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Nadal não pode parar
Por José Nilton Dalcim
5 de junho de 2022 às 19:25

Duas coisas extraordinárias aconteceram neste domingo em Paris. Rafael Nadal deu outro show de soberania sobre o saibro, conquistou o 14º troféu de Roland Garros e abriu ainda mais distância para os concorrentes na tabela de Grand Slam. E não falou em adeus nem ao torneio, nem ao circuito, como era o temor de muita gente. Nadal não pode mesmo parar.

Claro que o problema no pé esquerdo preocupa e fica a dúvida se o veremos dar mais uma pausa no seu calendário de 2022. Será uma grande pena se ele não disputar Wimbledon. Afinal, vencedor pela primeira vez na carreira dos dois primeiros Slam de uma temporada, seria emocionante vê-lo tentar novo sucesso na grama britânica e aí abrir caminho para outro feito histórico espetacular.

Nadal contou após a partida que o tratamento feito pelo doutor Angel Cotorro foi anestesiar os dois nervos que lhe causam dor no pé, além de anti-inflamatórios, de forma que ele jogou sem sentir o próprio pé o tempo inteiro, mesmo sob o risco de uma queda ou uma torção. Já na próxima semana haverá uma tentativa de solucionar isso de uma vez, através de uma experiência com rádio-frequência.

“Não é uma questão de ser o melhor da história ou bater recordes. Mas sim de eu fazer o que mais gosto na vida que é jogar tênis, de competir no mais alto nível”, explicou Rafa de maneira simples e direta quando as perguntas da entrevista oficial abordaram a disputa contra Novak Djokovic e Roger Federer.

Embora pouco se fale sobre isso, devemos observar também que a retomada da liderança do ranking é uma possibilidade definitiva. Mesmo com participações limitadas no saibro europeu, Nadal sai de Roland Garros com 5.620 pontos somados na temporada, o que é 1.800 a mais do que Carlos Alcaraz ou quase 2.000 acima de Stefanos Tsitsipas, os concorrentes mais próximos.

Quando os pontos de Roland Garros do ano passado caírem, na próxima segunda-feira, ele deverá estar em terceiro, cerca de 1.000 pontos do russo Daniil Medvedev. A partir de julho, na fase de quadras duras, o canhoto espanhol terá apenas 545 a defender até o fim da temporada. Saudável, não há menor discussão de que ele vai lutar pelo número 1, posição que ocupou pela última vez no dia 2 de fevereiro de 2020.

Aos 36 anos, Nadal continua a jogar um tênis espetacular, é de novo o melhor tenista do circuito, dá lições seguidas de empenho e amor ao esporte. E por tudo isso é venerado em cada estádio onde pisa e pela maciça maioria de seus adversários.

Não, não é hora de se pensar em aposentadoria. Há ainda muita coisa ao alcance do mais ferrenho competidor que já se viu.

Final tranquila e mais façanhas
Como se esperava, Casper Ruud não foi mesmo adversário à altura de Nadal numa decisão de Roland Garros. Começou muito nervoso, depois conseguiu se soltar e chegou a ter 3/1 no segundo set, vantagem rapidamente revertida pelo espanhol, que embalou então 11 games seguidos. Isso em plena final de um Grand Slam.

No saque, na devolução, nas trocas e principalmente nas variações, Nadal era muito superior. Cometeu é claro alguns deslizes, com dupla falta inapropriada ou forehands fáceis desperdiçados. Ao mesmo tempo, esbanjava disposição e grande apuro técnico, correndo atrás das bolas até quando o placar nem mais exigia isso. Ruud marcou apenas oito pontos no massacrante terceiro set. E pensar que Nadal tem 13 anos a mais nas costas.

A conquista lhe proporciona mais números incríveis:

  • 14 títulos em 14 finais em Roland Garros, 7 dessas finais em sets diretos
  • único na história a ter 14 troféus num mesmo torneio
  • aos 36 anos, mais velho campeão do torneio
  • terceiro mais velho campeão de Slam
  • 112 vitórias em 115 jogos Roland Garros, 97.4% de sucesso
  • 90 triunfos em sets diretos no saibro de Paris
  • vitória sobre todos os 74 adversários que já encarou em Roland Garros
  • quatro vitórias sobre top 10 na campanha, igualando Wilander e Federer
  • sexto a vencer os dois primeiros Slam de uma temporada
  • quinto a vencer Austrália e Paris seguidamente
  • 88,2% de vitórias em torneios de Grand Slam, atrás somente de Borg
  • 92 troféus na carreira, quarta maior coleção, a dois de Lendl
  • 63 títulos obtidos no saibro
  • 91.3% de vitórias no saibro (474 vitórias e 45 derrotas)
  • 1.058 jogos vencidos, quarta marca, a 10 de Lendl
  • 83,3% de vitórias na carreira, maior marca da Era Profissional
  • 77,58% de sets vencidos na carreira, maior índice desde 1968

E mais

  • 15 temporadas com ao menos um título de Slam, recorde absoluto
  • único com 11 ou mais títulos em três torneios diferentes
  • 18 temporadas seguidas com ao menos dois títulos por ano
  • 872 semanas seguidas no top 10 e posição garantida até o final de 2022
  • terá 658 semanas no top 3 no ranking do dia 13 e ficará 11 atrás de Djokovic
Como Nadal venceu sua 14ª final em Paris
Por José Nilton Dalcim
5 de junho de 2022 às 10:09

E ele conseguiu de novo. Superando o ceticismo de alguns e suas próprias limitações físicas, Rafael Nadal chegou ao 14º Roland Garros, 17 anos depois de sua primeira conquista, no maior domínio de um jogador em um torneio e em uma superfície da história do tênis. E fez isso numa campanha em que superou quatro adversários de nível top 10. De quebra, ganha o segundo Grand Slam seguido da temporada, algo que não fazia desde 2010, e se isola ainda mais no quadro, com 22, dois acima de Djokovic e Federer. Uma façanha ainda mais extraordinária quando se vê que acaba de completar 36 anos. Ele é agora o terceiro de maior idade a ganhar um Slam, atrás de Rosewall e Federer, e o mais velho a faturar Roland Garros.

Terceiro set
6-0 – Sétima final sem perder sets, 90 vitórias em sets diretos de suas 112 no torneio. Nadal completa sua esperada vitória de forma impecável.
5-0 – Ruud ganhou apenas seis pontos até agora neste terceiro set e quatro deles ainda foram por erros do espanhol.
4-0 – Norueguês está entregue e o máximo que parece capaz é evitar o ‘pneu’. Nadal mantém empenho e obriga Ruud a jogar todas as bolas.
3-0
– Ruud fez incrível passagem em slice – a segunda no torneio – e abriu 15-30, mas daí em diante suas bolas curtas foram presentes para o espanhol.
2-0 – E já veio a quebra. Ruud não conseguiu aprofundar os golpes e aí vira presa fácil.
1-0 – Nadal deu sua tradicional ida ao vestiário para trocar uniforme e fecha game sem sustos.
Segundo set
6-3
– Cinco games seguidos vencidos pelo espanhol, que brigou por todas as bolas neste momento decisivo e levou Ruud a entregar a quebra com dupla falta. Fechou com 12 winners e apenas 5 erros, o que explica a diferença.
5-3 – Game de saque fulminante de Nadal. Excetuando os quatro pontos que perdeu com o saque na quebra do quarto game, o espanhol só perdeu um outro com seu serviço nos demais games.
4-3 – Nadal cobre todos os cantos da quadra, mexendo-se muito bem, e obtém nova quebra. Espanhol tem apenas três erros não forçados neste set.
3-3 – Assim como aconteceu no primeiro set, Nadal se recupera bem depois de uma perda de saque. Voltou a trabalhar bem com o primeiro saque e assim a comandar os pontos.
2-3 – Ruud insistiu em ser mais ofensivo, o que é a tática correta, mas não deu tanta sorte desta vez e já perde a vantagem. Nadal trabalhou muito bem os pontos, fazendo o adversário jogar.
1-3 – Em seu momento de ascensão na partida, Ruud se mexeu muito bem e contou com nova queda de intensidade do espanhol, que perdeu o saque com terceira dupla falta do jogo.
1-2 – Winner de forehand e saque-voleio mostram que o norueguês se achou mesmo.
1-1 – Apesar do game muito bem jogado por Nadal, Ruud elevou o nível. Trocou backhands com autoridade, tentou winners e chegou em curta. Parece que o nervosismo enfim passou.
0-1 – Ruud deu sorte e viu Nadal errar bola fácil de quebra, com forehand no meio da quadra. Daí em diante reagiu bem, fez voleio e deixadinha e disparou forehand firme muito lá de trás.
Primeiro set
6-3
– Apesar de dois ótimos forehands, Nadal fecha o primeiro set sem sustos. Perdeu apenas dois pontos com o primeiro saque e somou 11 winners contra 8. Já que o adversário não tem tanto peso de bola, Nadal se dá até ao luxo de jogar bem mais perto da linha de base.
5-3 – Melhor momento de Ruud no primeiro set, jogando mais solto e aguentando a pancadaria. Fez um belo voleio em momento de pressão.
5-2 – Game bem disputado, com Nadal ofensivo e Ruud se virando bem. Novamente, o espanhol é quem cria, usando outra curta na paralela para desequilibrar o adversário.
4-2 – Ruud enfim ganha um game por seus esforços próprios e curioso que ele tenha sacado quando o tempo todo no forehand do Nadal.
4-1 – Índice de primeiro saque de Nadal está fraco, com 50% e sempre oscilando para baixo, mas nas oito vezes que acertou o serviço inicial ele ganhou os pontos.
3-1 – Agora a vez de Ruud jogar muito mal. O jogo está tecnicamente fraco e Ruud mostra toda aquela fragilidade imaginada com o backhand.
2-1 – Game estranhíssimo de Nadal. Duas duas faltas e um forehand sem potência no meio da rede. Uma baixa de intensidade atípica para o terceiro game de um jogo.
2-0 – Nadal se mostrou mais agressivo que Ruud, com duas ótimas transições à rede. O norueguês conseguiu soltar seu forehand, mas no final subiu à rede com bola lenta demais para o padrão Nadal e levou a passada.
1-0 – Game inicial dentro do padrão imaginado, com muitas trocas e superioridade de Nadal. Ele já fez até boa deixada ao tirar o norueguês da quadra com o forehand.

Rafael Nadal chega a sua 14ª final de Roland Garros cercado de expectativas. Favorito absoluto ao título – jamais perdeu uma decisão no saibro de Paris -, ele tem tudo para morder seu 22º troféu de Grand Slam, mas os bastidores continuam a especular que pode também ser sua despedida. Há agora rumores de que Roger Federer estaria em Paris e de que o espanhol convocou uma grande entrevista coletiva para depois do jogo. Na quadra, o canhoto espanhol é franco favorito devido ao histórico, à experiência e à parte técnica, já que não se imagina que o norueguês tenham capacidade de agredir o tempo todo como seria necessário. Dois dias depois de completar 36 anos, Nadal busca também o 92º título e pode repetir pequeno rol de profissionais que conseguiram vencer os dois primeiros Slam de uma temporada.

Iga faz muito bem ao tênis
Por José Nilton Dalcim
4 de junho de 2022 às 18:37

É bem mais duro do que se imagina ser a grande favorita dentro de um torneio de tênis, e se for um Grand Slam isso dobra de tamanho. Iga Swiatek, no entanto, deu mínimos tropeções e confirmou o bicampeonato em Roland Garros da mesma maneira sóbria e competente com que assumiu o número 1 do ranking e embalou sua carreira.

Iga é um daqueles campeões que faz muito bem ao tênis. Não apenas tem excepcional qualidade técnica, mas também esbanja simpatia e se engaja em temas que estão além do esporte.

Desde a invasão russa, apoia a Ucrânia e levou o tema com sutileza e propriedade à cerimônia de premiação – que absurdamente escalou Mats Wilander e não uma grande tenista para entregar os troféus. Iga lamentou que a guerra ainda prossiga e prometeu só retirar a fita com as cores da Ucrânia quando a paz voltar. No ano passado, doou seu prêmio em Indian Wells à luta pela saúde mental dos atletas.

Dentro de quadra, substitui à altura Ashleigh Barty. Herdou a liderança quando a australiana inesperadamente se aposentou e tem honrado a posição com um tênis vistoso, agressivo e de muito empenho físico, o que obrigará de imediato suas concorrentes a subir de patamar. Isso é ótimo. Foram movimentos de tal porte com Martina Navratilova, Steffi Graf ou Serena Williams, para ficar em poucos exemplos, que mudaram para muito melhor o circuito feminino.

Swiatek estará nesta segunda-feira com o dobro dos pontos de sua mais direta adversária e tentará agora o desafio da grama. Com empenho, a polonesa adaptou pouco a pouco seu estilo para as quadras duras e obteve imenso sucesso nos últimos meses, com três títulos de peso. A grama no entanto exige novas aptidões e será interessante ver como ela fará a migração.

Gauff por sua vez deu mais um passo na jovem carreira e chegou a sua primeira final de Slam no piso menos conveniente a ela. Seu amadurecimento talvez seja mais lento do que se esperava – e que os norte-americanos tanto sonhavam -, mas me parece inevitável que Coco erguerá seu Slam, e não vai demorar muito. Quando acontecer, tende a se tornar uma real candidata ao topo do ranking.

Tal qual Iga, por quem mostra grande admiração, Gauff também não se furta em abordar temas como racismo, violência e política. Festejou ter completado o segundo grau de seus estudos em pleno Roland Garros e surpreendeu ao assinalar que o tênis não é a coisa mais importante do mundo.

Como se vê, a nova geração das meninas dá um banho de comprometimento com a carreira sem tirar os pés no chão.

Nadal tem tudo para mais um Slam
A menos que algum desconforto físico surja de forma muito imperiosa, Rafael Nadal entrará às 10 horas deste domingo na Philippe Chatrier com o mesmo favoritismo absoluto de Swiatek. Não se trata de desmerecer o norueguês Casper Ruud, apenas de constatar a distância técnica e de currículo abismal que os separa.

Rafa nem jogou seu melhor tênis nesta campanha, apesar da grande vitória sobre Novak Djokovic nas quartas. Ele ainda pode mais, porém é certo que o problema agravado do pé esquerdo e a tensão do momento o fizeram oscilar, ainda que não tenha jamais corrido real risco de derrota até agora.

Contra Ruud, um ótimo saibrista que depende demais do forehand, nem precisará de um saque espetacular. Provavelmente se preocupe em entrar nos pontos, trabalhar com paciência até abrir o buraco no lado esquerdo do adversário e aí iniciar o ataque. O espanhol é um excepcional estrategista e sua aplicação tática causa inveja.

Caberá ao norueguês apostar no seu físico mais inteiro e 13 anos mais jovem. Por isso seria essencial não deixar Rafa abrir grande distância no placar. Ruud possui um forehand que pode usar com sucesso, desde que consiga fugir para bater paralelas para tirar o espanhol do centro da quadra e aí definir no ângulo cruzado esquerdo, o ponto mais vulnerável do super campeão no saibro.

Novamente, a previsão de chuva na tarde de Paris deverá obrigar o fechamento do teto. Nadal reclamou da forte umidade que tornou a bola muito lenta contra Alexander Zverev, mas ainda assim eu daria 75% de chance de vermos o rei do saibro somar o 14º troféu em Roland Garros e o 22º de Slam.