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Respeitem sua majestade
Por José Nilton Dalcim
31 de maio de 2022 às 21:41

Existe o velhíssimo provérbio que afirma que um rei jamais perde a majestade. Rafael Nadal elevou isso à segunda potência nesta terça-feira ao vencer uma partida consideravelmente atípica diante de Novak Djokovic, em que diversas situações antagônicas se desenrolaram diante de um público maravilhado com a qualidade técnica e o empenho dos homens que vêm dominando o saibro de Roland Garros nos últimos 17 anos.

Djokovic pareceu acreditar que poderia competir com Rafa num ritmo moderado e foi atropelado. Dominante e ofensivo, com um backhand assustador, o canhoto espanhol abriu 6/2 e 3/0, Massacre. Baixou então a guarda no game seguinte de serviço e isso foi a deixa para que o número 1 se soltasse. Enfim bateu mais na bola, passou a trocar direções e de repente virou o placar e levou o set. Games longos e lances de tirar o fôlego recheavam a batalha, que já tinha então quase 2h30.

Era de se esperar que Nole ganhasse muita confiança, mas ao contrário quem cresceu novamente foi Nadal. O saque aparecia nos momentos importantes e isso permitia que o forehand fizesse o trabalho mais importante. Ciente de que teria que se impor, o sérvio se aplicou no saque e fez devoluções ofensivas, o que deu vantagem confortável de 3/0, 4/1 e 5/2 e um quinto set histórico parece inevitável.

Não cacifou os dois set-points do nono game e aí a coisa se complicou, porque Nadal acreditou, a torcida se inflamou e veio o tiebreak. O desempate foi magistralmente disputado pelo espanhol até o 6-1, distância suficiente para completar uma vitória empolgante. Na estatística, observe-se o rendimento muito inferior do sérvio nos lances em que jogou com o segundo saque (42% diante de 60%) e a contagem centenária de winners (57 a 48 para o espanhol).

Como já aconteceu outras vezes, Nadal chegou um tanto desacreditado a Paris, levou até um susto contra Felix Aliassime e acaba agora dando uma completa volta por cima. Não há qualquer sinal de sequelas no problema com o pé esquerdo e isso o transforma no favorito absoluto ao 14º título e ao 22º troféu de Grand Slam. O rei do saibro renasceu na Chatrier e está mais forte do que nunca.

Zverev dá show
Colocado num evidente segundo plano ao longo das rodadas anteriores, ainda mais diante de algumas atuações pouco convincentes, o alemão Alexander Zverev fez uma grande apresentação nas quartas de final de Roland Garros e se vingou da derrota sofrida para o espanhol Carlos Alcaraz na final de Madri. A realização do jogo em condições mais velozes permitiu que Sascha tirasse tudo do saque e dos golpes agressivos, ao mesmo tempo em que claramente dificultou para Alcaraz encontrar o tempo de bola ideal, já que ele só vinha jogando à noite.

A postura do número 3 do mundo foi impecável. Bateu muito na bola, soltou o forehand e não economizou pernas em busca das temidas curtinhas do adversário, logo ele que sempre mostrou certa limitação para correr à frente. Hoje, estava super ligado em tudo. Viu o jogo perigosamente ameaçado de ir ao quinto set, quando enfim Alcaraz cortou os erros e cresceu na partida, porém manteve a cabeça no lugar e não encurtou o braço. Curiosamente, na véspera, havia acusado a organização de dar privilégios excessivos ao garoto. Entrou duplamente mordido, ao que tudo indica.

Foi, a meu ver, sua melhor atuação em toda a temporada e, para coroar isso, enfim derrotou um top 10 em partidas de Grand Slam, o que jamais havia obtido em 11 tentativas anteriores. Vai disputar sua quinta semi de Slam e a segunda em seguida em Paris. O desafio agora é gigantesco: vencer Nadal na Chatrier. Ele até possui três vitórias em nove jogos sobre o canhoto espanhol, uma delas no saibro de Madri, porém perdeu as duas em melhor de cinco sets. Motivação não falta: um eventual inédito título de Slam o coroará como novo número 1.

Semi inesperada
O primeiro nome da nova geração garantido na semi de Roland Garros é Coco Gauff. Aos 18 anos, ela alcança sua maior campanha nos Slam ao ganhar o duelo norte-americano contra a experiente Sloane Stephens. Não foi um jogo excepcional, já que houve mais erros do que acertos no set inicial, mas Gauff mostra que está cada vez mais madura para os grandes momentos.

Sua adversária será a italiana Martina Trevisan. No jogo nervoso de canhotas diante da garota Leylah Fernandez, que machucou o pé logo no começo, anotou 42 winners, o que mostra sua capacidade sobre o saibro. Conforme conta Mário Sérgio Cruz no TenisBrasil, Martina ficou quatro anos afastada do tênis quando seu pai adoeceu e retornou em 2014 em torneios pequenos. Daí então seu feito já é notável.

O único confronto direto entre Trevisan e Gauff aconteceu há dois anos lá mesmo em Roland Garros e a italiana levou a melhor. A norte-americana já garantiu volta ao top 20 e pode entrar na faixa das 10 em caso de título no sábado. Dez anos mais velha e sem perder há 10 partidas, Martina saírá do 59º posto para o 26º e chegará ao 19º em caso de final.

Esperança carioca
O tênis brasileiro ainda segue vivo em Paris nas mãos do carioca João Fonseca, de apenas 15 anos. Ele entrou no torneio depois de ganhar eliminatória nacional e derrotou na segunda rodada o número 2 do ranking juvenil, o paraguaio Daniel Vallejo, com uma vistosa atuação e muita agressividade.

Festa completa
Por José Nilton Dalcim
29 de maio de 2022 às 19:55

Quatro dos seis melhores jogadores do mundo, todos muito competentes sobre o saibro, irão decidir entre si quem vai à final na parte superior da chave de Roland Garros. Não dava para pedir mais. Enfim, veremos a 59ª edição do duelo entre Rafael Nadal e Novak Djokovic, os dois mais bem sucedidos jogadores nos últimos 17 anos do torneio, e Alexander Zverev reencontrará a sensação Carlos Alcaraz na revanche recente de Madri.

Há favoritos? Sim, mas isso é quase uma questão retórica.

Djokovic está em momento técnico e físico superior aos do canhoto espanhol, além de ter economizado muito mais suor na trajetória. O sérvio vem numa ascendente desde Roma e sempre entrou em quadra com seriedade em Paris. Não perdeu set nestes quatro jogos e pôde experimentar seus melhores golpes contra Diego Schwartzman, que decepcionou pela passividade. Se há alguma coisa a contestar, talvez um grau acima de tensão na postura de Nole. E isso pode fazer diferença na terça-feira.

Até agora, Rafa não acusou dificuldade com o pé esquerdo. Pelo contrário, não poupou esforços e precisou de todo seu gás para superar neste domingo um inspirado Felix Auger-Aliassime, que enfim comprova que não apenas subiu de ranking mas de status. Não é o melhor Nadal já visto em Roland Garros, longe disso, porém o multicampeão tira o máximo do saibro parisiense e tomou as rédeas do quinto set – apenas o terceiro que fez e venceu em Roland Garros – diante de um adversário 14 anos mais jovem. No entanto, ele deve saber que principalmente o saque precisa melhorar contra Djokovic.

Claro que existe um componente emocional nesse reencontro que vai muito além de golpes e táticas. E não se restringe à luta direta pelo recorde de Grand Slam. Nole parece engasgado com a meta de dominar outra vez o circuito depois de tanta polêmica e críticas. Rafa por sua vez tem consciência de que, frente suas limitações, cada chance de morder um troféu pode ser a última, ainda mais na Chatrier.

Num clima obviamente inferior, o duelo entre Zverev e Alcaraz também promete muito. Caso o jogo aconteça mesmo na rodada noturna, a vantagem do espanhol cresce um pouco mais, porque o alemão tem maior dependência de velocidade do piso, especialmente por conta do saque e do backhand. A vantagem de Sascha, claro, é a experiência superior.

A final de Madri, em que foi atropelado, não serve como referência devido a sua estafa. O que para mim pesa de verdade é o fato de que ele não tem jogado no alto padrão até agora, sofrendo para se impor, e um adversário sólido da base e dono de ótimo poder defensivo, como aconteceu hoje diante do pouco conhecido Bernabe Zapata, tende a lhe dar grande dor de cabeça. Alcaraz chega em todas, devolve sempre mais uma bola e ainda tem reconhecido poder de ataque e contragolpe.

Renovação à vista no feminino
A norte-americana Coco Gauff, de 18 anos, e a canadense Leylah Fernandez, de 19, são as apostas para marcar a renovação no saibro francês. Únicas cabeças de chave ainda de pé nesse lado inferior da chave, entram para as quartas de final de terça-feira com chances reais de sucesso.

Gauff repete a campanha do ano passado e portanto não é surpresa. Mas fez uma preparação fraca, tendo caído na estreia em Stuttgart e encontrado adversárias difíceis nas oitavas de Madri e de Roma, onde parou em SImona Halep e Maria Sakkari. Mas de repente se achou em Paris e ainda não perdeu set. Aliás está viva também na chave de duplas.

Fernandez, por sua vez, ganhou o juvenil de Paris em 2019 e sempre se esperou que ela reproduzisse com sucesso seu jogo requintado. Porém, não vencia dois jogos seguidos no circuito desde que chegou nas quartas de Indian Wells e esses altos e baixos na confiança se refletiram na atuação contra Amanda Anisimova, repleta de break-points.

Enquanto Gauff faz duelo americano contra a experiente Sloane Stephens, que nunca se sabe em que nível irá jogar, Fernandez encara confronto de canhotas contra a italiana Martina Trevisan, que já esteve nas quartas do torneio e parece jogar sempre solta. Apostaria minhas fichas nas duas garotas.

Chance de semifinal
O tênis brasileiro tenta duas semifinais nesta segunda-feira em Roland Garros, resultados muito expressivos em termos de Grand Slam. Rafael Matos e seu parceiro espanhol Davi Vega continuam entrosados e passando por adversários de respeito, como foi agora diante dos belgas Gille/Vliegen. Já Bia Haddad e Bruno Soares deram um show contra Mirza/Dodig, o que não é pouca coisa. Vale sempre lembrar que o Brasil já teve uma parceria que foi à final de mistas, em 1982, formada por Cláudia Monteiro e Cássio Motta.

Quem é quem nas oitavas de final
Por José Nilton Dalcim
4 de julho de 2021 às 15:09

Após o tradicional domingo de descanso – que terminará em 2022 após mais de um século -, Wimbledon tem sua segunda-feira cheia e realiza todos os jogos de oitavas de final nos dois sexos. É sem dúvida uma rodada muito especial e vale um raio-x da situação.

Sete dos top 10 estão ainda na luta na chave masculina, algo muito valioso se considerarmos que dois não jogaram, e apenas três são ‘trintões’ (Novak Djokovic, Roger Federer e Roberto Bautista). Dos 10 classificados com até 25 anos,. o mais jovem é Felix Aliassime, de 20.

Experiência na grama é sempre muito importante. Dez dos classificados atingem as oitavas de Wimbledon pela primeira vez e outros três já chegaram na quarta rodada mas nunca passaram dela (Alexander Zverev, Matteo Berrettini e Karen Khachanov). Além dos campeões Djokovic e Federer, apenas Bautista foi além, com semi em 2019. Hubert Hurkacz e Illya Ivashka fazem suas maiores campanhas em Grand Slam.

Se vencerem, Zverev, Daniil Medvedev e Andrey Rublev terão atingido quartas em todos os quatro Slam, honraria que apenas nove tenistas em atividade possuem.Já Ivashka e Sebastian Korda podem repetir Nick Kyrgios em 2014 ao chegar nas quartas logo em sua primeira participação no torneio.

No feminino, ao contrário, apenas quatro das oito principais cabeças vingaram e quatro não pré-classificadas ainda resistem, sendo Liudimila Samsonova e Emma Raducanu convidadas, fato inédito em Wimbledon na Era Aberta. Além das duas, Viktorija Golunic também atinge oitavas de Slam pela primeira vez.

Angelique Kerber é única que já venceu WImbledon; Ashleigh Barty, Iga Swiatek e Barbora Krejicikova faturaram Paris; Karolina Pliskova e Madison Keys têm vices no US Open.

Masculino
– Djokovic x Garin – No único duelo, na ATP Cup do ano passado, sérvio marcou duplo 6/3. Chileno nunca havia vencido no torneio antes de 2021. Djoko pode atingir 50ª presença em quartas de Slam.
– Medvedev x Hurkacz – Confronto inédito. Russo só ganhou 3 de 9 tiebreaks neste ano e vem de sete vitórias seguidas na grama.
– Zverev x Aliassime – Alemão nunca perdeu set em 3 duelos, mas canadense vem bem na grama em 2021. Aliassime só fez um jogo em 5 sets e perdeu, contra 16-8 de Zverev.
– Rublev x Fucsovics –  Será sétimo embate e o quarto desta temporada. Húngaro ganhou só os dois primeiros, em 2016-17.
– Federer x Lorenzo – Suíço dominou fácil em Roland Garros-19.  Federer joga 220ª partida na grama (191 vitórias) contra 17ª do italiano e pode atingir 18ª quartas em Wimbledon e 58ª nos Slam.
– Berrettini x Ivashka – Italiano ganhou em nível challenger em 2017 e vem do ttulo em Queen’s. É o quinto tenista com mais vitórias em 2021.
– Bautista x Shapovalov – Outro jogo inédito. Espanhol é muito mais rodado na grama (35-15 contra 9-11). Canadense só tem uma vitória sobre top 10.
– Khachanov x Korda –  Primeiro cruzamento. Americano jamais disputou um jogo em 5 sets e faz temporada melhor (21-9 contra 19-14).

Meus palpites para as quartas: Djokovic x Rublev, Korda x Bautista, Berrettini x Zverev e Federer x Medvedev. Mas torço por Shapovalov e Aliassime.

Feminino
– Barty x Krejcikova – Nunca se enfrentaram. Tenistas que mudam muito o ritmo do jogo e são as últimas a vencer Paris.
– Rybakina x Sabalenka – Partida entre duas jogadoras que batem firme na bola. Bielorrussa ganhou os dois duelos
– Swiatek x Jabeur – Ótimo desafio para a polonesa, que venceu único encontro anterior com virada notável.
– Pliskova x Samsonova – Wimbledon é único Slam em que Pliskova não fez quartas ainda. Samsonova venceu últimos 10 jogos na grama.
– Badosa x Muchova – Espanhola sofreu na 3ª rodada, Muchova tenta repetir quartas de 2019.
– Gauff x Kerber – Duelo inédito. Americana tem 5-4 quando enfrentou campeãs de Slam e alemã vem de dois jogos em três sets.
– Keys x Golubic – Cada uma venceu um confronto. Suíça nunca foi tão longe num Slam, Keys joga oitavas pela 15ª vez.
– Raducanu x Tomljanovic – Sensação britânica terá torcida a favor contra a experiência da australiana.

Meus palpites para as quartas: Barty x Tomljanovic, Muchova x Kerber, Samsonova x Keys e Swiatek x Sabalenka. Mas torço por Gauff e Raducanu.