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Urso usa cabeça e ruge mais alto
Por José Nilton Dalcim
22 de novembro de 2020 às 21:27

Na fase classificatória, vitórias avassaladoras, incluindo uma sobre o número 1 do ranking. No mata-mata, duas viradas consecutivas contra o segundo e o terceiro do mundo. Daniil Medvedev ergueu o nono e maior troféu de sua carreira em grande estilo. Os golpes por vezes desengonçados e pouco ortodoxos enfatizam ainda mais sua principal qualidade: a cabeça.

No ano passado, ‘Urso’, seu apelido tirado do sobrenome, já mostrou o quanto é perigosamente competitivo na quadra sintética. Não por acaso, todos seus títulos aconteceram nesse piso, sendo agora cinco na coberta. Mas 2020 vinha morno, sem brilho. Entre novembro do ano passado e outubro agora, não havia vencido um único top 10. De repente, se reencontrou e conquistou Paris e Londres com sete vitórias sobre esse nível de adversário.

Aos 24 anos, Medvedev disputou seu segundo Finals e apagou a imagem ruim de 2019, quando não venceu na fase classificatória. Curiosamente, a arena O2 foi inaugurada com um título russo, o de Nikolay Davydenko em 2009, e se despede do circuito com outro.

É arriscado afirmar que Daniil estará cada vez mais forte na briga por grandes títulos e quem sabe pela liderança do ranking, porque ele parece ter uma personalidade distinta, nem sempre completamente entregue ao tênis. Mas é certo que, quando está disposto e com físico em dia, ele se torna um obstáculo a qualquer favorito porque nunca parece intimidado com o placar ou com o adversário. De quebra, cada vez se mostra mais simpático e menos ranzinza, como retrata o sorriso largo que deu ao perder o set com uma bola desviada na fita.

Austríaco falha
Dominic Thiem deixou escapar sua chance de ganhar o Finals pelo segundo ano seguido ali na metade do segundo set. Optou como se esperava por variar as jogadas e abusar dos slices para evitar a potência do backhand adversário. Isso funcionou bem e o deixou perto do título. Mas aí, inexplicavelmente, cometeu erros incríveis para quebrar no sétimo game. Depois, ainda teve 2-0 no tiebreak antes de perder sete pontos consecutivos.

Daí em diante pareceu perder a confiança, raramente soltou o backhand na paralela e foi diversas pego de surpresa pela excelente transição do russo para a rede atrás de um slice despretensioso, lance aliás com o qual derrotou Nadal na véspera. Importante se destacar que o russo buscou voleios por 37 vezes e ganhou 28 desses pontos, um percentual expressivo para quem não tem aí seu melhor desempenho.

Mais tenso e com um forehand instável, Thiem evitou cinco break-points antes de enfim entregar o serviço no quinto game do terceiro set e jamais se recuperou. Medvedev sobrava na consistência. Cometeu apenas quatro erros nessa série decisiva e perdeu só dois pontos quando acertou o primeiro saque. Ou seja, mostrou volume maior de jogo e cabeça para trabalhar a ansiedade do austríaco. Pode ser apenas impressão minha, mas Thiem outra vez demonstra dificuldade em administrar jogos em que entra como favorito.

De qualquer forma, Dominic deu outro salto de qualidade em sua melhor temporada, com um título e um vice de Slam e a final em Londres, além do terceiro posto do ranking. Nesta semana, juntou-se a Andy Murray como únicos tenistas a ter ao menos cinco vitórias sobre cada um dos Big 3. Ele soma cinco sobre Djokovic e Federer e seis em cima de Nadal, mas entre 2019 e 2020 seu placar positivo é de 3-2 sobre Djoko, 3-1 diante de Rafa e 3-0 contra Federer. De quebra, superou um número 1 pela quinta vez, algo que faz ano após ano desde 2017. Ao final do domingo frustrante, garantiu: quer lutar pela ponta em 2021. Tem chance.

Um torneio histórico
– Desde 2015, o Finals teve seis vencedores distintos: Djokovic, Murray, Dimitrov, Zverev, Tsitsipas e Medvedev.
– Esta é portanto a segunda sequência de seis campeões diferentes que o Finals tem na história. A outra aconteceu entre 1974-79, com Vilas, Nastase, Orantes, Connors, McEnroe e Borg.
– Medvedev consegue um feito raríssimo no tênis profissional. Desde 1990, apenas três jogadores havia vencido os três líderes do ranking na mesma semana: Nalbandian em Madri-2007 (Federer, Nadal e Djokovic); Djokovic em Montréal-2007 (Federer, Nadal e Roddick) e Becker em Estocolmo-1994 (Sampras, Ivanisevic e Stich).
– Esta foi a nona vez que o campeão do Finals derrotou os dois líderes do ranking na campanha, repetindo Lendl, Becker (2 vezes), Edberg, Agassi, Stich, Federer e Davydenko. O fato inusitado é quanto o campeão como o vice deste ano fizeram isso.
– Antes de Medvedev, o único campeão do Finals que havia derrotado tanto Djokovic como Nadal na campanha era Federer (2010).
– Wesley Koolhof e Nikola Mektic ganharam o primeiro título como parceiros logo no Finals, algo inédito também no circuito. Os dois foram vices no US Open e semi em Roland Garros e irão se separar em 2021.
– Mektic, ex-top 5 e dono de três troféus de nível Masters, é o primeiro croata a vencer o torneio que encerra a temporada, em simples ou duplas.
– Koolhof deu o quarto troféu de duplas em Finals para o tênis holandês, repetindo Rojer, Haarhuis e Eltingh.

Thiem e Medvedev mantêm Finals renovado
Por José Nilton Dalcim
21 de novembro de 2020 às 20:33

Pelo quinto ano consecutivo, o Big 3 não levará o ATP Finals. Depois do sucesso jovem de Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas, desta vez Dominic Thiem e Daniil Medvedev barraram o sonho de Novak Djokovic e Rafael Nadal. Enquanto o sérvio está na fila por um novo troféu desde 2015, o espanhol continua a ver frustrado o sonho de conquistar o único grande torneio que lhe falta.

Para acabar com qualquer discussão, os dois finalistas chegam ao domingo com vitórias sucessivas sobre os dois líderes do ranking. Enquanto Thiem repete a campanha de 2019 e pode coroar uma temporada em que ganhou seu primeiro Grand Slam e foi vice na Austrália, o russo continua invicto e poderá ganhar o Finals com vitórias em cima dos três líderes do ranking.

50 winners
Thiem fez seu segundo jogo espetacular da semana, quase tão bom como a vitória sobre Nadal de terça-feira. Como se esperava, não titubeou ao procurar sempre o ataque e essa postura lhe rendeu 50 winners mas também 39 erros, nada menos que 26 deles com o forehand, que falhou em alguns momentos importantes. Disposto a investir na regularidade, Djokovic fez menos da metade de winners (23) e não ficou tão longe nos erros (27).

Por isso mesmo, Thiem deveria ter completado a vitória em dois sets. Após uma primeira parcial em que raramente se precipitou e foi premiado por uma decisão equivocada do adversário em ir à rede, teve um forehand à disposição para quebrar no quinto game. Djoko então fez seus melhores games de devolução e chegou aos três únicos break-points de toda a partida, dois deles valendo set-point.

O austríaco mostrou cabeça e empurrou ao tiebreak maluco. Teve saque para 3-0, levou virada para 2-4 e depois 4-5. Chegou ao match-point mas nada pôde fazer. Daí em diante vimos uma sucessão incrível de seis pontos perdidos pelo sacador. Em dois deles Thiem teve novos match-points – um desperdiçado com dupla falta -, em outro era set-point. Quanta tensão. Djokovic então manteve a bola funda e por fim levou a um terceiro set em que tudo indicava que Thiem teria dificuldade emocional.

Ledo engano. Continuou sacando bem, permitindo apenas 40-30 por duas vezes ao sérvio, mas também encontrava Djokovic concentrado na missão de não abrir oportunidades, com um único game de serviço mais enrolado. Nenhum break-point e se chega ao tiebreak definitivo. Sólido, Nole faz 4-0 em escolhas erradas de Thiem. Veio então a grande surpresa. O austríaco reagiu com coragem, venceu seis pontos seguidos e finalmente aproveitou o saque para completar a vitória, o que se esperava ter acontecido 70 minutos antes.

Djokovic perde assim a chance do hexa e de igualar outro feito de Roger Federer. Encerra a temporada com 41 vitórias em 46 jogos e três grandes troféus, o que lhe garantiu encerrar pela sexta vez na carreira como líder do ranking. Não dá para reclamar.

Virada russa
A segunda semifinal teve dois jogos bem distintos. O primeiro incluiu um primeiro set em que Nadal passou sufoco no começo mas depois dominou Medvedev com muitas variações de ritmo. A ideia era não deixar o adversário à vontade e manter a bola baixa para tirar o poder de fogo do russo. Mas Medvedev reagiu. Forçou mais o backhand do canhoto e abriu 3/0 e 4/1 com facilidade e quase fez 5/2. Mas não sustentou o momento, permitiu reação e Nadal sacou para a vitória com 5/4.

Aí começou o outro jogo. O espanhol se apressou, perdeu o serviço de zero e reanimou Medvedev, que fez um tiebreak impecável. Nadal escapou de quebra na abertura do terceiro set e era evidente seu desconforto nos games de serviço, em que poucas vezes conseguia simplificar os pontos. Evitou a queda por duas vezes com primeiro saque arriscado, mas por fim cedeu e daí em diante ficou perdido em quadra. Subidas mal calculadas indicavam falta de pernas. Quem diria.

Os números da partida mostram que o vencedor foi muito mais ousado, tal qual a semi anterior. Medvedev fez 42 winners contra 22 e ainda falhou menos (29 a 30).

Foi sua primeira vitória em quatro partidas diante de Nadal, o que deve enchê-lo ainda mais de confiança. E isso vai ser importante, porque o histórico favorece Thiem por 3 a 1, sendo 2 a 1 na quadra dura. Os dois se cruzaram três meses atrás nas quartas do US Open e o austríaco não perdeu set.

Duplas também terão campeões inéditos
Com aposentadoria anunciada para 2021, o canhoto Jurgen Melzer é mais um austríaco em busca de título no Finals. Aos 39 anos e meio, ele e o francês Edouard Roger-Vasselin, de quase 37, aproveitaram a chance lhes dada de última hora e tiraram os cabeças 2 em outro jogo emocionante desta semana.

Com queda de Marcel Granollers e seu parceiro Horacio Zeballos na outra semi, o Finals terá também campeões inéditos de duplas. O holandês Wesley Koolhof e o croata Nikola Mektic, ambos de 31 anos, tentarão por incrível que pareça o primeiro título lado a lado (foram vices no US Open e semi em Roland Garros).

50 anos do Finals
Preocupada em entrar no importante e incipiente mercado chinês, a ATP aceitou sediar o Finals por quatro anos na City Arena coberta de Xangai, estádio para 15 mil pessoas e um público mais convidado do que pagante. A edição de 2005 marcou a despedida definitiva do piso de carpete e viu a espetacular conquista de David Nalbandian em cima de Roger Federer, saindo de dois sets atrás. O suíço retomou a soberania nos dois Finals seguintes, que foram os últimos com decisões em cinco sets. Em 2008, o jovem Novak Djokovic completou uma temporada de grande ascensão e ergueu seu primeiro troféu.

Djokovic garante o melhor na semi
Por José Nilton Dalcim
20 de novembro de 2020 às 19:53

Só faltava Novak Djokovic para que as semifinais do ATP Finals deste ano reunisse pela primeira vez, desde 2004, todos os quatro principais cabeças de chave nas rodadas decisivas. E o número 1 do mundo não decepcionou. Esqueceu da dura derrota de quarta-feira, recuperou o nível e a confiança diante de um Alexander Zverev sempre mais instável porém competitivo.

Pela nona vez em 13 participações, Djokovic avança ao mata-mata e tenta recuperar a hegemonia que teve pela última vez em 2015. Nesse período, perdeu duas finais, ficou de fora em 2017 e parou na primeira fase no ano passado. Num momento histórico de sua carreira, em que atinge recordes e mira façanhas especiais, o quinto título na O2 – o primeiro foi em Xangai – seria espetacular.

O desafio deste sábado é dos grandes. Embora lidere por 7 a 4 sobre Dominic Thiem, é inquestionável que o austríaco deu um salto técnico e físico, a ponto de ter vencido 4 dos 6 últimos duelos contra o sérvio. E não se pode dizer que isso só ocorreu no saibro, porque as duas últimas verdadeiras batalhas foram na quadra dura. Há um ano, Thiem ganhou no mesmo Finals no tiebreak do terceiro set e dois meses depois levou Nole a cinco disputadíssimos sets no piso ainda mais veloz de Melbourne, em que chegou a liderar o placar por 2 a 1.

É razoável conceder o favoritismo a Djokovic, que joga perto da linha, pega na subida e tira o tempo tão precioso para Thiem armar seus golpes, especialmente o backhand. Mesclar saques abertos seguido de voleios serão boa alternativa diante do recuo exagerado do austríaco nas devoluções. Ao mesmo tempo, será essencial não encurtar bolas porque os golpes pesados de Thiem são difíceis de segurar. E ficar esperto com a variação de slices e batidas na paralela que o backhand adversário consegue produzir com magistral eficiência.

Daniil Medvedev finalizou a fase classificatória como  grande sensação. Venceu todos os sets disputados, cinco deles por 6/3 e um outro por 6/4. Ele até poderia ter economizado energia, mas jogou sério e solto contra Diego Schwartzman, com direito até a voleios firmes. Chegará cheio de confiança para o quarto duelo diante de Rafael Nadal na quadra dura e o segundo na própria arena O2.

O histórico é muito favorável ao espanhol, que jamais perdeu, mas todo mundo se lembra da reação incrível do russo na final do US Open de 2019 e do jogo duríssimo que fizeram na fase classificatória do Finals, com placar de 6/7, 6/3 e 7/6. Portanto, é de se esperar intensas trocas de bola e se dar grande importância ao saque, o que permitirá a cada um dominar pontos e simplificar o esforço.

Bruno prejudicado
Depois de uma suada vitória, outra vez no match-tiebreak, Bruno Soares e o croata Mate Pavic ficaram na torcida para que Marcel Granollers e Horacio Zeballos tirassem ao menos um set de Jurgen Melzer e Edouard Roger-Vasselin. Parecia tudo tranquilo quando os dois sacaram com 5/3. Mas não fecharam. Permitiram ao contrário a reação e quando chegou o tiebreak, Granollers parou. Acusou dor no ombro e desistiu. Dessa forma, Melzer/Vasselin ganharam exatamente por  2 a 0, como determina a regra, único placar que os classificava.

Não ficou bonito. Que ao menos se disputasse o tiebreak. Granollers por enquanto não abandonou e tentará jogar a semi de sábado contra o croata Nikola Mektic e o holandês Wesley Koolhof, enquanto Melzer/Vasselin encaram o norte-americano Rajeev Ram e o britânico Joe Salisbury.

Soares e Pavic encerram a parceria dessa forma triste, mas ainda podem terminar como a dupla mais bem pontuada de 2020, desde que Ram/Salisbury não cheguem à final.

50 anos de Finals
O milionário texano Larry Ellison convenceu a ATP a realizar o Finals em quadra descoberta, algo que só havia acontecido em 1974, na grama de Kooyong. Foi no entanto o segundo menor estádio que sediou o torneio, com capacidade para 5.240 pessoas. Roger Federer ganhou ali os dois primeiros de seus seis troféus, em decisões fáceis. A de 2004 foi em apenas dois sets, repetindo a exceção de 1979. Esse regulamento só mudaria definitivamente em 2008.