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Dor e redenção
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2021 às 19:03

No dia em que Roger Federer voltou a mostrar seu estilo vistoso e no qual Daniil Medvedev encerrou o incômodo jejum de vitórias em Paris, a notícia mais relevante e dolorosa foi o abandono de Naomi Osaka. Não por questões técnicas ou físicas, mas por não aguentar a pressão do circuito, que tem levado sua personalidade introspectiva a crises de depressão. E estamos falando de uma atleta muito bem sucedida e a mais bem paga do mundo.

O comunicado que Osaka soltou nas suas mídias sociais para explicar sua decisão de sair do torneio e voltar para casa foi muito sensato e é especialmente importante para abafar esse incêndio tão desnecessário que ela mesma acabou criando.

Vejamos os pontos principais:
– “Aceito que minha mensagem poderia ter sido mais clara”.
– “Tenho sofrido com longas crises de depressão desde o US Open de 2018 e tive muita dificuldade para lidar com isso”.
– “Os jornalistas que cobrem tênis sempre foram educados comigo”.
– “Fico muito ansiosa quando tenho que falar com a imprensa”.
– “Peço desculpas à organização”.
– “Gostaria de conversar depois do torneio, discutir maneiras de tornar as coisas melhores para os jogadores, para a imprensa e para os fãs”

Ou seja, Osaka tinha um motivo concreto para evitar as entrevistas, mas admite que não trilhou o caminho mais indicado para tentar resolver o problema, passando a muita gente um ar de arrogância e não de sofrimento. Reconhece a importância da imprensa e não se vitimizou por supostas perseguições, deixando claro que é uma questão totalmente pessoal, de relacionamento com o mundo exterior. E o mais relevante: se abre ao diálogo para tentar achar soluções que atenda a todos os interesses do circuito.

Naomi é uma personalidade de peso no mundo do esporte e tem o respeito e a admiração de muitas jogadoras, principalmente as ícones da luta por direitos, sem falar numa grande legião de fãs que extrapola o universo do tênis. Por isso não se deve apenas lamentar o que esteja acontecendo com sua saúde mental, mas acima de tudo unir forças para se encontrar medidas que diminuam o estresse desse tenso e concorrido circuito.

Lá na quadra
Medvedev enfim espantou seus fantasmas e marcou uma vitória convincente sobre Alexander Bublik. Claro que isso ainda não o credencia a aventuras maiores porque será preciso testar sua resiliência diante das frustrações que o saibro causa. Quem sabe, atuações firmes contra Tommy Paul, Reilly Opelka ou Jaume Munar enfim o coloquem em condições de encarar um Cristian Garin antes do possível desafio contra Stefanos Tsitsipas. Foi bom vê-lo dar voleios, deixadinhas e risadas.

Denis Istomin demonstrou a fragilidade esperada no saibro, mas isso não tira o prazer de se assistir às acrobacias de Federer, que entrou com plano de jogo bem definido. Apostou em curtinhas, fez transições corretas à rede, acelerou sempre que pôde as trocas e principalmente sacou com firmeza: 71% de primeiros saques, 8 aces, apenas 12 pontos perdidos com o serviço e nenhum break-point permitido. Reencontra Marin Cilic, de quem se deve esperar maior dificuldade, e pode chegar à terceira rodada diante de Taylor Fritz.

Destaque para os garotos Lorenzo Musetti, Jannik Sinner e Casper Ruud. O primeiro dominou um David Goffin perdido, o segundo esteve a um ponto da derrota frente Pierre Herbert mas mostrou novamente frieza e o norueguês manteve um padrão alto diante de um animado Benoit Paire, que deixou a quadra aos prantos. Surpresa mesmo foram as quedas de Lorenzo Sonego e Sebastian Korda.

Monteiro começa bem
Embora não tenha feito uma estreia espetacular, o aniversariante Thiago Monteiro cravou o favoritismo diante do jovem argentino Francisco Cerundolo e tem toda a chance do mundo de repetir a terceira rodada do ano passado diante de Steve Johnson.

O brasileiro só perdeu um serviço, evitando seis break-points, e tomou atitude mais passiva. Fez 18 winners e 29 erros, muito inferior aos 29 e 48 do adversário, que arriscou mais. Me agradou a consistência do serviço, com 71% de acerto e 75% de pontos vencidos com o primeiro saque.

Surpresas no feminino
Seis cabeças de chave não passaram da estreia na chave das meninas até agora, com destaque necessário para o esforço de 3h23 de Bianca Andreescu e a má atuação de Garbiñe Muguruza. Também caiu a sensação de 2020 Nadia Podoroska, que tirou apenas três games de Belinda Bencic. Também houve a esperada emoção no duelo em que Sofia Kenin tirou Jelena Ostapenko, num tiroteio em que 80 dos 194 pontos foram erros não-forçados.

Apesar do susto de um segundo set irregular, muito por conta de rajadas de vento, Iga Swiatek iniciou a defesa do título e tirou a amiga Kaja Juvan. Já Serena Williams quase perdeu o primeiro set para Irina Begu, mas não foi uma decepção no saibro lento da noite parisiense.

O terceiro dia
Finalmente teremos as estreias de Rafael Nadal e Novak Djokovic em Roland Garros. O espanhol joga no meio da tarde local e o sérvio estará na esvaziada sessão noturna. A outra estrela do dia é a número 1 Ashleigh Barty.
– Popyrin foi campeão juvenil em Paris há quatro anos e deu certo trabalho a Nadal na terceira rodada de Madri semanas atrás.
– Sandgren perdeu os três duelos contra Djokovic, nenhum no saibro, mas vive temporada em que só ganhou três jogos de nível ATP.
– Albert Ramos, com 17 vitórias no saibro este ano, é candidato sério a tirar Monfils, que só ganhou um jogo em 2021.
– Lembram do garoto dos drop-shots, que enlouqueceu Wawrinka e levou Thiem a cinco sets no ano passado? Hugo Gaston está de volta contra Gasquet.
– Rublev reencontra Struff, que dias atrás lhe deu muita dor de cabeça em Roma.
– Barty retorna a Paris para defender o título de 2019, já que não competiu no ano passado.
– A jovem Babel nunca enfrentou uma tenista entre as top 350 e terá de jogar contra Svitolina na abertura da Chatrier.
– Campeã juvenil de Paris em 2018, vencedora de Parma no sábado e semi em Roma, Gauff é um dos nomes a se ficar de olho.

Rublev garante mais renovação
Por José Nilton Dalcim
16 de abril de 2021 às 18:36

Um dia depois de ser sacudido pela inesperada queda do número 1 do mundo para um adversário de parco currículo no saibro, Monte Carlo assistiu ao domínio do tênis-força do russo Andrey Rublev sobre o multicampeão Rafael Nadal, justamente na mesma lenta quadra principal em que o canhoto espanhol ergueu seus 11 troféus. Foi na verdade a segunda decepção seguida de Rafa no Principado, já que em 2019 parou em dois sets frente ao eventual campeão Fabio Fognini.

Tal qual Novak Djokovic, o cabeça 2 viveu um dia difícil em primeiro lugar por conta de sua própria ineficiência. O saque funcionou muito pouco e isso permitiu que Rublev buscasse sempre o domínio dos pontos com seus espetaculares golpes de base. Pressionado o tempo todo, Nadal cometia erros com o backhand – gráfico da ATP mostra que 65% dos forehands do russo foram cruzados – e ficou à mercê de uma derrota ainda mais acachapante, visto que Rublev ficou pertinho de abrir 6/2, 4/1 com saque.

Curioso é que Rublev, ao invés de festejar o grande feito, preocupou-se em desculpar Nadal, lembrando antes de tudo que o espanhol joga sob enorme pressão no saibro europeu, como se fosse obrigado a vencer tudo e não tivesse o direto a um mau dia. Humilde, o russo admitiu que o adversário não jogou seu melhor, mas deu ênfase à forma com que segurou a cabeça. “Parecia irreal que eu tivesse 6/1, 3/1 e break-point”, disparou. Ele ainda chegou a fazer 4/2, teve bolas confortáveis para manter a vantagem, porém abriu mínima janela para o incansável Rafa e aí perdeu quatro games seguidos e o set. “Não podia mostrar emoções depois de perder o segundo set, e essa foi a chave. Controlei muito bem os nervos nesta semana”, ratificou, com toda a razão.

Para mostrar como o tênis é complexo, Rublev forçou muito mais da base, no entanto saiu com menos winners (23 a 25) e erros (28 a 36). Fato marcante, ganhou 23 dos 39 lances acima de nove trocas. Nadal perdeu sete vezes o serviço e cometeu sete duplas faltas, o que ainda não foi seu recorde pessoal (fez oito em Indian Wells de 2014). E olhem que coisa: Rublev também surpreendeu Roger Federer em Cincinnati dois anos atrás, torneio em que o suíço detém o recorde de sete conquistas. Este foi a terceira vitória do russo sobre um top 3, incluindo Dominic Thiem.

Seu desafio agora é a recuperação física, uma vez que vem de duas notáveis batalhas seguidas de grande tensão, como aconteceu diante de Roberto Bautista na véspera. Enfrentará o também jovem norueguês Casper Ruud, de 22 anos, que tirou Fognini numa atuação firme, em que combinou com muita eficiência o binômio saque-forehand. O italiano vinha bem até ter 40-15 para empatar tudo no 10º game, mas saiu repentinamente de jogo e ficou próximo de levar 4/0 no segundo set. Certamente, deve ter lembrado das incríveis viradas obtidas há dois anos, mas não foi desta vez. Ruud perdeu os três duelos diante de Rublev,

Backhans de uma mão duelam
A outra semifinal de Monte Carlo verá confronto entre backhands de uma mão, coisa pouco comum no saibro lento desde a final entre Federer e Stan Wawrinka de 2014. O grego Stefanos Tsitsipas surge agora como o mais gabaritado dos quatro postulantes ao título – é sua sexta semi de Masters, a terceira seguida que faz no saibro – e certamente estará muito mais inteiro do que o britânico Daniel Evans, que ainda por cima jogará também a semi de duplas.

Um dia depois de tirar Djokovic numa atuação incrível, Evans vacilou ao sacar com 5/4 e permitiu a reação de David Goffin. Aliás, o belga optou justamente pela tática que faltou a Nole, fugindo constantemente do backhand para arriscar paralelas firmes na direita do adversário. Mas Evans achou um jeito de ir mais à rede. Salvou três break-points no 1/1 e mais quatro num crucial 4/4 do terceiro set para dar outro passo.

Também neste caso, valem duas frases. Evans admitiu que sentiu muito mais pressão depois de eliminar Djoko – “estava difícil manter o foco” – e Goffin diz não compreender como o britânico perdeu 10 jogos seguidos no saibro antes do torneio deste ano: “Apenas ele não acredita que pode jogar bem na terra”.

Tsitipas leva todas as vantagens. Além de ter vencido os dois duelos contra Evans, disputou apenas 12 games antes do abandono do espanhol Alejandro Davidovich Fokina, com problema muscular na coxa esquerda.

E mais
– Os Masters 1000 terão um campeão inédito pelo segundo torneio consecutivo, repetindo o início de 2018 em que Delpo levou Indian Wells e Isner ganhou Miami.
– E como se vê, três dos quatro semifinalistas são da nova geração e há chance assim de acontecer como em Miami dias atrás.
– Nadal permanecerá no terceiro lugar do ranking, 360 pontos atrás de Medvedev, mas lutará para recuperar a vice-liderança. Basta conquistar o título de Barcelona na próxima semana, onde é o amplo favorito.
– Rublev assumirá inédito 7º posto do ranking se for à final de Mônaco, rebaixando Federer, e ainda poderá ser sexto em caso de título, superando Zverev.
– O russo também já é o número 2 do ranking da temporada e poderá chegar à liderança se for à final.
– Tsitsipas também pode superar Medvedev e subir para terceiro posto do ano. E se for campeão, também atingirá o número 1.
– Tal qual aconteceu após Miami com Hurkacz e Sinner, o top 20 pode ter mais duas inovações caso Ruud seja finalista e Evans, campeão.

A seca continua
Por José Nilton Dalcim
15 de abril de 2021 às 19:02

Monte Carlo é onde Novak Djokovic reside na maior parte do tempo, mas o saibro lento do Principado deixou de ser um paraíso para ele há algum tempo. Desde que chegou ao segundo título, em 2015, com campanhas inesquecíveis em que barrou até mesmo Rafael Nadal, ele nunca mais passou das quartas de final. Após uma estreia tão firme na véspera, parou num adversário que tem um currículo paupérrimo sobre a terra batida.

Por algum motivo que só ele próprio poderá explicar, Djokovic entrou completamente frio na partida, mudança muito radical em relação à postura diante de Jannick Sinner. Aliás, tão frio que até usava uma camiseta branca por baixo da oficial, que só foi retirar lá no segundo set. De cara, fez duas duplas faltas e parecia sem antídoto para o slice malicioso do britânico. De repente, Evans já tinha duas quebras e 3/0, com direito a curtinhas espertas que encontravam um adversário plantado demais em quadra.

Quem acompanha Djokovic com atenção sabe que slices sempre o incomodaram, até mesmo na quadra dura, porque a bola chega sem peso e com pouca altura, o que tira a ofensividade natural de seu backhand. Não permite que se pegue bolas na subida e exige força adicional para alcançar profundidade. Talvez tenha faltado confiança para que Nole arriscasse mudar de direção para a paralela e tirar Evans da zona de conforto em alguns lances capitais.

Insistência e consistência do britânico levaram o adversário a incríveis 45 erros não forçados, números que costumamos ver num jogo de Grand Slam bem apertado, não em dois sets. Evans é claro merece todos os elogios por apostar numa alternativa e ousar com a criatividade. Arrancou algumas paralelas de backhand totalmente inesperadas, fez saque-voleio e disfarçou perfeitas deixadinhas de forehand. Como escrevi ontem, Evans raramente se saiu bem no saibro em sua carreira, mas não há algo tão problemático no seu estilo que justifique isso. É baixo, leve, versátil e chega a disparar primeiro serviço a 200 km/h.

Claro que o número 1 não esteve em seus melhores dias, e ficou indisfarçável uma postura negativa, frustrada, naqueles lances decisivos de um set em que geralmente é ele quem se sobressai. Houve um momento no primeiro set em que Nole parecia ter acordado. Quebrou, encostou com 3/2 após game de saque perfeito e teve 15-40 para empatar, o que teria grande chance de abalar o britânico. Não conseguiu, mas dois games depois chegou à igualdade para imediatamente perder outro serviço e logo depois o set. Na outra série, chegou a ter 3/0 e atingiu set-point no 5/4. Evans nunca recuou da proposta, aguentou firme pontos longos e tensos, fechou a partida com enorme autoridade.

Decidirá agora vaga na semi contra David Goffin, e não ficaria surpreso se repetisse a dose, ainda que o belga tenha feito três jogos bem decentes até agora, incluindo a vitória exigente diante de Alexander Zverev, em que sofreu muito em vários games de serviço. Aliás, o alemão perdeu os quatro pontos em que sacou no início do tiebreak e teve uma chance de levar ao terceiro set. Quem vencer, cruzará com Stefanos Tsitsipas ou Alejandro Fokina. O grego fez uma bela exibição diante de Cristian Garin e surge como favorito até para ir à final.

Nadal por sua vez encontrou mínima resistência num Grigor Dimitrov apático. Mais tarde, o búlgaro explicaria que tem dormido e se alimentado muito mal devido a um problema dentário e isso então justifica a surra de 55 minutos e de pontos vencidos (55 a 26). O canhoto espanhol passou assim por dois jogos muito fáceis – cinco games perdidos – e talvez tenha de se concentrar em dobro ao encarar o fogo cerrado de Andrey Rublev. O russo superou batalha de intensas trocas e muita pancadaria contra Roberto Bautista, mas ainda acho que o saibro lento poderá levá-lo ao destempero muito rapidamente caso Nadal se segure bem no começo da partida. E isso o multicampeão sabe fazer com maestria.

Boa notícia é a recuperação lenta e gradual de Fabio Fognini, que se reencontrou com o lugar de seu maior título e isso parece ter lhe feito muito bem. Sinceramente, esperava agora que ele fosse cruzar com Pablo Carreño, mas o campeão de Marbella não soube fechar o jogo duríssimo contra o bom Casper Ruud e ficou no caminho. Esse norueguês de 22 anos é um saibrista nato. Fez belas campanhas aqui na América do Sul, atingiu semi em Roma do ano passado.e bateu Fognini nos dois duelos já realizados, um deles no saibro de Hamburgo meses atrás.

Vale por fim observar que quatro dos classificados têm no máximo 23 anos e um deles vai avançar. Em termos de saibro, é uma renovação muito bem vinda.