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Diferentes 3 a 0
Por José Nilton Dalcim
22 de janeiro de 2020 às 14:35

Maiores candidatos à vaga na final na parte inferior da chave do Australian Open, Novak Djokovic e Roger Federer não perderam sets na segunda rodada mas, apesar de o sérvio ter teoricamente o adversário de gabarito inferior, obteve um 3 a 0 mais trabalhoso e menos brilhante do que o do suíço.

Djokovic encarou as bolas retas de Tatsuma Ito, mas não escondeu sua frustração com a ventania, que o deixou irritado ao longo do segundo set. Como ele bem destacou depois, encontrou um caminho com subidas mais frequentes à rede. Foi novamente bem no saque, com 16 aces e nenhum break-point.

Enfrenta outro japonês na sequência, o canhoto e chato Yoshihito Nishioka, que não tem muita força mas mescla bem os golpes e adora um super-spin. Deixou Nadal maluco na ATP Cup, mas foi engolido por Nole na Copa Davis do ano passado. Será mais um teste físico e de paciência para o heptacampeão.

O adversário de Federer tinha mais currículo, mas era previsível que sentisse o grande esforço dos cinco sets da véspera. E o suíço, muito esperto, fez o grandão correr o tempo todo, pegou tudo na subida e só deu pequeno vacilo com a perda de um serviço, que não atrapalhou nada. Curioso notar que Roger quebrou o adversário logo no começo de todos os seis sets que jogou até aqui no torneio.

Com direito a lances de qualidade e elasticidade, Federer não escondeu sua satisfação ao dar entrevista a John McEnroe. E sabe que terá de entrar atento contra John Millman, que sempre lhe dá trabalho com seus ótimos contragolpes. Foi assim que surpreendeu o suíço no US Open de 2018 e o levou a um tiebreak até mesmo na veloz grama de Halle no ano passado.

Chave vai abrindo
O grande jogo do dia certamente foi a vitória de cinco sets e três tiebreaks do garoto Tommy Paul em cima do cabeça 18 Grigor Dimitrov. Campeão juvenil de Roland Garros, o norte-americano agora de 22 anos tem potencial mas conviveu com lesões nesta curta carreira, com paradas de 5 meses em 2018 (cotovelo) e de 3 em 2019 (joelho), e assim passou a maior parte do tempo nos challengers.

Consistente, é também cheio de habilidades e mostrou isso diante do também versátil Dimitrov, num jogo de lances bem divertidos. Paul fará duelo de não cabeças contra Marton Fucsovics e quem vencer pode cruzar com Federer nas oitavas.

O fato é que a caminhada do suíço rumo à semifinal se abre cada vez mais. Não dá para dizer que foi uma surpresa a queda de Matteo Berrettini diante do jogo sólido de Tennys Sandgren – que há dois anos chegou nas quartas ao tirar Wawrinka e Thiem -, um candidato real a repetir o feito. Encara agora Sam Querrey e depois terá Guido Pella ou o esgotado Fabio Fognini.

Show de Wozniacki
Numa rodada de vitórias fáceis de Ashleigh Barty, Naomi Osaka e Serena Williams, o briho ficou para Caroline Wozniacki. Dominada pelos nervos e a força de Dayana Yasmtremska, ganhou seis games seguidos para virar 1/5 no primeiro set e reagiu também no 1/3 da série seguinte. Espírito de luta e visão tática sempre foram suas marcas registradas, que certamente vai deixar saudade quando a dinamarquesa se retirar após este Australian Open.

Osaka vai encarar a juventude de Coco Gauff pelo segundo Slam seguido, relembrando aquela emocionante cena do US Open, em que a norte-americana não jogou nada e foi consolada em quadra. Talvez ainda não esteja novamente pronta para barrar a atual campeã de Melbourne, mas Gauff pode explorar as instabilidades que Osaka mostrou nas duas primeiras rodadas.

Serena quase se complicou sozinha com erros sucessivos no segundo set e curiosamente pode cruzar com a amissíssima Carol na rodada seguinte. Barty também ainda não se soltou e encara uma animada Elena Rybakina agora.

Destaques do dia 3
– Tsitsipas nem precisou entrar em quadra, já que Kohlschreiber sentiu lesão muscular e abandonou. Não sei se é tão bom assim ficar uma rodada sem jogar logo no começo do torneio. Pior: pega o corta-físico Raonic agora.
– Os novatos Sinner e Davidovich não ganharam set na segunda rodada, o que era esperado. O italiano parou em Fucsovics e o espanhol, em Schwartzman.
– Embalado pela ATP Cup e sem alarde, Lajovic ainda não perdeu set em Melbourne. Reecontra El Peque, para quem perdeu no AusOpen de dois anos atrás num apertadíssimo quinto set.
– Dois velhos finalistas de Slam avançaram: Raonic esmagou Garin e Cilic passou por Paire no supertiebreak. Podem se cruzar, mas canadense terá de vencer Tsitsipas e o croata passar por Bautista.
– Fognini acumula 10 sets e dois supertiebreaks logo de cara. E o esforço desta quarta-feira poderia ser evitado, já que abriu 2 a 0 sobre Thompson e poderia ter simplificado. Perdeu 2 dos 3 duelos já feitos contra Pella.
– Halep confessou que o punho direito está doendo, mas que isso não deve atrapalhar contra Dart na rodada desta quinta-feira.

Façanhas e recordes
Sem jamais ter perdido em Melbourne antes da terceira rodada em 21 participações, Federer atingiu a 99ª vitória. Pode assim se tornar o único homem da história com uma centena de triunfos em dois Slam diferentes (tem 101 em Wimbledon).

Djoko e Federer largam com façanhas
Por José Nilton Dalcim
20 de janeiro de 2020 às 13:38

Um ainda não perdeu em 2020, o outro não havia jogado até agora. Dois dos três maiores campeões que o Australian Open já teve, Novak Djokovic mostrou grande arsenal ainda que tenha cedido um set na estreia, enquanto Roger Federer superou a ‘ferrugem’ com seu tênis costumeiramente vistoso e elegante. Aproveitaram para anotar mais façanhas em suas incríveis carreiras.

Djokovic marcou a 900ª vitória como profissional – e são 82% de sucesso, já que soma apenas 187 derrotas – com pequenos vacilos, que não podem ser considerados um problema para uma primeira rodada. A meu ver, o sérvio de hoje é muito parecido com Federer em seu auge, ou seja, o andamento do jogo depende muito mais dele próprio do que do adversário.

E foi exatamente assim contra Jan-Lennard Stuff. Sem sacar seu melhor, o alemão só conseguiu tirar seu primeiro set nos confrontos diretos quando Djoko baixou a intensidade e fez dois games muito ruins de serviço. Mas a devolução mortal, os voleios apurados e o excepcional contragolpe estavam lá nas horas necessárias e a tarefa foi concluída sem maiores sustos. Agora, vem um adversário teoricamente ainda mais fácil: Tatsuma Ito ou Prajnesh Gunneswaran.

Federer entrou pela 21ª vez consecutiva no Australian Open, desempatando o recorde que dividia com Lleyton Hewitt, e simplificou muito seu trabalho contra Steve Johnson ao quebrar sempre no início dos sets. O suíço explicou na entrevista oficial que as condições parecem mesmo rápidas, mas que as bolas Dunlop, que passaram a ser usadas em 2019, são velozes quando novas e depois mudam. A segunda rodada pode ser bem mais exigente se der Filip Krajinovic diante de Quentin Halys.

Altos e baixos da Next Gen
Stefanos Tsitsipas e Matteo Berrettini fizeram o esperado e superaram seus frágeis adversários sem grandes sustos, usando bem a velocidade do novo piso. O grego só permitiu cinco games, e agora terá um teste mais digno diante do experiente Philipp Kohlschreiber. O italiano ainda não mostrou progresso esperado no seu backhand.

Denis Shapovalov e Borna Coric se despediram cedo. O canhoto canadense teve mesmo o azar de pegar o bom Marton Fucsovics logo de cara e admitiu ter entrado muito nervoso em quadra. Perdeu inúmeras chances, sempre apressado, e mandou duas raquetes para longe. E ainda reclamou da advertência. O húngaro pode ter Dimitrov na terceira e Federer nas oitavas.

Coric não surpreendeu. Não está bem de cabeça e parece perdido taticamente. Foi engolido pelo experiente Sam Querrey, que está no quadrante de Berrettini e Pella. Não dá para reclamar.

Superchave feminina
Serena Williams afirmou que o título em Auckland tirou peso das costas e mostrou isso em estreia muito firme diante da jovem Anastasia Potapova. Também elogiável a exibição da atual vice Petra Kvitova, que só perdeu um game e economiza energia.

A defensora do título Naomi Osaka e a estrela da casa Ashleigh Barty precisaram dominar os nervos. A japonesa deu sinal de que iria dominar facilmente, mas errou mais do que deveria (28 no total) e em momentos importantes. Barty emudeceu o público ao perder um sofrível primeiro set. Depois, se achou, variou o tempo todo e atropelou.

Vale lembrar que essas quatro estão no lado de cima da chave.

Destaques do dia 1
– Número 1 está em disputa apenas no masculino e tem uma única chance de mudar de mãos: Djoko ser campeão e Nadal cair até as quartas. No feminino, o título em Adelaide garantiu Barty no topo.
– Sinner está a dois games de sua primeira vitória em Slam e Opelka, a um set de tirar Fognini com 17 aces cravados e só um break-point permitido.
– Wozniacki iniciou bem a despedida da carreira, que acontecerá em Melbourne. Mas pode ter Dayana Yastremska como próxima adversária.
– Gauff repetiu Wimbledon e eliminou Venus, na maior batalha de gerações dos Slam atuais. A valente juvenil pode pegar Osaka na terceira rodada.
– Devido ao mau tempo de segunda-feira, os 64 jogos normais desta terça-feira serão acrescidos de outros 19 masculinos, oito deles que estavam em andamento, e mais 13 femininos.

Feitos e recordes
– O Big 3 ganhou todos os últimos 12 Slam, desde a conquista do US Open de 2016 por Stan Wawrinka. A maior sequência foi de 18, entre Paris-2005 e Wimbledon-2009. Na atual série, Nadal ganhou 5, Djoko faturou 4 e Federer, 3.
– Serena tem a maior distância entre o primeiro e o último Slam conquistados da Era Aberta: 17 anos. Federer e Nadal vêm atrás, com 14.
– Feliciano López atinge o 72º Slam disputado consecutivo, 5 a mais que Verdasco.

Projeto criança
Por José Nilton Dalcim
30 de setembro de 2019 às 20:36

Estudos indicam que apenas 4,3% das crianças entre 6 a 12 anos jogam tênis com regularidade – número praticamente estagnado na última década – e que acabam abandonando a raquete antes de completar 11 anos, com menos de dois anos de prática. E por que não há tantos garotos nas quadras? A ideia geral é que o tênis permanece um esporte de elite e ter aulas ou bater bola ainda está limitado a quem pode pagar.

Não, não estou falando do Brasil, mas dos Estados Unidos.

Esses dados fazem parte de uma série de pesquisas que mapearam as dificuldades de crescimento do tênis por lá, tomando por base o longo período em que os norte-americanos estão sem um campeão de Grand Slam – o último foi Andy Roddick em 2003 – e na dificuldade de as meninas repetirem o sucesso das irmãs Williams. A única exceção foi Sloane Stephens, que venceu o US Open de 2017.

Os analistas concluem o óbvio: há uma crise de falta de atividade física na população. E isso só piora para o tênis. O custo anual de uma família para manter um pequeno na quadra é de US$ 1.200 – irrisórios R$ 4.800 reais se comparados à realidade brasileira -, o que no entanto é três vezes mais do que o basquete, por exemplo. Observou-se que muitas crianças sequer estão expostas ao tênis por lá, porque não têm proximidade com uma quadra, com uma raquete ou ao menos com pessoas jogando.

Boa parte desses estudos foram bancados pela Associação das Indústrias de Esporte e Fitness. Que inveja. O Brasil não tem um único censo do tamanho do tênis, trabalhando há décadas com dados empíricos e, muitas vezes, superestimados. Não sabemos quantos jogadores, professores, quadras ou meros admiradores o nosso tênis tem. E talvez isso explique a dificuldade cada vez maior de se vender o produto.

Estrangeirismo
O tênis norte-americano sofre também de uma invasão de jogadores de fora, que cada vez procuram mais academias e universidades locais como oportunidade de progredir e fazer intercâmbio. Em 2013, nada menos do que a metade dos participantes do NCAA – o circuito universitário tão importante no país – eram estrangeiros.

Aliás, essa realidade está clara no próprio circuito profissional, onde meninas como Maria Sharapova e Naomi Osaka ganharam Grand Slam ou rapazes como Kei Nishikori e Kevin Anderson atingiram o top 10. Todos eles foram basicamente criados dentro do sistema norte-americano, e muitos desde muito pequenos.

Coco Gauff surgiu como luz no fim do túnel. Aos 15 anos, entrou em Wimbledon deste ano e chegou nas oitavas de final. Foi ao US Open e também passou duas rodadas. Já tem 32 vitórias de primeiro nível no circuito e está perto de chegar ao top 100.

Novo enfoque
Há pouco tempo, perguntaram a Andre Agassi por que o tênis masculino norte-americano parou no tempo e ele enfatizou que a saída era colocar raquetes em mãos de mais crianças. “Temos 300 milhões de habitantes e não criamos um sistema que ofereça oportunidades para surgir um talento, que possa ganhar um Slam de novo”.

A USTA enfim deu ouvidos e lançou o programa chamado ‘Net Generation Aces’. O mais interessante é que a procura não está focada em golpes ou resultados, mas em identificar os juvenis entre 13 e 17 anos que tenham “poder de influenciar suas comunidades”, tendo como pilares “respeito, responsabilidade, esforço, trabalho em equipe e ética”. Isso é absolutamente espetacular.

Os primeiros escolhidos, por exemplo, se destacam pela inovação. Um deles colocou para funcionar um sistema online de cadastramento de jogadores e de torneios regionais que multiplicou rapidamente os competidores, enquanto outro investe num trabalho de reciclagem que já chegou a 35 mil bolas, todas usadas em programas mais carentes.

Não menos interessante é que o Net Generation Aces não está estritamente focado no tênis em si, mas em formar uma nova geração que seja estimulada à prática de esportes, qualquer que seja. Outro estudo, publicado pela Health Affairs, mostra que crianças fisicamente ativas economizarão bilhões de dólares em custos médicos ou na perda de produtividade ao longo de sua vida adulta.

Microfone indiscreto
Não bastassem a falta de educação de Nick Kyrgios, os casos de doping e as punições por aposta, o tênis profissional se vê pela terceira vez envolto com polêmicas envolvendo a arbitragem. Desta vez, e talvez mais grave, foi a captura de diálogos um tanto libidinosos do renomado árbitro italiano Gianluca Moscarella com uma pegadora de bola e, no mesmo jogo, dando uma chamada no português Pedro Sousa por estar demorando demais para ganhar uma partida que o oficial considerava “fácil”.

Nos áudios captados – todos os jogos de nível challenger são agora transmitidos pela ATP -, Moscarella diz que a boleira é “espetacular” e “sexy”, pergunta se sente “quente” (impossível não imaginar uma segunda intenção na frase) e depois se flagra um longo diálogo em que ele diz a Sousa para “se manter focado”, “vamos lá, era para ser 6/1 e 6/1, você já perdeu 45 break-points”. Ao menos neste caso, a ATP suspendeu imediatamente o italiano das funções até que a investigação termine.

Moscarella é árbitro de nível semelhante ao de Mohamed Lahyani, suspenso por descer da cadeira para “motivar” Kyrgios no US Open do ano passado, e de Damián Steiner, que teve contrato rompido com a ATP por ter dado entrevistas não autorizadas, um caso aliás ainda mal explicado.

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