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Medvedev insiste e resiste
Por José Nilton Dalcim
3 de julho de 2021 às 17:44

Jogo de tênis em cinco sets é sempre algo muito especial. Quem está na frente nunca pode entrar no clima do ‘já-ganhou’ por melhor que esteja atuando, quem está atrás  precisa acreditar, insistir, persistir. Daniil Medvedev jamais havia virada uma partida depois de perder os dois primeiros sets, entrou em quadra com o pobre histórico de uma vitória em oito vezes que chegou ao quinto set, porém não desistiu e foi premiado por uma reação completamente inesperada.

Marin Cilic fez dois sets primorosos, surrando a bola, máxima precisão no saque e no forehand, ótimas transições à rede, trocas espertas de direção. Somava então 30 winners e 84% de pontos vencidos com o primeiro saque. Bastou no entanto perder o saque no quinto game do terceiro set para o jogo sofrer mudança radical. Perdeu completamente a confiança, seus golpes morriam na rede, o saque não machucava mais, Medvedev comandava as trocas.

Perdeu quatro serviços consecutivos, um absurdo na grama, e aí é difícil segurar Medvedev.  Quando sacou com 5/0 no quinto set, o russo somava apenas 11 erros não forçados nos três últimos sets e cedido oito pontos quando cravou o primeiro serviço. Deu uma pequena ‘viajada’ na hora de fechar, o público se empolgou, mas o russo acabou com a festa. Não menos surpreendente, Cilic é o quarto tenista que mais ganhou quinto sets na Era Profissional, atrás somente de Djokovic, Federer e Sampras.

Enfrentará na segunda-feira o polonês Hubert Hurkacz, que nunca chegou tão longe num Grand Slam. Ele aliás não perdeu set em Wimbledon até agora, depois de cair nas estreias de Stuttgart e Halle. O campeão de Miami é um tenista de jogo sólido, saque bom e excelente movimentação, que permite buscar sempre uma bola firme de forehand. O duelo é inédito e os nervos podem, pesar.

Primeira meta cumprida
Não fosse o vacilo no final do terceiro set, Roger Federer teria passado com louvor pela terceira rodada de Wimbledon. De qualquer forma, ainda sem mostrar um tênis espetacular, cumpriu seu primeiro objetivo que era entrar na segunda semana, o que faz pela 18ª vez no torneio. Terceiro mais velho a estar nas oitavas de Wimbledon, atrás de Pancho González (41) e Ken Rosewall (40), tem uma chance concreta de dar mais um passo adiante frente ao italiano Lorenzo Sonego. O número 27 jamais havia ganhado jogos em Wimbledon antes deste ano e as únicas oitavas anteriores foram em Paris-2020. Aliás, foi no saibro francês onde cruzou pela única vez com Federer, em 2019, e não deu o menor trabalho.

Mas o suíço ainda mostra buracos no seu jogo. Norrie não é bobo na grama, onde explora bem o fato de ser canhoto, mas está longe de ser uma ameaça. Federer foi bem no primeiro set, escapou de um break-point no segundo e também prevaleceu. Em ambos, sacou bem na hora certa, errou pouco e mal foi à rede. Teve chance de ouro de simplificar o terceiro set, mas foi passivo nos break-points e pagou caro, com um game pavoroso de serviço.

A coisa foi se complicando, o britânico acreditou mais e a torcida veio com ele. Federer quebrou, mas permitiu reação em seguida. O jogo estava enroscado, bolas escapavam, mas enfim o suíço devolveu bem e fechou em seguida. Na ponta do lápis, foi uma atuação mediana, com 48 winners e 33 erros, 74% dos pontos vencidos com o primeiro saque e 30 de 38 lances positivos junto à rede. Ao menos, fica a impressão que dá para fazer bem mais.

Um novo semifinalista
Se apenas Federer já foi à penúltima rodada no seu quadrante, o outro semifinalista da parte inferior da chave será inédito. Na verdade, os quatro sobreviventes sequer chegaram nas quartas de Wimbledon até hoje, três deles ainda podemos chamar de ‘nova geração’. e dois são top 10. Matteo Berrettini está jogando um tênis primoroso, explorando saque, forehand e slices, e terá pela frente a surpresa Illya Ivashka, mero 79º do ranking e que só havia vencido um jogo de Slam na carreira antes desta semana. A melhor vitória do bielorrusso foi diante de Jeremy Chardy.

Alexander Zverev e Felix Aliassime sempre estão devendo algo devido ao enorme potencial e assim têm uma chance incrível neste Wimbledon. O alemão foi ao menos quartas em seus três Slam mais recentes e encarou teste real diante de Taylor Fritz. Mostrou certa frustração até a metade do segundo set. Aí conseguiu empatar e ficou bem mais consistente. Cravou 19 aces e 9 duplas faltas, mantendo o padrão de forçar sempre.

O canadense por sua vez foi dominado por um Nick Kyrgios inesperadamente consistente, mas o australiano passou a sentir o abdômen já no final do primeiro set e não aguentou muito mais. O recorde de Felix contra Zverev é negativo: três derrotas sem ganhar set, tanto no saibro como na dura, incluindo aquela amarga queda na final de Colônia no ano passado quando buscava de novo seu primeiro ATP.

Feminino: força muito jovem
A já experiente Cori Gauff, 17 anos, e a sensação britânica Emma Raducanu, de 18, provocam saborosa renovação na chave feminina de Wimbledon. Sem perder set até agora, Coco até não sacou tão bem, mas superou a eslovena Kaja Juvan com sobras e agora desafia a campeã de 2018 Angelique Kerber, que virou com autoridade contra Aliaksandra Sasnovich. A alemã, de 33, tem quase o dobro da idade.

Raducanu é agora a esperança nacional em simples. Tenista de mais baixo ranking da chave, entrou como convidada e tem mostrado um tênis muito competente sobre a grama, batendo na bola com vontade e precisão. Tirou Sorana Cirstea, que vinha da vitória sobre Vika Azarenka, ergueu a torcida e o momento Cinderela pode seguir contra a australiana Ajla Tomljanovic. Vale conferir a história dessa sorridente tenista no blog do Mário Sérgio Cruz.

Ashleigh Barty se atrapalhou no final do jogo, porém confirmou o amplo favoritismo e agora é a única top 10 no lado de cima da chave. E confirma o aguardado duelo de campeãs de Paris frente à tcheca Barbora Krejicikova, que precisou lutar muito frente à letã Anastasija Sevastova. Quem vencer, terá vantagem natural contra Karolina Muchova ou Paula Badosa, ainda que a tcheca já tenha estado nas quartas de Wimbledon há dois anos.

E mais
– Depois de uma ótima sexta-feira, o tênis brasileiro sofreu três derrotas no fechamento da primeira semana. A mais dolorosa foi a de Soares, que não embalou ao lado de Murray e só ganhou cinco jogos desde a semi do Australian Open.
– Matos e Monteiro deram trabalho aos atuais campeões Cabal/Farah e o gaúcho deve subir para o 83º posto do ranking após seu primeiro Slam.
– Stefani encarou a parceiia Carter, mas ao lado de Demoliner parou na segunda rodada das mistas.
– Federer atingiu a 1.250ª vitória da carreira e agora faltam 24 para igualar Jimmy Connors. Também precisa fazer mais 33 jogos para chegar aos 1.557 do norte-americano.
– Esquentou o clima na coletiva feminina. Tomjlanovic não gostou da postura e declarações de Ostapenko, que em quadra teria dito para a adversária que ‘você foi pior’ e na entrevista afirmou: ‘se jogasse 50%, teria vencido’. A letã tem sido sempre criticada por suposto menosprezo às adversárias.
– No espaço de dois dias, Medvedev e Rublev se tornaram o sexto e o sétimo russos a ter oitavas em todos os Slam. Safin e Kafelnikov foram únicos a chegar a um título.
– Berrettini marcou a 100ª vitória da carreira em 158 tentativas, sendo 21 delas na grama (8 neste ano).
– Esta é a primeira vez que dois canadenses chegam nas oitavas de um mesmo Wimbledon na Era Aberta e a primeira que isso acontece com dois italianos desde 1955.

Sufoco e esperança
Por José Nilton Dalcim
5 de fevereiro de 2018 às 00:06

O tênis brasileiro sofre para valer quando sai para qualquer duelo da Copa Davis, ainda mais se for em quadra que não seja de saibro. A dificuldade para superar a desfalcada República Dominicana, com três jogadores de nível future, só acabou recompensada com a atuação de João Pedro Sorgi no quinto jogo.

Não que tenha sido um espetáculo técnico, mas o esforço e a dedicação do paulista de 24 anos depois de perder o primeiro set foram louváveis. Como Rogério Silva e Thomaz Bellucci não aceitaram a convocação, ele teve sua oportunidade como titular e não decepcionou, fazendo duas partidas de empenho numa superfície que claramente não é sua favorita.

Thiago Monteiro decepcionou. Venceu sua partida de sexta-feira com um tênis muito irregular e, apesar de ótimos lances e colocar até mais slice no seu backhand, voltou a mostrar pressa demasiada principalmente nos momentos de maior pressão. Fica a sensação preocupante de que Monteiro perdeu confiança, o que não é saudável num início de temporada.

Em abril, teremos de ir à Colômbia, que pode escolher a altitude e a quadra dura para nos atrapalhar. Daí precisaremos mesmo de Bellucci e quem sabe de João ‘Feijão’ Souza, que adoram jogar nessas condições. Rogerinho Silva demonstrou estar insatisfeito com o comando do time, ressentido pelo descaso que sofreu contra o Japão. De qualquer forma, não deveríamos temer Alejandro González e Daniel Galan. Ou devemos?

No Grupo Mundial, excelentes vitórias de Alemanha e Itália fora de casa. Com Nick Kyrgios outra vez ‘baleado’, Alexander Zverev deitou e rolou na partida decisiva. O encrenqueiro Fabio Fognini aprontou das suas, mas foi um herói e tanto: 14 sets e 12 horas em quadra para participar dos três pontos diante do Japão.

A Itália recebe agora a atual campeã França, que superou a Holanda com Adrian Mannarino e Richard Gasquet nas simples, e a Alemanha deve encarar o saibro depois que a Espanha avançou, mas com inesperado trabalho diante do time de novatos britânicos. Destaque para o canhoto Cameron Norrie, 22 anos e 114º do ranking, que marcou virada incrível sobre Roberto Bautista e deu sufoco em Albert Ramos.

A Croácia escolheu certinho o saibro para barrar o Canadá. O ponto decisivo foi uma aula de Borna Coric em cima de Denis Shapovalov. O número 3 Marin Cilic só jogou nas duplas e pode ajudar muito contra o Cazaquistão dentro de casa. Já a Bélgica contou novamente com David Goffin, muito firme mesmo na quadra dura. Esse aliás deve ser o piso escolhido pelos EUA para a rodada de 6 a 8 de abril. Sam Querrey e John Isner atropelaram a Sérvia como visitantes.

Por falar em tênis sérvio, o final da semana marcou a notícia já esperada da cirurgia de Novak Djokovic para tentar corrigir de vez o problema no cotovelo direito. Ficam dúvidas a se esclarecer: como ele ficou seis meses parado e em tratamento, e acabou por decidir enfim operar após três partidas em Melbourne? Que avaliação tão ruim teria sido essa de sua equipe médica ou física? Mais ainda: qual é a real extensão do problema e quanto tempo ele ainda terá de amargar fora do circuito? Me parece pouco provável que Nole volte no saibro europeu e seria temerário que jogasse na grama, o piso menos recomendado do mundo para quem tem problemas de cotovelo.