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Um iceberg no Rio
Por José Nilton Dalcim
24 de fevereiro de 2017 às 23:08

Muito mais que a qualidade de saque e a ousadia do forehand, o que me deixou de queixo caído foi a frieza do garoto Casper Ruud. Ele deu uma de convidado trapalhão e estragou a festa brasileira no Rio Open. Não deu a menor bola para o apoio maciço da torcida e jogou como um veterano diante de Thiago Monteiro. Seu tiebreak, diga-se, foi um espetáculo para quem tem apenas 18 anos de idade, 23 futures, sete challengers e agora cinco ATPs no pequeno currículo.

Claro que muito desse desempenho teve a contribuição de outro início muito irregular do canhoto cearense, bem parecido com o que aconteceu na estreia diante de Gastão Elias. A diferença é que Ruud manteve a produtividade no saque o tempo inteiro, não permitindo sequer um 40-40 a Monteiro, mesmo jogando atrás do placar no segundo set. O brasileiro melhorou muito quando calibrou o saque, porém foi incapaz de achar um jeito de devolver o serviço. Na hora da pressão de um tiebreak, a tranquilidade de Ruud assombrou. O apressado e afoito foi Monteiro. Que coisa.

Antes de o Rio Open começar, me perguntaram quais os predicados principais de Ruud, que recebeu convite por ser contratado da agência IMG, a dona do torneio. E a resposta agora está bem clara. Ainda não tem um jogo excepcional, porque o backhand não é consistente, mas a parte mental é um elemento de primeira. Fico a imaginar se Nick Kyrgios tivesse esse mesmo juízo…

Thiago fez um torneio abaixo do que apresentou em Buenos Aires na semana passada, acredito que muito pela pressão natural de competir em casa. Ele no entanto precisa agora se focar no Brasil Open, porque está com uma enorme possibilidade diante de si. Nesta segunda-feira, aparecerá no 74º posto e, se obtiver 90 pontos de uma semi em São Paulo, irá beirar o top 60. E o que isso significa? Muito. Pode garantir por exemplo vaga direta em Monte Carlo e a condição de cabeça nos qualis de Madri e Roma. De qualquer forma, ele já tem a comemorar a vaga em Roland Garros e Wimbledon, assim como em Barcelona, Munique ou Estoril.

Monteiro subiu definitivamente de patamar e, embora isso seja um desafio muito maior do que já encarou, também é o lugar onde todo tenista sonha atingir. Nunca é demais lembrar que ele tem apenas 22 anos e nem completou ainda uma temporada inteira no primeiro nível.

Adeus, saibro?
Excelentes reportagens de Felipe Priante, publicadas hoje por TenisBrasil (clique aqui para ver), mostram que os promotores do Rio Open trabalham firme nos bastidores para trocar a quadra de saibro pelo piso sintético em 2019, quando vence o atual contrato da ATP com os torneios e algumas mudanças poderão ser realizadas. A ideia principal é atrair mais jogadores de peso, aproveitando a proximidade com Acapulco.

Como tudo na vida, há prós e contras. Até me surpreendi ao ver o apoio de Guga Kuerten e Fino Meligeni à ideia (leia aqui), imaginando que eles gostariam da preservação do circuito de saibro. Prova de que a vida é cíclica mesmo, Mas os dois acham que o provável uso do Parque Olímpico compensaria a perda. Acredito que os promotores do Rio economizarão pelo menos R$ 2 milhões em estrutura se acontecer a transferência, já que quase tudo no Jockey é montagem provisória. Lui Carvalho, diretor do torneio, não concorda comigo e acha que o gasto não diminuirá.

Respondendo – Sobre a dúvida levantada pelo Luiz Carlos de qual teria sido o brasileiro que mais enfrentou um tenista nacional em torneios de ATP, cheguei à conclusão que foi mesmo Luiz Mattar: ele fez 23 jogos contra compatriotas, tendo vencido 19 deles. Ele também protagoniza o duelo que mais se repetiu, com seis confrontos diante de Cássio Motta e placar de 4 a 2.

Momento histórico – O tênis brasileiro terá três representantes entre os 85 primeiros do ranking nesta segunda-feira, algo que não acontecia desde 23 de junho de 2003, quando Guga Kuerten era 13, Flávio Saretta apareceu no 60 e André Sá, no 84.

Federer em dúvida – Em entrevista dada ao New York Times, Roger Federer revelou que não conseguiu ainda treinar com 100% da capacidade devido à contusão que sofreu na perna em Melbourne. ‘Terei de ir com cautela’, afirmou sobre sua participação no ATP de Dubai, a partir de segunda-feira.

Bellucci 50%
Por José Nilton Dalcim
20 de outubro de 2014 às 22:25

Thomaz Bellucci está diante de um feito especial nesta quarta-feira, quando estreará no ATP 500 de Valência diante do russo Mikhail Youzhny. Em caso de vitória sobre o número 27 do ranking, ele conseguirá exatos 50% de aproveitamento em torneios de primeira linha em sua carreira, ou seja, em ATPs, Masters, Grand Slam e Copa Davis.

Isso não é pouco. Só para comparar, o genial Carlos Kirmayr encerrou a carreira com 45,5%, enquanto o guerreiro Fernando Meligeni terminou com 48,2%. Apenas três brasileiros superaram a casa dos 50% até hoje: Gustavo Kuerten chegou a espetaculares 64,7%; Thomaz Koch, a 53,6%; e Luiz Mattar ficou com 51,8%.

Em números absolutos, Bellucci tem hoje 135 vitórias e 136 derrotas, algo também significativo em termos de tênis nacional, em que apenas sete jogadores já superaram a marca centenária de triunfos de primeira linha. O cannhoto paulista já deixou para trás Cássio Motta (108) e Kirmayr (134), podendo alcançar brevemente Koch (150). Mais distantes estão Mattar (191) e Meligeni (202). Inalcançável mesmo é Guga, claro, com suas 358, sem falar na incrível qualidade de boa parte delas.

Não menos importante é o fato de que Bellucci poderá reaparecer no top 50 caso derrote Youzhny, sobre quem tem uma vitória (justamente a mais recente) em quatro tentativas. Nesta segunda-feira, o brasileiro ocupa o 58º posto e, com os pontos do quali, já pode ir a 55º. A vaga nas oitavas de final o levaria ao total de 853 pontos, o que equivale hoje ao 46º posto. Ou seja, teria ainda de torcer para que no máximo quatro concorrentes diretos se saia bem nos eventos da semana, o que não é tão difícil assim.

Por fim, se olharmos o ranking que só conta os pontos da temporada, Bellucci está entre os 75 primeiros, ou seja, é um ranking bem provável mesmo que não some mais vitórias e que não defenda seus resultados dos challengers de novembro do ano passado.

Aliás, não é só Bellucci quem anda mudando a história do tênis brasileiro. João Souza, o Feijão, em sua ótima fase nos eventos  ‘challenger’, se transformou na semana passada no quarto jogador nacional com maior número de vitórias nesse nível. Com 203 até o vice em San Juan de domingo, ele superou as 201 de André Sá e está perto de Thiago Alves (224), podendo alcançar Marcos Daniel (242) e o recordista Ricardo Mello (250) nas próximas temporadas. Embora, é claro, o que gostaríamos mesmo é ver Feijão saltar e ficar no padrão dos ATPs.

Mais importante do que o retorno de Souza ao top 100, como 97º colocado nesta segunda-feira, é o fato de que ele ocupa no momento a 86ª posição na temporada, apenas 76 pontos atrás do próprio Bellucci. Como ainda joga mais um torneio nesta semana, em Córdoba, e tem vaga praticamente assegurada no Challenger Finals do clube Pinheiros, Feijão tem enorme chance de fechar o ano pelo menos no top 75.

Tsonga ou Ferrer: quem merece esta final?
Por José Nilton Dalcim
4 de junho de 2013 às 20:55

Com os dois resultados desta terça-feira, em Paris, Roland Garros terá necessariamente um finalista totalmente inédito: o espanhol David Ferrer, que já tentou outras cinco vezes atingir uma decisão de Grand Slam sem sucesso, ou o ídolo local Jo-Wilfried Tsonga, um tenista que jamais disputou sequer uma final sobre o saibro em toda sua carreira. Quem queria ver sangue novo, não pode ter prato mais saboroso.

Ferrer não tem um estilo espetacular. Longe disso. É um batalhador. Deixou seu jogo um pouco mais versátil nos últimos anos, principalmente na tentativa de ser um pouco mais agressivo, algo que é naturalmente difícil no circuito atual para quem mede 1,75m. O fruto de todo esse esforço tem sido a manutenção do top 20 desde junho de 2005, com três fartas passagens entre os 10 primeiros, incluindo a atual, que já se prolonga por dois anos e meio. Nesse longo período, conquistou 19 de seus 20 troféus até mesmo sobre a grama, mas a rigor o único de real peso foi há oito meses, ali mesmo em Paris.

Tsonga já fez quatro semifinais de Slam, a primeira delas em 2008, quando se mostrou para o mundo com um jogo vistoso e vigoroso. Mas ficou nisso. À exceção de uma ou outra semana, nunca mais deixou de ser um dos 20 melhores do mundo e por extensão cabeça de chave e nome lembrado em todos os grandes torneios. Porém um misto de preparo físico imperfeito e contusões não permitiram o sucesso imaginado. Chegou a 10 troféus, todos na quadra dura, e limitou-se a um Masters curiosamente também levantado em Paris, em 2008. Viveu dois grandes momentos em Wimbledon, com semis seguidas em 2011 e 2012, porém em ambas pareceu satisfeito com o resultado.

O espanhol e o francês se cruzaram apenas três vezes no circuito, uma em cada temporada e em casa piso. Ferrer ganhou no saibro de Roma, em 2010, e no sintético de Paris, no ano passado, e perdeu na grama de Wimbledon, em 2011. É um histórico muito pobre para servir de referência. Neste Roland Garros, Ferrer é quem atinge a semi com menor esforço, o que é um considerável handicap. Mas Tsonga não poderia estar mais confiante depois da belíssima atuação contra Roger Federer, que empolgou tanto sua torcida.

Os duelos desta terça-feira foram fechados por 3 sets a 0, mas com clima totalmente diferentes. Enquanto Ferrer era barbada diante do exausto Tommy Robredo, poucos poderiam imaginar que Tsonga iria superar Federer de forma tão cristalina. O suíço teve um ótimo começo, abrindo 4/2, o que parecia ser chave na partida. Afinal, era o que precisava para mexer com a cabeça do adversário. Mas Tsonga surpreendeu e jamais demonstrou sentir qualquer pressão.

A partir do momento que Federer permitiu a igualdade e a virada para 5/4, perdeu pouco a pouco a fluidez, chegando a erros sucessivos e bisonhos. A estatística mais significativa foram os pontos obtidos ao acertar o primeiro saque: 58%. Impossível ganhar assim. Deve-se dar muitos créditos ao francês, que atuou de forma muito regular e demoliu a tática de Federer que era dar o ataque final em seu backhand vacilante. Tsonga jogou como alguém que está consciente de que o título é possível. O suíço, exibindo um raro sorriso pós-derrota, cumprimentou amigavelmente Tsonga, já talvez pensando na curtíssima temporada de grama, algo que pode ser decisivo no seu destino como um todo.

No feminino, dois jogos também atípicos. Serena Williams viveu tremendos altos e baixos, incomodou-se demais com o vento, errou à vontade e teve em Sveta Kuznetsova uma adversária à altura. Acabou ganhando meio na marra. Terá agora pela frente a pequenina Sara Errani, que não parece ter armas contra a norte-americana que não sejam suas curtinhas e suas pernas espertas. Fez um jogo sofrível diante de Agnieszka Radwanska. Pasmem: o saque mais veloz da italiana cravou 136 km/h, menor até mesmo do que a média de 145 km/h do primeiro serviço da polonesa, que não é lá essas coisas. Como vencer Serena assim?

A rodada desta quinta-feira traz duas grandes expectativas: Novak Djokovic e Rafael Nadal jogam para marcar o tão aguardado encontro na sexta-feira. São favoritos, claro, ainda que Nole tenha perdido o jogo mais recente para Tommy Haas e Stan Wawrinka venha de atuação excepcional diante de Richard Gasquet. Entre as meninas, não se espera outra coisa senão vitórias de Maria Sharapova e Vika Azarenka, que fariam outra semifinal de arrepiar. Maria Kirilenko é uma grande zebra contra Vika, Jelena Jankovic tem uma chance um pouquinho maior se conseguir arrancar a paciência e tirar muitos erros não-forçados da cabeça 2.

Pena que eu tenha de encerrar o Blog com poucas palavras para qualificar mais um feito de Bruno Soares, que a partir de segunda-feira passará a ser apenas o quarto brasileiro na história a figurar no top 10 de um ranking profissional, depois de Guga Kuerten (1º), Cássio Motta (4º) e Carlos Kirmayr (6º). Mas, como acredito muito que sua campanha não vai acabar na manhã de quarta-feira contra o dueto polonês, terei certamente mais espaço para falar do melhor tenista brasileiro dos últimos 12 meses.

Ah, e ele ainda faz quartas de mistas diante de Marcelo Melo. Vamos lembrar que ambos viraram mesmo especialista na matéria, já que Soares ganhou o US Open e Melo tem um vice na França. Quem quer que vença, terá grande chance de título, ainda mais que suas parceiras – os irmãos Bryan recomendaram os mineiros para elas – são campeãs do US Open e do Masters feminino de 2011.

Habilidade – Apesar da derrota nas quartas de final, muito justo homenagear Radwanska com um de seus grandes lances no torneio, obtido na rodada anterior diante de Ana Ivanovic, como mostra o vídeo acima.