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Federer chega aos 40 sem certeza do futuro
Por José Nilton Dalcim
8 de agosto de 2021 às 17:33

O domingo é de festa para Roger Federer. O mágico suíço completa 40 anos, um marco para qualquer atleta que ainda sonhe em se manter competitivo em qualquer modalidade. Mas só há incertezas sobre o futuro de Federer nas quadras. Com poucos jogos feitos nos últimos meses, quando enfim voltou a competir, ele anunciou desistência dos Masters de Toronto e Cincinnati, completando assim 22 meses sem competir nesse tipo de torneio. Ainda há futuro na sua magnífica carreira?

A estatística não é lá muito favorável. Desde 1981, apenas dois profissionais conseguiram vencer jogos depois de fazer 40 anos: Jimmy Connors ganhou oito partidas, somente uma delas de Slam (curiosamente sobre Jaime Oncins) e ganhou o último jogo em ATP aos 42 e 296 dias. Pouco antes, aos 41 e 241 dias, fez semi em São Francisco. Em Slam, realizou uma campanha memorável no US Open de 1991, aos 39 anos, quando chegou na penúltima rodada.

O outro é Ivo Karlovic, que ainda está em atividade, apesar de estar fora do top 200. Um mês depois de completar 40 anos, foi às oitavas de Indian Wells-2019. Poucas semanas atrás, aos 42 e 139 dias, passou uma rodada em Newport, que foi sua nona vitória em nível ATP como ‘quarentão’, três delas em Slam.

Claro que Federer é um fora de série. Chegou nas semis do Australian Open no ano passado aos 38 anos e cinco meses e ficou muito perto de quebrar a marca de Ken Rosewall em Wimbledon de 2019. O australiano ainda é o mais velho a ganhar um Slam, aos 37 e um mês, no Australian Open de 1972. Rosewall ainda atingiu semi da Austrália em 1977, aos 42 anos, outra marca que se mantém absoluta.

O problema é que Federer não é do tipo que pretende se manter no circuito para superar façanhas de longevidade. Ele quer sucesso mas, com duas cirurgias em cada joelho e um tênis mais físico do que nunca, é difícil imaginar que consiga plenitude muscular para superar sete rodadas em melhor de cinco sets.

De qualquer forma, Federer merece todos os parabéns, não apenas pelo aniversário como por sua resiliência e amor ao esporte, que o fazem ainda tentar voltar aos bons tempos.

Da rebeldia ao sonho realizado
O tênis sempre foi uma grande paixão para o pai Robert, que conta estar jogando um torneio de duplas no clube quando o segundo filho do casal nasceu a 8 de agosto de 1981. Aos 11 meses, o pequeno Roger já segurava uma bola de tênis aos três anos e meio de idade já empunhou uma raquete dentro de uma quadra. Era fanático em golpear a bola contra as paredes da casa, os armários ou o portão da garagem.

Robert lembra que o pequeno Roger não gostava de obedecer ordens, muito menos receber dicas na quadra. Seu primeiro ídolo foi Boris Becker, a quem viu vencer o primeiro Wimbledon aos quatro anos e ficou muito triste quando o alemão perdia jogos para Stefan Edberg, sueco que mais tarde acabaria treinador e grande amigo de Federer.

O temperamento forte do garoto trazia problemas à família. Ele faltava a treinamentos e levava a escola pouco a sério, estudando o mínimo para passar de série. Por fim, aos oito anos, passou a treinar no clube da Basileia, onde Marco Chiudinelli virou amigo inseparável. O primeiro professor foi Adolf Kacosky, que logo percebeu o grande talento do aluno, mas o menino continuava difícil de tratar e por algumas vezes foi mandado para casa. Adorava futebol, mas praticou também basquete e badminton.

Aos 11 anos, disputou seu primeiro torneio infantil e conheceu Severin Luthi, cinco anos mais velho. Mais importante ainda, o treinador australiano Peter Carter passou a trabalhar com o tênis suíço e se tornou o divisor de águas. “Ele aprendia muito rápido, principalmente vendo Becker ou Sampras”, revelou Carter antes do acidente automobilístico que o matou em 2002 e causou profundas cicatrizes em Federer.

A decisão de se dedicar totalmente ao tênis veio enfim aos 13 anos, quando aceitou integrar a equipe do centro nacional em Ecublens, separando-se da família. Federer lembra que foi um dos piores momentos de sua vida, ainda mais porque não sabia falar francês, e quase desistiu de seguir.

O sucesso juvenil viria em 1998, com o título em Wimbledon e do Orange Bowl e a final do US Open. Pouco depois, apareceu no top 100 do ranking profissional. O ano de 2001 seria por fim marcante, com o primeiro título de ATP em Milão, as quartas em Roland Garros e a histórica vitória sobre o ídolo Sampras em Wimbledon.

Havia muita pressão sobre quando viria seu primeiro troféu de Slam e por fim aconteceu também em Wimbledon de 2003, o que tiraria um peso das costas e o levaria a iniciar um longo e espetacular reinado. Ganhou o Finals daquele ano sobre Andre Agassi, faturou o Australian Open e chegou enfim ao número 1, cumprindo a meta que estabeleceu lá nos seus oito anos de idade.

A um passo da eternidade
Por José Nilton Dalcim
9 de julho de 2021 às 18:55

Novak Djokovic cumpriu todos os prognósticos, ganhou 18 sets consecutivos, mostrou o melhor tênis de todos os outros 127 participantes e está agora a um passo de igualar os 20 troféus de Grand Slam de seus mais diretos adversários, mas com vantagens numéricas e estatísticas que o colocarão acima de Roger Federer e Rafael Nadal caso derrote o estreante finalista Matteo Berrettini e conquiste seu sexto Wimbledon neste domingo.

Nole tem a oportunidade de ganhar os três primeiros Grand Slam de uma mesma temporada, algo que só Rod Laver fez na Era Profissional, mas diferentemente do excepcional australiano ele tentará tal feito em três pisos distintos. Desde 1968, apenas Rafa conseguiu ganhar três Slam sequenciais em superfíceis diversas, mas sua façanha de 2010 foi em ordem diferente (Paris, Londres e Nova York). o que não abriu caminho para ‘fechar o Grand Slam’.

Mais uma vez, Djokovic declara que Wimbledon é o maior troféu que se pode sonhar no tênis. E ele está perto de somar seis conquistas na legendária Quadra Central no curto espaço de 10 anos, tornando-se o digno sucessor de Federer e Pete Sampras como ‘rei da grama’. Aliás, o piso natural do tênis passou a ser o de maior sucesso do sérvio em termos percentuais: 101 vitórias em 119 jogos, ou seja, 84,9%, ligeiramente acima dos 84,3% da quadra dura e dos 80,4% do saibro. Apenas ele, Federer e Andy Murray passaram de uma centena de vitórias na grama.

A vitória sobre o canhoto Denis Shapovalov desta sexta-feira provou o quanto a experiência faz diferença em Wimbledon e reforçou o poder mental tão diferenciado de Djokovic, salvando break-points cruciais e aproveitando as chances na hora certa. O canadense jogou bem, mas falhou sempre nos momentos decisivos de cada set, principalmente é claro quando sacou para fechar a série inicial e cometeu erros imperdoáveis diante do número 1 do mundo. Perdeu o tiebreak e o segundo set com dupla falta.

O sérvio também fez mais aces, ganhou mais pontos com o primeiro saque, errou infinitamente menos (15 em  37 games!) e praticou o clássico saque-voleio com perfeição, enquanto o jovem adversário forçou muito, mas ficou preso demais na base, com 36 falhas e 40 winners. Foi sua primeira semifinal e é bem possível que se candidate a aventuras ainda maiores na grama quando amadurecer o necessário.

Com seis semis vencidas desde 2013 – desde então, só não chegou lá em 2016 e 2017 -, esta será a sétima decisão de Djokovic no Club, igualando Sampras e Boris Becker, e a 30ª de Slam, o que o deixa apenas uma atrás do recordista Federer. Desde que ergueu o troféu de Wimbledon em 2018, Nole só deixou de estar numa final de Slam por três vezes.

Berrettini aumenta festa italiana
O grande momento do tênis masculino italiano merecia mesmo sua primeira final de Grand Slam em 45 anos. Mais especial ainda, a primeira no templo sagrado do tênis em todos os tempos. E, como todo mundo sabe, ainda no mesmo domingo em que a Azzurra disputará a final da Eurocopa a poucos quilômetros dali, no final do dia.

A vitória desta sexta-feira sobre a surpresa Hubert Hurkacz, que vinha de vitórias sobre Daniil Medvedev e Federer, seguiu o script imaginado, apesar de o polonês ter vivido altos e baixos mais intensos. A partir do 3/3 do primeiro set, perdeu 10 games seguidos. Não se conformou, continuou brigando e enfim fez um set num padrão elevado e viu um raro momento infeliz do adversário com o saque ao longo do tiebreak. Mas a quebra logo de cara no quarto set criou pressão grande e ele só tirou cinco pontos de Berrettini no serviço italiano. A estatística mostra a diferença: 60 a 27 nos winners, com 22 a 5 nos aces, e nenhum break-point de Hurkacz.

Com 1,96m, Berrettini se encaixou mesmo na grama. São 11 vitórias seguidas, incluindo a conquista no Queen’s Club, e os números divulgados pela ATP são notáveis: nesse sequência, fez 169 aces (101 em Wimbledon), ganhou 83,5% dos pontos quando acertou o primeiro saque (82%) e 58,5% com o segundo serviço (61%). Nestas duas semanas, manteve 95 de 100 games de serviço (95%), apenas um pouco pior do que em Queen’s (56 de 58, com 97%) e salvou 22 de 27 break-points (81%), depois de ter evitado 10 de 12 (83%) há quatro semanas.

Como se pode ver claramente, sua maior arma tem sido o saque, o que também permite usar o pesadíssimo forehand de qualquer ponto da quadra, já que costuma fugir muito para o lado esquerdo. Ele sabe que o backhand é o ponto frágil e onde todo adversário vai tentar desestabilizá-lo, mas a defesa com slice na grama tem muito mais eficiência do que em qualquer outro piso e geralmente traz um problema para quem está do outro lado.

Nos dois duelos que fez contra Djokovic, perdeu. O primeiro veio no Finals de 2019 e levou uma aula, mas há dois meses em Roland Garros conseguiu até tirar um tiebreak do sérvio e caiu no quarto set por 7/5. Dos cinco títulos que tem na carreira, dois foram na grama. Nesta temporada, ganhou Belgrado e Queen’s e foi à final de Madri, onde levou virada de Alexander Zverev. Com justiça, já garantiu volta ao 8º lugar do ranking e passa a ser  o 3º mais bem pontuado da temporada.

Força contra jeito
A final feminina de Wimbledon também é muito especial, porque envolve duas tenistas que têm estilos diferentes porém ambos muito eficientes para as quadras de grama. Enquanto Ashleigh Barty aposta nas trocas de efeito e velocidade, com slice perigoso e boa mão para os voleios, Karolina Pliskova aposta na força do saque e de seu excelente forehand que gera golpes retos e quique baixo.

Obviamente, ganhar Wimbledon é um sonho enorme para ambas, mas arriscaria a dizer que existe mais pressão sobre Pliskova que, aos 29 anos, vê uma rara chance de enfim conquistar seu primeiro Slam. Quatro anos mais jovem, Barty se vira bem nos variados pisos e ainda tem várias temporadas à frente para aumentar seus números.

Além disso, a australiana costuma mostrar mais firmeza emocional do que a adversária, ainda que Pliskova tenha anotado uma virada excepcional na semi contra Aryna Sabalenka e deve ter se enchido de confiança. Promessa de um grande jogo.

Os Slam mais inusitados da Era Profissional
Por José Nilton Dalcim
13 de julho de 2020 às 20:23

Enquanto a quarentena prossegue para o circuito internacional, atendi a mais uma sugestão dos internautas e escolhi os cinco Grand Slam que me parecem ter tido os resultados gerais mais inusitados da Era Profissional. Não foi apenas uma questão do vencedor ou mesmo da final, mas da sucessão de surpresas que permeou as duas semanas. É uma lista interessante.

Wimbledon 1996
A queda de quatro dos oito principais cabeças de chave na primeira rodada, entre eles Agassi, já seria o suficiente para atestar a loucura que foram estas duas semanas. Grandes sacadores como Edberg, Becker, Rosset nem chegaram nas oitavas, rodada que viu as quedas de Stich e Pioline.

Todo mundo esperava o duelo de Sampras e Ivanisevic na semi, mas o primeiro caiu para Richard Krajicek – que havia acabado de tirar Stich – e o outro parou em Jason Stoltenberg. Parecia ser a grande chance de Henman, mas ele tropeçou nas quartas diante de Todd Martin.

Se Krajicek entrou como cabeça 16 e possuía um saque espetacular, MaliVai Washington era um considerável desconhecido, que escapou por pouco nas quartas diante de Radulescu e virou jogo incrível diante de Martin. A final foi um tanto sem graça, mas será muito tempo lembrada pela moça totalmente nua que invadiu a quadra quando os tenistas postavam para fotos antes de se aquecer.

Roland Garros 1997
Apenas dois dos 16 cabeças chegaram nas quartas, numa edição que viu incríveis derrotas de boa parte da fortíssima armada espanhola antes mesmo da terceira rodada (Moyá, Mantilla, Costa, Berasategui). Dos oito principais cabeças, Sampras e Muster pararam na terceira fase; Chang, Ríos e Corretja, nas oitavas.

O cabeludo garoto de 20 anos com seu poderoso backhand de uma mão desbancou nada menos que Muster e Kafelnikov, cravando três vitórias seguidas no quinto set. Deveria ter feito o primeiro grande duelo contra Norman, mas o sueco parou num também surpreendente Dewulf, que quase foi parado por Meligeni na segunda rodada e depois tirou Portas e Corretja.

O bicampeão Bruguera venceu Chang e deveria ter feito um duelo interessantíssimo contra Ríos não fosse o habilidoso Arazi tirar o cabeça 7. O espanhol tinha é claro favoritismo diante do tal Kuerten. Que nada. Guga, 66º do ranking, varreu o espanhol com apenas nove games perdidos na final, iniciando sua imortalização em Paris.

Roland Garros 1976
Quando Borg, Vilas e Orantes atingiram as quartas de Paris, era difícil imaginar que o título não ficaria entre um deles. Mas o que Roland Garros viu foram dois norte-americanos – Solomon e Dibbs – e um mexicano, Ramirez, avançarem à penúltima rodada ao lado do italiano Adriano Panatta, que acabava de se tornar o único homem em oito anos a derrotar Borg.

Curiosamente, o mais cotado dos americanos era Ashe, então 4º do mundo, que fez 2 a 0 antes de cair para Taroczy nas oitavas. Panatta quase parou logo na estreia, mas se safou do desconhecido Hutka com 12/10 no quinto set, e muita de sua inesperada vitória sobre Borg se deveu à duríssima partida de oitavas do sueco contra Jauffret.

Panatta venceu na final Solomon, um jogador mediano que só faria uma outra semi de Slam na carreira. O italiano foi ainda pior, com uma quartas em Wimbledon.

Wimbledon 1985
Como alguém que eliminou seguidamente Edberg, McEnroe e Connors, sem ceder um único set, poderia perder o título em Wimbledon? Certamente Kevin Curren também não sabe.

Talvez tenham sido os nervos, talvez o saque bombástico e voleio acrobático do garoto Boris Becker, então 17 anos. Vindo do título em Queen’s, o alemão tinha predicados porém contou com uma dose de sorte para escapar das derrotas para Nystrom (terceira rodada) e Mayotte (oitavas).

Becker tirou Leconte e Jarryd para ir à final e aí derrotou Curren num jogo bem equilibrado e um tiebreak decisivo de terceira série, quando o jogo estava empatado em sets. O alemão provaria nos anos seguintes que era mesmo um mestre sobre a grama.

Roland Garros 2004
Numa fase em que os Grand Slam já elegiam 32 cabeças de chave, Gaston Gaudio faturou um dos títulos mais inesperados da Era Profissional. Nomes fortes como Ferrero, Agassi e Gonzalez tiveram quedas muito precoces, Federer foi barrado por Guga na terceira fase, Robredo e Safin pararam nas oitavas.

Guga parecia caminhar para o tetra, mas caiu diante de um consistente Nalbandian, que na rodada anterior já havia tirado Safin. Na outra semi, o embaladíssimo Henman fez o que pôde diante de Coria. Tínhamos então três argentinos concorrendo ao título e Gaudio era, de longe, o menos gabaritado deles.

A final foi um capítulo à parte. Coria deu uma surra nos dois primeiros sets e aí se perdeu nos nervos. Sentiu cãibras, se arrastou pela quadra, sacou fraquíssimo e permitiu um quinto set improvável. Recuperou-se e chegou a dois match-points no 6/5. Gaudio, então 44º do mundo, mostrou cabeça fria e ganhou os três games finais.

Menções honrosas:

Australian Open de 1976 – Num torneio em que apenas 3 dos 16 cabeças não eram da casa, Mark Edmondson entrou como 212 do mundo e venceu seguidamente Rosewall e Newcombe nas rodadas finais. Roche parou nas quartas para um conterrâneo que era mais duplista.

Roland Garros de 1989 – É bem verdade que Chang não precisou cruzar com Wilander, Agassi ou Courier, mas sacar por baixo e ganhar de Lendl o colocou num patamar especial. O torneio viu ainda uma semi inesperada de sacadores entre Edberg e Becker. Chang tinha quebra atrás no quarto set antes de se transformar no mais jovem campeão de Slam da história, aos 17 anos e 3 meses.

Australian Open de 1998 – Sampras ficou ainda mais favorito quando viu Rafter perder para Berasategui,  Chang parar em Raoux, Moyá cair para Fromberg e Philippoussis, para Arazi nas duas primeiras rodadas. Ele não contava com Kucera, que o tirou nas quartas e abriu caminho para o título de Korda diante de Ríos.