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Nadal abre porta a Zverev e Thiem
Por José Nilton Dalcim
7 de maio de 2021 às 19:00

Rafael Nadal continua longe de seu melhor tênis sobre o saibro e com isso está aberta a porta para que Alexander Zverev e especialmente Dominic Thiem abracem uma muito bem vinda reação na temporada. Zverev até fez quartas no Australian Open e ganhou um ATP 500 semanas atrás em Acapulco, mas isso diante de intensos altos e baixos. Thiem então nem se fala. Chegou a Madri com apenas cinco vitórias desde janeiro, saindo de contusão e se admitindo desmotivado.

Os dois farão batalha direta pelo direito de decidir o título no domingo, e há muita história por trás desse duelo. Zverev conquistou o torneio em 2018 justamente em cima do austríaco – não foi quebrado durante toda a semana -, mas no geral leva ampla desvantagem de 8 derrotas em 10 confrontos. Será também a primeira vez que se cruzarão desde a maluca final do US Open, em que o alemão esteve dois sets e uma quebra à frente antes de permitir a virada. Coloque-se ainda na balança que Zverev ergueu três troféus em sete finais de Masters, tendo vencido dois deles no saibro, enquanto a conquista solitária de Thiem veio no sintético e seus dois vices foram justamente em Madri.

Ambos têm motivo para chegar com moral elevado à penúltima rodada, já que fizeram ótimas apresentações nas quartas de final. Zverev derrotou Nadal pela terceira vez seguida sem perder set, a primeira no saibro e ainda por cima na casa do espanhol. Achei curiosa a entrevista de Rafa, em que diz não saber exatamente como perdeu o jogo. É verdade que sacou com 4/2 no primeiro set, seu único momento realmente lúcido em quadra, mas deixemos os números falarem: 2-12 em winners nesse primeiro set e 4-16 no segundo. Não dá para ser feliz assim, convenhamos.

E como Zverev chegou a estatística tão expressiva? Aproveitando-se das bolas curtas de Nadal, principalmente nas devoluções, que facilitavam ao alemão pegar na subida e disparar para os cantos. Assim que recuperou a quebra, com duas passadas consecutivas em subidas afoitas do espanhol, a confiança do alemão foi às nuvens e seu primeiro serviço a 220 km/h de média fez estragos constantes. Perdeu apenas seis pontos com ele – dois no segundo set -, finalizando com 82% de sucesso. Ao observar que Nadal sofreu muito em três games de serviço na segunda parcial, permitindo break-points em todos eles, fica ainda mais fácil entender o placar.

Já o grande mérito de Thiem é que ele soube sofrer, sem se desesperar. Quando se encara um grande sacador, a primeira coisa que se precisa cuidar é do próprio serviço, porque as chances de recuperação serão sempre pequenas. O austríaco não fez isso, perdeu logo o primeiro game de saque, e aí ficou na pressão. Por muito pouco, o jogo não escapou, mas ele conseguiu sobreviver a 10 minutos de um tenso quinto game de segundo set, em que Isner arriscava tudo nas devoluções e teve quatro break-points. Thiem se manteve frio e foi premiado com uma quebra de zero imediata e daí em diante achou oportunidades para manter a bola longe do norte-americano, que foi se cansando pouco a pouco.

A outra semifinal envolverá mais dois bons sacadores, que fazem de tudo para comandar os pontos com o forehand. Casper Ruud já esteve na semi de Roma no ano passado, mas este é sem dúvida o grande momento de sua curta carreira. Aos 22 anos, já garantiu salto para o 16º lugar do ranking. o que pode lhe valer ótima condição de cabeça de chave em Roland Garros. Embora menos experiente que o italiano Matteo Berrettini, que tem três de seus quatro ATPs sobre o saibro e acaba de ganhar Belgrado, o norueguês ganhou os dois duelos que fez diante do italiano no saibro, um em Roma e outro em Roland Garros, torneios de evidente relevância.

Ruud manteve contra Alexander Bublik o excelente padrão que mostrou ao longo da semana, em que venceu com sobras Felix Aliassime e Stefanos Tsitsipas. O cazaque até deu trabalho no primeiro set, usando o máximo de seu tênis variado, tendo até chance de saltar a 5/3, mas depois de levar a quebra que determinou a vantagem definitiva de 7/5 desabou diante do tênis sólido do adversário. Detalhe interessante, Ruud tem 1,83m, estatura apenas mediana para o tênis atual, mas saca com qualidade. Cometeu apenas quatro erros na partida. Na véspera contra Tsitsipas, haviam sido meros 12.

O jogo entre Berrettini e Cristian Garin reeditou aquelas coisas inexplicáveis do tênis. O chileno ganhou um equilibrado primeiro set e abriu 3/1 no segundo, com autoridade. Aí entrou em completo parafuso. Não sacou mais nada, cometeu erros de toda a sorte no fundo de quadra, fez escolhas no mínimo impróprias e conseguiu a proeza de perder todos os games seguintes. Isso mesmo, 11 games! Claro que o italiano jogou bem mais solto a partir do final do segundo set, fazendo mais com o saque e assim obtendo maior agressividade. Entrevistado em quadra, admitiu não ter entendido nada. Imaginem então Garin.

Por fim, vale destacar este dado publicado no Twitter.

São Thiago
Por José Nilton Dalcim
1 de março de 2020 às 22:34

Woody Allen foi extremamente feliz, como sempre, quando usou o tênis para parodiar a vida em seu ‘Match Point’. Para quem não se recorda, a imagem da bola tocando na fita, indecisa em qual lado vai cair, e isso modificaria totalmente os rumos do personagem.

Thiago Wild teve seu ‘Match Point’. No lance que poderia determinar a eliminação na estreia – e a quarta derrota seguida – do Rio Open em dois sets para outro jovem espanhol, o forehand disparado tocou na fita e caiu do lado do adversário.

Seu destino mudou totalmente a partir daí. Redescobriu forças, virou a partida com arrojo, levantou a torcida e sobreviveu a um duelo fisica e mentalmente exaustivo. Três dias depois, quase eliminou o então 32º do mundo Borna Coric, outro espetáculo de raça e competência.

Esse conjunto de atuações empolgantes lhe garantiu o convite para Santiago e aí… Passou por especialistas no saibro, como os argentinos Facundo Bagnis, Juan Ignacio Londero e Renzo Olivo, além de ganhar um set duríssimo antes do abandono da estrela da casa Cristian Garin, 18º do mundo e campeão de dois ATPs seguidos. Salvou aliás seis set-points com algazarra do público e tudo o mais.

Se alguém ainda duvidava de que seu tênis é de primeira grandeza, a decisão deste domingo diante de Casper Ruud colocou à prova todas suas qualidades. O forehand todo mundo já conhece e admira, mas vieram também 17 aces, deixadinhas preciosas, voleios firmes, contragolpes mortais e acima de tudo cabeça fria.

O jogo todo foi enroscado, games duros, muitos break-points, pressão constante. Ruud é dois anos mais velho, ganhou Buenos Aires há duas semanas e navega entre os top 70 desde maio, chegando à final deste domingo com 51 vitórias e quase 100 jogos de nível ATP. É uma diferença considerável.

Como reagiria Wild ao ver o norueguês ganhar o segundo set com quebra no finalzinho? Da melhor forma possível. Não mudou a determinação de atacar antes, mexer bem as pernas para achar o forehand agressivo e concentrar-se muito no próprio serviço. Abriu logo 2/0 e só perdeu dois pontos com o saque a partir daí, ou seja, não abriu qualquer fresta para o adversário se animar outra vez.

Sem qualquer demérito a grandes batalhadores como Rogerinho Silva, Thiago Monteiro ou João Menezes, o que anima ao ver Wild jogar nesse nível é seu poder de fogo. Ele tem um golpe que faz diferença e não tem medo de usá-lo. O saque progrediu muito e fica cada vez mais importante. Nos muitos break-points que favoreceram Ruud, cansou de empurrá-lo para o lado e forçar a devolução cruzada para que fizesse bom uso do forehand.

Agora 113º do mundo, a pergunta óbvia é o quão longe ele poderá ir a curto e médio prazos. Resposta ainda difícil porque agora todo mundo no circuito sabe do que é capaz. Irão procurar antídotos. E por aqui haverá muita expectativa e a inevitável cobrança. Sucesso no Brasil sempre será uma faca de dois gumes.

A boa notícia reside na versatilidade do paranaense, que gosta muito do piso duro e tem aptidões para tanto. Até maio, encara apenas 36 pontos a defender e há uma chance nada desprezível de ainda conquistar vaga direta em Roland Garros – o prazo vai até o começo de abril – e quem sabe  nas Olimpíadas.

Por fim, é imprescindível destacar o papel de seu treinador, João Zwetsch, alguém que já dirigiu tenistas com potencial técnico indiscutível, mas com problemas de controle emocional. E ainda assim os levou a seus melhores dias, casos de Flávio Saretta e Thomaz Bellucci. Além de possuir uma excelente visão do jogo, Zwetsch prega a serenidade e valoriza o diálogo. Sabe extrair o melhor e esse parece exatamente o caso de Wild.

E mais
– Diante do domingo histórico para o tênis brasileiro, resta falar bem pouco das excelentes conquistas de Novak Djokovic e Rafael Nadal nos ATP 500 de quadra dura. Nole até abriu um pouquinho a distância na ponta do ranking, mas haverá disputa pelo número 1 em Indian Wells, o que é sempre divertido.
– O sérvio ficou a um passo da derrota para Gael Monfils na semi, quando a vitória ficou nas mãos do francês, porém na contabilidade geral mostrou um tênis muito competitivo. O toque especial tem sido as deixadinhas inesperadas e desconcertantes.
– Rafa perdeu apenas 25 games em Acapulco, sofreu algumas falhas com o saque a favor, mas gostei de ver o uso do forehand ofensivo e a variedade de suas armas na hora do contragolpe. Ele ainda pode fazer mais com as paralelas, principalmente na hora dos jogos realmente duros.
– Para completar o grande fim de semana nacional, Marcelo Melo voltou aos títulos em Acapulco, o primeiro desde agosto, encerrando a chata sequência de vices. Sobe novamente para o top 5 do ranking e avança com Lukazs Kubot para o sexto na lista da temporada.

Está chegando a hora
Por José Nilton Dalcim
1 de novembro de 2019 às 20:07

 Passo a passo, Novak Djokovic e Rafael Nadal se aproximam do esperado duelo na final de Paris. Estão sobrando em quadra. Extremamente sólido e eficiente tanto no saque como nas devoluções, o sérvio ainda contou com uma tarde tenebrosa de Stefanos Tsitsipas, que se perdeu muito cedo na partida e jamais se recuperou. O espanhol teve um primeiro set exigente, em que não permitiu aventuras mas também não segurou o saque forçado de Jo-Wilfried Tsonga, porém a partir do tiebreak dominou amplamente e ainda fez um lance de cinema.

Não dá para esperar outra coisa do que uma decisão entre os líderes do ranking, que pode valer o número 1 ao final de 2019 de forma antecipada em caso de título inédito de Nadal. Os dois também lutam pelo quinto troféu da temporada e estão empatados com 51 vitórias. Ao longo de 2019, o espanhol tem 22 triunfos de Masters, mas Djoko pode empatar.

Grigor Dimitrov, é bem verdade, só ganhou um dos nove duelos que fez contra Djokovic, mas não deixa de ser curioso que reencontrará o sérvio tendo agora as orientações do mesmo dueto que trabalhou com Nole há pouco tempo, Andre Agassi e Radek Stepanek. Será que eles conseguem montar um plano tático eficiente? Ou, mais importante ainda, que o búlgaro consiga executá-lo?

Dimi está numa bela semana, jogando com confiança e solidez, com direito a lances espetaculares e plásticos. Ainda assim correu risco de perder o segundo set para o chileno Cristian Garin mesmo num piso que tanto o favorece. Me parece que a chance de equilibrar contra Djokovic é um índice muito alto de primeiro saque e a tentativa de evitar pontos mais longos.

Inegável que Gael Monfils foi uma grande decepção no duelo contra Denis Shapovalov, porque jogou muito abaixo do que vinha fazendo e foi totalmente dominado pelo tênis agressivo do garoto. Não faltava motivação para Monfils, já que a vitória valia a vaga (inesperada) no Finals de Londres. Ao menos, comemora a volta ao top 10 depois de quase três anos.

Porém, não se pode tirar os méritos de Shapovalov. A recente parceria com o experiente Mikhail Youzhny está pouco a pouco dando resultados. Não que o russo tenha sido um exemplo de frieza em quadra. O canadense tem grandes golpes e arrojo, falta lhe dar um apuro tático e emocional para conter a força e executar de forma correta os essenciais pontos importantes, onde geralmente ele falha muito.

Este será já o terceiro duelo contra Nadal, com uma vitória para cada lado. Shapovalov venceu em 2017 no Masters caseiro, campanha que o colocou na vitrine do tênis, e foi facilmente dominado no saibro de Roma quatro meses atrás. Como é um atacante por natureza, não se pode esperar outra coisa senão um jogo de alto risco neste sábado, buscando definir em poucas bolas. Tarefa difícil.

E mais
– Tsonga dará o maior salto da temporada entre os que terminam no top 50. Sairá do 259º posto para o 29º. Bem atrás está Daniel Evans (128 postos) e Alexander Bublik (121). O destaque entre os top 30 é Felix Aliassime (109 para 19).
– Nadal venceu todas as 11 quartas de final que disputou nesta temporada. Só tem uma semi a menos que Medvedev.
– Shapovalov abriu mão da vaga no NextGen Finals – não teria muito mesmo o que fazer lá – e no seu lugar entrou Alejandro Fokina.
– Quatro franceses aparecem na lista dos sete tenistas com mais vitórias porém sem títulos de Msters na carreira: Gasquet lidera, Simon é terceiro à frente de Santoro e Monfils está em sétimo.
– As líderes do ranking Ash Barty e Karolina Pliskova duelam numa das semis do Finals de Shenzhen. Isso não acontecia desde a final do Australian Open do ano passado, entre Halep e Wozniacki.
– Halep ficou de fora ao perder jogo maluco para Pliskova. Levou ‘pneu’, reagiu e fez 2/0 no terceiro set, mas não sustentou.
– Atual campeã, Elina Svitolina encerrou a fase de grupos de forma invicta e terá pela frente a estreante em Finals Belinda Bencic. As duas jogaram duas vezes neste ano, com uma vitória para cada lado. Quem vencer, será 6ª do ranking, um posto que Bencic nunca alcançou.
– Thiago Wild vive grande momento no saibro de Guayaquil e atinge sua primeira semi de nível challenger. Deixou no caminho até Thiago Monteiro, o top 90 brasileiro que ganhou Lima no domingo. Mais uma vitória e ele se aproxima do top 250 e de uma vaga no quali do Australian Open.