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Favoritos definidos
Por José Nilton Dalcim
15 de maio de 2022 às 16:55

Roma é sempre um grande espelho para Roland Garros, não apenas pela proximidade entre os dois maiores eventos do saibro mas também pela similaridade das condições de umidade e temperatura, portanto na velocidade de jogo em si. E ao ver o domínio e a forma com que Novak Djokovic e Iga Swiatek desfilaram no Foro Itálico, não resta mais dúvida de que ambos chegarão a Paris como os nomes a ser batidos.

Djokovic já dava mostras evidentes de progresso físico e técnico em Madri. Fez uma partida espetacular na derrota para Carlos Alcaraz e o esforço de 3h38 foi superado sem susto. Era um indicativo importante de que a forma estava recuperada e aí faltavam ajustes finos, que Madri dificulta por conta da altitude. Assim, Roma caiu como uma luva para o sérvio.

Suas três últimas atuações foram soberbas, já que Felix Auger-Aliassime exigiu o máximo de empenho e precisão, Casper Ruud se mostrava um saibrista em condições de suportar um forte ritmo da base e Stefanos Tsitsipas era o experiente finalista de Roland Garros com jogo versátil e saque poderoso. Não tiraram set do número 1. Os seis primeiros games de Nole na final deste domingo registraram um volume avassalador, sufocante, e o tiebreak decisivo foi impecável. O grego teve sua chance, quando sacou para o segundo set, mas falhou no quesito mais importante de todos: o mental.

De forma diferente e talvez ainda mais taxativa, Swiatek está dois passos à frente de todas as concorrentes, o que nem é uma surpresa tão grande assim. Ao terminar Miami, eu já dizia que a polonesa migraria para o saibro, o piso em que realmente se sente mais à vontade, e da forma com que estava jogando seria muito difícil ser batida. Mas Iga foi além das minhas próprias expectativas porque atropelou quem cruzou sua frente em Stuttgart e Roma com raros momentos de equilíbrio ou de queda de intensidade.

Com exceção do saque, que certamente ainda pode melhorar, Swiatek mostra um repertório muito rico. Está extremamente veloz e resistente, chega facilmente nas bolas e com isso acha sempre a melhor resposta. Bate muito pesado em qualquer direção e a confiança atingiu um estágio tamanho que ela executa com apuro qualquer golpe mais exigente. E isso aconteceu repetidas vezes na final de Roma diante de Ons Jabeur.

Rainha do circuito no momento, e com folga, surge como favorita disparada para o bi em Roland Garros, já que nem a atual campeã parece ameaça, uma vez que Barbora Krejcikova está afastada desde o final de fevereiro.

O favoritismo de Djokovic ficou óbvio, porém um degrau abaixo. Além do crescimento de Alcaraz, um adversário 16 anos mais jovem e dono de um jogo poderoso, não se pode jamais descartar Rafa Nadal quando se chega a Paris. O multicampeão espanhol será dúvida a cada partida por conta do problema no pé, mas isso pode ser um handicap diante de oponentes desavisados. Tsitsipas mostrou no segundo set de hoje que não é bom vacilar contra ele e por isso me parece a quarta força em quadra. Eu não apostaria num campeão fora desse grupo.

E mais

  • Bia Haddad Maia deixou escapar chances na final contra Claire Lu no saibro francês, ficou com o vice e jogará Roland Garros como 49ª do ranking. Será sua volta ao torneio desde 2017 e, sem pontos a defender, depende de um bom sorteio para continuar subindo.
  • Sete brasileiros entraram no quali do Slam do saibro e vejo boas chances de Thiago Monteiro e Laura Pigossi avançarem para a chave principal. Thiago Wild, João Menezes, Matheus Pucinelli, Felipe e Carol Meligeni terão sempre um cabeça no caminho.
  • Matteo Berrettini não se recuperou e desistiu de Roland Garros, ajudando Pablo Carreño a subir para cabeça 16.
  • Daniil Medvedev enfim retorna ao circuito após a cirurgia de hérnia, tenta se adaptar ao odiado saibro em Genebra e será o cabeça 2 em Paris, o que é quase um desperdício.
  • John Isner e Diego Schwartzman quase ganharam Roma. O gigante descobriu aptidão para a dupla, ganhou Indian Wells e Miami com parceiros distintos e será top 20 da especialidade aos 37 anos.
  • Rafael Matos ganhou seu terceiro título do ano no challenger de Bordeaux – os outros dois troféus foram de ATP 250 – e grudou no top 50, barreira que pode quebrar em Roland Garros. Ele jogará ao lado do mesmo espanhol David Vega.
  • Soares, Melo e Meligeni também entraram nas duplas de Paris, todos com parceiros estrangeiros.
Brilhante, Alcaraz apimenta Roland Garros
Por José Nilton Dalcim
8 de maio de 2022 às 22:08

Não é apenas a sucessão incrível de vitórias, títulos e façanhas. Acima de tudo, está a forma com que Carlos Alcaraz roubou a cena do circuito internacional de tênis. Mal completou 19 anos, possui uma seleção de golpes que poucas vezes se viu no circuito, traz uma proposta diferenciada e vistosa de jogar, demonstra enorme capacidade emocional e possui empatia contagiante. Não é à toa que todo mundo está de boca aberta.

Levantou o título de Madri com vitória sobre quatro dos 11 melhores do ranking e derrotou sucessivamente os monstros sagrados do saibro Rafael Nadal e Novak Djokovic, os dois aliás no terceiro set. Conseguiu reencontrar concentração e força para bater o ídolo Rafa após torção no tornozelo e superou o número 1 no tiebreak final, com uma maturidade e ousadia tão evidentes que até mesmo Nole ficou impressionado.

A vitória neste domingo sobre um estafado Alexander Zverev foi até um anticlímax, porque o alemão não jogou nada. O saque ainda o salvou no começo do jogo, mas a partir do momento que o espanhol encontrou o ritmo das devoluções o resultado foi um massacre. Ganhou 24 dos últimos 34 pontos da partida. Sascha, com enorme razão, desceu a lenha na organização por ter feito sempre a última partida das rodadas, que para seu azar começaram muito além do previsto e invadiram a madrugada. Saiu da semifinal à 1h da manhã local e teve apenas 15 horas para se recuperar.

Ele próprio sabe que Alcaraz era o favorito em qualquer circunstância, mas essa falha prejudicou uma final que poderia ter sido bem divertida. É muito provável que os promotores de Madri pouco se importem com isso, já que a ascensão de Alcaraz causa um furor na Espanha. A semi contra Djokovic liderou a audiência da tv local com mais de 34% dos aparelhos sintonizados.

O volume de jogo de Alcaraz, considerando-se aí a capacidade ofensiva e a postura tão positiva, apimenta de vez a expectativa por Roland Garros, ainda mais agora que ele optou corretamente por não ir a Roma. Conforme explicou, o tornozelo ainda dói e o sensato é tratar e descansar duas semanas. Fica assim uma dúvida salutar, uma vez que Paris está muito mais para Roma do que para Madri. Terá ele capacidade de manter esse padrão em condições mais lentas e por muito mais sets?

A discussão vai dominar o tênis até o Aberto francês chegar, daqui a dois domingos. Uma coisa é certa: ninguém vai querer ficar no mesmo lado da chave que Alcaraz.

As façanhas de Carlitos

  • Ganhou todas as últimas nove finais que disputou desde outubro de 2020, o que inclui três challengers, o NextGen Finals e cinco ATPs
  • Único tenista a derrotar Nadal e Djokovic num mesmo torneio sobre o saibro
  • Mais jovem a ganhar cinco torneios de ATP desde Nadal, que tinha 18 anos em 2005
  • Mais jovem a derrotar o número 1 do mundo em 15 anos
  • Mais jovem a bater três dos top 5 num mesmo torneio, superando Djokovic em 2007
  • Aos 19 anos e 4 dias, é segundo mais jovem a ganhar dois Masters 1000, atrás de Nadal, que tinha 18 e 340 dias em 2005
  • Sete vitórias seguidas sobre adversários top 10 e oito em 10 na temporada
  • Mais jovem campeão de Miami e de Madri
  • Mais jovem campeão de ATP 500 ao vencer no Rio
  • Já ganhou mais Masters 1000 do que Wawrinka e Del Potro
  • Terceiro mais novo a ganhar um Masters 1000
  • Passa a ser número 6 do mundo, 114 postos acima do que ocupava um ano atrás
  • Assume liderança da temporada em títulos (4) e vitórias (28)
  • É o número 2 no ranking da temporada, apenas 70 pontos atrás de Nadal

Reações
Do jeito que está jogando, ele é tão favorito para Roland Garros quanto Nadal e Djokovic” (Andy Roddick)
Você é no momento o melhor tenista do mundo. É excepcional para o tênis ter este superstar, que irá ganhar muitos Slam e ser número 1” (Alexander Zverev)
Para alguém de sua idade, jogar de forma tão madura e valente é impressionante“. (Novak Djokovic)
Quando sua adrenalina sobe, ele é praticamente imparável“. (Rafael Nadal)
Neste momento, a ordem é ‘fuja do Alcatraz’ para vencer Roland Garros, mais até do que ‘vamos Rafa‘” (Yevgeny Kafelnikov)

Espetáculo em dose dupla
Por José Nilton Dalcim
7 de maio de 2022 às 21:08

Carlos Alcaraz não para de fazer história. Num daqueles jogos memoráveis, tanto em emoção como em qualidade técnica, barrou o número 1 Novak Djokovic diante de uma deslumbrada torcida e poderá erguer seu segundo troféu de nível Masters 1000 em dois meses, tornando-se o único na temporada com quatro títulos e 28 vitórias. Dois dias depois de completar 19 anos, já é o sexto do ranking, 114 posições à frente do que figurava 365 dias atrás.

Alcaraz alcança novos feitos notáveis. É o primeiro a derrotar Djokovic e Rafael Nadal num mesmo torneio sobre o saibro – vale lembrar que Rafa perdeu apenas sua 44ª partida no piso em toda sua incrível carreira – e agora figura entre um dos únicos cinco a ter vencido os dois em rodadas consecutivas. Desses quatro, apenas Roger Federer ainda está teoricamente em atividade. Os outros foram Nikolay Davydenko, Andy Roddick e David Nalbandian.

É difícil definir o apertadíssimo duelo contra Djokovic em poucas palavras. Alcaraz saiu na frente com postura ofensiva, mas Djokovic passou a devolver bem e com profundidade, levou o tiebreak e teve chance de quebrar no final do segundo set. No entanto, o espanhol sempre jogou com confiança e ousadia nos pontos importantes, elevando a qualidade do saque ao longo dos sets e abusando de deixadinhas milimétricas. Nole foi muito sólido e ágil nas trocas, mas não achava um antídoto para o saque alto no backhand e isso fez diferença importante. O terceiro set sempre esteve mais para Alcaraz, ainda que por margem estreita.

Os sucessivos desafios para o garotão espanhol não param. Depois dessa cruzada incrível, ele terá pela frente na final deste domingo um adversário que o venceu por duas vezes: o alemão Alexander Zverev venceu com placares tranquilos os jogos feitos em Acapulco e Viena no ano passado.

Sascha evoluiu ao longo da semana e mostrou neste sábado um tênis realmente competitivo diante de Stefanos Tsitsipas, a quem nunca havia vencido sobre o saibro em três tentativas anteriores. Sacou muito nos dois sets que venceu, talvez fruto da ousada exigência de Sergi Bruguera, que levou o pupilo à 1 hora da madrugada à quadra depois das falhas bizarras contra Felix Aliassime apenas para recuperar o melhor ritmo do segundo serviço.

Esse aliás parece ser um elemento crucial para chegar ao tricampeonato de Madri neste domingo, além é claro de estar muito menos desgastado. Será um curioso duelo tático, já que Zverev deve forçar o backhand do espanhol, enquanto Alcaraz tentará fazer o alemão bater o forehand em movimento. Quem sair mandando no ponto, deve ter importante vantagem.

Não se pode esquecer do necessário elogio a Djokovic, que enfim elevou o nível e mostrou o padrão que se espera dele. Mostrou-se concentrado – irritante os aplausos após cada erro de primeiro saque – e agressivo da base, sacou muito bem em horas importantes, moveu-se com a necessária agilidade e aguentou sem sustos o esforço de 3h38.

Como bem salientou o sérvio, a maior dificuldade foi com a devolução do saque alto, mas há muito mérito de Alcaraz em explorar a altitude de Madri, que faz a bola quicar bastante. Nole ainda tem Roma para recuperar totalmente a confiança e o ritmo ideais com vistas a Roland Garros. O que mostrou hoje é motivo para grande otimismo.

Jabeur enfim chega lá
A final feminina por sua vez deixou a desejar na parte técnica, mas coroou finalmente o tênis competente e vistoso de Ons Jabeur com um grande troféu. A tunisiana teve poucos momentos realmente brilhantes numa final muito nervosa e chegou a levar ‘pneu’ da norte-americana Jessica Pegula.

Seu estilo muito mais encaixado no saibro acabou por prevalecer. Incrível que Jabeur, aos 27 anos, tenha conquistado apenas o segundo troféu da carreira porque ela certamente pode mais. Retornará ao sétimo lugar do ranking e, livre enfim do peso de um troféu de primeira linha, é de se esperar que jogue mais solta.