini se encaixou mesmo na grama. São 11 vitórias seguidas, incluindo a conquista no Queen’s Club, e os números divulgados pela ATP são notáveis: nesse sequência, fez 169 aces (101 em Wimbledon), ganhou 83,5% dos pontos quando acertou o primeiro saque (82%) e 58,5% com o segundo serviço (61%). Nestas duas semanas, manteve 95 de 100 games de serviço (95%), apenas um pouco pior do que em Queen’s (56 de 58, com 97%) e salvou 22 de 27 break-points (81%), depois de ter evitado 10 de 12 (83%) há quatro semanas.

Como se pode ver claramente, sua maior arma tem sido o saque, o que também permite usar o pesadíssimo forehand de qualquer ponto da quadra, já que costuma fugir muito para o lado esquerdo. Ele sabe que o backhand é o ponto frágil e onde todo adversário vai tentar desestabilizá-lo, mas a defesa com slice na grama tem muito mais eficiência do que em qualquer outro piso e geralmente traz um problema para quem está do outro lado.

Nos dois duelos que fez contra Djokovic, perdeu. O primeiro veio no Finals de 2019 e levou uma aula, mas há dois meses em Roland Garros conseguiu até tirar um tiebreak do sérvio e caiu no quarto set por 7/5. Dos cinco títulos que tem na carreira, dois foram na grama. Nesta temporada, ganhou Belgrado e Queen’s e foi à final de Madri, onde levou virada de Alexander Zverev. Com justiça, já garantiu volta ao 8º lugar do ranking e passa a ser  o 3º mais bem pontuado da temporada.

Força contra jeito
A final feminina de Wimbledon também é muito especial, porque envolve duas tenistas que têm estilos diferentes porém ambos muito eficientes para as quadras de grama. Enquanto Ashleigh Barty aposta nas trocas de efeito e velocidade, com slice perigoso e boa mão para os voleios, Karolina Pliskova aposta na força do saque e de seu excelente forehand que gera golpes retos e quique baixo.

Obviamente, ganhar Wimbledon é um sonho enorme para ambas, mas arriscaria a dizer que existe mais pressão sobre Pliskova que, aos 29 anos, vê uma rara chance de enfim conquistar seu primeiro Slam. Quatro anos mais jovem, Barty se vira bem nos variados pisos e ainda tem várias temporadas à frente para aumentar seus números.

Além disso, a australiana costuma mostrar mais firmeza emocional do que a adversária, ainda que Pliskova tenha anotado uma virada excepcional na semi contra Aryna Sabalenka e deve ter se enchido de confiança. Promessa de um grande jogo.