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Sexta-feira mágica na Caixa
Por José Nilton Dalcim
5 de maio de 2022 às 18:52

O aguardadíssimo reencontro entre Rafael Nadal e Carlos Alcaraz coroa uma sexta-feira do mais alto gabarito nas quartas de final do Masters 1000 de Madri. Nada menos que sete top 10 estarão em quadra, seis deles com no máximo 25 anos, além é claro dos dois maiores ganhadores de Masters da história. Será que existem favoritos?

Com certeza. A começar pelo próprio Nadal. Ainda que tenha ficado por quatro vezes a um ponto da derrota para o valente David Goffin, o rei do saibro adorou essa extrema dificuldade de 3h09 e garante que isso o ajudou tanto na confiança como no apuro físico. Esteve várias vezes contra a parede. Começou o jogo com quebra atrás, mas tomou o domínio imaginado com distribuição muito firme de bolas e deveria ter completado a vitória em dois sets.

Depois de ter evitado dois match-points, Goffin mudou sua postura e passou a jogar de forma bem mais agressiva, pegando bola na subida para ganhar potência e diminuir o tempo do adversário. Fez um ótimo terceiro set, evitando os dois únicos break-points de toda a série logo no game inicial. E teve toda chance do mundo no tiebreak, principalmente no segundo match-point, quando deixou na rede um forehand de ataque bem fácil.

Inspirado na façanha do Real Madrid na véspera, Rafa colocou todo o coração em quadra, salvou mais dois match-points com curtinhas desconcertantes e por fim saiu vitorioso. Jamais perdeu um tiebreak desde que Madri mudou para o saibro, em 2009, totalizando agora 10.

Quem imagina que isso tudo irá gerar grande desgaste, fica certamente surpreso quando Nadal diz que foi excelente ter passado por todo esse sufoco. “Preciso de dias como este para entrar em forma mais rapidamente”, atestou.

Em sua 99ª presença nas quartas de um Masters 1000, ele será desafiado outra vez pela juventude, potência e variação de Alcaraz. Como presente pelos 19 anos completados nesta quinta, ele passou pelo também canhoto Cameron Norrie, mas sem brilhar tanto. “Estou ansioso pela terceira chance”, afirmou ele, que há um ano perdeu para Nadal lá mesmo em Madri em sets rápidos e poucas semanas trás fez um duelo eletrizante na semi de Indian Wells.

Frustrações
Madri deveria ter tido seu primeiro grande momento nesta quinta-feira com a reedição do duelo entre Djokovic e Andy Murray, mas o escocês frustrou todo mundo ao contrair uma intoxicação alimentar e nem entrar em quadra. O número 1 avançou e talvez essa falta de jogo não seja uma boa notícia, já que vai encarar agora o peso pesado Hubert Hurkacz. É bem verdade que Nole venceu todos os três duelos entre eles, mas o polonês deu enorme trabalho em Bercy no ano passado e tirou um set do sérvio em Wimbledon de 2019.

Os italianos Jannik Sinner e Lorenzo Musetti também decepcionaram. Esperava-se uma batalha entre Sinner e Felix Aliassime, mas o pupilo de Toni Nadal foi absoluto. vencendo 90% dos pontos em que acertou o primeiro saque. Aliás, o canadense havia atropelado Cristian Garin na rodada anterior e assim coloca pulga atrás da orelha de Alexander Zverev, que se favoreceu do abandono de Musetti depois de 10 games. O alemão tem 4 a 2 no histórico, mas Aliassime venceu 2 dos 3 últimos, o que diminui a cotação de Zverev para quem sabe 60%.

Por fim, Stefanos Tsitsipas justificou favoritismo com atuação muito firme diante de Grigor Dimitrov, repetindo a recente vitória em Barcelona, e cruzará pela nona vez com Andrey Rublev, com quatro vitórias para cada lado; “Vou ter que me concentrar no meu jogo defensivo um pouco mais”, avaliou o grego. Os dois aliás já ergueram troféus no saibro deste ano. Tsitsipas foi bi em Monte Carlo e Rublev venceu Belgrado com ‘pneu’ em Djokovic. Este sim é um jogo sem prognóstico.

Título gigante
Embora Ons Jabeur tenha currículo mais vistoso do que Jessica Pegula, as duas finalistas de Madri têm um desafio em comum: ganhar o segundo título da carreira e, de longe, o mais importante deles. Tenho a impressão que dominar a ansiedade será a chave desta curiosa decisão.

A tunisiana já figura no top 10 graças à inegável consistência de suas campanhas, porém lhe falta um troféu de peso, depois de ter perdido quatro das cinco finais que já participou, a maior delas uma de nível 500 em Chicago. É dono de um tênis gostoso de se assistir, com variações constantes. Fica apenas a dever na parte emocional.

Pegula, todo mundo sabe, é de família muito rica e isso merece ser encarado como um elogio a seu grande esforço de arrumar um lugar de respeito no circuito. Esta será apenas sua quarta final, a primeira no saibro. Sem abandonar os golpes mais retos, que no final das contas funcionam nas condições mais velozes de Madri, pode enfim chegar ao top 10 em caso de conquista do título.

Para colocar o molho apropriado, o duelo direto entre elas está empatado por 2 a 2.

Dor e redenção
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2021 às 19:03

No dia em que Roger Federer voltou a mostrar seu estilo vistoso e no qual Daniil Medvedev encerrou o incômodo jejum de vitórias em Paris, a notícia mais relevante e dolorosa foi o abandono de Naomi Osaka. Não por questões técnicas ou físicas, mas por não aguentar a pressão do circuito, que tem levado sua personalidade introspectiva a crises de depressão. E estamos falando de uma atleta muito bem sucedida e a mais bem paga do mundo.

O comunicado que Osaka soltou nas suas mídias sociais para explicar sua decisão de sair do torneio e voltar para casa foi muito sensato e é especialmente importante para abafar esse incêndio tão desnecessário que ela mesma acabou criando.

Vejamos os pontos principais:
– “Aceito que minha mensagem poderia ter sido mais clara”.
– “Tenho sofrido com longas crises de depressão desde o US Open de 2018 e tive muita dificuldade para lidar com isso”.
– “Os jornalistas que cobrem tênis sempre foram educados comigo”.
– “Fico muito ansiosa quando tenho que falar com a imprensa”.
– “Peço desculpas à organização”.
– “Gostaria de conversar depois do torneio, discutir maneiras de tornar as coisas melhores para os jogadores, para a imprensa e para os fãs”

Ou seja, Osaka tinha um motivo concreto para evitar as entrevistas, mas admite que não trilhou o caminho mais indicado para tentar resolver o problema, passando a muita gente um ar de arrogância e não de sofrimento. Reconhece a importância da imprensa e não se vitimizou por supostas perseguições, deixando claro que é uma questão totalmente pessoal, de relacionamento com o mundo exterior. E o mais relevante: se abre ao diálogo para tentar achar soluções que atenda a todos os interesses do circuito.

Naomi é uma personalidade de peso no mundo do esporte e tem o respeito e a admiração de muitas jogadoras, principalmente as ícones da luta por direitos, sem falar numa grande legião de fãs que extrapola o universo do tênis. Por isso não se deve apenas lamentar o que esteja acontecendo com sua saúde mental, mas acima de tudo unir forças para se encontrar medidas que diminuam o estresse desse tenso e concorrido circuito.

Lá na quadra
Medvedev enfim espantou seus fantasmas e marcou uma vitória convincente sobre Alexander Bublik. Claro que isso ainda não o credencia a aventuras maiores porque será preciso testar sua resiliência diante das frustrações que o saibro causa. Quem sabe, atuações firmes contra Tommy Paul, Reilly Opelka ou Jaume Munar enfim o coloquem em condições de encarar um Cristian Garin antes do possível desafio contra Stefanos Tsitsipas. Foi bom vê-lo dar voleios, deixadinhas e risadas.

Denis Istomin demonstrou a fragilidade esperada no saibro, mas isso não tira o prazer de se assistir às acrobacias de Federer, que entrou com plano de jogo bem definido. Apostou em curtinhas, fez transições corretas à rede, acelerou sempre que pôde as trocas e principalmente sacou com firmeza: 71% de primeiros saques, 8 aces, apenas 12 pontos perdidos com o serviço e nenhum break-point permitido. Reencontra Marin Cilic, de quem se deve esperar maior dificuldade, e pode chegar à terceira rodada diante de Taylor Fritz.

Destaque para os garotos Lorenzo Musetti, Jannik Sinner e Casper Ruud. O primeiro dominou um David Goffin perdido, o segundo esteve a um ponto da derrota frente Pierre Herbert mas mostrou novamente frieza e o norueguês manteve um padrão alto diante de um animado Benoit Paire, que deixou a quadra aos prantos. Surpresa mesmo foram as quedas de Lorenzo Sonego e Sebastian Korda.

Monteiro começa bem
Embora não tenha feito uma estreia espetacular, o aniversariante Thiago Monteiro cravou o favoritismo diante do jovem argentino Francisco Cerundolo e tem toda a chance do mundo de repetir a terceira rodada do ano passado diante de Steve Johnson.

O brasileiro só perdeu um serviço, evitando seis break-points, e tomou atitude mais passiva. Fez 18 winners e 29 erros, muito inferior aos 29 e 48 do adversário, que arriscou mais. Me agradou a consistência do serviço, com 71% de acerto e 75% de pontos vencidos com o primeiro saque.

Surpresas no feminino
Seis cabeças de chave não passaram da estreia na chave das meninas até agora, com destaque necessário para o esforço de 3h23 de Bianca Andreescu e a má atuação de Garbiñe Muguruza. Também caiu a sensação de 2020 Nadia Podoroska, que tirou apenas três games de Belinda Bencic. Também houve a esperada emoção no duelo em que Sofia Kenin tirou Jelena Ostapenko, num tiroteio em que 80 dos 194 pontos foram erros não-forçados.

Apesar do susto de um segundo set irregular, muito por conta de rajadas de vento, Iga Swiatek iniciou a defesa do título e tirou a amiga Kaja Juvan. Já Serena Williams quase perdeu o primeiro set para Irina Begu, mas não foi uma decepção no saibro lento da noite parisiense.

O terceiro dia
Finalmente teremos as estreias de Rafael Nadal e Novak Djokovic em Roland Garros. O espanhol joga no meio da tarde local e o sérvio estará na esvaziada sessão noturna. A outra estrela do dia é a número 1 Ashleigh Barty.
– Popyrin foi campeão juvenil em Paris há quatro anos e deu certo trabalho a Nadal na terceira rodada de Madri semanas atrás.
– Sandgren perdeu os três duelos contra Djokovic, nenhum no saibro, mas vive temporada em que só ganhou três jogos de nível ATP.
– Albert Ramos, com 17 vitórias no saibro este ano, é candidato sério a tirar Monfils, que só ganhou um jogo em 2021.
– Lembram do garoto dos drop-shots, que enlouqueceu Wawrinka e levou Thiem a cinco sets no ano passado? Hugo Gaston está de volta contra Gasquet.
– Rublev reencontra Struff, que dias atrás lhe deu muita dor de cabeça em Roma.
– Barty retorna a Paris para defender o título de 2019, já que não competiu no ano passado.
– A jovem Babel nunca enfrentou uma tenista entre as top 350 e terá de jogar contra Svitolina na abertura da Chatrier.
– Campeã juvenil de Paris em 2018, vencedora de Parma no sábado e semi em Roma, Gauff é um dos nomes a se ficar de olho.

Rublev garante mais renovação
Por José Nilton Dalcim
16 de abril de 2021 às 18:36

Um dia depois de ser sacudido pela inesperada queda do número 1 do mundo para um adversário de parco currículo no saibro, Monte Carlo assistiu ao domínio do tênis-força do russo Andrey Rublev sobre o multicampeão Rafael Nadal, justamente na mesma lenta quadra principal em que o canhoto espanhol ergueu seus 11 troféus. Foi na verdade a segunda decepção seguida de Rafa no Principado, já que em 2019 parou em dois sets frente ao eventual campeão Fabio Fognini.

Tal qual Novak Djokovic, o cabeça 2 viveu um dia difícil em primeiro lugar por conta de sua própria ineficiência. O saque funcionou muito pouco e isso permitiu que Rublev buscasse sempre o domínio dos pontos com seus espetaculares golpes de base. Pressionado o tempo todo, Nadal cometia erros com o backhand – gráfico da ATP mostra que 65% dos forehands do russo foram cruzados – e ficou à mercê de uma derrota ainda mais acachapante, visto que Rublev ficou pertinho de abrir 6/2, 4/1 com saque.

Curioso é que Rublev, ao invés de festejar o grande feito, preocupou-se em desculpar Nadal, lembrando antes de tudo que o espanhol joga sob enorme pressão no saibro europeu, como se fosse obrigado a vencer tudo e não tivesse o direto a um mau dia. Humilde, o russo admitiu que o adversário não jogou seu melhor, mas deu ênfase à forma com que segurou a cabeça. “Parecia irreal que eu tivesse 6/1, 3/1 e break-point”, disparou. Ele ainda chegou a fazer 4/2, teve bolas confortáveis para manter a vantagem, porém abriu mínima janela para o incansável Rafa e aí perdeu quatro games seguidos e o set. “Não podia mostrar emoções depois de perder o segundo set, e essa foi a chave. Controlei muito bem os nervos nesta semana”, ratificou, com toda a razão.

Para mostrar como o tênis é complexo, Rublev forçou muito mais da base, no entanto saiu com menos winners (23 a 25) e erros (28 a 36). Fato marcante, ganhou 23 dos 39 lances acima de nove trocas. Nadal perdeu sete vezes o serviço e cometeu sete duplas faltas, o que ainda não foi seu recorde pessoal (fez oito em Indian Wells de 2014). E olhem que coisa: Rublev também surpreendeu Roger Federer em Cincinnati dois anos atrás, torneio em que o suíço detém o recorde de sete conquistas. Este foi a terceira vitória do russo sobre um top 3, incluindo Dominic Thiem.

Seu desafio agora é a recuperação física, uma vez que vem de duas notáveis batalhas seguidas de grande tensão, como aconteceu diante de Roberto Bautista na véspera. Enfrentará o também jovem norueguês Casper Ruud, de 22 anos, que tirou Fognini numa atuação firme, em que combinou com muita eficiência o binômio saque-forehand. O italiano vinha bem até ter 40-15 para empatar tudo no 10º game, mas saiu repentinamente de jogo e ficou próximo de levar 4/0 no segundo set. Certamente, deve ter lembrado das incríveis viradas obtidas há dois anos, mas não foi desta vez. Ruud perdeu os três duelos diante de Rublev,

Backhans de uma mão duelam
A outra semifinal de Monte Carlo verá confronto entre backhands de uma mão, coisa pouco comum no saibro lento desde a final entre Federer e Stan Wawrinka de 2014. O grego Stefanos Tsitsipas surge agora como o mais gabaritado dos quatro postulantes ao título – é sua sexta semi de Masters, a terceira seguida que faz no saibro – e certamente estará muito mais inteiro do que o britânico Daniel Evans, que ainda por cima jogará também a semi de duplas.

Um dia depois de tirar Djokovic numa atuação incrível, Evans vacilou ao sacar com 5/4 e permitiu a reação de David Goffin. Aliás, o belga optou justamente pela tática que faltou a Nole, fugindo constantemente do backhand para arriscar paralelas firmes na direita do adversário. Mas Evans achou um jeito de ir mais à rede. Salvou três break-points no 1/1 e mais quatro num crucial 4/4 do terceiro set para dar outro passo.

Também neste caso, valem duas frases. Evans admitiu que sentiu muito mais pressão depois de eliminar Djoko – “estava difícil manter o foco” – e Goffin diz não compreender como o britânico perdeu 10 jogos seguidos no saibro antes do torneio deste ano: “Apenas ele não acredita que pode jogar bem na terra”.

Tsitipas leva todas as vantagens. Além de ter vencido os dois duelos contra Evans, disputou apenas 12 games antes do abandono do espanhol Alejandro Davidovich Fokina, com problema muscular na coxa esquerda.

E mais
– Os Masters 1000 terão um campeão inédito pelo segundo torneio consecutivo, repetindo o início de 2018 em que Delpo levou Indian Wells e Isner ganhou Miami.
– E como se vê, três dos quatro semifinalistas são da nova geração e há chance assim de acontecer como em Miami dias atrás.
– Nadal permanecerá no terceiro lugar do ranking, 360 pontos atrás de Medvedev, mas lutará para recuperar a vice-liderança. Basta conquistar o título de Barcelona na próxima semana, onde é o amplo favorito.
– Rublev assumirá inédito 7º posto do ranking se for à final de Mônaco, rebaixando Federer, e ainda poderá ser sexto em caso de título, superando Zverev.
– O russo também já é o número 2 do ranking da temporada e poderá chegar à liderança se for à final.
– Tsitsipas também pode superar Medvedev e subir para terceiro posto do ano. E se for campeão, também atingirá o número 1.
– Tal qual aconteceu após Miami com Hurkacz e Sinner, o top 20 pode ter mais duas inovações caso Ruud seja finalista e Evans, campeão.