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Os nervos entre Serena e a história
Por José Nilton Dalcim
11 de julho de 2019 às 13:55

Serena Williams chegou um tanto desacreditada em Wimbledon. Sua apresentação em Roland Garros, tão fora de forma, se somou à ausência nos torneios preparatórios na grama. Para complicar, fez uma estreia enferrujada. Mas Serena é Serena, ainda mais na grama. Subiu de produção a cada jogo e deu um show na semifinal desta quinta-feira.

Coloca-se assim pela terceira vez em 12 meses na condição de alcançar o tão sonhado 24º troféu de Grand Slam, o que a igualaria à recordista amadora-profissional Margaret Court. Seu imenso retrospecto positivo sobre a adversária de sábado, a romena Simona Halep, que fará sua primeira final em Wimbledon, é o bastante para lhe dar todo o favoritismo: 9 vitórias em 10, sendo 5 consecutivas.

No entanto, isso não basta. Sua maior adversária será ela mesma. Serena também era ampla favorita sobre Angelique Kerber na final de Wimbledon de 2018, com 6-2 nos confrontos, e foi barrada pela qualidade defensiva da alemã. Chance ainda maior veio no US Open dois meses depois em cima da inexperiente e fã Naomi Osaka, e aí mostrou um destempero emocional chocante.

A exibição diante de Barbora Strycova resgatou aquela jogadora agressiva, tranquila e consciente de sua superioridade técnica. Disparou 27 winners diante de 8 da tcheca, a mais velha tenista a chegar a sua primeira semi de Slam na fase profissional. E com apenas 10 erros, tirou a marca de Martina Navratilova de 25 anos e agora é a mais velha a decidir um Slam, aos 37 anos e 291 dias.

Halep no entanto não é uma principiante em grandes decisões. E foi prazeroso ver como tomou a iniciativa para cima de Elina Svitolina, com uma aplicação tática ferrenha na busca constante pelas paralelas, algo nada fácil de se fazer numa quadra de grama e num jogo de tal importância. Deixou a ucraniana num papel que já vimos seu namorado Gael Monfils fazer tantas vezes, limitada às defesas excessivas.

A romena sabe que tem uma fraqueza, o segundo serviço, que sempre foi explorada por Serena. Assim, terá de se precaver disso e novamente investir nas paralelas e deixadinhas que funcionaram tão bem contra Svitolina. A tarefa é dura, mas jamais impossível.

Um olhar nas semis masculinas
Wimbledon verá nesta sexta-feira o mais velho quadro de semifinalista da Era Aberta: somam 134 anos, 23 a mais que a marca anterior, a de Roland Garros de 1968. Também é o segundo ano seguido que o torneio tem apenas ‘trintões’ na semi (a soma de 2018 foi de 128 anos).

Djokovic x Bautista
Sérvio lidera por 7 a 3, mas perdeu três dos cinco mais recentes, dois nesta temporada. Nos três que fizeram em melhor de cinco sets, Djoko venceu mas Bautista sempre tirou ao menos um set.

Com vitória em cinco de oito semis desde 2007, sérvio tenta sexta final no torneio, o que igualaria Borg, Connors e Laver, e sua 25ª em Slam.

Espanhol bate reto na bola sem afastar da linha de base, busca índice alto de primeiro saque e tem voleado com mais frequência nesta campanha. Atual 22º, pode ser tenista de mais baixo na final de Wimbledon desde Mark Philippoussis em 2003. A vitória vale lugar no top 10 como 9º colocado.

Nadal x Federer
Espanhol tem 24-15 no geral, 10-3 nos Slam mas 1-2 em Wimbledon. E venceu todas as quatro semis de Slam que disputaram. Os dois são os maiores vitoriosos da temporada, com 37.

Nadal encara o primeiro cabeça na campanha e tenta sexta final, o que também igualaria Borg, Connors e Laver. Em seis semis em Wimbledon, perdeu a primeira no ano passado para Djokovic.

Federer busca 31ª final de Slam e 12ª em Wimbledon. Aos 37 anos e 340, pode ser mais velho finalista de Slam desde Ken Rosewall, que tinha 39 anos e 310 no US Open de 1974. Mesmo tendo perdido dois sets, é o que menos gastou tempo na campanha. Em 12 semis em Wimbledon, só perdeu uma vez, em 2016.

O jogo é uma reedição da histórica final de 2008, uma das melhores partidas do tênis moderno. Hoje, Federer vai menos à rede e depende mais do primeiro saque, enquanto Nadal ficou muito mais agressivo com mudanças no backhand e no serviço.

E mais
– Se der a lógica, será a 22ª vez que o Big dominará uma final de Slam e a 7ª em Wimbledon.
– Esta pode ser a quinta final masculina de Slam totalmente espanhola.
– Dois tenistas de um mesmo país não decidem o torneio desde Sampras-Agassi de 1999.
– Nadal garante o número 2 se vencer. Federer precisará do título para recuperar a vice-liderança.
– Rodada de sexta abre às 9h, com Djoko x Bautista, e em seguida o ‘Fedal’.
– Bruno Soares se despediu das duplas mistas com derrota nas quartas de final ao lado de Nicole Melichar e o Brasil dá adeus a Wimbledon.
– Nota no TenisBrasil mostra os preços absurdos dos poucos ingressos que ainda existiam para as semifinais masculinas: veja aqui.

O grande desafio
Por José Nilton Dalcim
10 de julho de 2019 às 19:57

Roger Federer pode estar diante da maior façanha de sua carreira; Se quiser recuperar o troféu de Wimbledon e erguê-lo por uma impensável nona vez, terá muito provavelmente de derrotar Rafael Nadal e Novak Djokovic. E isso parece especialmente difícil porque tanto o espanhol como o sérvio jogaram até aqui um tênis superior ao do próprio suíço.

Adversário de sexta-feira, num reencontro que não acontecia na Quadra Central desde as três finais consecutivas de 2006 a 2008, Nadal está jogando um tênis tão exuberante que Federer o encheu de elogios. Reconheceu antes de tudo que o espanhol é um tenista muito superior ao de 11 anos atrás e que está longe de ser apenas um jogador de saibro.

Federer no entanto fez seus três melhores sets no torneio diante de Kei Nishikori. Surpreendido no começo por um tênis consistente do japonês, optou por bater mais o backhand e atacar as devoluções. A virada veio quase com naturalidade, ainda que ele tenha desperdiçado muitos break-points por vezes exagerando na força com que batia na bola. Fez um lance defensivo de incrível qualidade, cruzando a quadra de uma ponta à outra para obter a passada de backhand no contrapé a 150 km/h. Os voleios… bem, os voleios do suíço dispensam adjetivos.

O backhand batido e as devoluções agressivas serão chave diante de Nadal. O espanhol no entanto está sacando demais e contra Sam Querrey incluiu mais uma variação de sucesso, com muitos serviços sobre o corpo do grandalhão. Como se esperava, o norte-americano deu trabalho e endureceu o primeiro set, mas ficou difícil viver quase exclusivamente do primeiro saque e pouco a pouco foi dominado pelo espanhol. Voleios curtos, slices e passadas milimétricas complementaram outra atuação vistosa do número 2, com nada menos do que 42 winners.

Não resta dúvida de que o 40º capítulo do ‘Fedal’, e o segundo seguido de Grand Slam, tende a roubar todas as cenas da semifinal de sexta-feira, ainda mais porque parece haver pequeno favoritismo de um lado ou de outro. No entanto, Djokovic e Roberto Bautista também podem dar um belo espetáculo, principalmente se o espanhol se livrar com rapidez do nervosismo natural da inédita presença numa penúltima rodada de Slam e se lembrar das duas vitórias obtidas em 2019 sobre o número 1.

Finalista em cinco das últimas oito edições de Wimbledon, período em que ergueu seus quatro troféus, Djokovic levou um pequeno susto com o grande começo de partida de David Goffin. Solto, leve e determinado, o belga desceu o braço, apertou todos os serviços do sérvio até obter a quebra, abrir 4/3 e 30-0. Aí virou abóbora. Passou 10 games em quadra totalmente perdido,  incapaz de fazer frente ao jogo cada vez mais acelerado do líder do ranking. Djoko atropelou o finalista de Halle dando-se ao luxo de desacelerar no terceiro set.

Bautista joga diferente. Não força tanto o saque e procura sempre um percentual alto para manter o adversário sob pressão. Bate bem mais reto na bola, o que na grama funciona bem, e fica pertinho da linha na procura dos contragolpes. Tem surpreendido em Wimbledon com idas mais frequentes à rede, média superior a 20 por jogo. O duelo contra Guido Pella foi bem divertido, os dois muito empenhados o tempo todo, games longos e chances para os dois lados. Prevaleceu o oportunismo do espanhol, que converteu 4 de 16 break-points, salvando-se em 11 de 13 chances que cedeu.

Em que pese os resultados de Doha e de Miami – houve outra vitória do espanhol nos 10 confrontos, na veloz Xangai em 2016 -, o favoritismo é todo de Djokovic porque possuiu duas grandes habilidades essenciais sobre a grama: saque e devolução.

E mais
– É a 13ª vez que o Big 3 domina as semis de um Slam e a segunda seguida. Antes disso, só haviam se reunido em Roland Garros de 2012.
– Federer se torna primeiro homem na história com 100 vitórias num mesmo Slam e assume o recorde de mais vitórias sobre a grama da Era Aberta, com 186. É ainda o mais velho semi de Slam desde Connors no US Open de 1991, quando tinha 39 anos.
– Djoko iguala as 9 semis de Becker em Wimbledon e chega a 70 vitórias no torneio, que passa a ser seu Slam de maior sucesso (tem 69 no US Open ainda a ser disputado).
– Nadal soma agora 32 semis de Slam e assim o Big 3 pontua a lista (Federer tem 45 e Djoko, 36). Os três também são os únicos a ter pelo menos 50 vitórias em cada Slam.
– É a primeira vez na história de Wimbledon que dois espanhóis estão na semi.
– Bautista retornará a seu recorde pessoal do 13º posto. Se for à final, entrará no top 10.
– Magnífica vitória de Bruno Soares e Nicole Melichar (que jogou muito!) sobre Andy Murray e Serena Williams. Cabeças 1, eles avançaram para as quartas. O escocês sai de certa forma decepcionado com as poucas vitórias com Pierre Herbert e Serena.
– Semis femininas começam às 9h com Elina Svitolina diante de Simona Halep, seguindo-se Serena contra Barbora Strycova. A aposta lógica é Halep x Serena na final de sábado. Seria a primeira da romena no Club e a 11ª da heptacampeã.

Testes para Zverev e Osaka
Por José Nilton Dalcim
28 de maio de 2019 às 18:17

Alexander Zverev e Naomi Osaka são sem dúvida os jogadores da nova geração de maior sucesso, obtendo conquistas relevantes e atingindo posições nobres no ranking quando mal saíram da adolescência. Os dois também têm em comum o fato de não aceitar que o tênis seja a única prioridade de suas vidas, o que, como tudo na vida, tem o lado bom e o lado ruim.

Mas há uma diferença sintomática. Enquanto Osaka já tem dois troféus de Slam e lidera o ranking desde janeiro, Zverev ainda precisa mostrar resultados. Esperava-se que o notável título do Finals sobre Rgoer Federer e Novak Djokovic lhe tirasse a carga pesada dos ombros, mas o que temos visto em 2019 é um jogador perdido no plano tático, sem grande progresso técnico e com lacunas enormes de confiança, mesmo tendo atrás de si Ivan Lendl.

Naomi e Sascha tiveram estreias complicadas em Roland Garros. A japonesa levou um ‘pneu’ – ganhou 9 pontos no set – e ficou a dois lances de uma surpreendente eliminação diante da número 90 Anna Schmiedlova antes de enfim esquentar e fazer um terceiro set decente. Zverev não correu tanto risco de eliminação, mas logo de início sofre o desgaste de 4h08 de esforço, com direito a raquete arrebentada e 73 erros, dos quais 14 duplas faltas. Lembremos que no ano passado ele até chegou nas quartas de Paris, mas ficou sem pernas após três jogos seguidos no quinto set. Para sua sorte, vem agora o inexperiente sueco Mikael Ymer.

O saibro nunca foi o piso predileto de Osaka e a pressão maior sobre ela pode ser a defesa de uma liderança frequentemente ameaçada nas últimas semanas. Na próxima rodada, terá de mostrar serviço diante de Vika Azarenka num duelo que promete tirar o fôlego. A bielorrussa despachou Jelena Ostapenko em mais uma exibição incrivelmente irregular da campeã de 2017, com direito a 33 winers e 60 erros. Aliás, fez 17 duplas faltas, quase o total de todas as 19 falhas de Azarenka na partida. Dado curioso mostra que Ostapenko só ganhou sete partidas em cinco participações em Roland Garros, exatamente as sete do título. A vida da letã continua um tudo ou nada.

E mais
– Considerados coadjuvantes por conta do físico incerto, Juan Martin del Potro e Fabio Fognini perderam sets na estreia mas achei que jogaram bem na maior parte do tempo. Delpo tem tudo para economizar energia: agora vem Nishioka, depois Karlovic ou Thompson e quem sabe Khachanov ou Pouille. A trajetória do italiano promete mais dureza, com Delbonis, talvez Bautista e aí Zverev.
– E o exército francês aumentou para 13, somando-se Monfils, Pouille, Mannarino e três novatos (Hoang, Barrere e Benchetrit), mas duvido que a metade disso avance. Gael permanece como melhor aposta. O feminino ficou restrito a Garcia, Mladenovic e à garota Parry.
– Halep iniciou a defesa do título com altos e baixos, mas a tendência é que evolua. Com a saída de Kvitova, a vaga na semi ficou muito mais fácil.
– Monteiro poderia ter jogado melhor diante de Lajovic, ainda que o sérvio tenha mostrado uma boa diferença técnica. Faltou ‘punch’. Bruno e Jamie fizeram uma despedida melancólica, sinal que era mesmo hora de mudar. Melo e Kubot avançaram e Demoliner ainda vai estrear.

A quarta-feira
– Nadal e Federer jogam em estádios separados, com chance de se misturarem nos horários, mas pegam alemães sem curriculo. O melhor do dia pode ser Nishikori-Tsonga, Wawrinka-Garin ou Cilic-Dimitrov.
– Não acredito muito em Tsonga, acho Garin perigoso e gostaria de ver Dimitrov reagir, agora que contratou Stepanek para trabalhar junto a Agassi, repetindo o dueto dos tempos de Nole.
– Pliskova e Bertens tem amplo favoritismo e tomara que Svitolina e Muguruza confirmem para fazer o duelo direto de terceira rodada. Mladenovic-Martic pode dar grandes emoções, Stephens precisa entrar firme diante de Sorribes.