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Duro de matar
Por José Nilton Dalcim
29 de agosto de 2020 às 20:10

Ele não dormiu bem à noite, fez um primeiro set travadíssimo em que levou sonoros 1/6, mas o número 1 do mundo se chama Novak Djokovic e é preciso mais, muito mais para derrotá-lo. Invicto a 23 jogos na temporada, arrancou a segunda virada seguida, outra vez saindo atrás no terceiro set, e fez história. Como é duro matar esse gigante.

Milos Raonic teve sua chance de enfim acabar com o incômodo tabu, já que somava 10 derrotas ao entrar em quadra. Aproveitou-se do saque instável do sérvio, estava feliz nas bolas ofensivas e deu a impressão de que havia chegado seu dia quando tirou o segundo set do sérvio no longo histórico de confrontos.

Pouco a pouco, Djokovic achou o ritmo. Começou a sacar melhor, simplificando pontos, e isso mexe positivamente com a confiança de qualquer um. No seu caso, as devoluções passaram a infernizar o adversário, a consistência da base aumentou. Raonic perdeu ao mesmo tempo a precisão do forehand, reflexo da pressão.

Um vacilo importante de Nole deu então a grande oportunidade. Raonic quebrou e sacou para 3/0 no terceiro set. Não venceu um único ponto com o poderoso saque. Ficou perdido. Passou a fazer escolhas ruins e Djokovic voltou a quebrar, vibrando a cada grande jogada. Mesmo avariado no físico – no game final, não colocou primeiro saque na quadra e precisou salvar break-point -, a força mental fez toda a diferença.

Único tenista a ganhar cada Masters ao menos duas vezes, ele agora é dono de 80 títulos e 35 Masters. Reforça ainda mais seu favoritismo para o US Open, na busca pelo 18º Slam, e mais do que nunca o maior adversário parece ser seu próprio corpo.

Título sem jogo
Outra vez Naomi Osaka foi manchete, novamente por não entrar em quadra. Porém, o motivo para desistir da final do Premier de Cincinnati foi uma contusão na coxa, que apareceu no final do jogo de sexta-feira.

Uma pena. De qualquer forma, Victoria Azarenka pôde comemorar seu primeiro título em quatro anos e o 21º da carreira depois de uma semana de atuações convincentes.

Aos 31 anos, voltará ao top 30 nesta segunda-feira e entrará solta na chave do US Open, podendo fazer estragos. Deve encarar Aryna Sabalenka na segunda rodada e está no setor de Johanna Konta, a quem acabou de superar.

Bastidores quentes
Bem mais incompreensível foi colocar Djoko para estrear no US Open logo na segunda-feira, ainda que na rodada noturna. Seria mais compreensível se houvesse público e interesse na venda de ingressos, mas não é o caso. Teria sido uma pequena retaliação pela anunciada nossa associação dos tenistas que ele comanda?

O sábado não trouxe grandes detalhes sobre os ideais dessa nova entidade, batizada de Professional Tennis Players Associaton (PTPA), mas Djokovic apressou-se a dizer que não se trata de uma associação paralela, sem intenção de criar um calendário diferente ou idealizar boicotes a torneios. Estaria mais para um novo Conselho de Jogadores com maior independência para lutar por suas reivindicações. O grupo, tem John Isner e recebeu apoio de Milos Raonic, bate de frente com o atual presidente Andrea Gaudenzi.

Mas logo de cara a iniciativa de Djoko não teve adesão de três nomes fundamentais: Rafael Nadal opinou que não é hora de divisões em sua conta no Twitter e tal postura foi corroborada por Roger Federer. Já Andy Murray afirmou que vai avaliar a ideia, mas que o novo sindicato teria de ter também as mulheres para ganhar real força.

A um passo da eternidade
Por José Nilton Dalcim
28 de agosto de 2020 às 21:08

Foi muito sofrido mas, em seu melhor estilo, Novak Djokovic arrancou forças de onde parecia não haver mais e conseguiu o direito de tentar mais um feito histórico, e dificilmente igualável, em sua carreira. Se obtiver o bi no evento relativo a Cincinnati às 14h deste sábado, será o único tenista a ter ao menos dois troféus em cada um dos nove Masters 1000 ativos. É um feito tão mais espetacular quando se observa que a Rafael Nadal, Roger Federer, Andre Agassi e Andy Murray, os outros quatro grandes colecionadores, faltam dois títulos para uma coleção completa.

O sérvio jogou sua pior partida da semana, pareceu sentir grande desgaste físico e voltou a ter problemas com o pescoço. Isso o levou a intensos altos e baixos, que se somaram ao espirito lutador e às bolas chatas de Roberto Bautista. O espanhol mudou um tanto seu plano habitual, evitou paralelas e insistiu incansavelmente em atacar o backhand de Djoko. Uma tática que aparentemente tinha dois objetivos: evitar erros com as bolas cruzadas e tirar o máximo proveito do problema muscular do oponente.

Não foi um jogo espetacular, mas uma batalha de consistência. Os dois tiveram suas chances no terceiro set e isso resume razoavelmente a partida: Bautista teve 2/1 e saque antes de perder quatro games seguidos. Nole abriu 5/2 e sacou para a vitória em seguida, cedendo também quatro games consecutivos. Com 6/5, o espanhol fez 30-30 e não conseguiu cravar um saque vencedor. Aí o tiebreak o puniu severamente, com um passeio de um Djokovic soberano e agressivo.

O número 1 terá apenas 19 horas para se recuperar antes de encarar um embaladíssimo Milos Raonic, que agradeceu os dois erros cruciais de Stefanos Tsitsipas na reta final do primeiro set e depois deslanchou. O saque afiado, o forehand pesadíssimo e os voleios apurados enfim têm a companhia de um backhand sólido como há muito se esperava do canadense.

Esse arsenal respeitável e as dificuldades físicas do adversário serão enfim suficientes para acabar com o amargo tabu de 10 derrotas para Djokovic? É um desafio mental e tanto. Os dois fizeram outras duas finais, em Indian Wells e Bercy, e mais quatro jogos em quadra dura, incluindo a veloz Cincinnati, e o sucesso sempre foi do sérvio. Apesar de terem disputado oito tiebreaks nesse histórico, até hoje Raonic só tirou um set. E no saibro de Roma.

Milos tem oito pequenos títulos de ATP 250, mas fez três finais de Masters e uma de Wimbledon. Aos 29 anos e com várias interrupções na carreira, pode fechar a semana como o 13º do ranking. Vale todo o esforço do mundo.

Grande final no feminino
Pelo que apresentaram ao longo da semana no piso mais veloz de Flushing Meadows, Naomi Osaka e Victoria Azarenka farão uma justa e promissora final do Premier, às 12 horas deste sábado.

Para melhorar, Osaka ainda se livrou da adversária talvez mais temida, já que ela jamais venceu Johanna Konta em três duelos. E Konta começou bem, antes de permitir a virada de Victoria Azarenka, que vive uma sequência de vitórias que há muito não comemorava.

O grande destaque da vitória de Osaka em cima da belga Elise Mertens foi sua capacidade de lutar nos break-points, tendo evitado 18 de 21 que permitiu. Mertens mostrou um serviço frágil, que foi quebrado cinco vezes, mas igualou a briga nos winners (27 a 30 da japonesa).

Vika perdeu dois dos três confrontos diante de Osaka, mas não creio que isso pese mais do que seu desejo de encerrar o longo jejum de títulos, que vem desde a dobradinha Indian Wells-Miami de 2016 e seu anúncio da gravidez. Desde então, fez uma única final no pequeno WTA de Monterrey no ano passado. O troféu também valerá a volta ao top 30.

A bielorrussa de 31 anos foi a primeira a quebrar o saque de Konta na semana e isso só aconteceu no segundo set. E pouco a pouco subiu de qualidade nas devoluções, algo que pode ser decisivo diante da número 10.

Mais confusão
Os sussurros ouvidos pelos bastidores parecem que se tornarão realidade neste sábado, às vésperas do US Open. Liderados por Vasek Pospisil, uma série de jogadores descontentes com a atual administração da ATP quer dar início à uma entidade paralela.

O afastamento de Guido Pella e Hugo Dellien de Cincinnati e o adiamento da rodada de quinta-feira devido à postura de Naomi Osaka foram o estopim de um atrito que vem desde que Andrea Gaudenzi assumiu o comando. É esperar para ver quem tem mais cartas na mão.

Cruel com brasileiros, sorteio pressiona Thiem
Por José Nilton Dalcim
27 de agosto de 2020 às 20:53

O US Open promoveu nesta quinta-feira o sorteio das chaves e não reservou boas notícias para o austríaco Dominic Thiem, elevado à condição de cabeça 2. Ele pegou o pior setor da chave e terá de elevar muito seu nível sobre o novo piso veloz do complexo, onde deu vexame dias atrás.

Não se pode dizer que Novak Djokovic, o grande favorito, terá adversários fracos pela frente, mas é inegável que eles parecem ter sido feitos sob medida. Damir Dzumhur tem versatilidade e dá ótimo ritmo, assim como um possível Kyle Edmund e até mesmo Jan-Lennard Struff, que acabou de levar surra em piso idêntico. Se John Isner chegar até as oitavas, será um tipo diferente e servirá para testar devoluções e paciência.

É difícil acreditar que Denis Shapovalov ou o amigo Filip Krajinovic incomodem Djoko nas quartas e obviamente David Goffin também é candidato a desafiar o número 1, porém todos dependerão de um dia ruim do sérvio para ter chances reais em melhor de cinco sets.

Então a real expectativa seria por um duelo contra Stefanos Tsitsipas na semi. Os dois aliás bem que podem fazer uma prévia na decisão de Cincinnati de sábado. O grego vem jogando um tênis maduro, tem pela frente uma série de jogadores de base – Borna Coric, Dusan Lajovic e Cristian Garin – e seria lógico disputar as quartas contra Alexander Zverev. O alemão no entanto é incógnita e logo de cara pega o experiente Kevin Anderson.

O outro lado da chave ficou interessante. O atual vice Daniil Medvedev só precisa jogar de forma consistente e poupar fôlego na primeira semana. Não há um nome de real perigo até as quartas e ainda assim estaríamos falando de Andrey Rublev, Matteo Berrettini ou Benoit Paire, muito menos confiáveis que o russo em condições normais.

O pior quadrante é mesmo o de Thiem, logo ele que foi um desastre no Masters. Encarar Marin Cilic num piso veloz, a versatilidade de Daniel Evans ou a juventude de Felix Aliassime pode tirar o sono, e ali também aparece Andy Murray. Mas o pior poderá vir nas quartas, tendo como candidatos o reanimado Milos Raonic ou o super competitivo Roberto Bautista, que infelizmente se cruzam já nas oitavas.

É exatamente nesse rico quadrante que caíram Thiago Monteiro e Thiago Wild. O canhoto cearense estreia contra Aliassime em confronto inédito e talvez sua maior chance esteja no fato de o canadense ter saído muito por baixo da derrota amarga no Masters. Não menos complicada é a tarefa de Wild diante do tênis muito habilidoso de Evans, que faz um pouco de tudo em quadra. O britânico no entanto é emocionalmente instável e costuma sair de giro quando as coisas não saem bem. De qualquer forma, foi um sorteio cruel.

Serena tenta de novo
A chave feminina inegavelmente ficou capenga com tantas ausências entre as top 10. Claro que Serena Williams terá holofotes em sua incansável luta pelo 24º troféu de Grand Slam, mas o desempenho de Lexington e do Premier não foi nada animador. Ela tem caminho teoricamente tranquilo até um possível reencontro com Maria Sakkari nas oitavas, ainda que a grega tenha pela frente Amanda Anisimova na rodada anterior.

Serena ficou no lado da cabeça 2 Sofia Kenin, outra que não empolgou nesta semana e ainda tem jogos perigosos, como a juvenil Leylah Fernandez, a versátil Ons Jabeur, a consistente Elise Mertens e nas quartas Johanna Konta ou Aryna Sabalenka. E é bom ficar atento a Victoria Azarenka e a Kim Clijsters, que volta ao torneio depois de oito anos.

A parte superior ficou com tenistas de vasto currículo, como Naomi Osaka, Petra Kvitova, Angelique Kerber e a cabeça 1 Karolina Pliskova. Solta na chave, Cori Gauff sempre é perigosa e Anett Kontaveit tem saque para sonhar em ir longe. As duas estão no quadrante de Osaka e Kvitova.

Neste momento, o quadro do US Open parece ser quem vai enfrentar Djokovic e Osaka na final. Felizmente, o tênis nunca é tão lógico assim.