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As apostas de Djokovic
Por José Nilton Dalcim
15 de fevereiro de 2022 às 23:13

Novak Djokovic não vai mudar de ideia, ao contrário do que muitos acreditavam. Ao menos conforme afirmou à BBC, vacinar no momento está fora de questão, nem que isso custe a ele ficar ausente de grandes torneios, ver Rafa Nadal abrir distância na tabela dos Grand Slam ou perder a liderança do ranking.

Segundo suas palavras, o corpo está acima de tudo e, afirmando ser um grande estudante de saúde e nutrição, está claro que não confia nas vacinas já lançadas contra o coronavírus. E rejeita o rótulo de ‘antivax’. O problema dele parece ser apenas contra este imunizante.

Até agora, Djokovic correria grande risco de não disputar Indian Wells nem Monte Carlo, os dois Masters 1000 que já anunciaram a exigência de comprovação da vacina. Em certo ponto da entrevista, Nole deixa escapar que não estaria disposto à novas desgastantes polêmicas, ou seja, entendi que ele nem mesmo tentaria uma exceção para os lugares que exigirem a vacinação. Atitude sábia.

Para mim, o sérvio se apega em duas coisas. A primeira é que a pandemia perca força e as exigências enfraqueçam pouco a pouco. Grã-Bretanha e Bélgica já deram largo passo nesse caminho e, quem sabe, até maio as barreiras caiam também na Itália e na França, o que pelo menos abriria caminho para disputar Roma e Paris. A meu ver, é uma boa aposta.

A outra opção, talvez bem mais delicada, seria acreditar que é possível manter a forma e algum ritmo de competição, com brechas oferecidas como no caso de Dubai. Não descarto uma retirada ‘sabática’, que ao final das contas permitiria prolongar sua permanência no circuito para muito além de Nadal. Não é algo tão fora de propósito. John McEnroe e Andre Agassi fizeram isso e conseguiram recuperar a qualidade e a vontade. Mas o mundo do tênis mudou muito e acredito que esta segunda aposta envolva alto risco.

Enquanto isso, Nadal mantém a inscrição em Acapulco e, se realmente o fizer, terá pela frente uma verdadeira armada da nova geração, com Daniil Medvedev, Alexander Zverev e Stefanos Tsitsipas na fortíssima lista. O russo, como todo mundo sabe, assumirá a liderança do ranking se conquistar o título, independente do que acontecer em Dubai. Vamos ver como ele lidará com essa pressão.

A volta do Rio Open

  • Grande virada de Thiago Monteiro no Rio Open, o que garante duelo com Matteo Berrettini. Missão duríssima se o número 6 do mundo estiver com a vontade necessária. A lentidão da noite carioca e a torcida podem ajudar o cearense. O público aliás foi muito bom nestes primeiros dias.
  • Monteiro buscará na quinta-feira repetir a vitória sobre um top 10 no Rio Open – como fez em 2016 diante de Tsonga – e também a vaga nas quartas de 2017. Se alcançar êxito, voltará ao top 100.
  • A nova geração brasileira teve seus altos e baixos. Um ATP 500 mostrou estar além do nível de Felipe Meligeni, Matheus Pucinelli teve excepcional vitória sobre Marco Cecchinato no quali e Thiago Wild pegou o duro espanhol Roberto Carballes sem conseguir espantar seus fantasmas. Falta pouco para o capitão Jaime Oncins decidir quem joga simples ao lado de Monteiro diante da Alemanha pela Copa Davis.
  • Os dois mais recentes campeões do torneio deram um enorme vexame, ganharam só dois games e levaram ‘pneu’. Cristian Garin caiu para Federico Coria e diz que as costas ainda são um problema, Laslo Djere parou em Lorenzo Sonego. Por pouco, Carlos Alcaraz não seguiu pelo mesmo caminho, o que seria frustrante, mas reagiu após levar 2/6 de Jaume Munar.
  • Notável como Fernando Verdasco, aos 38 anos, ainda tem tanta vontade e energia para brigar no circuito. Esta é sua quinta semana seguida no saibro sul-americano, a começar por dois challengers. Fez quartas em Buenos Aires, mas ainda está no 172º posto. Joga sua 21ª temporada profissional.
  • Outra grande atração das oitavas no Rio será Carreño x Fognini, já nesta quarta-feira.
Exceções perigosas
Por José Nilton Dalcim
4 de janeiro de 2022 às 14:11

Enfim, o que todo mundo suspeitava aconteceu. O governo australiano cedeu ao que poderia ser um movimento negativo a sua já um tanto abalada popularidade e concedeu ‘permissão especial’ para Novak Djokovic disputar o Australian Open, dentro de duas semanas, em Melbourne.

A notícia é muito boa para o tênis em si. O Grand Slam da Oceania cresce de importância a cada temporada, tanto na estrutura como na competitividade, e seria muito ruim para todo mundo que o melhor tenista do mundo e o recordista de troféus, em plena forma para chegar ao 10º título, ficasse de fora.

Mas ao mesmo tempo é um péssimo exemplo para aqueles que defendem a saúde pública, como parece ser o caso do governo australiano. Afinal, Nole é um ferrenho integrante do grupo antivacina, bateu o pé desde o início e jamais admitiu ter se vacinado. Ao contrário, brigou nos bastidores para obter a tal brecha sanitária. É uma exceção perigosa, que coloca as autoridades australianas naquele grupo do ‘jeitinho’.

Não se pode a grosso modo crucificar Djokovic. Ele é contra a vacinação e fez muito bem sua parte, procurando todos os recursos para entrar na Austrália sem obedecer a regra geral, calcado ao que tudo indica em relatórios e estudos de especialistas sobre imunização. Marcou território, certamente agradou a sua torcida pela firmeza de decisão e será o grande favorito para não apenas estender sua soberania no torneio e no ranking, mas principalmente para se isolar como recordista de troféus de Grand Slam.

Os fins neste caso justificaram os meios, ainda que possa abalar sua imagem perante uma outra parte expressiva do público, que considere sua postura egoísta. Rafael Nadal, aliás, usou exatamente esse adjetivo quando se referiu às pessoas que não se vacinam. Grigor Dimitrov, há poucas horas, se posicionou a favor de que todos seguissem a norma estabelecida. Como reagirá o circuito, já que 90% da ATP e 86% da WTA estão completamente vacinados?

O derrotado acima de tudo é o governo australiano, que insistiu desde o início que seria rígido e austero nessa decisão. Chegou a citar diretamente a situação de Djokovic. Vale lembrar que a onda de infecção triplicou no leste australiano desde o Natal e o estado de Victoria multiplicou por oito o número de contagiados.

Restou aos promotores soltar um lacônico comunicado citando que ‘médicos independentes’ liberaram o tenista, mas sabe-se que as normas previamente divulgadas pelas autoridades sanitárias sobre ‘permissão especial’ não se encaixam na questão do sérvio: inflamação cardíaca ou infecção por coronavírus muito recentes, efeito secundário grave após contrair a doença, problemas de saúde mental que coloquem em risco sua vida ou profissional de saúde que precise entrar no país por interesse nacional.

A polêmica portanto seguirá nos bastidores, nos vestiários e na sala de entrevistas. Djokovic dificilmente vai se livrar de cobrança, de perguntas e quem sabe de protestos. O quanto ele conseguirá administrar isso a cada vez que entrar em quadra será seu outro desafio.

Balaio de gato
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2021 às 11:35

A balbúrdia está instalada no Australian Open. Com três voos fretados apresentando casos de infecção a bordo, tenistas de peso como Victoria Azarenka estão confinados em seus quartos de hotel, de onde só poderão sair uma semana antes de o Grand Slam começar. A conta de jogadores afetados com a medida, que era de 47 no sábado, saltou para 72 no domingo.

Mas não é só. O governo está sob fogo cerrado e recebe pesadas críticas por ter permitido a entrada de estrangeiros vindos dos mais variados lugares, ao mesmo tempo que mantém proibição para quase 40 mil residentes no país de voltarem para casa.

Tentemos explicar a confusão. Segundo as normas de saúde determinadas em Victoria, a província onde está Melbourne, todo passageiro de voo internacional, até mesmo os australianos, têm de ficar 14 dias em quarentena num hotel determinado pelo governo (não é sequer permitido o isolamento em sua própria casa).

O Tennis Australia obteve então uma concessão para que os tenistas deixassem seu quarto por cinco horas diárias para fazer treinamentos no complexo e os participantes tiveram de concordar com essa dura restrição. O deslocamento das 1.240 pessoas que entrarão no pais para o torneio tem sido feito por voo fretado, já que várias companhias aéreas cancelaram rotas para a Austrália.

No entanto, os jogadores alegam não haver instrução antecipada para o caso de surgir uma infecção a bordo dos voos fretados. E foi exatamente isso o que aconteceu com três deles, vindos de Los Angeles, Abu Dhabi e Doha. Os 143 viajantes dos dois primeiros voos foram colocados em isolamento absoluto, 47 deles tenistas. Entre eles, campeãs como Azarenka e Angelique Kerber, nomes bem cotados como Sloane Stephens e Maria Sakkari e tops 10 como Bianca Andreescu e Belinda Bencic. Também foram afetados Kei Nishikori e Pablo Cuevas.

Esse grupo não pode sequer abrir a porta do quarto e um deles, que se atreveu a conversar com amigos, pode ser multado em US$ 15 mil e até expulso. Nas mídias sociais, no entanto, pipocam jogadores reclamando: Vasek Pospisil, das acomodações; Fabio Fognini, das refeições; Yulia Putintseva, da falta de informação e até de um rato em seu quarto. Não há serviço de arrumação, obviamente. Os organizadores atenderam apelos e autorizaram a entrada de pedidos adicionais de alimentação fora do hotel, que serão ressarcidos.

Apesar de não estar afetada pela restrição absoluta, Alizé Cornet se manifesta pelas redes sociais em defesa dos que estão proibidos de deixar seu quarto. “Semanas e semanas de preparação serão jogadas fora e qualquer atleta sofrerá risco de contusão ao voltar aos treinos depois de 14 dias inativo”, reclamou. Neste domingo, a organização providenciou equipamentos de ginástica para cada quarto. “O acordo era que os grupos seriam separados de 10 em 10 nos aviões e, se houvesse um caso, apenas aquela seção seria afetada, jamais se falou em isolar todo o voo”, enfatiza.

Emma Cassar, responsável pela quarentena em toda a província, diz que a medida é necessária, lamenta mas não pode abrir exceções. Autoridades sanitárias já haviam previsto que, dos 1.240 integrantes do Australian Open, cerca de 2% apresentariam infecção pelo coronavírus.

No domingo, o ministro da saúde Greg Hunt garantiu que o Australian Open seguirá em frente na data prevista, ou seja dia 8 de fevereiro, e que o estado de Victoria tem tomado as medidas restritivas apropriadas.

Mais polêmica
As medidas excepcionais adotadas para a disputa do Australian Open causam revolta. Segundo estimativas da ABC News, há cerca de 37 mil cidadãos australianos em diversos pontos do planeta aguardando autorização para voltar para casa. Pior ainda, nem mesmo viagens interestaduais estão permitidas no país. Milhares de residentes de Victoria não têm autorização para retornar e permanecem no aguardo, principalmente em Sydney e Brisbane. Há dois dias, a empresa aérea Emirates cancelou toda sua operação na Austrália.

Victoria foi o estado mais atingido pela pandemia, com médias próximas de 800 casos diários em julho, quatro vezes mais do que Nova Gales do Sul, por exemplo. Desde outubro, diante dos lockdowns, baixaram os índices. Segundo o serviço estadual de Saúde, Victoria teve um pico de 10 casos no dia 2 de janeiro, mas está zerado desde o dia 8. Neste último sábado, o governo tentou amenizar as críticas e informou estar providenciando 20 voos internacionais de repatriação, embora todos terão de cumprir a quarentena na chegada.

O quadro se transformou também numa disputa política. O líder do Partido Liberal afirma que o primeiro ministro local Daniel Andrews “prioriza trazer tenistas oriundos de países com alto risco de infecção ao invés de trazer para casa os australianos. É pior que uma dupla falta”, ironizou.

Em sua defesa, Andrews afirma que a Austrália perderia o Grand Slam para outro país, caso Melbourne não conseguisse realizar o torneio. E ele recebeu forte apoio da Câmara do Comércio de Victoria, que aponta os benefícios econômicos da realização do Australian Open para a região.

Enquanto isso…
Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem, Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams estão longe de toda essa confusão. Privilegiados pela organização, foram colocados num pequena ‘bolha’ em Adelaide. Seus hotéis possuem academia própria e assim eles ainda têm a regalia de cinco horas completas de prática em quadra. Isso sem falar em jogos-treinos já programados para o fim do mês.

Claro que isso não pegou bem no circuito, ainda mais diante da atual balbúrdia em Melbourne. Djokovic foi o único dos grandes que chegou a reclamar da situação tão diferenciada, mas ao final não recusou a oferta.

Se por um lado é justificável que os organizadores tentem proteger suas principais estrelas, de outro derruba a tal isonomia com que prometeu tratar todos os participantes do torneio.