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Com medo e muitas cautelas, o tênis enfim retorna
Por José Nilton Dalcim
31 de julho de 2020 às 20:22

Quatro jogos às 11 horas (de Brasília), válidos pela primeira rodada do qualificatório para o WTA de Palermo, reabrem a temporada profissional do tênis em 2020.

Torneio criado três décadas atrás com várias campeãs de nome bem conhecido, como Mary Pierce, Anastasia Myskina, Dinara Safina e Flavia Pennetta, Palermo viverá um momento histórico apenas dois anos depois de ser reincluído no calendário feminino.

Tem sido uma longa espera. Desde o dia 12 de março, quando todos os eventos challengers e futures em andamento pelo mundo tiveram de interromper suas rodadas ainda pela metade, a bola não rolou mais de forma oficial, limitando-se a diferentes e inventivas exibições.

É evidente no entanto que existe temor no ar, e em alta escala, principalmente depois do ocorrido no Adria Tour de Novak Djokovic. Os promotores italianos impuseram um rígido protocolo, que começou já na chegada das jogadoras e todos os demais integrantes do evento, obrigatoriamente testados contra o coronavírus.

Haverá público, mas pequeno, limitado a 280 espectadores por rodada. Eles sequer poderão visitar os jogos secundários, sendo confinados à quadra central de 1.500 lugares. Fiscais checarão temperatura corporal – quem tiver acima de 37,5 graus será retirado – e irão exigir uso de máscara o tempo todo, incluindo crianças, e isolamento mínimo de metro para quem não for da mesma família.

Antes de cada partida, será feita a higienização dos assentos e todas as áreas abertas ao público. Os fãs não poderão também se posicionar na saída das jogadoras da quadra para pegar autógrafos ou tirar fotos.

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As tenistas só podem levar um acompanhante – exceto as menores de idade e as mães – e quem for diagnosticada com a Covid-19 será afastada e isolada, mas o torneio seguirá em frente. Exames diários acontecem desde terça-feira no hotel oficial, onde também é compulsório o uso de máscaras (apenas liberadas para treinos, jogos e alimentação). Recomenda-se fortemente que as atletas não circulem pela cidade. Desobedientes poderão ser punidas disciplinarmente.

Parece uma loucura, porém todo cuidado é pouco e há expectativa para ver quem realmente vai entrar no sorteio da chave deste sábado. Originalmente, o evento contaria com cinco top 20, mas Simona Halep foi barrada pela lei italiana que exige quarentena para romenos e Johanna Konta não se animou. Seguem inscritas a croata Petra Martic, a tcheca Marketa Vondrousova e a grega Maria Sakkari, além de Jelena Ostapenko, Donna Vekic e Dayana Yastremska.

Numa sexta-feira em que a USTA ratificou o plano de realizar o Masters de Cincinnati e o US Open em Nova York, numa sequência de jogos a partir do dia 24 de agosto, os olhos estão voltados para Palermo para se saber se as extensas medidas preventivas serão efetivas e se o nível técnico estará satisfatório.

O feminino ainda terá mais dois torneios antes de chegar a Nova York, um em Praga e outro em Kentucky, já nos EUA, e continuará portanto sendo o espelho de um circuito que se divide entre amedrontado, ansioso e aliviado.

E mais
– Andy Murray defendeu punição rigorosa para o tenista que não cumprir os protocolos de segurança impostos para os torneios em Nova York, citando exemplos do que já aconteceu na NBA e no golfe, quando atletas ‘furaram’ a bolha.
– Como se esperava, a líder Ashleigh Barty é a primeira grande baixa confirmada para o US Open. Ela não se sente segura para viajar.
– A USTA liberou quase US$ 400 mil para ajudar as finanças de todos os centros públicos de tênis na Flórida. Estão elegíveis 138 locais.

E agora, Nole?
Por José Nilton Dalcim
21 de junho de 2020 às 19:53

* Atualizado às 20h51

Seria um tremendo exagero responsabilizar Novak Djokovic por tudo o que aconteceu nas duas primeiras etapas do seu Adria Tour, evento que criou para angariar fundos, motivar o tênis nos países dos Balcãs e colocar em atividade jogadores que estão precisando de ritmo competitivo.

Mas não resta dúvida de que o circuito do tênis, que já tinha manifestado desconforto com as medidas tão relaxadas vistas tanto em Belgrado como em Zadar, irá desabar na cabeça do número 1 do ranking depois que Grigor Dimitrov testou positivo para o Covid-19.

É possível que o búlgaro não tenha se contaminado na Sérvia, muito menos na Croácia, já que estudos apontam para um ciclo amplo de 1 a 14 dias de incubação do coronavírus, com média entre 5 e 8 dias. No entanto, ele pode ter sido um perigoso agente disseminador da doença, já que participou de intensas atividades dentro e fora das quadras. (Foi noticiado em TenisBrasil que Djokovic teve contato com um jogador de basquete, seu amigo, que estava positivo mas assintomático).

Logo que se viram arquibancadas lotadas em Belgrado e quase ninguém de máscara entre o público, houve inquietação. Mas isso era admissível num país pouco afetado pela pandemia. O evento estava liberado pelas autoridades sanitárias.

O mais surpreendente esteve na atitude descontraída dos jogadores, e aí sim cabe ônus a Djokovic. Sem máscaras nem distanciamento, todos fizeram fotos junto à rede, se cumprimentaram com abraço e aperto de mão, usaram toalhas entregues pelos boleiros. Aliás, nem os garotos, nem os juízes exibiram qualquer proteção. E completou-se o momento com uma agitada festa noturna documentada em vídeos pelas redes sociais.

O script se repetiu neste fim de semana em Zadar. Importante observar que Dimitrov passou seis dias na cidade. Não apenas treinou e jogou, mas ainda disputou partidas de futebol e de basquete ao lado de Djokovic, Borna Coric, Alexander Zverev e Marin Cilic. Um desses jogos foi contra os fãs. Selfies obviamente por todos os lados.

Participou também de um encontro de perguntas no centro da cidade que reuniu muita gente e ainda integrou o Kids Day no qual estavam dezenas de crianças. Isso sem falar em hotel, jantares, vestiário… O primeiro ministro Andrej Plenkovic visitou o evento no sábado, com ações ao lado de Djokovic e Cilic.

Os organizadores cancelaram a final de Zadar minutos depois que Dimitrov publicou seu post no Instagram – uma atitude um tanto desnecessária, já que isso não iria mudar muito o que já havia acontecido – e depois soltaram comunicados, garantindo que haviam tomado todas as medidas epidemiológicas sugeridas e prometendo realizar testes em todos os envolvidos na promoção. O serviço local de saúde colocou até um fone para as pessoas que eventualmente sentirem algo ou tiverem dúvidas.

Porém, se Grigor infelizmente contaminou alguém nos últimos dias, talvez demoremos um pouco para saber devido às características desse terrível vírus. Dominic Thiem realizou exames no começo da semana na Áustria e no sábado, já em Nice. Por enquanto, tudo negativo. Mais uma vez, vale lembrar que a exibição de Patrick Mouratoglou seguiu rigidamente as recomendações: nada de público, todos de máscara, distanciamento.

A notícia desalentadora serve como um alerta ao circuito, que ensaia seu retorno dentro de 54 dias. Todo mundo está obviamente de olho nos grandes torneios norte-americanos, mas ao mesmo tempo serão reiniciados challengers e futures, torneios com estrutura, verba e visibilidade muito menores.

Não pode mais haver negligência sob o risco de o tênis ficar de vez sem calendário no que resta de 2020.