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Teste de fogo para Nadal em Madri
Por José Nilton Dalcim
29 de abril de 2022 às 18:17

O retorno de Rafael Nadal ao circuito e sua primeira apresentação sobre o sempre importante saibro europeu promete ser uma autêntica provação. Sem competir em Miami, Monte Carlo e Barcelona devido à fratura por estresse, o líder da temporada só deverá ter adversários difíceis e competentes na terra batida veloz de Madri, onde pegar ritmo nunca é coisa muito simples.

O garotão sérvio Miomir Kecmanovic, que quase derrubou Novak Djokovic há uma semana e está voando agora no Estoril, tem tudo para ser o primeiro obstáculo, embora seu adversário de estreia seja o imprevisível Alexander Bublik. A lógica diz que Pablo Carreño seja a barreira de oitavas, mas nem se pode descartar Botic van de Zandschulp e Aslan Karatsev em condições rápidas.

Se for até as quartas e aí provavelmente já muito mais confiante, Rafa poderá então reencontrar o fenômeno atual Carlos Alcaraz, forte candidato num quadrante onde estão Fabio Fognini, Cameron Norrie e John Isner. No ano passado, Nadal atropelou Alcaraz logo na segunda rodada de Madri, cedendo três games.

O fortíssimo lado superior da chave tem, é claro, Djokovic e portanto estamos diante da primeira oportunidade de revermos o épico confronto entre ele e Nadal, que não ocorre desde a semi de Roland Garros de 10 meses atrás. No entanto, existem também dúvidas sobre Nole, principalmente porque ele próprio admitiu que está com queda física após esforço longo. Se existe algo que mexe com a confiança, é a resistência.

Por sorte, o ‘freguês’ Gael Monfils deve ser seu primeiro adversário e daí viriam Denis Shapovalov, que ainda não jogou no saibro, ou quem passar do inusitado duelo de primeira rodada entre Andy Murray e Dominic Thiem. O britânico aparece de surpresa na fase de terra depois de jurar que só pensava na grama e o austríaco perdeu os três jogos que fez desde a volta no final de março.

A oportunidade me parece tão animadora para Djokovic que o adversário mais cotado nas quartas é Casper Ruud, a grande decepção do saibro até agora. Para reagir, o norueguês espera Roberto Bautista ou Borna Coric na estreia e eventualmente Hubert Hurkacz ou Alejandro Fokina nas oitavas. Se o reencontro contra o número 1 realmente vier, Ruud terá a terceira chance para ganhar ao menos um set.

O lado inferior da chave ficará em evidente segundo plano. O atual campeão Alexander Zverev não está jogando nada e assim corre risco a qualquer rodada, mesmo que as condições de Madri colaborem com os grandes sacadores. Curioso para ver a primeira apresentação de Jannik Sinner no saibro. O italiano pode ter de brigar com Felix Aliassime ou Frances Tiafoe nas oitavas. O outro quadrante ficou com dois campeões bem recentes, Stefanos Tsitsipas e Andrey Rublev. O grego tem Diego Schwartzman no caminho e o russo, Taylor Fritz.

À exceção do debilitado e duas vezes vencedor Roger Federer, todos os campeões de Madri desde 2009, quando houve a mudança para o saibro da Caixa Mágica, participam desta edição. Nadal ganhou quatro, Djokovic faturou três, Zverev levou dois e Murray ergueu um troféu.

Triste momento para Boom-Boom Becker
Envolvido em sérios problemas financeiros por empréstimos contraídos, Boris Becker foi condenado à prisão nesta sexta-feira pela justiça britânica, que o considerou culpado por cometer fraudes com o objetivo de esconder patrimônio e assim evitar o pagamento de dívida de 3 milhões de libras esterlinas. Metade da pena de dois anos e meio terá de ser cumprida em regime fechado. Desalentador.

Becker é uma sumidade no mundo do tênis, surgido repentinamente aos 17 anos e dono de saque tão poderoso para a época que ganhou apelido de Boom-Boom. Para mim, aliás, está na lista dos três melhores voleios que já vi. Tricampeão de Wimbledon e dono de seis Slam, foi também número 1 do mundo, campeão da Copa Davis, medalha de ouro olímpica e maior ídolo do esporte alemão. Entre 2014 e 2016, treinou Djokovic com grande sucesso e levou o sérvio a mais outros seis Slam. Comentarista respeitado no Eurosport, esteve cotado para trabalhar com Zverev e Sinner. Está com 54 anos.

Começa o Finals para Djokovic
Por José Nilton Dalcim
19 de novembro de 2021 às 20:40

Com apenas 16 games perdidos em três jogos – oito deles nas duas últimas rodadas – Novak Djokovic fez um aquecimento perfeito para o verdadeiro ATP Finals que fará a partir de agora. Neste sábado, reencontra Alexander Zverev e o vencedor terá grande chance de decidir o título no domingo contra Daniil Medvedev, franco favorito diante de Casper Ruud.

Sascha venceu apenas três dos 10 duelos contra Nole, mas duas vitórias foram muito especiais: a do título no Finals de 2018 e a semi olímpica de três meses atrás. Nesta temporada, Djokovic ganhou os outros três confrontos, na ATP Cup, no Australian Open e no US Open, jogos também de peso. Então promete ser o grande momento de Turim, um piso veloz que agrada a ambos. Embora seja mais limitado no plano técnico-tático, o saque é um aliado poderoso do alemão.

Tanto Zverev como Medvedev tiveram de correr muito mais atrás da bola nesta semana. O alemão até foi ajudado fisicamente pelo abandono de Matteo Berrettini, porém já disputou três tiebreaks e viveu maratona diante do próprio russo. E Medvedev ainda suou muito para derrotar o garotão Jannik Sinner, com direito a salvar match-points, e assim garantir sua oitava vitória no Finals consecutiva.

Ruud se classificou no último segundo, virada e tiebreak decisivo apertado contra Andrey Rublev, seu oitavo set disputado na semana. Numa superfície pouco adequada, não deixa de ser uma campanha notável do norueguês. Perdeu os dois jogos para Medvedev sem tirar set, um deles na grama, mas levou o russo a placares duros e portanto pode jogar relaxado, o que sempre é um perigo.

Números de peso
Djokovic busca o hexa tal qual Federer e portanto tem os mesmos cinco títulos de Ivan Lendl e de Pete Sampras, com conquistas em 2008 e depois quatro sucessivas entre 2012 e 2015, o que é um feito único desde que o Finals (ex-Masters) surgiu, lá em 1970.

Se chegar a sua oitava final, iguala Boris Becker e fica ainda atrás de Lendl (9) e Federer (10). O sérvio assumiu já o segundo posto em vitórias, com 41, duas acima de Lendl mas bem distante das 59 do suíço.

Curiosamente, o Finals tem visto diferentes campeões desde 2016, com Andy Murray, numa sequência que viu depois Grigor Dimitrov, Alexander Zverev, Stefanos Tsitsipas e Medvedev. Portanto, apenas a ‘zebra’ Ruud poderia manter esse inusitado padrão.

Pavic garante número 1 de duplas
Apenas dois dos oito semifinalistas de duplas têm menos de 30 anos. Com a classificação difícil, Mate Pavic garante o número 1 de final de temporada, já que o único que poderia alcançá-lo é exatamente seu parceiro Nikola Mektic. Enfrentam Rajeev Ram e Joe Salisbury. A outra semi terá Pierre Herbet/Nicolas Mahut contra Marcel Granollers/Horacio Zeballos.

Quatro jogadores concorrem para o segundo título, algo que é um tanto raro na história do Finals: Mektic (2020), Herbert e Mahut (2019) e Granollers (2012). Apenas 17 duplistas e 7 parcerias conseguiram ao menos dois troféus no torneio em 45 edições realizadas, já que a chave de duplas não foi disputada por cinco vezes desde 1970.

Federer chega aos 40 sem certeza do futuro
Por José Nilton Dalcim
8 de agosto de 2021 às 17:33

O domingo é de festa para Roger Federer. O mágico suíço completa 40 anos, um marco para qualquer atleta que ainda sonhe em se manter competitivo em qualquer modalidade. Mas só há incertezas sobre o futuro de Federer nas quadras. Com poucos jogos feitos nos últimos meses, quando enfim voltou a competir, ele anunciou desistência dos Masters de Toronto e Cincinnati, completando assim 22 meses sem competir nesse tipo de torneio. Ainda há futuro na sua magnífica carreira?

A estatística não é lá muito favorável. Desde 1981, apenas dois profissionais conseguiram vencer jogos depois de fazer 40 anos: Jimmy Connors ganhou oito partidas, somente uma delas de Slam (curiosamente sobre Jaime Oncins) e ganhou o último jogo em ATP aos 42 e 296 dias. Pouco antes, aos 41 e 241 dias, fez semi em São Francisco. Em Slam, realizou uma campanha memorável no US Open de 1991, aos 39 anos, quando chegou na penúltima rodada.

O outro é Ivo Karlovic, que ainda está em atividade, apesar de estar fora do top 200. Um mês depois de completar 40 anos, foi às oitavas de Indian Wells-2019. Poucas semanas atrás, aos 42 e 139 dias, passou uma rodada em Newport, que foi sua nona vitória em nível ATP como ‘quarentão’, três delas em Slam.

Claro que Federer é um fora de série. Chegou nas semis do Australian Open no ano passado aos 38 anos e cinco meses e ficou muito perto de quebrar a marca de Ken Rosewall em Wimbledon de 2019. O australiano ainda é o mais velho a ganhar um Slam, aos 37 e um mês, no Australian Open de 1972. Rosewall ainda atingiu semi da Austrália em 1977, aos 42 anos, outra marca que se mantém absoluta.

O problema é que Federer não é do tipo que pretende se manter no circuito para superar façanhas de longevidade. Ele quer sucesso mas, com duas cirurgias em cada joelho e um tênis mais físico do que nunca, é difícil imaginar que consiga plenitude muscular para superar sete rodadas em melhor de cinco sets.

De qualquer forma, Federer merece todos os parabéns, não apenas pelo aniversário como por sua resiliência e amor ao esporte, que o fazem ainda tentar voltar aos bons tempos.

Da rebeldia ao sonho realizado
O tênis sempre foi uma grande paixão para o pai Robert, que conta estar jogando um torneio de duplas no clube quando o segundo filho do casal nasceu a 8 de agosto de 1981. Aos 11 meses, o pequeno Roger já segurava uma bola de tênis aos três anos e meio de idade já empunhou uma raquete dentro de uma quadra. Era fanático em golpear a bola contra as paredes da casa, os armários ou o portão da garagem.

Robert lembra que o pequeno Roger não gostava de obedecer ordens, muito menos receber dicas na quadra. Seu primeiro ídolo foi Boris Becker, a quem viu vencer o primeiro Wimbledon aos quatro anos e ficou muito triste quando o alemão perdia jogos para Stefan Edberg, sueco que mais tarde acabaria treinador e grande amigo de Federer.

O temperamento forte do garoto trazia problemas à família. Ele faltava a treinamentos e levava a escola pouco a sério, estudando o mínimo para passar de série. Por fim, aos oito anos, passou a treinar no clube da Basileia, onde Marco Chiudinelli virou amigo inseparável. O primeiro professor foi Adolf Kacosky, que logo percebeu o grande talento do aluno, mas o menino continuava difícil de tratar e por algumas vezes foi mandado para casa. Adorava futebol, mas praticou também basquete e badminton.

Aos 11 anos, disputou seu primeiro torneio infantil e conheceu Severin Luthi, cinco anos mais velho. Mais importante ainda, o treinador australiano Peter Carter passou a trabalhar com o tênis suíço e se tornou o divisor de águas. “Ele aprendia muito rápido, principalmente vendo Becker ou Sampras”, revelou Carter antes do acidente automobilístico que o matou em 2002 e causou profundas cicatrizes em Federer.

A decisão de se dedicar totalmente ao tênis veio enfim aos 13 anos, quando aceitou integrar a equipe do centro nacional em Ecublens, separando-se da família. Federer lembra que foi um dos piores momentos de sua vida, ainda mais porque não sabia falar francês, e quase desistiu de seguir.

O sucesso juvenil viria em 1998, com o título em Wimbledon e do Orange Bowl e a final do US Open. Pouco depois, apareceu no top 100 do ranking profissional. O ano de 2001 seria por fim marcante, com o primeiro título de ATP em Milão, as quartas em Roland Garros e a histórica vitória sobre o ídolo Sampras em Wimbledon.

Havia muita pressão sobre quando viria seu primeiro troféu de Slam e por fim aconteceu também em Wimbledon de 2003, o que tiraria um peso das costas e o levaria a iniciar um longo e espetacular reinado. Ganhou o Finals daquele ano sobre Andre Agassi, faturou o Australian Open e chegou enfim ao número 1, cumprindo a meta que estabeleceu lá nos seus oito anos de idade.