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Djoko dá show, Naomi dá exemplo
Por José Nilton Dalcim
26 de agosto de 2020 às 23:56

Na quarta-feira em que o número 1 do mundo Novak Djokovic deu show e avançou às semifinais do Masters de Flushing Meadows, a sensação aconteceu fora da quadra. Totalmente engajada com o movimento antirracista nos EUA, Naomi Osaka aderiu ao protesto do basquete e do beisebol e anunciou que não irá tentar vaga na decisão do Premier, abandonando a disputa em que era ampla favorita. “Há coisas mais importantes no momento do que me ver jogando”. Notável atitude.

Final do dia, ATP e WTA suspenderam a rodada de quinta, na esperança que Osaka ainda jogue. Vamos primeiro ao que aconteceu efetivamente com a bola rolando.

Com um tênis extremamente vigoroso e ainda assim consistente, Djoko deveria cobrar pela aula que ofereceu a Jan-Lennard Struff. Nem parecia que do outro lado da quadra estava o número 34 do ranking, dono de golpes poderosos, saque respeitável e voleios virtuosos. O show foi todo de Nole, que a cada dia mostra maior precisão e profundidade em suas bolas, com destaque todo especial para um forehand matador, especialmente os de paralela. A exibição foi tão rica que o número 1 jogou seguidos pontos junto à rede, como a ensinar ao adversário como é que se faz.

Apesar das 20 vitórias na temporada, 9-0 em tiebreaks e 7-0 em jogos contra top 10, Djokovic sabe que não pode vacilar contra o velho conhecido Roberto Bautista, contra quem tem 9 a 3 nos duelos mas sofreu duas derrotas no ano passado. O espanhol tomou 1/6 de Daniil Medvedev, não se abateu e reagiu. Fez alguns ajustes táticos, aventurando-se mais à rede, e não se desesperou ao perder o primeiro serviço do set decisivo. Está em sua terceira semifinal de Masters e será premiado com a volta ao top 10 se conseguir parar Djokovic. Terá importantes 24h de descanso.

Não menos notável foi a virada de Milos Raonic sobre o cada vez mais perigoso Filip Krajinovic. O sérvio teve o saque a favor para liquidar a partida, no que teria sido uma vitória estonteante, mas vacilou e o canadense abraçou a chance, crescendo de qualidade game a game, sem medo de forçar o saque e seu notável forehand. Salvou um match-point no terceiro set com coragem. Três games mais tarde, completou o placar com 53 winners, sendo 24 aces e 26 de direita. Mas note-se que Krajinovic cometeu apenas 17 erros no duríssimo jogo (fez aliás um só em todo o primeiro set).

Será mais um gigante no caminho do grego Stefanos Tsitsipas. Ele só jogou 11 games já que Reilly Opelka voltou a sentir o joelho direito e abandonou quando vencia por 6/5, um alívio para quem já teve de passar por Kevin Anderson e John Isner. Vale lembrar que Raonic tirou Tsitsipas nas oitavas do Australian Open de janeiro em sets diretos e hoje anotou as incríveis médias de 209 km/h no primeiro saque e 179 no segundo.

Vitória dupla de Osaka
Na quadra, a japonesa Naomi Osaka superou um considerável aperto, ao ver Anett Kontaveit sacar muito no primeiro set e abrir 2/0 no seguinte. Só então a japonesa achou o ‘timing’ perfeito e começou a disparar winners para garantir sua vaga na semifinal, onde deveria duelar contra a consistente belga Elise Mertens, a quem superou com sobras há 13 meses.

A ex-número 1 no entanto decidiu não ir à quadra para buscar um troféu importante, que seria o primeiro da temporada. Aderir ao movimento iniciado pelos atletas da NBA, que consideram até mesmo encerrar a temporada, cansados que estão da violência policial contra os negros no país. Osaka foi muito ativa durante todos os protestos dos últimos meses. Possivelmente, receberá críticas de torcedores e pressão de promotores e patrocinadores, porém a postura é coerente com tudo o que tem dito nas mídias sociais e, portanto, louvável.

Com o adiamento da rodada de quinta, fica a expectativa se ela recuará da decisão.

Na outra semi. Victoria Azarenka continua sem perder sets, apesar de um jogo de altos e baixos na primeira série diante da versátil Ons Jabeur e seus slices venenosos. Precisou evitar quatro set-points, dois deles no tiebreak, e só então dominou. Destaque para seu baixo número de erros: 11 em 20 games.

Em sua primeira semi em 16 meses, reencontra a perigosa Johanna Konta, para quem perdeu 2 de 3 duelos. A britânica, também invicta em sets mas com um jogo feito a menos, também gosta dos pisos velozes e curiosamente vinha de derrota na estreia em Lexington. Vika não levanta um troféu desde a dobradinha Indian Wells-Miami de 2016. Konta venceu seu último também em Miami, mas de 2017. Devem estar sedentas pela oportunidade que caiu do céu.

Sorteio na quinta
A USTA realiza a cerimônia e faz a montagem das chaves de simples, masculina e feminina, do US Open às 13 horas desta quinta-feira.

Quarta-feira promissora em Nova York
Por José Nilton Dalcim
26 de agosto de 2020 às 00:17

Quatro jogos masculinos que prometem ser bem mais equilibrados, quartas femininas com favoritismo delicado das mais experientes. Os torneios combinados de Cincinnati, apesar de tantas ausências, não decepcionaram até aqui.

Como era de se esperar, Djokovic deu um salto de qualidade e massacrou Tennys Sandgren abusando das paralelas e sem sacar ainda tão bem. Apesar de ser um jogador forte em todos os setores da quadra – bate forte, saca bem e voleia com qualidade -, Jan-Lennard Struff terá de mostrar uma consistência que não lhe é habitual. Para ganhar, correr riscos é essencial. Em Melbourne deste ano, o alemão teve ótimos momentos e até roubou um 6/2.

Não menos interessante promete ser o encontro entre Daniil Medvedev e Roberto Bautista, dois gladiadores que adoram bolas retas e a quadra dura. O russo passeou contra Aljaz Bedene e o espanhol virou com sobras em cima do irritado Karen Khachanov. Caso Djoko confirme o favoritismo, terá certamente um adversário com capacidade de incomodá-lo na semi.

Gostei particularmente da conduta de Stefanos Tsitsipas diante do grandalhão John Isner. Cabeça no lugar, sacou bem, devolveu firme, ficou muito centrado e ganhou dois tiebreaks do norte-americano, o que deveria valer um cachê a mais. E depois de tirar Anderson e Isner, terá de se virar contra outro gigante, Reilly Opelka, em duelo inédito. Vale observar que o grego só perdeu 17 pontos com o serviço e anotou 10 aces.

Por fim, dois não pré-classificados se cruzam. Milos Raonic fez outra grande partida. Depois de tirar Sam Querrey e Daniel Evans sem perder set, atropelou Andy Murray. O escocês, é bem verdade, pareceu mais lento e sem energia, com muitos forehandas no meio da rede. Porém, nota 10 para a aplicação do canadense, tanto no saque como no ataque de forehand. Vai pegar Filip Krajinovic, sérvio que continua subindo de qualidade e tem grande poder de fogo em qualquer canto da quadra.

Meus favoritos? Me empolgaria ver um Djoko-Medvedev como prévia do US Open e considero o tênis de Tsitsipas cada vez mais maduro.

Feminino aberto
Com atuações firmes de Naomi Osaka e Victoria Azarenka e nova decepção de Serena Williams, a chave feminina entra nas quartas de final ainda bem aberta. Acho bem difícil Osaka ficar de fora da final, já que é favorita natural diante de Anett Kontaveit, a quem superou em todos os três duelos, e se vencer terá Elise Mertens ou Jessica Pegula, norte-americana vindo do quali e algoz de Aryna Sabalenka.

Serena sacou para o jogo no segundo set, porém Maria Sakkari lutou demais e viu a supercampeã desabar em motivação e físico no terceiro set. Aí foi um festival de match-points desperdiçados e o jogo ficou até engraçado, com a sensação que a própria Serena se irritava com a dificuldade de a adversária concluir o jogo.

Sakkari enfrentará Johanna Konta, que também gosta de pisos rápidos, um jogo sem prognósticos. Vika por sua vez tem uma partida interessante diante da tunisiana Ons Jabeur, jogadora versátil e que usa bem o peso da bola adversária.

Tudo pode acontecer nesta reta final, ótimo aquecimento para o imprevisível US Open.

Adeus brasileiro
E o Brasil teve uma participação bem discreta no primeiro grande torneio pós-pandemia. A esperança de sucesso era, claro, nas duplas, mas Marcelo Melo e seu parceiro Lukasz Kubot fizeram um primeiro set irregular e desperdiçaram a boa vantagem de 3/0 no segundo. Luísa Stefani junto à local Hayley Carter ficaram perto das quartas até o 5-5 do match-tiebreak. Agora, é se preparar para o US Open.

Ferrugem e umidade
Por José Nilton Dalcim
24 de agosto de 2020 às 23:21

Os primeiros três dias de jogos em Flushing Meadows para os Masters 1000 e Premier de Cincinnati foram marcados pelo tradicional calor sufocante de Nova York e pela inevitável falta de ritmo de quase todos os jogadores, mas principalmente dos grandes favoritos. Vamos a um breve resumo e aos meus destaques:

Novak Djokovic – Pouca sorte, mas muita competência para o número 1. Dor no pescoço o tirou das duplas e prejudicou claramente sua estreia contra um valente Ricardas Berankis. Perdeu três serviços devido à musculatura travada, mas jogou muito bem na devolução e sempre se recuperou. Fez ótimos e atléticos lances da base e deve evoluir a cada partida, confirmando o amplo favoritismo.

Dominic Thiem – Algo de estranho aconteceu ao austríaco, que optou muito rapidamente por um estilo kamikaze, indo à rede em qualquer oportunidade. Levou um mar de passadas do bom Filip Krajijovic, fez voleios horrorosos e arriscou tudo sempre muito afoito. Se não foi um problema físico, enlouqueceu completamente.

Daniil Medvedev – Causou-me surpresa pelo grande desempenho físico num sol de rachar. Para quem não jogou nada nos últimos cinco meses, fez uma estreia para lá de boa, ainda que contra o quali Marcos Giron.

Stefanos Tsitsipas – Manteve o ritmo das exibições de Nice e atropelou sem piedade Kevin Anderson. O grego parece bem à vontade no piso veloz, mas agora encara John Isner e talvez depois Reilly Opelka, sacadores indigestos.

Andy Murray – O grande destaque destes primeiros dias, porque superou a pressão física e emocional de dois terceiros sets. Claro que viveu momentos de baixa e poderia ter perdido para Alexander Zverev, mas é elogiável sua disposição. Precisa melhorar o índice de primeiro saque e quem sabe explorar mais os voleios. Missão dura contra Milos Raonic.

Decepções – Denis Shapovalov fez uma grande estreia e deixou escapar a vitória sobre o versátil Jan-Lennard Struff. Pior ainda se saiu Felix Aliassime e suas irritantes duplas faltas, vendo escorrer pelos dedos o direito de pegar Djokovic. O chileno Cristian Garin sofre no piso mais veloz, Andrey Rublev passa do giro com sua vontade de espancar a bola e Zverev melhorou no comportamento – nenhum chilique diante de Murray – mas não na confiança, com três duplas faltas na hora de ganhar o jogo. David Ferrer vai ter trabalho.

Surpresas – Muitos resultados inesperados assolaram a chave feminina. No domingo, as cabeças 1 e 2, Karolina Pliskova e Sofia Kenin, não ganharam set, ainda que suas adversárias tenham méritos evidentes. Petra Kvitova se juntou a elas nesta segunda-feira levando uma virada dolorida.

Serena e Osaka – Agora, são os grandes nomes do Premier, ainda que eu tenha gostado mais das atuações de Victoria Azarenka. Outra vez, Serena preocupa com intensos altos e baixos, tendo corrido sérios riscos de eliminação. E olha que o piso está bem a seu feitio. Osaka demorou para esquentar, o que nem é novidade.

De olho no tempo – A terça-feira promete ser o dia mais quente da semana em Nova York. Hoje, o calor bateu 32 com sensação de 34 e a ‘regra do calor’ foi acionada. Quem jogar no meio da tarde local pode ser exigido, e esse será justamente o caso de Djoko, Murray e Osaka.