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O que será de Nole?
Por José Nilton Dalcim
4 de abril de 2018 às 23:40

Novak Djokovic está sem confiança, sem preparo físico ideal e agora sem qualquer treinador. De uma leva só, separou-se do midiático Andre Agassi e do recém aposentado Radek Stepanek, em mais uma reformulação geral do seu time. O momento no entanto parece o mais inadequado possível para tentar um voo solo, justamente às vésperas da temporada de saibro e da defesa de 1.500 dos 2.300 pontos que ainda o sustentam no 13º lugar do ranking.

Vale lembrar que Nole tentou uma mexida drástica no final de 2016. Seis meses antes, ele era o ‘rei do tênis’, tendo se tornado o primeiro homem desde Rod Laver a deter todos os quatro títulos de Grand Slam simultaneamente, ao faturar o tão sonhado troféu de Roland Garros. Numa verdadeira fase dourada, chegou à final de 10 dos 12 Slam que disputou, conquistando seis deles.

Inesperadamente, separou-se de Boris Becker, a quem havia contratado em 2014, e demitiu até mesmo o técnico que o acompanhava há uma década, Marian Vajda. Cinco meses depois, causou outra surpresa, ao anunciar Agassi como o novo treinador. Ainda que jamais tivesse orientado qualquer tenista nem mesmo juvenil, o norte-americano tinha um perfil aparentemente adequado ao momento, já que sofrera também forte estresse e conseguiu recuperar seu jogo, voltar aos títulos e à liderança do ranking.

O desempenho da parceria foi pífio, embora é claro seja preciso colocar na conta os seis meses em que Djoko se afastou para tentar a recuperação do cotovelo. Com Agassi, Nole disputou apenas seis torneios – pelo menos metade sem ter o norte-americano nas galerias -, somando 15 vitórias em 21 partidas. Logo de cara, foram até as quartas de Roland Garros, ganharam Eastbourne e atingiram as quartas de Wimbledon, o que parecia uma boa simbiose, considerando-se os já evidentes problemas físicos do sérvio.

Agassi sempre afirmou que não recebeu um centavo sequer para o trabalho, que o fazia por acreditar no potencial do pupilo e ‘contribuir com o tênis’. Nos bastidores, no entanto, já havia dúvida se ele estaria com o time em janeiro, quando Nole adiou seu retorno até o Australian Open e aí foi até as oitavas, voltando a sentir o cotovelo. Fez pequena cirurgia no punho e dois meses depois já treinava com Agassi em Las Vegas. Retornou em Indian Wells e tentou Miami, mas suas atuações foram um fracasso, tanto no aspecto técnico como principalmente no físico. Não faltaram críticas veladas a uma volta eventualmente precipitada.

O anúncio oficial da separação simultânea dos dois treinadores, feito nesta quarta-feira de forma oficial em seu site, deixa claro o clima pesado. Começa por informar a saída de Stepanek, com elogios, e termina com uma única frase sobre Agassi, apenas para registrar sua saída. Mais do que evidente que houve uma ruptura desconfortável, que o norte-americano definira dias antes ao New York Times como “concordamos em discordar”.

Inscrito para Monte Carlo, Djokovic ao menos ainda gozará da condição de cabeça 8, entrará diretamente na segunda rodada e pode dar sorte, escapando de um dos top 60 que participam do forte Masters de piso muito lento. Ou seja, tomara que pegue um convidado ou um qualificado. Tudo que precisa no momento é ganhar uma partida, sentir-se à vontade, tirar a pressão.

Mas não há otimismo, nem mesmo na imprensa sérvia. O que mais se lê entre os analistas europeus é que Djokovic está numa encruzilhada, bem perto de completar 31 anos e sem rumo definido. Ninguém espera que ele anuncie uma nova equipe antes de Roland Garros, o último lugar onde mostrou seu tênis mágico, duas temporadas atrás. Parece um passado distante.

Dolorosa, mas sábia decisão
Por José Nilton Dalcim
26 de julho de 2017 às 22:46

Não chegou a ser uma surpresa, mas ainda assim é uma decepção enorme sabermos que o restante da temporada 2017 não terá Novak Djokovic. Algo idêntico ao que aconteceu a Roger Federer no ano passado.

Fica mais doloroso isso ocorrer justamente no período em que o sérvio habitualmente se dá tão bem. A partir de Montréal e até Londres, será a maior e mais importante sequência do circuito sobre quadras sintéticas.

Nessa fase do calendário, Djoko tem quatro troféus no Canadá, dois no US Open, nove na China, quatro em Paris e cinco no Finals. Tremendo currículo, sem contar as finais disputadas.

Parece consenso que o cotovelo não é seu único problema, mas tudo indica que possa ser um dos mais relevantes. Há aquela boataria interminável sobre crise conjugal, que culminou na contratação do polêmico guru Pepe Imaz.

O que afinal acontece com o cotovelo direito de Djokovic? Segundo suas próprias palavras, é uma dor que o acompanha por 18 meses. Os especialistas já apontavam que a mudança no movimento do saque, introduzida por Boris Becker, seria a grande responsável.

Quem observar atentamente, vai ver que Nole inicia o movimento que vai dar a laçada e acelerar o saque com a cabeça da raquete muito baixa e próxima ao lado direito do corpo. Isso exigiria mais trabalho do cotovelo no intuito de se acelerar a cabeça da raquete e assim obter um golpe potente.

Claro que o cotovelo avariado afetará diversos outros golpes, especialmente forehand e voleios. Imagino o sofrimento de Djokovic nessa curta temporada de grama, um piso que leva qualquer tenista a errar com frequência o centro das cordas e dar as famosas ‘madeiradas’. Se dói com o braço bom, o que dirá com o cotovelo ruim.

Diante desse quadro, a parada é mesmo a saída recomendada. Porque nesse tipo de lesão não basta apenas tratar e curar, mas é essencial identificar a origem do problema e sanar. Se for mesmo o saque, isso exigirá nova mudança no movimento. Portanto, serão dois processos: o tratamento clínico e a correção do erro. Caso contrário, a contusão voltará na certa, e cada vez pior.

Então, o que Djokovic precisa no momento é de tempo e de paciência. Seis meses de afastamento são uma tortura para um atleta profissional, mas Roger Federer, Rafael Nadal e Serena Williams mostraram que é possível para um tenista tão diferenciado como Nole retomar a carreira no mais alto nível.

Em tempo: muitos já me perguntaram se Djokovic pode pedir ‘ranking protegido’. Mas isso é totalmente desnecessário, como foi no caso de Federer. O pior que pode acontecer é o sérvio cair para o 15º lugar e isso garantirá com tranquilidade sua entrada em qualquer grande torneio até março. Vale lembrar que o ‘ranking protegido’ – quando se calcula a média do ranking do requerente nos três primeiros meses após a parada – serve apenas para o tenista contundido garantir a inscrição na sua volta (por 9 torneios ou 9 meses). O ‘RP’ não pode ser usado para determinar cabeças de chave.

O fator Agassi
Por José Nilton Dalcim
24 de maio de 2017 às 19:24

Novak Djokovic está de novo no centro das atenções. Evoluiu em Roma com boas exibições e anunciou um treinador estelar mas inexperiente às vésperas de defender seu título em Roland Garros. Qual a chance de a opção por Andre Agassi dar certo? Avaliemos prós e contras.

Antes de qualquer coisa, precisamos nos fixar nas próprias palavras de Djokovic quando anunciou o acerto com Agassi. Ele deixou claro que o encontro em Paris será muito mais para melhorar o conhecimento entre eles e que Agassi sequer planeja ficar o tempo inteiro em Roland Garros.

Outro ponto essencial é quando Nole diz que não existe ainda um acordo de longa duração, o que combina com informações que foram veiculadas anteriormente dizendo que o norte-americano só iria acompanhar o sérvio em um pequeno número de semanas, talvez limitado aos principais torneios. Certamente a presença de Agassi em toda a temporada de quadra dura pós-Wimbledon e até o US Open é mais do que garantida.

Djokovic diz que a opção pelo dono de oito Grand Slam tem muito a ver com seu respeito pelo norte-americano como tenista e como pessoa, o que inclui o valor que Agassi dá à família.  “Ele poderá contribuir tanto na quadra como na minha vida”, afirma. Aí automaticamente vem outra dúvida: se o guru Pepe Imaz está no time justamente para cuidar do espírito, não há um certo risco de conflito com o novo treinador? Nunca é demais lembrar que Agassi teve sérios conflitos familiares e excluiu o pai de seu convívio, enquanto Djokovic preserva a família acima de tudo.

Ao mesmo tempo, a trajetória de Agassi no circuito é um ponto favorável, uma autêntica inspiração. O norte-americano deixou os problemas pessoais interferirem gravemente em sua carreira, desabou para perto do 150 posto e era dado como acabado quando remontou de forma espetacular e atingiu novamente o número 1 do mundo aos 33 anos, um recorde que permanece até hoje.

Irá pesar o fato de Agassi jamais ter treinado qualquer tenista? Bom, Boris Becker também não tinha e fez um belo trabalho com Djokovic, não apenas desenvolvendo elementos cruciais, como o saque e o jogo de rede, mas também dando aquele implemento emocional que levou Djoko ao status de imbatível, bem ao estilo Becker. Todo mundo sabe que Agassi também possuía uma personalidade forte e foi um ganhador nas quadras.

Exceção feita a algumas exibições e entrega de troféus, Agassi tem estado fora do circuito do tênis desde sua retirada, em 2006. São dez anos. Mas é bem possível que tenha acompanhado partidas e torneios. Ao menos nunca se refutou em dar entrevistas, comparar jogadores ou eleger seus favoritos. Entre os quais, aliás, sempre destacou Djokovic.

Tecnica e taticamente, todos sabemos que há uma certa semelhança entre eles. Gostam de jogar plantados perto da linha, tentando pegar a bola sempre na subida. Buscam assim ditar o ritmo e trocar de direção antes do adversário. A devolução sempre foi o ponto forte de ambos, mas o pupilo saca, se mexe, dá slice e voleia melhor do que o mestre fez.

Então parece que a missão primordial de Agassi será fazer Djokovic acreditar novamente no seu potencial. Se fizer isso, o salário merecerá ser dobrado.