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Saibro de Paris vai tremer
Por José Nilton Dalcim
9 de junho de 2021 às 19:29

Já se foram 57 duelos, desde que se cruzaram pela primeira vez no saibro de Paris, há 15 anos. Ao longo da mais extensa rivalidade do tênis profissional masculino, houve dezenas de decisões de títulos e um punhado de troféus de Grand Slam em disputa, mas parece que a cada vez o confronto fica ainda mais importante e imprevisível. O desta sexta-feira tem um valor incrivelmente pesado, ainda que o vencedor tenha de completar a tarefa dois dias depois se quiser subir mais um degrau rumo ao Olimpo.

O desafio maior está nas mãos de Novak Djokovic, porque terá de derrotar um Rafael Nadal novamente imbatível no saibro de Roland Garros nos últimos cinco anos. O sérvio conseguiu a façanha uma única vez, nas quartas de um 2015 em que o espanhol estava longe do seu melhor. Desde a vitória nas quartas de Roma da temporada seguinte, Nole nunca mais conseguiu superar Rafa na terra, série que atingiu cinco derrotas consecutivas na recente decisão do Foro Itálico e que incluiu um duro placar quando os dois lutaram pelo título de Roland Garros no ano passado. Foi o único 6/0 que Djoko sofreu em qualquer decisão de Slam.

O favoritismo de Nadal é inquestionável, mas o espanhol também sofre certa pressão sobre os ombros. Além da invencibilidade incrível de 13 semifinais em Paris, sabe que está diante de uma chance de ouro para atingir o 21º troféu de Slam e se tornar o maior ganhador de todos os tempos. Aos 35 anos, as oportunidades tendem a ficar cada vez mais escassas diante da limitação natural do próprio corpo e de uma nova leva de adversários cada vez mais sedentos por glória.

Não há surpresas táticas a se imaginar. Temos visto ao longo desta temporada de saibro que o saque de Nadal preocupa mais do que antes, porque muitas vezes o segundo serviço se mostra frágil, e talvez seja o campo a ser explorado pelas devoluções sempre agressivas do número 1. Isso no entanto deveria ter acontecido no confronto de Roma dias atrás e o que vimos foi Nadal usar bem melhor o primeiro serviço e Djokovic retraído no ataque. Durante este Roland Garros, os dois se mostraram até aqui fisicamente impecáveis, muito velozes para cobrir todos os cantos da quadra, confiantes nos pontos importantes e com excelente variedade de golpes, com destaque para voleios e deixadas. É partidão para cinco sets, e aí ficaria interessante para ver se Djokovic conseguiria quebrar esse outro tabu monstruoso que Rafa carrega em Paris.

E para deixar tudo ainda mais quente, os dois perderam sets e tiveram de jogar com máxima seriedade nas quartas de final. Diego Schwartzman arriscou o máximo que pôde, encarou trocas de bolas duríssimas e tirou o prêmio maior que foi acabar com a série de sets vencidos do espanhol, até que por fim não tinha mais forças na reta final da partida – e esse filme não é novo – e suas bolas cada vez mais curtas foram um convite para o 22º ‘pneu’ aplicado por Nadal no torneio, mais um recorde.

Djokovic por seu lado seguiu o ‘script’ imaginado e explorou pacientemente o backhand de Matteo Berrettini até aparecerem os buracos. Porém sofreu bem mais, pois o 9º do ranking se salvava com saque pesado e forehand forçado e a partir do terceiro conseguiu ser realmente competitivo. Berrettini faturou um tiebreak improvável – o terceiro seguido que Nole perde no torneio, depois de abrir 5-4 e ter dois saques para fechar logo -, e ainda lutou muito no quarto set até enfim ceder e ouvir Nole soltar gritos ruidosos e eufóricos por estar em sua 11ª semi em Paris.

Nova campeã em Paris
E o circuito feminino verá mais uma campeã inédita de Grand Slam e a sexta consecutiva em Paris. Tudo porque Iga Swiatek não viveu seus melhores dias, sofreu um desconforto na coxa direita mas acima de tudo encarou uma Maria Sakkari deliciosamente decidida a brilhar. Foi uma exibição de arrojo e versatilidade da número 18 do ranking, que voltou a mostrar aquele tênis completo e a energia eletrizante de Miami. Bem curiosa sua opção tática de atacar 80% do tempo o lado direito da polonesa, onde também mirou quase sempre o primeiro serviço, e o fato de ter vencido metade dos pontos em que devolveu o segundo saque adversário.

Sua adversária já nesta quinta-feira será a tcheca Barbora Krejcikova, que não para de surpreender. Depois de tirar Elina Svitolina e Sloane Stephens, saiu do buraco no primeiro set diante de Coco Gauff, em que a jovem adversária abriu 3/0 e sacou com 5/4 e 40-30, tendo ainda dois set-points antes do tiebreak e outros dois no desempate, um deles com o serviço. Ou seja, sobraram chances e Krejcikova nunca perdeu a cabeça, exatamente o que aconteceu com a jovem adversária. Gauff pirou totalmente, despedaçou raquete e só voltou quando já perdia por 5/0 e a reação era quase impossível.

Sakkari perdeu três meses atrás para Krejickova na quadra dura de Dubai em sets diretos, mas provavelmente isso terá menor influência do que o controle dos nervos. A tcheca tem uma vantagem mais relevante: já ganhou Roland Garros e Wimbledon e foi vice na Austrália de duplas.

Com Anastasia Pavlyuchenkova x Tamara Zidansek na outra semi, esta é a primeira vez que as quatro na penúltima rodada de um Slam são inéditas em mais de quatro décadas, o que não acontecia desde Melbourne de 1978. Roland Garros verá a oitava campeã diferente seguida, série que começou com Maria Sharapova e Serena Williams e depois seguiu com Garbiñe Muguruza, Jelena Ostapenko, Simona Halep, Ashleigh Barty e Swiatek, sendo que para as cinco últimas também era o primeiro Slam.

Big 2 ensina a arte da consistência aos garotos
Por José Nilton Dalcim
7 de junho de 2021 às 19:03

Novak Djokovic levou um susto ao perder os dois primeiros sets para um atrevido e aplicado Lorenzo Musetti, Rafael Nadal esteve ameaçado de ceder o primeiro set no torneio desde a final de 2019 para o já top 20 Jannik Sinner, mas os ‘velhinhos’ mostraram que lhes sobram consistência técnica, tática e física e que ainda é preciso fazer muito mais sobre o saibro de Roland Garros para tirá-los da luta pelo título.

Musetti deve ter surpreendido todo mundo. Nem tanto pela reconhecida qualidade de seus golpes, mas pela fidelidade ao plano de jogo e cabeça fria que o levou a ganhar dois tiebreaks do número 1 do mundo, o que não é para qualquer um. Aliás, o garoto nunca perdeu um tiebreak em torneios de primeira linha e ganhou todos os oito que fez nesta temporada, o que reafirma sua capacidade de ser ousado e frio.

Bem orientado, Musetti usou dois recursos que sempre incomodam Djokovic: o slice no backhand e a bola sem peso no centro da quadra. Soube esperar a hora certa de mudar o ritmo e atacar, aplicando-se ao máximo no serviço. O cabeça 1 então cometeu mais erros do que o habitual, porque muitas vezes precisou dar o peso na bola com o forehand acima da cintura, o que nem sempre é tão confortável como parece.

Mas num Slam não basta ser brilhante por dois sets. É preciso dosar o físico para uma eventual batalha e isso talvez tenha sido a experiência que faltou ao italiano. Djoko vendeu muito caro esses dois sets perdidos, fez o adversário se mexer muito, atrás de ângulos e deixadas, e o preço foi pago já no terceiro set.

Enquanto o adversário 15 anos mais jovem desabava, Nole continuou no seu ritmo firme e sufocante, resultando num massacre. Completamente esgotado, com dor lombar e cãibra conforme revelou depois, Musetti nem conseguiu terminar a partida. De qualquer forma, foi o grande nome do dia e provou, logo no seu primeiro Slam, que tem mesmo muita chance de brilhar no circuito.

O entusiasmo de Sinner durou bem menos. Depois de falhar nos dois games iniciais, ganhou consistência e virou o placar anotando quatro seguidos, vantagem que permitiria a ele sacar para o set com 5/4. Não colocou um único primeiro saque na quadra, foi quebrado de zero e aí Nadal se agigantou, ganhando oito games seguidos.

O espanhol no entanto voltou a oscilar, jogou mal em mais dois serviços no segundo set e deu a chance do empate, que Sinner desperdiçou. Seria querer demais que Rafa lhe desse mais alguma cancha. Nadal foi absoluto daí em diante, arrancou para mais uma série de oito games consecutivos e permitiu apenas 10 pontos ao italiano no terceiro set, dos quais apenas dois foram erros não forçados do megacampeão.

Nadal e Djokovic ficam assim a apenas uma vitória do aguardadíssimo reencontro na semifinal de sexta-feira. O espanhol terá antes de aumentar a ‘freguesia’ sobre Diego Schwartzman, que já está em 10 a 1. O argentino fez um péssimo começo contra Jan-Lennard Struff e chegou a estar 5/1, tendo de salvar sete set-points. Achou a forma de segurar o alemão no fundo de quadra e estava pertinho de fechar o terceiro set com rapidez quando outra vez veio a instabilidade e Struff quase empatou no 10º game. Ou seja, o valente Peque não está nem perto do nível que mostrou em Roma do ano passado na sua única vitória sobre Nadal. Está muito mais para o fácil placar da semi de Paris em 2020.

Djokovic por seu lado terá outro italiano pela frente, mas curiosamente só cruzou com Matteo Berrettini uma vez, na fase classificatória do Finals de 2019, quando perdeu meros três games. Se obtiver alto índice de primeiro saque, que permita principalmente disparar seu excelente forehand, Berrettini tem condições de ser competitivo e quem sabe empurrar os sets para tiebreaks. Ainda que seu backhand tenha evoluído a olhos vistos, não me parece ter consistência e muito menos confiança para aguentar a artilharia pesada do número 1 se ficar no fundo de quadra. Vão faltar pernas se fugir o tempo todo para o lado esquerdo, como costuma fazer.

Swiatek amplia favoritismo
Se Iga Swiatek chegou a Paris cheia de moral após seu título em Roma, o andamento da edição 2021, com a sucessão de queda das favoritas em Roland Garros, deixa a polonesa de 19 anos cada vez mais candidata a conquistar o bicampeonato. Curiosamente, ela foi quem teve mais trabalho nesta segunda-feira para avançar às quartas de final, já que ucraniana Marta Kostyuk, um ano mais jovem, mostrou qualidades e resistência. Foi quem mais tirou games de Swiatek até aqui.

Assim como seu ídolo Nadal, a polonesa também está sem perder set desde o início da campanha do ano passado. Sofreu um pouco porque encarou a sempre diferente sessão noturna, que deixa tudo mais lento. Kostyuk foi esperta, abusou das deixadinhas e até quebrou antes. Continuou ameaçando, games longos, mas por fim prevaleceu a consistência de Swiatek. O próximo desafio também é inédito: a divertida Maria Sakkari, que atropelou a finalista de 2020 Sofia Kenin e aumentou a festa grega no saibro parisiense. Nunca o país teve dois nomes nas quartas de um mesmo Slam.

Os outros dois jogos foram logo cedo num piso mais veloz e surpreenderam pela rapidez: Coco Gauff nos seus tenros 17 anos não deu muita chance à tunisiana Ons Jabeur, usando o saibro quase como se fosse um piso duro. E enfrentará agora uma sensação, a tcheca Barbora Krejcikova, outra tenista de jogo solto que só permitiu dois games a Sloane Stephens, vice de 2018. Krejcikova também está viva nas quartas de duplas e caiu nesta segunda nas quartas de mistas, prova de que o físico e a disposição estão em dia.

A rodada de terça
– Medvedev e Tsitsipas tentam a quarta semi de Slam, e até hoje nenhum deles perdeu quando chegou nas quartas. Se o russo tem 5-1 nos duelos e única vitória no saibro, Tsitsipas é o líder de vitórias na temporada (37) e na terra (20).
– Grego só ganhou 1 dos últimos 8 jogos contra adversário top 5 e no saibro soma 2 em 8. Mas tem marca muito superior em jogos de 5 sets na carreira: 5-4 diante de 1-7 do russo.
– Zverev ganhou os cinco sets que jogou em duas partidas diante de Davidovich, mas sempre na quadra dura. Espanhol venceu mais jogos no saibro este ano (14 a 13).
– Zverev ganhou todos seus jogos que foram ao quinto set em Paris (7) e tenta semi no terceiro diferente Slam. Davidovich venceu 9 dos 11 tiebreaks que fez nesta temporada.
– Separadas por 10 posições no ranking (22 a 32) e oito anos na idade, Rybakina e Pavlynchenkova fazem duelo inédito e buscam primeira semi de Slam. As duas jogam lado a lado e estão nas quartas de duplas.
– Também não há histórico entre Badosa (35 do ranking) e Zidansek (85). A Eslovênia nunca havia tido uma jogadora sequer nas oitavas de um Slam.

Em ritmo de treino
Por José Nilton Dalcim
1 de junho de 2021 às 18:59

Rafael Nadal suou um pouco mais que Novak Djokovic, porém os dois nomes mais cotados para o título de Roland Garros tiveram estreia quase protocolar nesta terça-feira. Daqui a dois dias, terão novamente amplo favoritismo diante de adversários também veteranos. Rafa reencontra um de seus maiores ‘fregueses’, Richard Gasquet, contra quem tem 16 a 0, enquanto Djoko faz duelo inédito contra o acrobático Pablo Cuevas.

O megacampeão fez dois sets muito tranquilos diante de Alexei Popyrin, que até conseguiu ser competitivo em trocas longas e abusou do saque, porém o espanhol falhou num game de serviço e por muito pouco não perdeu o terceiro set. Na verdade, Popyrin foi muito incompetente. No primeiro set-point, fez dupla falta. No outro, errou smash. A decisão acabou num tiebreak que ratificou então a enorme diferença entre os dois.

Num saibro lento da noite parisiense, Tennys Sandgren se esforçou ao máximo diante de condições que não combinam nada com seu jogo e Djokovic sempre achou as melhores soluções. O sérvio não perdeu serviços, mas precisou salvar seis break-points no segundo set em dois games distintos, ainda que já dominasse o placar naquela altura. O número 1 marcou 33 winners em 26 games e fez um primeiro set quase perfeito com meros 4 erros.

Enquanto isso, a nova geração tropeçou feio. Andrey Rublev ensaiou reação após perder os dois primeiros sets. No entanto, não conseguiu superar o tênis muito mais variado de Jan-Lennard Struff, que já havia lhe dado muita dor de cabeça em Roma dias atrás. Vice de Monte Carlo onde parou Nadal, o russo foi perdendo energia ao longo da temporada de saibro. No ano passado, foi quadrifinalista. Já Felix Aliassime não achou antídoto para as bolas retas do veteraníssimo Andreas Seppi, de 37 anos e hoje 98º do ranking. É bem verdade que o italiano tem histórico em Paris e chegou a ter 2 sets a 0 contra Djoko nas oitavas em 2012.

As boas notícias vieram com Diego Schwartzman e Gael Monfils. O argentino pegou o fraco Yen-Hsun Lu, fez seu papel e venceu com autoridade. O francês esteve a um ponto de ver Albert Ramos abrir 2 sets a 0, quando o espanhol jogou um slice no meio da rede. A partir daí foi engolido pela determinação de Monfils e sua ruidosa torcida. Favoritos na próxima rodada, Schwartzman pode cruzar com Aslan Karatsev na terceira fase e Monfils, com Sinner.

Mais problemas no feminino
Desta vez, nenhuma cabeça de chave caiu. Ao menos em quadra. Um dia depois de perder Naomi Osaka na confusa polêmica das entrevistas obrigatórias, Petra Kvitova anunciou ter sido vítima de um torção no pé quando. por ironia do destino, saia da coletiva de domingo, quando venceu duríssimo jogo de estreia. A canhota tcheca fez ressonância e constatou que não dava para continuar. Tanto Osaka como Kvitova estavam no lado inferior da chave.

E não foi só. Durante a exigente vitória no terceiro set diante da canhota Bernarda Pera, a campeã de 2019 Ashleigh Barty voltou a sentir lesão lombar e preocupa. Ela minimizou a contusão, porém sabe que terá de estar inteira diante de Magda Linette, vice de Estrasburgo no sábado.

A rodada teve ainda uma atuação sofrível de Elina Svitolina, boa recuperação de Karolina Pliskova depois do vexame em Roma e Coco Gauff de intensos altos e baixos. Muito legal rever Carla Suárez em quadra, recuperada do câncer linfático. Jogou bem, teve 6/3 e 5/4 com saque para vencer Sloane Stephens. Levou a virada e ganhou um abraço apertado da adversária.

Começa a segunda rodada
A parte inferior das chaves de simples abre nesta quarta-feira a segunda rodada de Roland Garros, mas poucos jogos me empolgam.
– Tsitsipas pode ter a tarefa mais dura, já que Pedro Martinez é especialista e surpreendeu Korda, ainda que seja 103º com meras 14 vitórias de ATP na carreira.
– Medvedev encara Paul, campeão juvenil do torneio em 2015 e que vem de maratona de cinco sets. Colocaram na tal rodada noturna, onde tudo é bem mais lento, o que não agrada o russo.
– Zverev reencontra Safiullin, um adversário dos tempos de juvenil. O russo progrediu pouco e hoje é 182º.
– Bautista é super favorito contra Laaksonen e Carreño, frente Couacaud.
– Jogos interessantes envolverão Khachanov e Nishikori – japonês acabou de fazer 3-2 no histórico com virada em Madri – e de Fognini frente Fucsovics, em que italiano tem 2-1 mas nunca se cruzaram no saibro.
– Sabalenka tenta ir à 3ª rodada de Paris pela primeira vez contra Sasnovich.
– Serena pega segunda romena em sequência. Buzarnescu já fez oitavas em Paris há três anos.
– Bencic e Kasatkina fazem tira-teima já que empatam por 2-2. Azarenka pega a campeã juvenil de 2018, Clara Tauson.
– Monteiro faz último jogo da quadra 12 e deve entrar por volta de 12h. Faz duelo inédito contra Steve Johnson, que basicamente só bate slice de backhand. Será preciso paciência e ficar esperto para rápida transição à rede e volear as bolas mais lentas.