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A seca continua
Por José Nilton Dalcim
15 de abril de 2021 às 19:02

Monte Carlo é onde Novak Djokovic reside na maior parte do tempo, mas o saibro lento do Principado deixou de ser um paraíso para ele há algum tempo. Desde que chegou ao segundo título, em 2015, com campanhas inesquecíveis em que barrou até mesmo Rafael Nadal, ele nunca mais passou das quartas de final. Após uma estreia tão firme na véspera, parou num adversário que tem um currículo paupérrimo sobre a terra batida.

Por algum motivo que só ele próprio poderá explicar, Djokovic entrou completamente frio na partida, mudança muito radical em relação à postura diante de Jannick Sinner. Aliás, tão frio que até usava uma camiseta branca por baixo da oficial, que só foi retirar lá no segundo set. De cara, fez duas duplas faltas e parecia sem antídoto para o slice malicioso do britânico. De repente, Evans já tinha duas quebras e 3/0, com direito a curtinhas espertas que encontravam um adversário plantado demais em quadra.

Quem acompanha Djokovic com atenção sabe que slices sempre o incomodaram, até mesmo na quadra dura, porque a bola chega sem peso e com pouca altura, o que tira a ofensividade natural de seu backhand. Não permite que se pegue bolas na subida e exige força adicional para alcançar profundidade. Talvez tenha faltado confiança para que Nole arriscasse mudar de direção para a paralela e tirar Evans da zona de conforto em alguns lances capitais.

Insistência e consistência do britânico levaram o adversário a incríveis 45 erros não forçados, números que costumamos ver num jogo de Grand Slam bem apertado, não em dois sets. Evans é claro merece todos os elogios por apostar numa alternativa e ousar com a criatividade. Arrancou algumas paralelas de backhand totalmente inesperadas, fez saque-voleio e disfarçou perfeitas deixadinhas de forehand. Como escrevi ontem, Evans raramente se saiu bem no saibro em sua carreira, mas não há algo tão problemático no seu estilo que justifique isso. É baixo, leve, versátil e chega a disparar primeiro serviço a 200 km/h.

Claro que o número 1 não esteve em seus melhores dias, e ficou indisfarçável uma postura negativa, frustrada, naqueles lances decisivos de um set em que geralmente é ele quem se sobressai. Houve um momento no primeiro set em que Nole parecia ter acordado. Quebrou, encostou com 3/2 após game de saque perfeito e teve 15-40 para empatar, o que teria grande chance de abalar o britânico. Não conseguiu, mas dois games depois chegou à igualdade para imediatamente perder outro serviço e logo depois o set. Na outra série, chegou a ter 3/0 e atingiu set-point no 5/4. Evans nunca recuou da proposta, aguentou firme pontos longos e tensos, fechou a partida com enorme autoridade.

Decidirá agora vaga na semi contra David Goffin, e não ficaria surpreso se repetisse a dose, ainda que o belga tenha feito três jogos bem decentes até agora, incluindo a vitória exigente diante de Alexander Zverev, em que sofreu muito em vários games de serviço. Aliás, o alemão perdeu os quatro pontos em que sacou no início do tiebreak e teve uma chance de levar ao terceiro set. Quem vencer, cruzará com Stefanos Tsitsipas ou Alejandro Fokina. O grego fez uma bela exibição diante de Cristian Garin e surge como favorito até para ir à final.

Nadal por sua vez encontrou mínima resistência num Grigor Dimitrov apático. Mais tarde, o búlgaro explicaria que tem dormido e se alimentado muito mal devido a um problema dentário e isso então justifica a surra de 55 minutos e de pontos vencidos (55 a 26). O canhoto espanhol passou assim por dois jogos muito fáceis – cinco games perdidos – e talvez tenha de se concentrar em dobro ao encarar o fogo cerrado de Andrey Rublev. O russo superou batalha de intensas trocas e muita pancadaria contra Roberto Bautista, mas ainda acho que o saibro lento poderá levá-lo ao destempero muito rapidamente caso Nadal se segure bem no começo da partida. E isso o multicampeão sabe fazer com maestria.

Boa notícia é a recuperação lenta e gradual de Fabio Fognini, que se reencontrou com o lugar de seu maior título e isso parece ter lhe feito muito bem. Sinceramente, esperava agora que ele fosse cruzar com Pablo Carreño, mas o campeão de Marbella não soube fechar o jogo duríssimo contra o bom Casper Ruud e ficou no caminho. Esse norueguês de 22 anos é um saibrista nato. Fez belas campanhas aqui na América do Sul, atingiu semi em Roma do ano passado.e bateu Fognini nos dois duelos já realizados, um deles no saibro de Hamburgo meses atrás.

Vale por fim observar que quatro dos classificados têm no máximo 23 anos e um deles vai avançar. Em termos de saibro, é uma renovação muito bem vinda.

Djokovic tenta domínio, Peque busca façanha
Por José Nilton Dalcim
20 de setembro de 2020 às 17:40

Na segunda-feira em que se tornará o segundo tenista com maior domínio na liderança do ranking profissional, Novak Djokovic também terá a chance de assumir pela segunda vez a liderança isolada na contabilidade de títulos de Masters 1000.

Para coroar o momento, basta derrotar um velho conhecido, o argentino Diego Schwartzman, a quem superou em todos os quatro duelos já feitos. ‘El Peque’ nunca decidiu um Masters, mas por seu lado terá a chance de um feito para lá de histórico: bater Rafael Nadal e Djokovic num mesmo torneio sobre o saibro. De quebra, chegará enfim ao top 10. Porém, depois de um esforço de 3h10 na semi, a dúvida se ainda terá pernas para tanto.

Quando começou sua grande arrancada no circuito, em 2011, Djokovic tinha apenas 5 Masters contra 18 de Nadal. Finalmente empatou a conta em Indian Wells de 2016, com a 27ª conquista, e superou pela primeira vez duas semanas depois em Miami. Chegou então a abrir 30 a 28 ao final dessa temporada.

O sérvio no entanto viveu um considerável jejum. Entre agosto de 2016 e julho de 2018, não levantou qualquer Masters e aí o espanhol conseguiu inverter, com 33 a 30. Djoko venceria Cincinnati, Xangai e Madri e empataria. Mas por pouco tempo. Roma e Canadá deram os atuais 35 de Rafa, enquanto Nole diminuiu em Paris e igualou tudo novamente no Masters de Flushing Meadows.

Para atingir sua 52ª final desse quilate, o que já é outro recorde, precisou superar um primeiro set irregular, em que o forehand falhou muito mais que o habitual. Enquanto evitou a pressão sobre seu backhand, o garoto Casper Ruud se virou e chegou a ter 5/3 e saque. Os nervos afloraram e Nole adotou cautela cirúrgica nos pontos mais delicados. Ganhou quatro games seguidos, contando com um primeiro saque afiadíssimo na hora certa. O começo do segundo set ainda foi equilibrado, com chances de quebra para os dois lados, até que enfim Ruud claramente ficou mais lento e Djokovic disparou.

Schwartzman fez um duelo incrível diante do canhoto Denis Shapovalov, que foi decidido em mínimos detalhes, O argentino dominava o primeiro set até 5/3, aí se enrolou e quase permitiu reação. O canadense fez talvez a melhor exibição de sua carreira, mesclando extrema paciência e solidez no fundo de quadra com tentativas muito felizes de definição e novamente um magistral jogo de rede.

Levou um quarto set já muito brigado e chegou bem perto da vitória, ao abrir 4/2 no terceiro set. Ainda sacou com 5/4, mas o argentino como sempre lutou à exaustão. No tiebreak, Schwartzman fez 4-2, permitiu empate mas por fim prevaleceu sua consistência. Um jogo memorável.

Halep tem 3ª chance, Pliskova busca o bi
Depois de uma passagem sofrida na quadra sintética norte-americana, Karolina Pliskova reencontrou seu tênis no saibro e ganhou o direito de tentar o bicampeonato de Roma nesta segunda-feira.

Não deve ser fácil. Simona Halep também vem embalada de boas atuações e leva vantagem de 7 a 4 nos confrontos diretos com a tcheca. O que pode pesar para a romena é o fato de ter perdido suas duas finais anteriores no Foro Itálico, ambas para Elina Svitolina.

O grande trunfo de Pliskova diante da compatriota e canhota Marketa Vondrousova consistiu na maior paciência para construir pontos, evitando arriscar muito cedo.

Foi exatamente essa postura abusiva que custou caro a Garbiñe Muguruza, que anotou 35 winners e 27 erros diante de uma Halep bem mais consistente (21 erros e 22 winners). Ainda assim, a partida teve 16 quebras de serviço no total de 29 games.

El Peque ficou gigante
Por José Nilton Dalcim
19 de setembro de 2020 às 19:16

É quase impossível não torcer para Diego Schwartzman. O baixinho argentino vive numa terra de gigantes, onde sua média de saque de 161 km/h parece uma heresia e sua envergadura cobre talvez 30% a menos de espaço. Mas isso nunca o limitou. Ainda que não tenha grandes títulos na carreira – o maior foi o do Rio Open -, consegue se destacar em todos os pisos e isso o mantém há pelo menos três temporadas entre os 20 ou 30 primeiros do ranking.

Um de seus pesadelos terminou enfim neste sábado, ao derrubar o tabu de nove derrotas contra o todo-poderoso Rafael Nadal, o digno ‘rei de Roma’. O argentino foi o tenista realmente agressivo em quadra, mostrou notável solidez até mesmo para encarar os forehands cruzados do espanhol e ousou com curtinhas e voleios. Fez um primeiro set impecável e poderia ter vencido ainda com maior facilidade. Os números mostram o quanto ele mandou nos pontos: 31 a 21 nos winners e 17 erros frente a 30, vencendo 11 das 15 tentativas junto à rede, o que inclui o match-point. Para completar, ainda se mostrou superior nas trocas mais longas (23 a 16).

Faltou a Rafa esse poder decisivo. Tentou fazer um começo de jogo burocrático, apostando talvez que El Peque pouco a pouco caísse na armadilha. Quando viu que o adversário estava com a mão boa e com muita perna, foi obrigado a tentar decidir mais os lances e aí seu forehand o deixou na mão. A bola descalibrada na paralela é o sinal mais evidente de sua falta de confiança. Sem mais o que jogar, terá de solucionar esses problemas antes de Roland Garros começar, dentro de oito dias.

Às 14 horas deste domingo, Schwartzman tenta um novo passo para realizar outro sonho: chegar ao top 10. Ele encara mais um canhoto, Denis Shapovalov, em duelo inédito no circuito, e o próprio canadense é um candidato ao 10º lugar caso vença. Aos 21 anos e 20cm mais alto, Shapovalov é dono de enorme força física, backhand simples belíssimo mas nem sempre calibrado, jogo de rede cada vez mais vistoso. Mesmo tão jovem, já decidiu o Masters de Paris do ano passado.

Depois das quatro vitórias no US Open e de ter ficado perto da semi, adaptou-se rapidamente ao saibro e já tirou especialistas como Guido Pella e Pedro Martinez. Segurou a cabeça contra Ugo Humbert e se mostrou muito mais consistente do que Grigor Dimitrov neste sábado, mesmo com índice fraco de primeiro saque. O saibro não é sua praia, a ponto de ter vencido um único top 20 no piso e ter chegado a Roma com 12 vitórias e 12 derrotas na carreira.

E existe uma terceira surpresa nas semifinais de Roma, um ‘next gen’ bem menos badalado. Filho de ex-top 40, Casper Ruud é um genuíno jogador de saibro com seus golpes firmes da base e 1,83m ideais para o piso. A vitória deste sábado sobre Matteo Berrettini foi sua primeira sobre um top 10 em quatro tentativas e a segunda da semana em cima de um dos 20 primeiros, já que também tirou Karen Khachanov em três sets na primeira rodada. Fã confesso de Nadal e campeão de Buenos Aires em fevereiro, terá uma experiência inédita e obviamente dificílima contra Novak Djokovic.

Se servir de motivação para o garoto norueguês, o líder do ranking e tetracampeão de Roma esteve longe dos seus melhores dias diante do 97º do ranking, o canhoto alemão Dominik Koepfer. Deixou escapar vantagens confortáveis, o que o forçou a jogar o terceiro set, perdeu o controle e destruiu raquete, além de ser chamado de ‘Federer’ pelo juiz. Cometeu 38 erros, 26 deles de forehand, e ganhou apenas 45 de 75 pontos com o saque. Vencer é sempre bom, mas não dá para ficar radiante.

Quer dizer, depois da queda de Nadal, até que dá.

Feminino: imprevisível
As semifinais femininas de Roma também têm uma canhota de 21 anos motivada para barrar as concorrentes de maior nome: Marketa Vondrousova. Mas o fato é que a rodada deste domingo está completamente aberta.

A cabeça 1 Simona Halep jogou apenas 10 games antes do abandono de Yulia Putintseva e agora faz duelo de ex-números 1 contra Garbiñe Muguruza, que reagiu e virou em cima de Victoria Azarenka. A espanhola ganhou quatro dos seis duelos diante de Halep.

Muguruza e Vika fizeram um jogo de altos e baixos, marcado por 13 quebras de serviço num total de 31 break-points. Os erros também se destacaram, com 36 da vencedora e 31 da bielorrussa. Vika fez um segundo set tenebroso, com apenas cinco pontos no próprio saque, e quase levou o terceiro, virando de 1/3 para 4/3 e com break-point. Muguruza teve sangue frio e foi incrivelmente consistente na reta final.

A outra semi também é muito interessante, já que reúne a atual campeã Karolina Pliskova e a também tcheca Vondrousova, a atual vice de Roland Garros. Pliskova fez um jogo de risco, o que gerou mais winners e erros, e atropelou Elise Mertens no terceiro set. Vondrousova teve vida muito mais fácil e só perdeu três games para Elina Svitolina, abusando de curtas e lobs. Pliskova que se prepare para correr.