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Festa russa em Cincinnati continua
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 23:02

Entre tantas surpresas que a temporada 2019 nos tem reservado, a virada de Daniil Medvedev em cima de Novak Djokovic na semifinal de Cincinnati está facilmente entre os resultados menos esperados. De repente, o sérvio perdeu a consistência e a confiança, dando ao russo forças inimagináveis para um final de partida soberbo.

Em sua terceira final em semanas consecutivas, agora com duas vitórias seguidas sobre o número 1 do mundo em pisos bem distintos, Medvedev terá uma nova chance de conquistar seu primeiro troféu de Masters 1000 e, por que não, se tornar a maior ameaça ao Big 3 no tão próximo US Open.

Uma coisa é certa: a temporada verá o terceiro campeão inédito de Masters, já que o outro finalista é o belga David Goffin, que nunca chegou tão longe nesse nível. Quem vencer, se juntará a Dominic Thiem (Indian Wells) e Fabio Fognini (Monte Carlo). Isso iguala 2017 (Alexander Zverev, Grigor Dimitrov e Jack Sock) e 2018 (Juan Martin Del Potro, John Isner e Karen Khachanov).

Assim como fez Nole ao final do jogo, teremos todos de cumprimentar Medvedev por sua resiliência. Foi jogado de um lado para outro no primeiro set, pediu atendimento para dor muscular no braço direito e fez coisas fora do seu padrão para se tornar competitivo, ora com curtinhas, ora com voleios. Cravou até ace de segundo saque. Bastou um vacilo de Djokovic, uma queda repentina de intensidade, para o russo obter a primeira quebra e ganhar vida nova. Dominou o jogo a partir daí com extrema coragem e empenho físico. Incrível.

Estará agora diante de Goffin pela terceira vez na temporada, tendo vencido em sets diretos no Australian Open e perdido um jogo duríssimo na terceira rodada de Wimbledon, em que chegou a liderar por 2 sets a 1. É meu favorito natural ao título, mas tudo indica que terá de jogar o máximo outra vez.

Aos 28 anos, Goffin parece ter se reencontrado e curiosamente não foi sobre o saibro, mas na grama, onde somou 10 vitórias, com vice em Halle e quartas em Wimbledon, o que o levou de volta ao top 20. Não por acaso, Cincinnati também é um piso bem mais veloz e ele tem feito um jogo propositivo. Dominou Richard Gasquet com 27 winners (contra 15) e 14 erros (frente 23).

Semi no ano passado, quando abandonou pela metade a partida contra Federer, Goffin enfim terá chance de conquistar um grande título, algo que escapou no Finals de 2017. Na verdade, ele não ganha um torneio há 22 meses. Possui apenas quatro troféus na carreira em 12 finais anteriores e um único ATP 500, em Tóquio.

Kuznetsova amplia festa russa
A chave feminina também tem um grande destaque russo: a veterana Svetlana Kuznetsova, de 34 anos, dá a volta por cima a uma fase cheia de problemas físicos e é responsável direta pela permanência de Naomi Osaka na liderança do ranking, já que acabou com o sonho de Karolina Pliskova e de Ash Barty. Aliás, sua campanha em Cincinnati inclui três vitórias sobre top 10.

Fato curioso, Sveta teve problemas com visto para entrar nos Estados Unidos e por isso não defendeu o título de Washington e quase encerrou o calendário. De volta ao top 70, enfrentará na decisão a tenista da casa Madison Keys, que também atravessa um ótimo momento e a quem jamais venceu em três duelos. Keys eliminou Simona Halep, Garbine Muguruza e Venus Williams. Precisa do maior título da carreira para retornar ao grupo das 10 melhores. Esta final promete.

E mais
– A semana incrível do tênis russo em Cincinnati teve também a vitória de Andrey Rublev sobre Federer e o duelo tenso e confuso de Khachanov em cima de Nick Kyrgios.
– Medvedev é o tenista com maior número de vitórias na temporada, com 43, uma a mais que Rafael Nadal e três sobre Roger Federer.
– Ele também lidera em triunfos na quadra dura, agora com 30, bem cima das 20 de Bautista Agut e Stefanos Tsitsipas.
– Goffin enfim chega a sua primeira final de Masters depois de quatro tentativas frustradas. Saindo do saibro em junho, era 33º do mundo, sua mais baixa classificação desde 2014.
– Nadal chegará ao US Open como líder do ranking da temporada, 140 pontos à frente de Djokovic, o que é mais um ingrediente saboroso para Nova York.
– Thiago Monteiro irá reaparecer no top 100 na segunda-feira. Conseguiu vaga direta e joga o ATP 250 de Winston antes do US Open, mas a estreia é dura contra o garoto australiano Alexei Popyrin.

Medvedev, o novo ironman russo
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 00:27

Se competir em alto nível por dois torneios seguidos tem sido difícil no circuito masculino atual, imagine então o que é disputar 14 partidas de simples em três semanas sucessivas, com duas finais e agora uma semi. E olha que o piso duro, como os de Washington, Montréal e Cincinnati, machuca mais o corpo do que qualquer outro.

Daniil Medvedev está surpreso até consigo mesmo pela qualidade e tenacidade de seu tênis, a ponto de sequer ter perdido sets em Cincy até agora. Na verdade, ele ganhou nada menos do que 24 dos 28 sets que disputou nessa trajetória incrível na temporada de verão da quadra sintética.

Esta foi sua 42ª vitória em 58 jogos na temporada, lembrando os ‘ironmen’ russos, como Yevgeny Kafelnikov e Nikolay Davydenko. Contemporâneo de Guga Kuerten, Kafelnikov assombrou mais de 80 partidas feitas por seis temporadas seguidas, chegando a 105 tanto em 1995 como em 1996.

É importante observar ainda o estilo um tanto atípico de Medvedev, com opção por bolas muito retas dos dois lados, saque forçado e movimentação admirável para quem mede 1,98m. Será suficiente para repetir a inesperada vitória sobre Novak Djokovic no lento saibro de Monte Carlo de abril? É uma boa pergunta, e eu diria que sua chance está num alto percentual de primeiro saque e na determinação de arriscar backhand na paralela o mais cedo possível.

Se Medvedev atropelou o amigo Andrey Rublev, que não foi sequer sombra do tenista veloz e determinado que surpreendeu Roger Federer na véspera, Djokovic foi exigido por um primeiro set de grande qualidade de Lucas Pouille, mas deu pequeno susto ao pedir atendimento para o cotovelo direito no finzinho da partida. Felizmente, completou a vitória nos dois games seguintes sem sinal de dor.

Tenista de recursos, Pouille foi totalmente diferente daquele que levou surra em Melbourne. Sacou bem, ousou na rede, usou curtas e forçou paralelas. Falhou na parte mental, o que nem é tão novidade assim, e cometeu uma sucessão absurda de erros no tiebreak, justamente onde o emocional é tão necessário. E força mental sobra para o líder do ranking.

Djokovic vai em busca da 50ª final de Masters da carreira em sua 66ª semi. Se vencer às 19h deste sábado, retoma a liderança do ranking da temporada, com vantagem de 100 pontos sobre Rafael Nadal, que pode subir a 500 se levar o bi em Cincinnati e se tornar o único profissional com ao menos dois troféus em cada Masters. É um final de semana especial.

Semi inesperada
A outra semi é daquelas que dificilmente alguém imaginaria quando a chave foi sorteada, ainda que o setor inferior tenha ficado capenga com a desistência de Rafael Nadal. Claro que envolverá dois ex-top 10 que já estiveram em várias semifinais de nível Masters e isso pode garantir um bom espetáculo.

Richard Gasquet já me chamou a atenção em Montréal, porque parecia menos medroso com o forehand, tendo tirado Paire e Nishikori antes de perder para o mesmo Roberto Bautista que dominou com louvor em Cincinnati. Usou desta vez um recurso interessante, que foi diminuir a potência dos golpes para tirar o contragolpe que o espanhol gosta tanto.

Saibrista que foi aos poucos moldando melhor seu tênis, David Goffin já havia feito grandes campanhas na grama, tanto em Halle como em Wimbledon, mas perdido nas estreias de Washington e Montréal. Nem precisou entrar em quadra, favorecido pelo abandono de Yoshihito Nishioka.

Não há favoritismo no terceiro duelo entre Goffin e Gasquet, empatado por 1 a 1, mas vale lembrar que o belga fez semi em Cincinnati no ano passado. Goffin nunca decidiu um Masters em quatro tentativas e Gasquet chega na sua primeira semi desde 2013, tendo sido finalista de Toronto em 2012, a terceira e mais recente que conseguiu.

Osaka torce duas vezes
Quando parecia estar reencontrando alegria de estar na quadra, justamente às vésperas de defender seu título no US Open, Naomi Osaka teve uma notícia ruim. Contundiu o joelho, abandonou as quartas de Cincinnati, pode perder a liderança do ranking se Ash Barty vencer neste sábado e, mais grave de tudo, agora vê sua presença no quarto Slam da temporada sob risco.

Com a desistência de Osaka, Sofia Kenin marcou sua sétima vitória sobre top 10 e a segunda seguida sobre uma líder do ranking em semanas consecutivas. Enfrenta agora Madison Keys, que tirou Venus Williams com a incrível diferença de 39 a 3 nos winners.

Muito mais magra, Svetlana Kuznetsova tirou a chance de Karolina Pliskova brigar pelo número 1. A experiente russa dona de dois Grand Slam já tirou três das 11 primeiras do ranking nesta semana e agora encara Barty, que marcou grande virada sobre Maria Sakkari.

O grande desafio
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2019 às 19:57

Roger Federer pode estar diante da maior façanha de sua carreira; Se quiser recuperar o troféu de Wimbledon e erguê-lo por uma impensável nona vez, terá muito provavelmente de derrotar Rafael Nadal e Novak Djokovic. E isso parece especialmente difícil porque tanto o espanhol como o sérvio jogaram até aqui um tênis superior ao do próprio suíço.

Adversário de sexta-feira, num reencontro que não acontecia na Quadra Central desde as três finais consecutivas de 2006 a 2008, Nadal está jogando um tênis tão exuberante que Federer o encheu de elogios. Reconheceu antes de tudo que o espanhol é um tenista muito superior ao de 11 anos atrás e que está longe de ser apenas um jogador de saibro.

Federer no entanto fez seus três melhores sets no torneio diante de Kei Nishikori. Surpreendido no começo por um tênis consistente do japonês, optou por bater mais o backhand e atacar as devoluções. A virada veio quase com naturalidade, ainda que ele tenha desperdiçado muitos break-points por vezes exagerando na força com que batia na bola. Fez um lance defensivo de incrível qualidade, cruzando a quadra de uma ponta à outra para obter a passada de backhand no contrapé a 150 km/h. Os voleios… bem, os voleios do suíço dispensam adjetivos.

O backhand batido e as devoluções agressivas serão chave diante de Nadal. O espanhol no entanto está sacando demais e contra Sam Querrey incluiu mais uma variação de sucesso, com muitos serviços sobre o corpo do grandalhão. Como se esperava, o norte-americano deu trabalho e endureceu o primeiro set, mas ficou difícil viver quase exclusivamente do primeiro saque e pouco a pouco foi dominado pelo espanhol. Voleios curtos, slices e passadas milimétricas complementaram outra atuação vistosa do número 2, com nada menos do que 42 winners.

Não resta dúvida de que o 40º capítulo do ‘Fedal’, e o segundo seguido de Grand Slam, tende a roubar todas as cenas da semifinal de sexta-feira, ainda mais porque parece haver pequeno favoritismo de um lado ou de outro. No entanto, Djokovic e Roberto Bautista também podem dar um belo espetáculo, principalmente se o espanhol se livrar com rapidez do nervosismo natural da inédita presença numa penúltima rodada de Slam e se lembrar das duas vitórias obtidas em 2019 sobre o número 1.

Finalista em cinco das últimas oito edições de Wimbledon, período em que ergueu seus quatro troféus, Djokovic levou um pequeno susto com o grande começo de partida de David Goffin. Solto, leve e determinado, o belga desceu o braço, apertou todos os serviços do sérvio até obter a quebra, abrir 4/3 e 30-0. Aí virou abóbora. Passou 10 games em quadra totalmente perdido,  incapaz de fazer frente ao jogo cada vez mais acelerado do líder do ranking. Djoko atropelou o finalista de Halle dando-se ao luxo de desacelerar no terceiro set.

Bautista joga diferente. Não força tanto o saque e procura sempre um percentual alto para manter o adversário sob pressão. Bate bem mais reto na bola, o que na grama funciona bem, e fica pertinho da linha na procura dos contragolpes. Tem surpreendido em Wimbledon com idas mais frequentes à rede, média superior a 20 por jogo. O duelo contra Guido Pella foi bem divertido, os dois muito empenhados o tempo todo, games longos e chances para os dois lados. Prevaleceu o oportunismo do espanhol, que converteu 4 de 16 break-points, salvando-se em 11 de 13 chances que cedeu.

Em que pese os resultados de Doha e de Miami – houve outra vitória do espanhol nos 10 confrontos, na veloz Xangai em 2016 -, o favoritismo é todo de Djokovic porque possuiu duas grandes habilidades essenciais sobre a grama: saque e devolução.

E mais
– É a 13ª vez que o Big 3 domina as semis de um Slam e a segunda seguida. Antes disso, só haviam se reunido em Roland Garros de 2012.
– Federer se torna primeiro homem na história com 100 vitórias num mesmo Slam e assume o recorde de mais vitórias sobre a grama da Era Aberta, com 186. É ainda o mais velho semi de Slam desde Connors no US Open de 1991, quando tinha 39 anos.
– Djoko iguala as 9 semis de Becker em Wimbledon e chega a 70 vitórias no torneio, que passa a ser seu Slam de maior sucesso (tem 69 no US Open ainda a ser disputado).
– Nadal soma agora 32 semis de Slam e assim o Big 3 pontua a lista (Federer tem 45 e Djoko, 36). Os três também são os únicos a ter pelo menos 50 vitórias em cada Slam.
– É a primeira vez na história de Wimbledon que dois espanhóis estão na semi.
– Bautista retornará a seu recorde pessoal do 13º posto. Se for à final, entrará no top 10.
– Magnífica vitória de Bruno Soares e Nicole Melichar (que jogou muito!) sobre Andy Murray e Serena Williams. Cabeças 1, eles avançaram para as quartas. O escocês sai de certa forma decepcionado com as poucas vitórias com Pierre Herbert e Serena.
– Semis femininas começam às 9h com Elina Svitolina diante de Simona Halep, seguindo-se Serena contra Barbora Strycova. A aposta lógica é Halep x Serena na final de sábado. Seria a primeira da romena no Club e a 11ª da heptacampeã.