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O velho Nadal contra o novo Nadal
Por José Nilton Dalcim
18 de março de 2022 às 00:25

O esperado reencontro entre Rafael Nadal e Carlos Alcaraz se concretiza em Indian Wells. Se dez meses atrás o pupilo de Juan Carlos Ferrero era apenas uma promessa talentosa, hoje o garoto de 18 anos já é considerado o mais provável súdito de Rafa, após um salto notável de resistência, velocidade, força e mão habilidosa.

A semifinal de sábado tem tudo para ser um eletrizante duelo entre duas gerações de espanhóis que jogam de forma claramente distinta mas que possuem como máxima a determinação ferrenha de lutar por cada ponto de maneira quase irritante e são dotados de recursos variados para optarem por diferentes e inesperadas táticas. Não dá para pedir mais.

O nono duelo entre Nadal e Nick Kyrgios foi além do que eu esperava, porque o australiano conseguiu resistir mental e fisicamente por quase três horas de intensa batalha. Um quesito pode ser o suficiente para definir a tênue diferença que favoreceu o espanhol: confiança. Com pouco ritmo competitivo nesse alto nível nos últimos meses, Kyrgios desperdiçou pontos cruciais, enquanto Nadal, em seu excepcional momento na temporada, nunca se desesperou e achou pequenas soluções que foram fundamentais. De novo, ganhou tiebreak e, como dizia Boris Becker, há muito mais de nervos do que de técnica num desempate.

O próprio Rafa explicou que, depois de escapar de um início tenso de terceiro set, decidiu mudar a posição de recebimento do saque com o único objetivo de mexer com a cabeça do adversário. E deu muito certo. Apesar de ter perdido dois games de serviço, no começo do jogo e para ceder o segundo set, no geral o espanhol utilizou muito bem o primeiro saque para conter a impetuosidade de Kyrgios. E se havia algum problema com o pé esquerdo, jamais demonstrou isso, deslocando-se de maneira notável.

Além da 19ª vitória consecutiva neste início de 2022, Nadal atinge a 76ª semi de nível Masters em 124 torneios disputados, ou seja, esteve pelo menos na penúltima rodada em mais de 61% das vezes. Com 402 vitórias em Masters em 485 possíveis, a eficiência está pertinho dos 83%, recorde absoluto.

Alcaraz por sua vez teve uma tarefa dura diante do atual campeão Cameron Norrie. O britânico liderou o primeiro set por duas vezes com quebras à frente, e repetiu isso no começo da segunda série, mas o empenho do garoto espanhol foi assombroso. Além de correr atrás de bolas impossíveis e fazer sempre o canhoto suar pelos pontos, utilizou muito bem outra vez as paralelas e sua visão para encaixar curtinhas esteve apuradíssima. Totalizou 36 winners, quase dois por game.

Sem dúvida, o saque de Alcaraz foi instável e ele sabe que isso será uma falha imperdoável diante de um canhoto muito mais experiente e de golpes bem mais pesados do que Norrie. Ao menos, ele já teve a experiência de encarar o jogo tão especial de Rafa em Madri do ano passado, quando levou um passeio no saibro veloz. No jogo desta quinta-feira, Alcaraz fez uma opção curiosa de ficar bem afastado na devolução do primeiro saque e jogar quase em cima de linha para retornar o segundo. Será que funciona contra Nadal? Curioso para ver.

A rodada desta sexta-feira define os outros dois semifinalistas. Tanto Taylor Fritz como Grigor Dimitrov já estiveram na penúltima rodada de Indian Wells, mas Andrey Rublev tem no currículo dois vices de Masters. O mais inexperiente é Miomir Kecmanovic. Ele enfrenta Fritz, que além da torcida tem histórico de 2 a 0, enquanto Rublev e Dimitrov farão o quinto duelo, todos em piso duro, com empate por 2 a 2. Nas bolsas de aposta, Fritz tem ligeiro favoritismo e Dimitrov é considerado razoável ‘zebra’.

Grandes jogos e número 2 em jogo
Três das atuais top 10 e uma ex-líder do ranking fazem uma rodada das mais interessantes na semifinal feminina de Indian Wells. Campeã de 2015 mas hoje apenas 26ª do mundo, Simona Halep leva vantagem de 2 a 1 sobre Iga Swiatek, enquanto Paula Badosa se mantém na luta pelo segundo título seguido e tenta repetir a vitória de novembro sobre Maria Sakkari.

Nos jogos desta quinta-feira, Sakkari começou lenta e viu Elena Rybakina abrir 4/1, mas depois a grega calibrou as devoluções e fechou com 18 a 12 nos winners, sendo 6 a 4 nos aces. Sakkari ainda tenta o primeiro título da temporada e chega a sua terceira semi seguida.

Badosa foi bem mais dominante e voltou a ter grande atuação, desta vez barrando Veronika Kudermetova em jogo sem sustos. Apesar de sempre forçar mais o jogo, a espanhola terminou com apenas seis erros. Swiatek, Badosa e Sakkari lutam entre si pelo número 2 do ranking.

Espanha rouba cena em Indian Wells
Por José Nilton Dalcim
17 de março de 2022 às 00:48

Com três representantes em estágios completamente distintos mas todos jogando um tênis de primeira grandeza, o tênis espanhol é a sensação do momento sobre as quadras duras de Indian Wells. O ainda imbatível Rafael Nadal, a estrela ascendente Carlos Alcaraz numa transição perfeita do saibro e a atual campeã Paula Badosa de olho no número 2 estão batendo muito na bola e usando os mais variados recursos diante das difíceis condições do torneio.

Como se esperava, Rafa sofreu com o saque demolidor de Reilly Opelka, que está longe de ser ridículo da base. Faltou pouco para levar o número 4 ao terceiro set e faltou coragem na hora de obter a segunda quebra. O espanhol foi como sempre muito aplicado na parte tática, determinado a entrar nos pontos de qualquer jeito. Ele achou que fez seu melhor jogo da semana, mas seu segundo set foi bem menos brilhante.

Obviamente, sobrará motivação para o reencontro com Nick Kyrgios, que descansou diante do mal estar que forçou Jannik Sinner a abandonar o torneio. O australiano ganhou 3 dos 8 duelos e é mais perigoso do que Opelka por sua imprevisibilidade. Fato curioso e relevante, Nadal ganhou 8 dos 9 tiebreaks disputados, incluindo todos os 6 mais recentes.

Alcaraz e Gael Monfils só fizeram o esperado duelo de habilidades até o francês perder o saque no 6/5, depois de flertar com break-points em outros dois serviços. O garotão, ao contrário, foi consistente do começo ao fim, fez 18 de seus 22 winners de forehand, ganhou 87% dos pontos em que acertou o primeiro saque e fez deixadinhas desconcertantes e voleios oportunos. De novo, mostra maturidade muito acima de seus 18 anos e segue com um estilo muito agradável de se ver.

O campeão do Rio Open chega às quartas de um Masters 1000 pela primeira vez e é o mais jovem a ir tão longe no torneio desde o fenômeno Michael Chang 33 anos atrás. Com 11 vitórias em 12 jogos na temporada, Alcaraz enfrentará agora o detentor do título, o canhoto Cameron Norrie, a quem venceu com notável facilidade no US Open do ano passado. O britânico fez notáveis lances contra Jenson Brooksby e precisa de mais uma vitória para enfim realizar o sonho do top 10.

Paula Badosa ganhou logo seu segundo torneio do ano, ainda em Sydney, e deu a impressão que manteria o momento confiante de 2021, mas daí em diante não fez grandes exibições. Tinham-se então reservas sobre como iria encarar a pressão de defender o título de Indian Wells – ainda que o troféu tenha acontecido em outubro – e a espanhola de golpes tão pesados e agressivos está muito bem. Foi notável na vitória sobre Leylah Fernandez, principalmente na forma de atacar o serviço, e buscará a semi diante de Veronika Kudermetova.

E mais

  • Dono de dois títulos na quadra dura neste ano, Rublev parece firme na busca do sonhado primeiro Masters, depois de dois vices no ano passado. Sua insistência em jogar duplas enfim rende um jogo de rede menos tímido. Tirou Hurkacz em sets duros e reencontra Dimitrov, semi de 2021 em Indian Wells. Duelo está 2-2.
  • Kecmanovic é um sérvio a se ficar de olho. Orientado por Nalbandian, joga bem em todos os pisos e é muito gelado sob pressão. Ótima vitória sobre Berrettini e encontro agora com Fritz, semi em 2021 e que ganhou no sufoco de De Minaur. O americano venceu os dois jogos anteriores contra Kecmanovic, mas lá em 2019. Vale conferir.
  • As primeiras quartas de final femininas foram decepcionantes porque Halep e Swiatek se mostraram absurdamente superiores a Martic e Keys. Enquanto a romena está muito veloz e solta em quadra, a jovem polonesa vem do título 1000 em Doha tendo como destaque o ataque nas devoluções.
  • Halep tem 2 a 1 no histórico, com única derrota na campanha inesquecível de Iga rumo ao título de Roland Garros em 2020. Swiatek assume provisoriamente o número 2, mas pode ainda ser ultrapassada por Badosa ou Sakkari, que enfrentará Rybakina nesta quinta-feira.
  • Zverev está na semi de duplas ao lado de Golubev e pode pegar Isner/Sock, que já tiraram Pavic/Mektic e Kokkinakis/Kyrgios. Rublev/Karatsev e Tsitsipas/Feliciano jogam quartas.
  • A ITF enfim conseguiu acordo entre os quatro Slam e unificou a regra do tiebreak no 6/6 do quinto set. É o fim definitivo do set longo, que sobrevivia em Roland Garros.
Nadal volta a ser o grande do circuito
Por José Nilton Dalcim
27 de fevereiro de 2022 às 10:50

O tempo ainda não conseguiu derrotar Rafael Nadal. O que parecia ser o ocaso na sua carreira depois do furacão Novak Djokovic, a ascensão dos novatos e o sério afastamento em julho de 2021 se transformou num passe de mágica. Em apenas dois meses, Rafa voltou a ser o centro de atenção do circuito e, mais do que isso, é sem dúvida o melhor tenista em atividade, aos 35 anos de enorme vitalidade e disposição.

Detalhe observado pelo site da ATP, Nadal ganhou neste sábado em Acapulco a 11ª final consecutiva que disputou, ou seja, seu último vice foi o do Australian Open de 2019. Desde então, ganhou tudo que decidiu, como dois Roland Garros, um US Open e um Australian Open, dois Roma, um Canadá, dois Acapulco, um Barcelona e um único ATP 250, o de Melbourne recente.

Sua coleção de títulos no geral sobe para 91 e se tornar o terceiro tenista com marca centenária parece agora uma questão de tempo. Dessas conquistas, 21 são Grand Slam e 36 Masters, 62 vieram no saibro e 25 no piso sintético. Chega ainda à assombrosa marca de 95% de vitórias na carreira depois de ganhar o primeiro set.

Esta também é a terceira vez em que ergue três troféus consecutivos na quadra dura numa mesma temporada, repetindo 2005 e 2013, mas é claro que a campanha de nove anos atrás permanece a mais imponente, já que então ele faturou nada menos que Canadá, Cincinnati e US Open.

Por fim mas não menos valioso, Nadal já recupera o quarto lugar do ranking, deixando Stefanos Tsitsipas para trás. Aparecerá nesta segunda-feira exatos 1.000 pontos atrás de Alexander Zverev, a 1.950 de Djokovic e a 2.100 de Daniil Medvedev. Vale ressaltar no entanto que Rafa somará tudo o que fizer tanto em Indian Wells como em Miami. E neste altura, quem lhe tira o favoritismo?

Exuberância técnica
Sem perder um set sequer na semana, o grande momento de sua campanha no México foi é claro a semifinal magnífica diante de Medvedev. O futuro número 1 falhou mais do que o habitual, principalmente com seu importante backhand, mas o volume de jogo e as diferentes alternativas que Nadal encontrou ao longo da batalha deixaram à vista uma considerável lacuna de qualidade entre os dois.

Mais uma vez, Nadal nos brinda com um ‘upgrade’ de golpes. O primeiro serviço está tão profundo e veloz que permite ao espanhol ousar com frequência o saque-voleio, e o jogo de rede está soberbo. A confiança lá em cima também permite agressividade no backhand e as curtinhas saem de qualquer lado, em qualquer circunstância. Está extremamente difícil ‘ler’ a bola seguinte do canhoto espanhol e não existe arma mais significativa no tênis do que essa, ainda mais se o jogador é dono de um amplo arsenal.

A final contra Cameron Norrie não viu o mesmo Nadal tão perfeito, principalmente com a cessão de dois serviços ao longo do segundo set, mas o espanhol nem de longe esteve ameaçado por um adversário que precisa subir demais o nível contra ele e não tem tantos recursos para isso, ainda que esteja talvez no melhor momento da carreira. Norrie perdeu os dez sets que já disputou contra Rafa, e o número evidencia essa distância técnica e tática.

O título veio sob as condições muito úmidas e um tanto lentas de Acapulco, que se assemelham muito a Miami. O deserto californiano é bem diferente, com tempo seco, vento e maior dificuldade em controlar a bola. Nadal tem três conquistas em Indian Wells, a mais recente em 2013, e nunca venceu Miami. Não pode haver chance maior para acabar com esse tabu, ainda mais se o hexa Novak Djokovic não competir mesmo.

E mais

  • Excepcional campanha em Santiago garantiu o segundo troféu de ATP para a parceria de Rafael Matos e Felipe Meligeni. Os pontos entrarão exatamente no dia em que caem os pontos da conquista de Córdoba em 2021, assim ambos mantém os rankings: o gaúcho entre os top 70 e o paulista na faixa dos 95 primeiros.
  • Uma boa e uma má notícia para o time brasileiro da Copa Davis. Zverev recuo da decisão de jamais jogar a ‘nova Davis’, desembarcou no Rio neste sábado e foi incluído na equipe alemã que nos enfrentará entre sábado e domingo. O evento ganhou ar totalmente novo e atraente, porém nossas chances de vitória diminuíram pela metade.
  • O que pode estar atrás da decisão repentina de Zverev foi o vexame em Acapulco, sem falar é claro na amizade com Melo. A intenção do número 3 pode ser a de amenizar a imagem arranhada, ao menos perante seu público.
  • Rublev continua um tenista forte nos torneios medianos e levou o segundo troféu em semanas consecutivas, agora em Dubai. Acabou com a festa de Vesely depois que o canhoto tcheco tirou Cilic, Bautista, Djokovic e Shapovalov. E garante que está investindo muito na parte mental.
  • Enfim Swiatek venceu um torneio de peso na quadra dura, depois de tirar Sabalenka, Sakkari e Kontaveit. A jovem polonesa diz que a troca de técnico foi essencial para deixar seu tênis mais agressivo. “No começo, estava insegura com a proposta”, revelou.
  • Enquanto a ATP já confirmou a volta completa do circuito asiático pós-US Open, a WTA mostrou cautela maior e só divulgou calendário até setembro. Certamente, o caso Shuai Peng ainda coloca dúvida. É bom lembrar que o Finals feminino está previsto para voltar a Shenzhen, na China.