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Como um número 1
Por José Nilton Dalcim
26 de janeiro de 2022 às 12:22

Daniil Medvedev conseguiu uma vitória para lá de heroica. Sem mostrar seu melhor tênis, sufocado por um determinado e eficiente Felix Aliassime, o russo escapou da eliminação que parecia inevitável, suportou a pressão da torcida e admitiu ter sido favorecido pelo fechamento do teto justamente durante o tiebreak decisivo do terceiro set. Ainda assim, teve de encarar um match-point e evitou sucessivos breaks na última série. Esse Urso é duro de matar.

Aliassime merece todos os elogios, porque fez exatamente o que tinha de fazer. Foi agressivo o tempo todo, o que obviamente lhe custou muitos erros não forçados – principalmente no quinto set onde o cansaço era evidente -, mas lhe deu a oportunidade de estar na semifinal. Sacou bem e com inteligência, fez ótimas transições à rede com incríveis 41 pontos de 48 tentativas e usou o forehand na paralela como meio de desestabilizar Medvedev. Lutou com todas as forças e recursos numa maratona de 4h42.

Medvedev pareceu ter sido pego de surpresa com a tática adotada pelo canadense no começo da partida, já que recebia bolas muito anguladas na direita e deixava o outro lado descoberto. E falhou feio na hora da pressão, com duplas faltas comprometedoras. A coisa piorou no segundo set, porque Aliassime se mantinha muito confiante a ponto de perder apenas quatro pontos com o serviço.

O russo evitou quebra que seria desastrosa no começo do terceiro set e só conseguiu abafar o ritmo do jovem adversário quando o teto fechou no terceiro ponto do tiebreak. Com o piso um pouco mais veloz, o saque de Medvedev cresceu e foi exatamente um ace que o salvou da derrota no 10º game do quarto set. Imediatamente, Felix jogou seu pior game até então e o russo enfim empatou apesar de se mostrar apressado e ansioso.

O nível físico e consequentemente de precisão caíram no quinto set, principalmente do lado de Aliassime, que fez então apenas 6 winners e 16 erros, perdendo agora a maioria das trocas mais longas. Ainda assim, teve seis break-points e ao menos num deles a bola estava na mão. Sofreu uma quebra boba logo no terceiro game e quase reagiu no final. Medvedev afirmaria minutos depois que se inspirou nas grandes viradas do número 1 Novak Djokovic e deixou um recado claro na lente da câmera: “Não estou cansado”. Esta foi apenas sua terceira vitória em quinto sets em 10 partidas na carreira e a segunda virada de 0-2, como aconteceu contra Marin Cilic em Wimbledon-2021.

Portanto, Stefanos Tsitsipas que se cuide. O grego deu um salto de qualidade e atropelou de forma um tanto inesperada o italiano Jannik Sinner sem ter o saque ameaçado uma única vez e, mais notável, aproveitando sem pestanejar os quatro break-points que construiu. Nem sacou tão bem, mas o fato é que a mão estava abençoada e permitiu quase o dobro de winners (30 a 16) diante de um adversário um tanto passivo. No único jogo da rodada a não chegar ao quinto set, Stef economizou energia e manteve a sina de vencer todas as cinco quartas de Slam que já disputou.

Medvedev e Tsitsipas vão assim repetir a semi do ano passado, amplamente dominada pelo russo. Stef só venceu dois dos oito duelos, porém o mais recente, nas quartas de Roland Garros. O grego busca a segunda final de Slam e o russo, a quarta. Tanto um como o outro têm histórico negativo contra Rafael Nadal (1-3 e 2-7) e vantagem sobre Matteo Berrettini (3-0 e 2-0). É fácil imaginar para quem vão torcer.

Qualquer que sejam os vencedores de sexta-feira, haverá história no Melbourne Park. Tsitsipas e Berrettini buscam seu primeiro Slam após ter feito finais inéditas em 2021; Medvedev está a dois jogos do número 1 e Rafa, a dois do 21º Slam.

Swiatek também vira
Num jogo tecnicamente fraco mas cheio de emoções e reviravoltas, a polonesa Iga Swiatek reagiu em cima da veterana Kaia Kanepi em duelo de 3 horas sob calor de 32 graus para marcar sua maior campanha de Slam numa quadra dura. Ela também havia perdido o primeiro set no jogo anterior, diante de Sorana Cirstea, e terá missão difícil na semi contra a agressiva norte-americana Danielle Collins já na manhã desta quinta-feira.

A campeã de Roland Garros cometeu 50 erros, sendo 12 duplas faltas, mas ainda foi superior às 62 falhas de Kanepi. A estoniana de 36 anos chegou a sair o segundo set com quebra. O único título no piso sintético de Swiatek veio em fevereiro do ano passado em Adelaide, mas ela jura que está se sentindo cada vez mais à vontade.

Collins fez uma partida bem mais compacta contra Alizé Cornet, arriscou o tempo todo como de hábito e mostrou o backhand tão incisivo. Aos 28 anos, faz sua segunda semi de Slam e no Australian Open. O único confronto com Swiatek foi justamente em Adelaide de 2021.

A quinta-feira também terá a outra semi, em que a número 1 do mundo Ashleigh Barty entra com amplo favoritismo diante da norte-americana Madison Keys, ainda que o histórico seja apertado, com 2 a 1. Barty tenta ser a primeira australiana na final desde Wendy Turnbull em 1980. As duas são as líderes de aces no torneio (35 de Keys e 30 de Barty), mas a australiana venceu 82% de seus games de serviço e a norte-americana, 72%.

Bia na luta pela história
Como bem destacado por Mário Sérgio Cruz em TenisBrasil, Beatriz Haddad Maia joga às 21 horas desta quarta-feira para se tornar a terceira brasileira numa final de Grand Slam, repetindo a multicampeã Maria Esther Bueno e a vice de mistas em Roland Garros de 1982, Claudia Monteiro.

As adversárias são as mesmas que Bia e Anna Danilina derrotaram há duas semanas rumo ao título de Sydney, as japonesas e cabeças 2 Shuko Aoyama e Ena Shibahara. Se vencerem, há uma grande chance de a disputa pelo título ser diante das favoritas Barbora Krejcikova e Katerina Siniakova, na madrugada de domingo.

Tops do tênis brasileiro: surpresa e memórias
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2020 às 20:22

Para finalizar a série de artigos sobre os melhores do tênis da Era Profissional, é primordial um capítulo para o tênis brasileiro. A análise dos dados oficiais da ATP e WTA é bem valiosa e serve não apenas para enaltecer Gustavo Kuerten e Maria Esther Bueno, mas também para relembrar alguns jogadores que tiveram carreiras expressivas.

Os dados listados abaixo referem-se exclusivamente a ‘grandes torneios’, ou seja, Grand Slam, Masters 1000 e ATPs ou WTAs. Obviamente Guga lidera praticamente tudo no masculino. Talvez por isso seja interessante – e em certos casos surpreendente – olharmos quem vem atrás do imbatível catarinense.

Vamos aos tópicos que considero mais relevantes no tênis masculino:

VITÓRIAS GERAIS NA CARREIRA
Gustavo Kuerten – 358v-195d (64,7%)
Fernando Meligeni – 202v-217d (48,2%)
Thomaz Bellucci – 200v-216d (48,1%)
Luiz Mattar – 191v-178d (51,8%)
Thomaz Koch – 181v-151d (54,5%)
Observe-se que neste item a ATP considera os jogos de Grand Slam também da era amadora. Com isso, Koch tem a segunda melhor marca de eficiência.

VITÓRIAS EM GRAND SLAM
Gustavo Kuerten – 65v-30d (68,4%)
Thomaz Koch – 41v-33d (55,4%)
Fernando Meligeni – 25v-33d (43,1%)
Thomaz Bellucci – 23v-35d (39,7%)
Edison Mandarino – 21v-33d (38,9%)
São válidos os Slam amadores. Apenas Guga e Koch têm saldo positivo. O terceiro posto percentual é de Marcos Hocevar (43,5%. com 10v-13d)

VITÓRIAS EM MASTERS 1000
Gustavo Kuerten – 109v-52d (63,7%)
Thomaz Bellucci – 33v-53d (38,4%)
Fernando Meligeni – 12v-21d (36,4%)
Flávio Saretta – 8v-8d (50%)
Luiz Mattar – 8v-18d (30,8%)
É uma série de torneios mais recente, com dados computados desde 1990. Apenas mais quatro brasileiros têm vitórias nesse nível: Mello, Oncins, Motta e Sá.

VITÓRIAS POR PISO
Guga lidera tudo, não? Não! Vejamos:

Sintético
Gustavo Kuerten – 147v-89d (62,3%)
Luiz Mattar – 85v-71d (54,5%)
Thomaz Bellucci – 66v-102d (39,3%)

Saibro
Gustavo Kuerten – 181v-78d (69,9%)
Fernando Meligeni – 161v-131d (51,1%)
Thomaz Bellucci – 128v-101d (55,9%)

Grama
Thomaz Koch – 29v-28d (50,9%)
Marcos Hocevar – 12v-11d (52,2%)
Edison Mandarino – 12v-22d (35,3%)

Koch tem 52,5% de sucesso no sintético e 51% no saibro. Guga tem apenas 7 vitórias na grama, menos que Sá (10), Kirmayr (9) e Motta (8).

SOB PRESSÃO
Alguns itens dão uma ideia importante sobre como os tenistas reagem em momentos de pressão.

Tiebreak
Gustavo Kuerten – 132v-131d (52,2%)
Thomaz Bellucci – 103v-100d (51%)
Fernando Meligeni – 59v-65d (47,6%)

Viradas (após perder 1º set)
Gustavo Kuerten – 68v-155d (30,5%)
Fernando Meligeni – 46v-171d (21,2%)
Thomaz Bellucci – 45v-164d (21,5%)

Vitória no set decisivo (3º ou 5º)
Gustavo Kuerten – 106v-68d (60,9%)
Thomaz Bellucci – 76v-86d (46,9%)
Luiz Mattar – 67v-54d (55.4%)

Rogerinho tem 56,7% em tiebreaks (17 em 30), Mattar chegou a 22,2% em viradas (42-147) e Hocevar atingiu 54,5% em set decisivo (39-30).

FAÇANHAS
Claro que Guga sempre está a anos-luz dos demais, mas vale destacar a façanha dos demais.

Vitórias sobre top 10
Apenas 12 brasileiros conseguiram: Guga (38), Meligeni (9), Bellucci (6), Koch, Kirmayr e Mattar (3); Hocevar (2); Monteiro, Mandarino, Oncins, Saretta e Motta (1).

Títulos de ATP
Nove brasileiros ganharam até hoje em nível ATP ou superior: Guga (20), Mattar (7), Bellucci e Koch (4); Meligeni (3), Oncins (2); Kirmayr, Mello e Wild (1). Outros cinco chegaram a finais: Hocevar (2), Roese, Goes, Jábali e Motta (1).

Vitórias após ganhar o 1º set
Quatro jogadores têm mais de 80% nesse campo: Guga com 87,8%, seguido por Hocevar (84,5%); Mattar (82,8%) e Koch (80,6%).

TÊNIS FEMININO
Ainda mais distante que Guga em relação aos demais brasileiros é a performance de Maria Esther Bueno. Então, além de vermos os números imbatíveis de Estherzinha, vale recordar quem vem atrás.

VITÒRIAS EM GRAND SLAM
Maria Esther Bueno – 162
Patrícia Medrado e Cláudia Monteiro – 14
Niege Dias – 5
Bia Haddad – 4
Teliana Pereira – 3
Andrea Vieira – 2
Gisele Miró e Luciana Corsato – 1

Maria Esther ganhou mais nos EUA (57) do que em Wimbledon (55) e venceu 42 na França. Medrado vem atrás em Roland Garros (10) e Cláudia é a única com vitórias em todos os Slam além de Estherzinha.

VITÓRIAS GERAIS
Patrícia Medrado – 106v-164d
Maria Esther Bueno – 66v-20d
Teliana Pereira – 49v-54d
Cláudia Monteiro – 41v-82d
Bia Haddad Maia – 40v-45d

Apenas três brasileiras ganharam WTA e incrivelmente Estherzinha, que jogou muito pouco depois de 1968, lidera com 3, enquanto Niege e Teliana têm 2.