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‘Fake’ Djokovic
Por José Nilton Dalcim
12 de abril de 2022 às 18:00

Apesar de ter dois títulos no Principado, é bem verdade que o saibro lento de Monte Carlo nunca foi o melhor dos mundos para Novak Djokovic. Ainda assim, o retorno do número 1 do mundo ao circuito foi uma tremenda decepção. Errou demais, teve postura defensiva, safou-se de um placar vexatório e por fim desabou fisicamente no terceiro set, algo inimaginável em outros tempos. Foi definitivamente uma versão ‘fake’ do homem que dominou o tênis em 2021.

Não chega a ser surpresa que Djokovic tenha dificuldade em achar ritmo e jogar com confiança diante do calendário irrisório que fez até agora, limitado a três jogos em Dubai. Também existe a pressão, tanto pelo ranking que ocupa como para mostrar que sua decisão de não tomar a vacina e automaticamente se ver afastado dos grandes torneios do primeiro trimestre não o afetariam. O preço continua alto.

Alejandro Fokina sabia que era a chance de sua vida e mergulhou na partida de corpo e alma. Ousou mais, correu muito, se jogou nas bolas e poderia ter saído com uma vitória acachapante, quando sacou com vantagem de 6/3 e 4/2. O vento atrapalhava demais e foi um ingrediente a exigir foco o tempo todo, daí outro ponto de destaque na atuação do espanhol, que no ano passado fez quartas em Mônaco tendo vencido Matteo Berrettini.

Nole raramente se sentiu à vontade, mesmo vencendo a duras pernas o segundo set. Saiu de quadra com 51 erros, 25 deles de forehand, e viu o espanhol arriscar mais (37 a 27 nos winners). Chegou também a hora dos recordes negativos: foi o jogo de três sets em que Djoko mais perdeu serviços na carreira (nove vezes) e vive seu pior desempenho em ATP nos quatro primeiros meses de uma temporada desde 2005.

Djokovic reconheceu a falta de pernas no terceiro set, mas tentou se manter positivo, ao lembrar que tem sido normal nos últimos anos um começo fraco no saibro europeu. Para sua sorte, vai jogar em Belgrado na próxima semana e terá enfim a chance de emendar vitórias, reerguer um troféu e sentir alívio. Haverá então uma semana de descanso para a sequência Madri-Roma. Portanto, existe tempo de sobra para reagir. Só precisa melhorar. Em tudo.

E mais

  • Apesar da derrota, Djoko aumentará a vantagem para Medvedev no ranking de 10 para 100 pontos. A próxima chance do russo será em Madri, onde o sérvio defende 500 pontos ainda do torneio de 2019.
  • Nadal está definitivamente fora de Barcelona, adiando expectativa de retorno para Madri, que acontece dentro de duas semanas.
  • Tsitsipas começou muito bem a defesa do título e atropelou Fognini, o campeão de 2019. O italiano fez 6 winners e cometeu 34 erros numa atuação lastimável. Sairá do top 50 pela primeira vez desde 2012.
  • Outro que está num momento terrível é Benoit Paire. Ele sofreu a nona derrota consecutiva em estreias.
  • Dimitrov ao contrário superou a dificuldade do saibro lento e virou o jogo contra Lajovic depois de estar um set e uma quebra abaixo.
  • Apesar das duas derrotas no seu retorno, Wawrinka diz que não está chateado e que espera um progresso lento,
  • Alcaraz estreia às 6h desta quarta-feira contra Korda e fará sua primeira aparição em Monte Carlo. Nesse período do ano passado, ele era 133 do ranking e se dividia entre challengers e convites nos ATPs.
  • Apesar de sua extraordinária semana em Bogotá, em que saiu do quali e chegou na final de seu primeiro WTA 250, Laura Pigossi não conseguiu vaga direta para Roland Garros. O vice lhe garantiu um ótimo 126º posto e isso ao menos lhe dará chance de entrar de cabeça de chave no quali para Paris. De todos os brasileiros, apenas Bia Haddad entrou direto no Slam francês.
  • O Brasil de Pigossi, Bia, Carol, Cé e Rebeca inicia hoje a disputa do zonal americano da BJK Cup. A estreia deve ser fácil contra a Guatemala, depois vem a desfalcada Colômbia e a definição da vaga promete acontecer diante da Argentina. Os jogos são no piso duro de Salinas, no Equador.
Imprevisível desta vez é o masculino
Por José Nilton Dalcim
29 de março de 2022 às 00:06

Miami já garantiu duas mudanças nos números 1 do ranking – Iga Swiatek e Joe Salisbury – e parece favorável para que Daniil Medvedev complete o quadro de renovações na próxima segunda-feira.

Depois de duas atuações muito seguras, ainda que diante de jogadores defensivos como Andy Murray e Pedro Martinez, ele precisa agora vencer Jenson Brooksby e depois quem passar entre o atual campeão Hubert Hurkacz e Lloyd Harris. Claro que não jogos fáceis. O norte-americano é um tanto preso no fundo de quadra, embora goste de ser agressivo lá de trás, e talvez o grande perigo esteja em Hurkacz, que é um tenista bem completo e que se mexe bem.

Há dois jogos imperdíveis nesta terça-feira. O duelo entre jogadores muito versáteis entre Stefanos Tsitsipas e Carlos Alcaraz tem tudo para ser um dos jogos da temporada, ainda mais que os dois se mostram confiantes. O espanhol continua naquele padrão quase perfeito na sua postura ofensiva, com a vantagem de ter sacado com qualidade até aqui. O grego é mentalmente mais instável e pode sentir o favoritismo natural por conta do ranking e do currículo.

Jannik Sinner e Nick Kyrgios farão enfim o confronto que não aconteceu em Indian Wells por conta da desistência do italiano. A sorte até aqui jogou a favor de Sinner, que evitou três match-points na estreia e mais cinco diante de Pablo Carreño, que ainda por cima sacou para a vitória. É notável como o italiano joga solto e de forma corajosa sob pressão. Kyrgios até aqui está jogando super bem, controlado e econômico na fanfarrice. Quando o australiano joga para valer, é extremamente perigoso.

Também me impressionou como Taylor Fritz se adaptou bem entre as condições um tanto radicais entre Indian Wells e Miami, sem falar no desgaste físico e emocional. Teve uma estreia de altos e baixos e foi firme contra o amigo Tommy Paul, em ambos os jogos se mostrando concentrado no fato de que Miami exige paciência e mobilidade. Esses fatores aliás serão de grande valia diante de Miomir Kecmanovic, um tenista que preza pela regularidade. É outra partida que vale a pena conferir.

Distante dos holofotes, Alexander Zverev vislumbra ótima perspectiva de chegar ao menos na semi. Encara hoje Thanasi Kokkinakis, que vem de dois jogos cansativos, e deve enfrentar depois Casper Ruud ou Cameron Norrie, jogadores com predicados e que podem dar trabalho se o alemão continuar jogando na lentidão das rodadas noturnas. Ou seja, a chave masculina está completamente aberta.

Vale por fim registrar a façanha do argentino Francisco Cerundolo, que está fora do top 100 e é um saibrista típico. Se deu bem contra um contundido Reilly Opelka e massacrou Gael Monfils. A tarefa contra Frances Tiafoe, que eliminou seu irmão mais novo Juan Manuel, é mais difícil, mas nunca impossível.

De olho em Osaka
Depois de tantas surpresas, a chave feminina de Miami enfim tomou ares de normalidade. As quartas de final, definidas nesta segunda-feira, terão seis das cabeças ainda restantes e também Naomi Osaka, que dispensa elogios quando se trata de quadra sintética. A única real ‘zebra’ é Daria Saville, uma jovem australiana de predicados e que viu dar tudo certo. Não pegou uma única favorita em quatro jogos e a adversária de maior gabarito, Katerina Siniakova, nem completou a partida.

Torço particularmente por Osaka. Seria um momento perfeito para ela voltar aos títulos, ficar positiva e recuperar ranking, já que começou Miami sob ameaça de deixar até o top 100. Naomi revelou ter iniciado trabalho com um psicólogo devido à insistência da irmã e gostou da experiência. Chegar à final não parece coisa de outro mundo. Enfrenta já nesta terça-feira Danielle Collins, a quem bateu duas vezes, e aí enfrentaria Saville ou mais provavelmente Belinda Bencic.

Do outro lado, Iga Swiatek está demais e seria loucura tirar dela o favoritismo em qualquer rodada daqui em diante. Absorveu magnificamente a pressão para virar líder do ranking, só perdeu oito games em três rodadas e massacrou a jovem porém ‘engessada’ Cori Gauff. O jogo de quarta-feira contra a experiente e canhota Petra Kvitova promete, ainda que a tcheca esteja um tanto longe de seus melhores dias.

A outra vaga na semi será disputada entre Paula Badosa e Jessica Pegula, mais duas que gostam de bater na bola. A espanhola suou muito diante da sensação tcheca Linda Fruhvirtova, que em seus tenros 16 anos mostra tênis de gente grande e parece fadada a galgar rapidamente o ranking, ainda que precise ganhar um saque mais contundente. Pegula ganhou Doha em fevereiro e virou top 15, porém de forma geral falta a ela presença constante nas rodadas importantes dos torneios de peso.

A queda de Bia
Por falar em Pegula, cabe menção à chance perdida por Bia Haddad Maia nas oitavas de final de domingo, principalmente porque sua adversária, a ucraniana Anhelina Kalinina, desistiu do jogo contra a norte-americana hoje após levar ‘pneu’, certamente contundida. Há duas situações a se mencionar na virada que a brasileira levou.

A primeira é como Bia se desencontrou na partida depois de ganhar com placar elástico o primeiro set e abrir o segundo com quebra, até então mandando no ritmo do jogo e sendo agressiva de forma correta. O outro destaque foi justamente a reação de Kalinina, que mudou complemente sua postura, passou a buscar pontos mais curtos e encurralou a brasileira. Como ela pediu atendimento logo no começo do segundo set, talvez tenha feito ajustes táticos por conta já de algum incômodo físico. E isso é louvável.

Vale registrar que é muito provável que Bia atinja seu recorde pessoal e apareça no 57º lugar do ranking na segunda-feira. E o mais importante: estará apenas 88 pontos atrás da 50º colocada. A batalha continua. O saibro de Bogotá, onde será cabeça 2, é o próximo desafio.

Doloroso adeus da mágica Barty
Por José Nilton Dalcim
23 de março de 2022 às 11:34

De repente, fui remetido ao dia 23 de janeiro de 1983, quando chegava para cobrir rodada do torneio do Guarujá logo pela manhã e acabei surpreendido com a notícia de que Bjorn Borg, então com 26 anos. havia decidido se aposentar.

O sentimento de incredulidade diante do anúncio de Ashleigh Barty no finalzinho de noite desta terça-feira foi muito semelhante. Parecia brincadeira, um 1º de abril antecipado.

Até que veio o vídeo da própria australiana explicando sua decisão e aí não houve mais dúvidas: no auge absoluto de sua carreira, dona dos atuais títulos de Wimbledon e do Australian Open, número 1 do mundo por 113 semanas consecutivas, Barty não tem mais motivação para seguir no circuito. Chocante, mas compreensível.

Não foi a primeira vez que Barty sentiu o peso do circuito e se afastou. Depois de um promissor início de carreira, em que se tornou profissional ainda aos 15 anos, ela saiu das quadras logo depois do US Open de 2014 justamente porque se achava imatura demais para encarar tantas viagens e queria viver como uma adolescente comum. Ficou em casa e passou a jogar críquete com sucesso.

O amor pelo tênis no entanto ainda estava lá. Voltou em fevereiro de 2016 e se dispôs a jogar duplas em pequenos torneios de US$ 25 mil. Seu gigantesco talento rapidamente deu frutos e na temporada seguinte já ganhou seu primeiro WTA e virou top 20. Continuava a ser uma grande duplista, porém seu estilo único sempre chamava a atenção, aquela capacidade incrível de variar efeitos e velocidades, de alternar táticas, de ter coragem de ousar nos pontos decisivos.

Esse conjunto levou Barty ao primeiro sonho: vencer um Grand Slam em 2019. Porém, de forma totalmente inesperada, o fez no saibro de Roland Garros, relembrando os feitos de Margaret Court de quase 50 anos antes. Pouco depois, virou também número 1, igualando-se a outro fenômeno australiano, Evonne Goolagong.

Nessa altura, era impossível não se comparar a destreza de Barty sobre as quadras com a habilidade de Justine Henin. Curiosamente, a espetacular belga também anunciou aposentadoria – a primeira delas – dias antes de completar 26 anos e como líder do ranking, dona de sete troféus de Slam. Voltou em 2010 sem o mesmo embalo, porém ainda conseguiu um vice em Melbourne.

Ao menos por enquanto, Barty não abre brechas para um retorno. Ela diz que ganhar Wimbledon no ano passado foi mais do que a realização do maior desejo como tenista e que isso mudou sua perspectiva como pessoa e como atleta. Porém, ainda faltava ganhar em casa e se impôs esse desafio, plenamente concretizado há dois meses.

Então, em suas palavras, se fechou o ciclo e acabou a motivação para treinar e especialmente viajar. Como disse antes, é compreensível. A Austrália é muito longe de qualquer coisa e demanda grande esforço de deslocamento ou muitos meses fora de casa.

Me parece que são justamente os dois fatores que mais pesam. Em primeiro lugar, a pandemia pode ter mostrado a Barty – como há muitos outros – as delícias de uma vida normal. Vale lembrar que ela demorou a encarar de novo o circuito, o que só fez já em 2021 após 11 meses de parada total.

Ao mesmo tempo, Ash sempre se mostrou diferenciada, com muita atenção a sua vida fora das quadras, às amigas e à família. E certamente há um peso grande no fato de estar agora noiva do golfista Garry Kissick, a quem conheceu em 2017 e anunciou pretensão de casamento em novembro.

No seu bate papo de despedida com Casey Dellacqua, que publicou no Instagram, Barty afirma que não tem mais a gana física e emocional para o desafio que é se manter no altíssimo nível. ‘Estou desgastada’, foi sua definição.

Uma pena em todos os sentidos, porque Barty colocou o tênis feminino num outro patamar, onde a força física deu muito mais espaço para o refino técnico e tático. Deixará enorme saudade do toque genial, da deixadinha, do voleio, do slice, mas principalmente de sua simplicidade e do bom humor. Um conjunto um tanto raro e que fazia bem demais ao circuito.

E mais

  • Na mesma terça-feira, outra notícia ruim: Rafael Nadal está com fratura por estresse em uma das costelas e isso o obrigará a ficar entre 4 e 6 semanas fora da quadra. Ou seja, de imediato ficará de fora de Monte Carlo e de Barcelona, com possível volta em Madri.
  • Há quem aposte que ele só jogue em Roma, o que seria a única preparação para Roland Garros. Ou seja, a sempre esperada fase do saibro europeu ficará drasticamente reduzida para o canhoto espanhol, que perderá 680 pontos no ranking.
  • Excepcional atuação de Bia Haddad Maia em sua estreia de Miami, voltando a jogar um tênis agressivo e consistente diante de Nuria Parrizas, 49ª do ranking, para quem havia perdido os dois duelos anteriores. Agora, vem um desafio enorme: Maria Sakkari.
  • Medvedev precisa de semi em Miami para recuperar o número 1. O caminho pode ter Murray na estreia, Bautista nas oitavas e Hurkacz nas quartas. Não está o fim dos tempos.
  • Alcaraz ficou nesse lado superior e pode ter duelos difíceis diante de Cilic e Tsitsipas. Ficaram também nesse quadrante Fritz e Aliassime.
  • Excelente entrevista de Bellucci para Felipe Priante. Recomendo a leitura.