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Magic Rafa
Por José Nilton Dalcim
3 de setembro de 2019 às 01:02

A nona classificação consecutiva para as quartas de final de Grand Slam não poderia vir de forma mais espetacular para Rafael Nadal. No penúltimo ponto, diante do risco de ceder um break-point e quem sabe reanimar o adversário, o canhoto espanhol deixou o estádio Arthur Ashe atônito e maravilhado, ao conseguir buscar um voleio curto e angulado de Maric Cilic. No último segundo, com a qualidade insuperável de escolher sempre os golpes mais apropriados, fez uma passada por fora do poste da rede. Precisou esperar os demorados aplausos para em seguida concluir a vitória.

Depois de Cilic fazer um belo segundo set, com muita potência no saque e na base, empatando o placar, havia o risco de o jogo ficar enroscado. Mas Nadal tratou logo de tomar conta da situação. Aproveitou cada mínima oportunidade que o croata ofereceu para colocar pressão, deixá-lo em movimento e buscar contragolpes fulminantes. Ficou fácil. Mesmo sem um índice ideal de primeiro saque – 57% contra 66% de Cilic -, foi o espanhol quem cravou mais aces (11 a 10) e ganhou mais pontos com o primeiro serviço (83% a 59%).

Nadal vai para as quartas de final com amplo favoritismo. Além de estar voando em quadra, ainda cruzará com o ‘freguês’ Diego Schwartzman, com quem costuma treinar. Portanto, um jogo sem novidades para ambos. O baixinho argentino obteve sua segunda vitória sobre um top 6 e esticou a temporada fraca de Alexander Zverev, um resultado justo porque Peque mostrou muito mais atitude em quadra. Aos 27 anos, ele repete as quartas de 2017 em Flushing Meadows e voltará pelo menos ao top 20, com chance de ficar entre os 15.

A outra sensação masculina da segunda-feira foi sem dúvida Matteo Berrettini, que aos 23 anos e três meses se torna o mais jovem dos quadrifinalistas, pouco à frente de Daniil Medvedev. Usou seus variados recursos para demolir a fortaleza Andrey Rublev, mas quase se enrolou no final do terceiro set, em mais uma de suas famosos oscilações emocionais. Primeiro italiano nas quartas do US Open em 42 anos – e vamos lembrar que Corrado Barazzutti foi semi sobre har-tru em 1977 -, Matteo é também uma das grandes surpresas da temporada. Jogava challengers até março, quando chegou ao top 100, e daí arrancou, com três finais em pisos distintos e dois títulos de ATP, um deles na grama, feito excepcional para quem é nascido sobre o saibro. Com a campanha em Nova York, irá se fixar entre os 20 do ranking e está até com chance de ir ao Finals de Londres;

Claro que agora complica, porque vem aí o acrobático e experiente Gael Monfils, que não deixou de fazer seu show neste US Open mas parece muito focado. Repetir quartas em Slam – é sua nona presença, das quais quatro em Flushing Meadows – dá um alívio a uma temporada tão complicada. O problemático tornozelo esquerdo já o tirou de oito torneios neste ano, três deles com abandono no meio da semana, e por isso sempre se fica na dúvida sobre o tamanho de sua resistência. A eventual vitória na quarta-feira no duelo inédito contra Berrettini o deixará como o sétimo tenista mais bem pontuado em 2019, abrindo portas para seu merecido retorno ao top 10.

Outra vez Bencic
Com seu tênis muito mais inteligente do que pesado, Belinda Bencic derrotou outra vez Naomi Osaka – a terceira deste ano, em condições tão diferentes como Indian Wells e Madri -, retornando enfim às quartas de um Slam. Há cinco anos, quando era prodígio, a suíça chegou lá, mas viveu um longo período de lesões, chegou a sair do top 300 e agora está perto de recuperar seu posto no top 10.

Osaka, que lesionou o joelho esquerdo em Cincinnati, reclamou que não conseguiu se mexer bem para fazer as defesas necessárias, mas elogiou Bencic e tentará dar a volta por cima na fase asiática. Ela não só perde a liderança do ranking para Ash Barty como também cairá para o terceiro lugar, atrás de Karolina Pliskova. A adversária de Bencic será a croata Donna Vekic, que evitou match-point e fez incrível virada em cima de Julia Goerges. O duelo vale primeira semi de Slam para os dois lados. Vekic venceu Belinda no saibro de Roland Garros, em junho.

À noite um duelo interessante entre Bianca Andreescu e Taylor Townsend, mas achei o clima um pouco tenso demais. A canadense joga muito tênis e entrou preparada para as tentativas de saq8e-voleio da norte-americana. Devolveu sempre baixo, muitas vezes buscou paralelas, e isso obrigou Townsend a se conter e ficar mais no fundo de quadra. Apesar da derrota, Townsend fez um belo torneio e talvez consiga dar a volta por cima numa carreira que nunca decolou. Andreescu tem um jogo difícil agora diante de Elise Mertens, que gosta dos contragolpes.

E mais
– Nadal soma agora 40 presenças em quartas de final de Slam, sendo 10 no US Open.
– Caso confirmem o favoritismo e decidem o torneio no domingo, Nadal e Federer também lutarão pela vice-liderança do ranking.
– Sete jogadoras disputam lugar no top 10 do ranking e ainda estão vivas no US Open: Bencic, Konta, Andreescu, Serena e Wang, com menor chance para Vekic e Mertens.
– Com a vitória de Bencic, são três suíços nas quartas do US Open, ao lado de Federer e Wawrinka.
– Ao contrário do masculino, que só tem dois jogadores classificados com menos de 25 anos, a chave feminina colocou cinco nas quartas.
– Serena Williams é agora a única tenista ainda de pé no US Open com títulos de Grand Slam na carteira. Todas as outras sete jamais fizeram final desse porte.

Para a história
Com as quedas de Osaka e de Novak Djokovic ainda nas oitavas de final, esta será a quarta vez na Era Profissional que nenhum dos cabeças 1 de simples chegam ao menos nas quartas do US Open. No masculino, também segue a sina de não se conseguir dois títulos consecutivos desde que Roger Federer foi penta, entre-2004-2008.

Pouco exigido, Nadal se poupa para o US Open
Por José Nilton Dalcim
12 de agosto de 2019 às 01:09

Mesmo tendo jogado apenas 15 games em todo o fim de semana vitorioso em Montréal, o espanhol Rafael Nadal manteve a postura que havia ensaiado após Wimbledon e se retirou no final da noite de domingo da chave de Cincinnati.

Claro que parece muito mais uma questão de cautela porque não houve qualquer indício de problemas físicos ou desgaste excessivo no Masters canadense. A bem da verdade, apenas seu jogo de estreia contra Daniel Evans foi mais exigente. O espanhol perdeu um set feio para Fabio Fognini nas quartas, mas depois atropelou o italiano. Nem entrou em quadra no sábado com o abandono de Gael Monfils e cedeu meros três games a Daniil Medvedev na final. Não resta dúvida que Rafa pensa acima de tudo em Nova York.

Ganhar dois Masters em semanas consecutivas é uma tarefa difícil para qualquer tenista, mas Nadal já fez isso na quadra dura na sua inesquecível temporada de 2013, faturando Montréal e Cincinnati antes de triunfar também no US Open, o que é até hoje seu mais notável domínio sobre a superfície sintética.

A ausência no entanto é um tanto frustrante. Em primeiro lugar, porque acaba de reassumir a liderança do ranking da temporada. abrindo 500 pontos de Novak Djokovic, o que abre perspectiva de luta pelo número 1 lá em novembro. E ainda viu um sorteio muito favorável, o que lhe daria chance de um punhado de vitórias sem grande esforço.

Pior ainda, a formação da chave jogou Djokovic e Roger Federer no lado de cima, obrigando os dois finalistas do ano passado a um possível cruzamento mais precoce. Para azar da ATP, a chave de simples foi iniciada no domingo e assim sequer houve chance de se tentar realocar um cabeça 17 no lugar de Nadal. Entrou adiantado na segunda rodada o lucky-loser Mikhail Kukushkin.

Sem emoções
O fim de semana nos grandes torneios canadenses foi bem sem graça. Em Montréal, Monfils obrigou os organizadores a devolver o ingresso da sessão noturna e a final de domingo foi um passeio de Nadal, que voltou a sacar muito bem e teve postura tática impecável ao misturar efeitos o tempo todo.

Como é bem comum, o primeiro duelo que se faz diante de Nadal deixa o tenista bem perdido e Daniil Medvedev não fugiu à regra. Sem achar um buraco no fundo de quadra, tentou ir à rede, o que está longe de ser sua praia, e chegou a se posicionar para o saque lá na linha de dupla. Desespero total e seu quarto vice em cinco finais na temporada.

Em Toronto, a tão aguardada decisão entre Serena Williams e Bianca Andreescu conseguiu ser ainda mais insossa. Na procura do primeiro título desde o Australian Open de 2017, Serena sentiu as costas, jogou apenas quatro games e novamente foi às lágrimas, embora desta vez tenha enchido a canadense de merecidos elogios.

Tenista de 19 anos que não tem medo de bater na bola ou de arriscar algo diferente, Bibi garante que o segredo do seu sucesso está muito mais na cabeça do que no físico. Conta que treina a parte mental com a mesma relevância da técnica e da tática. Belo exemplo a ser seguido.

Federer está pronto para o saibro
Por José Nilton Dalcim
31 de março de 2019 às 22:10

Roger Federer não para de surpreender. Vindo de um amargo vice em Indian Wells, que poderia muito bem justificar sua ausência em Miami, ele modificou radicalmente seu plano tradicional de jogo. Levou um susto logo no primeiro set que disputou no novo complexo do Dolphins, mas daí em diante cresceu a cada rodada.

Qualquer tenista mais intuitivo sente enorme dificuldade em ser aplicado na parte tática, tarefa que exige exaustiva repetição, quase uma monotonia. Ainda mais em pisos lentos. Federer claramente se submeteu a essa mudança de postura conforme avançou em Miami. Plantou-se na base sem pressa, trabalhou pontos, cortou de forma drástica os erros não forçados. Ganhou sets com menos de 40% de primeiro serviço em quadra, em pelo menos dois jogos anotou mais winners de backhand do que de forehand.

Tivesse ele se focado tanto em manter devoluções profundas, encarar de forma mais conservadora os break-points e mexer tão bem as pernas, muito provavelmente não teria escapado o troféu de Indian Wells. Seus números na final diante de John Isner foram notáveis: 17 winners, 7 erros, 4 quebras, só 1 ponto de saque perdido no primeiro set e 32 de 35 no total da partida.

Único na temporada a ganhar dois títulos até agora, Federer é o tenista que mais pontuou desde janeiro, com três finais consecutivas e 18 vitórias em 20 possíveis. Ei, mas ele não tem 37 anos?

O próximo desafio é o retorno ao saibro. Na entrevista oficial, uma curiosidade: ele afirmou que terá quatro semanas para se readaptar ao piso, temendo ter até se esquecido de como deslizar. Mas Madri está a seis semanas. Teria ele errado nas contas ou pode estar considerando se testar em Barcelona ou quem sabe Munique ou Estoril?

De qualquer forma, se mantiver o padrão deste Miami e a determinação tática e técnica mostradas numa campanha exemplar, Federer está pronto para não fazer feio no saibro.

Não se pode ignorar a postura digna e profissional de Isner. Um jogador que não tem como seu forte a mobilidade, disputou pelo menos os três últimos games sem condições físicas e terminou a missão num verdadeiro sacrifício, sacando a 160 km/h, tudo culpa de uma forte dor no pé esquerdo que aparentemente veio do nada. Ele foi gigante.

No sábado, Ash Barty se tornou a segunda grande surpresa consecutiva da temporada feminina. Embora muito mais conhecida e premiada do que Bianca Andreescu, campeã de Indian Wells duas semanas antes, sua performance em Miami foi o ápice da curta e conturbada carreira, brindando a australiana com um posto no top 10 do ranking.

Apesar do backhand de duas mãos, é impossível não lembrar de Justine Henin ao ver a notável variação de golpes de Barty. Slices, deixadinhas, voleios perfeitos, alegre mistura de força e jeito. Tem ainda um primeiro saque de respeito, que é a base do seu jogo, mas se mexe muito bem na parte defensiva.

Barty é a 14ª diferente tenista a ganhar um torneio na temporada 2019, justificando a expectativa de que não havia um amplo domínio e o ranking teria frequentes mexidas. A temporada de saibro, que já começa nesta segunda-feira para as meninas, vai ser muito interessante.