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Exceções perigosas
Por José Nilton Dalcim
4 de janeiro de 2022 às 14:11

Enfim, o que todo mundo suspeitava aconteceu. O governo australiano cedeu ao que poderia ser um movimento negativo a sua já um tanto abalada popularidade e concedeu ‘permissão especial’ para Novak Djokovic disputar o Australian Open, dentro de duas semanas, em Melbourne.

A notícia é muito boa para o tênis em si. O Grand Slam da Oceania cresce de importância a cada temporada, tanto na estrutura como na competitividade, e seria muito ruim para todo mundo que o melhor tenista do mundo e o recordista de troféus, em plena forma para chegar ao 10º título, ficasse de fora.

Mas ao mesmo tempo é um péssimo exemplo para aqueles que defendem a saúde pública, como parece ser o caso do governo australiano. Afinal, Nole é um ferrenho integrante do grupo antivacina, bateu o pé desde o início e jamais admitiu ter se vacinado. Ao contrário, brigou nos bastidores para obter a tal brecha sanitária. É uma exceção perigosa, que coloca as autoridades australianas naquele grupo do ‘jeitinho’.

Não se pode a grosso modo crucificar Djokovic. Ele é contra a vacinação e fez muito bem sua parte, procurando todos os recursos para entrar na Austrália sem obedecer a regra geral, calcado ao que tudo indica em relatórios e estudos de especialistas sobre imunização. Marcou território, certamente agradou a sua torcida pela firmeza de decisão e será o grande favorito para não apenas estender sua soberania no torneio e no ranking, mas principalmente para se isolar como recordista de troféus de Grand Slam.

Os fins neste caso justificaram os meios, ainda que possa abalar sua imagem perante uma outra parte expressiva do público, que considere sua postura egoísta. Rafael Nadal, aliás, usou exatamente esse adjetivo quando se referiu às pessoas que não se vacinam. Grigor Dimitrov, há poucas horas, se posicionou a favor de que todos seguissem a norma estabelecida. Como reagirá o circuito, já que 90% da ATP e 86% da WTA estão completamente vacinados?

O derrotado acima de tudo é o governo australiano, que insistiu desde o início que seria rígido e austero nessa decisão. Chegou a citar diretamente a situação de Djokovic. Vale lembrar que a onda de infecção triplicou no leste australiano desde o Natal e o estado de Victoria multiplicou por oito o número de contagiados.

Restou aos promotores soltar um lacônico comunicado citando que ‘médicos independentes’ liberaram o tenista, mas sabe-se que as normas previamente divulgadas pelas autoridades sanitárias sobre ‘permissão especial’ não se encaixam na questão do sérvio: inflamação cardíaca ou infecção por coronavírus muito recentes, efeito secundário grave após contrair a doença, problemas de saúde mental que coloquem em risco sua vida ou profissional de saúde que precise entrar no país por interesse nacional.

A polêmica portanto seguirá nos bastidores, nos vestiários e na sala de entrevistas. Djokovic dificilmente vai se livrar de cobrança, de perguntas e quem sabe de protestos. O quanto ele conseguirá administrar isso a cada vez que entrar em quadra será seu outro desafio.

Imposição à vacina pode dividir de vez o circuito
Por José Nilton Dalcim
20 de outubro de 2021 às 20:31

O Governo australiano decidiu: ninguém irá entrar no país sem comprovar que tomou as duas doses recomendadas da vacina. E os tenistas que querem disputar o Australian Open não serão exceção. Nem mesmo o número 1 e eneacampeão Novak Djokovic.

A determinação, exposta nesta quarta-feira pelo ministro local da Imigração, Alex Hawke, coloca sobre a mesa a discussão sobre a liberdade individual de não se vacinar mas ao mesmo a responsabilidade de cada um em não transmitir o vírus.

A Austrália tem sido um dos países mais rígidos no controle da epidemia, o que muito provavelmente explique os baixos números de infecção e mortes, e a vacinação de sua população anda em bom ritmo. Não faz muito tempo, Melbourne foi fechada devido a um único caso detectado.

O pico de mortes ocorreu em agosto do ano passado, com 41, mas entre novembro e julho beirou o zero. A curva voltou a subir e hoje a média de mortes está em 15, a mais alta em 14 meses. No total da pandemia, houve o registro até agora de 130 mil casos, com 1.448 mortos. Até ontem, 57,5% da população estava totalmente vacinada.

Então é justificável que as medidas restritivas para a entrada de pessoas no país continuem severas. Por muitos meses, sequer residentes australianos que estavam fora das fronteiras recebiam autorização para voltar, fato que já gerou desconforto ao governo durante o Australian Open de fevereiro, onde tenistas, treinadores e juízes ganharam o direito de entrar após cumprir isolamento mínimo de 14 dias, algo que era negado aos próprios cidadãos no estrangeiro.

Desta vez, as autoridades garantem que irão tratar todos de forma igualitária, ou seja, ninguém entrará por portos ou aeroportos sem a vacinação completa concluída. E apesar de ATP, WTA e ITF terem buscado uma alternativa – sugeriram forçar quarentena e testes para os não-vacinados -, o governo não recuou até agora.

Embora não exista um levantamento oficial, estima-se que 35 a 40% dos atuais top 100 não tenham se vacinado ainda. Esse número pode diminuir na janela entre as duas temporadas, quando muitos jogadores voltarão enfim para casa e terão tempo para isso. Porém é sabido que muitos resistem à ideia de se vacinar e já o disseram publicamente.

Claro que o pivô é Djokovic. O número 1 do mundo e favorito ao 10º título, quando poderá também quebrar o recorde de troféus de Grand Slam, se recusou nesta semana a dizer se já se vacinou, alegando à imprensa sérvia que isso era algo de cunho pessoal.

Há largo debate entre os especialistas se as pessoas que já contraíram o coronavírus, e portanto desenvolveram anticorpos, teriam ou não o mesmo grau de imunização dos vacinados. É exatamente o caso de Djokovic.

O sérvio também é o cabeça da PTPA, a associação paralela de jogadores que obviamente se contrapõe à ATP. Se Djokovic for impedido de competir pelas leis australianas, qual seria a chance de um boicote dos simpatizantes da PTPA ao Australian Open?

Acredito que seja grande. Mais do que isso. Seria oportunidade concreta de a nova entidade ganhar força e respeito, muito semelhante ao que aconteceu à própria ATP no boicote a Wimbledon de 1973.

E não tenho a menor dúvida de que isso coloca ATP e ITF contra a parede, ainda que a decisão do governo australiano esteja acima da esfera esportiva.

Dia de festa
Há exatos 23 anos, logo pelas 8h da manhã, entrava no ar a primeira versão de TenisBrasil, então ainda chamado de ‘revista eletrônica’. Por alguns poucos meses, o site foi tocado com atualizações semanais, sempre às segundas-feiras, onde se fazia resumo dos torneios encerrados no domingo, dava-se os novos rankings e calendário, além de focar nos jogadores de maior destaque.

Não era um trabalho fácil, já que se vivia a era pré-Google, e buscas de dados levavam horas numa conexão discada. Diante do crescimento vertiginoso de audiência, em março de 1999 TenisBrasil já se tornou diário e, em julho, passou a ser parceiro do portal UOL, como acontece até hoje. Obrigado a todos os incontáveis colaboradores do projeto.

Balaio de gato
Por José Nilton Dalcim
18 de janeiro de 2021 às 11:35

A balbúrdia está instalada no Australian Open. Com três voos fretados apresentando casos de infecção a bordo, tenistas de peso como Victoria Azarenka estão confinados em seus quartos de hotel, de onde só poderão sair uma semana antes de o Grand Slam começar. A conta de jogadores afetados com a medida, que era de 47 no sábado, saltou para 72 no domingo.

Mas não é só. O governo está sob fogo cerrado e recebe pesadas críticas por ter permitido a entrada de estrangeiros vindos dos mais variados lugares, ao mesmo tempo que mantém proibição para quase 40 mil residentes no país de voltarem para casa.

Tentemos explicar a confusão. Segundo as normas de saúde determinadas em Victoria, a província onde está Melbourne, todo passageiro de voo internacional, até mesmo os australianos, têm de ficar 14 dias em quarentena num hotel determinado pelo governo (não é sequer permitido o isolamento em sua própria casa).

O Tennis Australia obteve então uma concessão para que os tenistas deixassem seu quarto por cinco horas diárias para fazer treinamentos no complexo e os participantes tiveram de concordar com essa dura restrição. O deslocamento das 1.240 pessoas que entrarão no pais para o torneio tem sido feito por voo fretado, já que várias companhias aéreas cancelaram rotas para a Austrália.

No entanto, os jogadores alegam não haver instrução antecipada para o caso de surgir uma infecção a bordo dos voos fretados. E foi exatamente isso o que aconteceu com três deles, vindos de Los Angeles, Abu Dhabi e Doha. Os 143 viajantes dos dois primeiros voos foram colocados em isolamento absoluto, 47 deles tenistas. Entre eles, campeãs como Azarenka e Angelique Kerber, nomes bem cotados como Sloane Stephens e Maria Sakkari e tops 10 como Bianca Andreescu e Belinda Bencic. Também foram afetados Kei Nishikori e Pablo Cuevas.

Esse grupo não pode sequer abrir a porta do quarto e um deles, que se atreveu a conversar com amigos, pode ser multado em US$ 15 mil e até expulso. Nas mídias sociais, no entanto, pipocam jogadores reclamando: Vasek Pospisil, das acomodações; Fabio Fognini, das refeições; Yulia Putintseva, da falta de informação e até de um rato em seu quarto. Não há serviço de arrumação, obviamente. Os organizadores atenderam apelos e autorizaram a entrada de pedidos adicionais de alimentação fora do hotel, que serão ressarcidos.

Apesar de não estar afetada pela restrição absoluta, Alizé Cornet se manifesta pelas redes sociais em defesa dos que estão proibidos de deixar seu quarto. “Semanas e semanas de preparação serão jogadas fora e qualquer atleta sofrerá risco de contusão ao voltar aos treinos depois de 14 dias inativo”, reclamou. Neste domingo, a organização providenciou equipamentos de ginástica para cada quarto. “O acordo era que os grupos seriam separados de 10 em 10 nos aviões e, se houvesse um caso, apenas aquela seção seria afetada, jamais se falou em isolar todo o voo”, enfatiza.

Emma Cassar, responsável pela quarentena em toda a província, diz que a medida é necessária, lamenta mas não pode abrir exceções. Autoridades sanitárias já haviam previsto que, dos 1.240 integrantes do Australian Open, cerca de 2% apresentariam infecção pelo coronavírus.

No domingo, o ministro da saúde Greg Hunt garantiu que o Australian Open seguirá em frente na data prevista, ou seja dia 8 de fevereiro, e que o estado de Victoria tem tomado as medidas restritivas apropriadas.

Mais polêmica
As medidas excepcionais adotadas para a disputa do Australian Open causam revolta. Segundo estimativas da ABC News, há cerca de 37 mil cidadãos australianos em diversos pontos do planeta aguardando autorização para voltar para casa. Pior ainda, nem mesmo viagens interestaduais estão permitidas no país. Milhares de residentes de Victoria não têm autorização para retornar e permanecem no aguardo, principalmente em Sydney e Brisbane. Há dois dias, a empresa aérea Emirates cancelou toda sua operação na Austrália.

Victoria foi o estado mais atingido pela pandemia, com médias próximas de 800 casos diários em julho, quatro vezes mais do que Nova Gales do Sul, por exemplo. Desde outubro, diante dos lockdowns, baixaram os índices. Segundo o serviço estadual de Saúde, Victoria teve um pico de 10 casos no dia 2 de janeiro, mas está zerado desde o dia 8. Neste último sábado, o governo tentou amenizar as críticas e informou estar providenciando 20 voos internacionais de repatriação, embora todos terão de cumprir a quarentena na chegada.

O quadro se transformou também numa disputa política. O líder do Partido Liberal afirma que o primeiro ministro local Daniel Andrews “prioriza trazer tenistas oriundos de países com alto risco de infecção ao invés de trazer para casa os australianos. É pior que uma dupla falta”, ironizou.

Em sua defesa, Andrews afirma que a Austrália perderia o Grand Slam para outro país, caso Melbourne não conseguisse realizar o torneio. E ele recebeu forte apoio da Câmara do Comércio de Victoria, que aponta os benefícios econômicos da realização do Australian Open para a região.

Enquanto isso…
Novak Djokovic, Rafael Nadal, Dominic Thiem, Simona Halep, Naomi Osaka e Serena Williams estão longe de toda essa confusão. Privilegiados pela organização, foram colocados num pequena ‘bolha’ em Adelaide. Seus hotéis possuem academia própria e assim eles ainda têm a regalia de cinco horas completas de prática em quadra. Isso sem falar em jogos-treinos já programados para o fim do mês.

Claro que isso não pegou bem no circuito, ainda mais diante da atual balbúrdia em Melbourne. Djokovic foi o único dos grandes que chegou a reclamar da situação tão diferenciada, mas ao final não recusou a oferta.

Se por um lado é justificável que os organizadores tentem proteger suas principais estrelas, de outro derruba a tal isonomia com que prometeu tratar todos os participantes do torneio.